Madiba

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Tem causado bastante interesse como eu faço para escolher os temas das crônicas que publico aos domingos no JEM e em meu blog. Muitas pessoas me perguntam sobre como escolho os temas de meus textos, sobre os motivos que me levam a escrever sobre isso ou sobre aquilo.

Confesso que nunca havia parado para pensar mais profundamente nesse assunto. Escrevo sobre o que está acontecendo, seja na cidade, no país ou no mundo, e com bastante frequência abordo fatos que estão acontecendo em torno de mim ou com as pessoas com quem convivo.

Acredito que optar por um assunto, resolver falar daquilo que transcorre em meu círculo de relacionamento, me coloca bem próximo dos leitores, pois com quase todas as pessoas acontecem coisas bem semelhantes, e a quem, um determinado fato não seja familiar, em última análise ele suscitará interesse pelo fato de poder um dia vir a sê-lo.

Um grande amigo meu perguntou por que resolvi de repente filosofar em meus textos! Não é que eu filosofe. Quem sou eu para isso. Essa impressão fica pelo fato de enfocar com alguma riqueza de detalhes aspectos de nossa condição humana.

Isso se deve às nossas buscas e às opções que temos de fazer no trilhar de nossos caminhos, na constatação dos fatos idiossincráticos de algumas personalidades que atravessam nossa jornada, aos aspectos banais vistos e analisados de maneira curiosa ou inusitada, fazendo com que o óbvio se torne relevante.

O certo é que tenho recebido uma grande e boa resposta das pessoas, que do meu ponto de vista, conversam comigo sempre que lêem o que escrevo. Sim, porque pelo simples fato de lerem o que escrevo, essas pessoas dialogam comigo, mesmo eu não tendo a possibilidade de responder a elas sobre suas indagações, mesmo eu sendo incapaz de dirimir seus questionamentos ou simplesmente ouvir suas ponderações. O diálogo entre o escritor e o leitor se faz pelo simples fato de haver leitura e desta levar o paciente a pensar sobre o que leu. É o diálogo do que eu escrevi, com o pedaço do eu coletivo que há em cada um de nós.

Agora mesmo que aquele meu amigo vai dizer que mudei, ou estou tentando mudar de um reles escritor para um filósofo de fim de semana. “Deixa que digam, que pensem, que falem…” afinal é por isso que todos os escritores escrevem, para que pensem, para que falem.

Tem gente que não gosta do que eu escrevo. Paciência! Tem gente que não concorda e repudia o que escrevo. Mais paciência ainda para com estes! Tem gente que gosta e admira o que escrevo e como o faço. Agradeço! Mas sabe de uma coisa? Fico satisfeito de saber daqueles que gostam do que escrevo, mas fico muito mais curioso e interessado naqueles que não concordam ou até mesmo que se incomodam com meus textos. Não que eu seja sádico, goste de ver as pessoas sofrendo, isso nunca, mas porque sabendo sobre os pontos divergentes fica mais fácil descobrir como transformá-los em convergências, ou pelo fato de me fazer pensar se eles não estariam certos e eu errados.

Quem escreve o tipo de texto que eu escrevo não deve ficar preocupado com a verdade ou com o certo. Quem escreve as coisas que eu escrevo deve se preocupar em estar comunicando a sua verdade, o seu ponto de vista, como vê as coisas, como as sente, de forma clara e honesta. Essa é a beleza desse tipo de literatura. A beleza e o prazer de escrever compromissado com o sentimento que transmite, com o enfoque do assunto, com sua abordagem.

Em minha opinião o assunto de uma crônica de jornal pode ser qualquer coisa. A única exigência é que ela crie entre o escritor e o leitor esse diálogo tácito. Que o escritor mudo possa responder a tudo ou a quase tudo que o leitor ensurdecido precisa saber, ou pelo menos levá-lo a pensar sobre o assunto.

No dia de hoje, por exemplo, tive vontade de ao invés de escrever um texto de 4.500 toques, fazer publicar uma única palavra: Mandela!

Tenho certeza que meus leitores, ao decodificarem o que a reunião dessas letras significa, lembrarão daquele que em minha opinião foi uma das personalidades mais importantes do século XX. Mais do que isso, ligarão seu nome a sentimentos que ele simbolizou, simboliza e tenho certeza simbolizará para sempre, toda vez que se disser o seu nome ou que se pensar em coragem, esperança, sabedoria, honra, compreensão, perdão, simpatia…

Queria ter escrito antes, mais e melhor sobre Madiba, porém eu seria apenas mais um fã a falar de seu ídolo. Falo então de mim, da necessidade que tenho de fazer brotar em mim, não aqueles mesmos sentimentos nem aquelas mesmas ações, isso seria impossível, mas algo que me possa fazer sentir merecedor de ter vivido em um mundo que produziu este homem extraordinário, que deve ter tido muitos defeitos, mas que na contabilidade final superou todas as expectativas.

Parece filosofia? Mas não é. É simplesmente o que eu queria conversar com você, hoje, aqui, nesse cantinho de página.

Mandela! Esse nome deveria passar a ser usado como uma espécie de saudação, assim como os judeus dizem Shalom e os mulçumanos Salam.

Mandela!

Isso é tudo por hoje. E saiba… É muito.

Mandela!

 

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A Importância da Entourage

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Comecemos pelo significado da palavra entourage. Ela é de origem francesa e significa grupo social, conjunto de indivíduos com quem convivemos habitualmente. Pessoas que vivem em volta de uma espécie de líder, de senhor, de governante.

Para efeito desse texto vou abrasileirar a expressão francesa. Usarei em seu lugar a palavra anturragem.

Os poderosos, de todos os tamanhos, de todas as procedências e em todos os tempos sempre cultivaram em torno de si um grupo de pessoas que algumas vezes se assemelham a uma flora, outras vezes a uma fauna, dependendo do tipo de poder que detenham ou da propensão de cada um para exercitar seu poder.

Todo poderoso deve antes de qualquer coisa ter consciência de que não pode viver sem pessoas em seu entorno e por isso mesmo deve se cercar dos melhores espécimes ao seu dispor. Aqui não me refiro apenas à competência laboral, falo de caráter, da formação cultural, moral e ética.

Um Barão medieval ou mesmo um príncipe da renascença tinham muitas pessoas a seus serviços. Tinham gente das mais diversas procedências e ocupações, até mesmo assassinos, mas estes, com raríssimas exceções, não faziam parte do séquito de seu senhor. Ficavam restritos aos seus covis. 

Se observarmos melhor, todos nós temos uma anturragem, pois todos nós, uns mais outros menos, detemos alguma espécie de poder, o que cria em torno de nós um círculo de relações nas quais desenvolvemos nossas vidas.

Detalhados registros históricos nos dão conta que muitas vezes o senhor, o governante, passa facilmente do papel de manipulador de sua anturragem ao de manipulado por ela, por um grupo dentro dela ou por alguém dentre seus convivas.

Reis poderosos como Henrique VIII cometeram atrocidades motivadas por aqueles que o cercavam mais de perto. Henrique desterrou companheiros, mandou matar o seu melhor amigo e conselheiro, e inclusive, incensado por figuras de seu staff, mandou decapitar duas de suas mulheres.

Há um, porém! O poderoso ou o governante é no final das contas o único responsável por tudo aquilo que sua anturragem faz. Ele é o responsável direto pelas ações de quem o cerca, por todos os conselhos que ouve, principalmente pelos maus que aceita e até pelos bons que rejeita.

Vejamos o caso de Luís XVI e Maria Antonieta! A anturragem criou em volta deles um mundo restrito, embaçando sua visão de mundo. Não os deixavam ver além de seus umbrais. Minto. Na verdade eram o rei e a rainha da França que não queriam ver o que acontecia fora de seus portões. Por esse motivo acabaram sendo apartados de suas cabeças.

A anturragem diz muito sobre um líder. Uma análise das pessoas que gravitam em torno de alguém pode nos desenhar clara e facilmente um fiel retrato de seu vértice.

Quando era criança minha mãe sempre dizia: “Diz-me com quem andas que te direi quem és”. Ao que meu tio Stenio retrucava: “Toda regra tem exceção”.

Não serei aqui hipócrita ao ponto de desconhecer que precisamos ter em nossa anturragem algumas figuras das quais não temos lá muita satisfação em tê-los em nosso círculo de convivência. Não falo dos cães assassinos de César Bórgia, falo de uma cambada de bajuladores e capachos, falo da escória que todo líder parece precisar ter para que se sintam “amados”. Falo dos lacaios, alguns até de nível cultural elevado, às vezes bem mais elevado que do tal líder, mas que se diminuem por ter que lamber as botas de seu príncipe.

Não guardo maior rancor do rato que faz isso, fico mais indignado com o dono desses roedores. Poderia ter em torno de si animais menos pútridos.

Não há nenhuma espécie de poder, de qualquer tipo ou qualidade, que não atraia uma anturragem. Logo uma coisa que me parece fundamental, escolher cuidadosamente as pessoas que nos cercam.

Como já disse, todos nós precisamos de gente em nossa volta. Os mais poderosos, os líderes, precisam muito mais. Precisam de pessoas que exerçam as mais distintas funções. Qual governante vive sem um motorista, um secretário, um servente ou um garçom?

O que essa pessoa, detentora de uma relevância tem que saber é que não pode se deixar manipular por sua anturragem. O líder deve saber que os que estão bem próximos, à sua volta, desfrutam, pelo simples fato de estarem ali posicionados, de um poder incrível. A qualquer instante, através de um comentário “inocente”, um simples garçom pode passar uma informação inverídica ou propositalmente facciosa e transformar os aurículos do chefe em úteros envenenados. As consequência disso podem ser catastróficas.

Muita coisa errada nesse mundão de meu Deus já foi e continua sendo perpetrada dessa forma infame!

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Exercícios de Respiração

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Nas últimas semanas engoli vários sapos em nome da urbanidade, da civilidade e em alguns casos, em nome da preservação de queridas e indispensáveis amizades.

Tive que em diversas ocasiões recorrer aos tais exercícios respiratórios que aprendi na única aula de ioga que tive e acho que o fiz com sucesso.

Não vou aqui relatar com riqueza de detalhes as questões do âmbito fraternal, pois são problemas bobos que causam desconforto e dor, como aquela com um amigo que nos deixa em situação constrangedora por furar prazos de entrega de um serviço, ou uma na qual outro amigo, por um equivocado posicionamento pseudo-político, comete uma desconsideração quando confunde gratidão com submissão.

O que vou passar a comentar aqui acontece com muito mais frequência. Algumas pessoas chegam para mim e dizem que preciso fazer uma coisa importante para elas. Que como sou político, ocupante de um cargo no governo, só não faço se não quiser.

O mais comum nesses casos é pedirem um emprego. Só muda o destinatário do emprego. Para a própria pessoa, para um filho ou filha, para um parente ou para um amigo. Já me apareceu um sujeito que precisava se livrar da ex-mulher e me pediu que arrumasse um emprego para ela, e o pior, uma colocação onde ela ganhasse algo em torno de três mil reais.

Isso acontece diariamente. Falam como se fosse a coisa mais fácil e simples do mundo, “que eu só não faço se não quiser”. Mais delicado é quando abordam a minha mãe, para que ela interceda junto a mim.

Existem também aqueles que pedem para que eu interceda junto a alguma instituição, para que um candidato a concurso seja chamado ou aprovado em uma seleção ou prova. Um verdadeiro absurdo!

Pedido de ajuda financeira para tratamento de saúde, para comprar remédios, óculos, até para viagens. Para pagar contas de luz, água ou gás.

Já aconteceu, e não foi uma vez só, de um pai ou uma mãe chegar até mim para pedir que interceda junto a uma autoridade policial ou jurisdicional para soltar um filho que se envolveu em alguma briga ou em algum delito.

O último pedido absurdo que recebi foi de um torcedor do Moto Clube, que ao invés de pedir ajuda para seu time, que está precisado, gostaria que a Sedel ou seu gestor, eu, contribuísse para uma feijoada e uma roda de samba que faria em um desses finais de semana. Seria pouca coisa… Só uns mil reais. Ele ainda se sentiu no direito de ser grosseiro porque neguei a tal “ajuda”.

Outro dia fui convidado para exibir meu filme, “Pelo Ouvido” e participar de um debate sobre o atual momento do cinema no Maranhão. Aceitei e fui, crente que falaríamos de cinema, que o papo seria sensacional, que todos estavam preparados para uma boa conversa. Isso foi quase totalmente verdade, com exceção de um sujeito obtuso que resolveu direcionar a conversa sobre cinema para o lado político, cometendo a grosseria e a tolice de me usar como símbolo do que ele acredita ser a falta de apoio do Estado à cultura, às artes e ao cinema de modo específico. O imbecil simplesmente esqueceu ou não quis se lembrar que as leis de incentivo à cultura e ao esporte, colocadas democraticamente a serviço desses setores pela atual administração são de minha autoria, quando ainda era deputado estadual.

A vontade que tive foi de ter sido violentamente verborrágico. Meu lado animal chegou bem perto de, como um lobisomem, pular na jugular do ogro que nada tinha de Shrek e trucidá-lo. Foi ai que comecei a me sentir orgulhoso de mim mesmo. Respirei fundo, exercitei a respiração e sorri um sorriso irônico, beirando o deboche. Olhei-o nos olhos até que ele abaixasse a cabeça e quando fui perguntado se eu gostaria de me manifestar, sacudi a cabeça negando e sorrindo discretamente. Não iria revidar dizendo que só os como ele, os preguiçosos, os incompetentes e os incapazes de produzir bons projetos estão fora do mercado desde que essas leis de incentivo passaram a funcionar.

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Escrevi este texto primeiramente para mim, mas espero que ele sirva, de algum modo, para você também, querido leitor. Que ele possa nos ajudar a aprender a perdoar os amigos queridos, a reconhecer como devemos tratar e a compreender as pessoas…

 

PS:

Por amor um homem é capaz de fazer quase qualquer coisa.

Só por amor um homem é capaz de abrir mão de coisas que lhe são realmente importantes, inclusive eliminar um pedaço de um texto seu que foi gestado e fundido na fornalha mais profunda de seu ser.

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