Carta de Laila

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Leiam o texto abaixo, escrito por minha filha Laila, e vejam se eu não tenho que realmente agradecer a Deus pelo acidente que aconteceu comigo na ultima quinta-feira, dia 22, Corpus Christie!? 

Medo. Medo de te perder por tão pouco. Um segundo muda tudo. Todo o curso de uma vida. Se talvez tu tivesse saído de casa trinta segundos antes ou depois não aconteceria nada. Eu não teria que segurar a náusea de escutar a voz da minha irmã trêmula ao telefone dizendo ‘teu pai sofreu um acidente’, nem ter os joelhos fraquejando fazendo eu me sentar sem eu mesma querer, nem não saber de onde saiu uma voz muito mais grossa e firme do que a minha de praxe ao perguntar vezes seguidas: ‘Cala a boca e me diz se ele tá bem. Ele tá bem? Ele tá BEM? ELE TÁ BEM? Me diz se ele tá bem’. O silêncio do segundo entre a pergunta e a resposta pareceu minutos, meus ouvidos não captavam nada, era o vácuo, era um precipício, ecoando meus últimos pensamentos antes de receber a ligação: tu, trajando a melhor roupa, em um tapete vermelho, e eu rindo das tuas falhas tentativas de se comunicar em inglês, o verdadeiro Tarzan.

Conhecendo bem a minha família, todos desabariam, todos enlouqueceriam, perderiam o senso, dramatizariam. E eu também não sei de onde tirei qualquer força pra não chorar. Tudo o que eu sabia era que se deixasse derramar uma lágrima, outras mil cairiam, todos os meus medos e anseios tomariam conta de mim e eu perderia qualquer controle, qualquer chance de passar força e convicção de que tudo mesmo estava bem às pessoas ao meu redor.

Eu odeio hospitais, tu sabes disso. Eu odeio hospitais por como as pessoas viram hipocondríacas em hospitais, em como hospitais levam as pessoas a falarem de tragédias e em acreditar piamente que alguma coisa tem que está errada. Hospitais são ambientes pesados, não existem sorrisos, não existem esperanças, quando o essencial seria ter, sendo um ambiente de cura, de descanso, de recuperação do corpo e consequentemente espírito. E eu odiei tudo naquele hospital. Eu não aguentei ficar na sala de espera com toda aquela gente. Eu só conseguia ficar andando de um lado pro outro, do lado de fora, respirando fundo, procurando manter minha calma. ‘Tá tudo bem…’.

Provavelmente foi estranho pra tantos me verem tão serena enquanto minha irmã se debulhava em lágrimas e expressões de preocupação que distorciam-lhe tanto a face que minha raiva aumentava só de estar perto. O sentimento errado, mas nisso não podemos escolher como nos sentir. Não sentia raiva dela, sentia raiva da situação. Não queria escutar ninguém falando, ninguém explicando as versões dos fatos, não queria ter que escutar as mil e uma histórias de pessoas que saíam de acidentes aparentemente bem e conscientes, mas com alguma hemorragia séria interna. Eu não precisava de nada daquilo, tudo já se passava na minha cabeça em um turbilhão. Graças a essa força, desconhecida por mim até aquele momento, eu fui capaz de suplantar todos os pensamentos negativos pela simples frase ‘ele tá bem’, pelo querer que aquilo fosse verdade.

Me enfiaram dentro da UTI. Tua preocupação em me ver ali, te vendo com o rosto coberto de sangue seco, preocupado de eu estar preocupada, me atingiu, mas mais uma vez, não sei como consegui manter uma expressão de calma e falar tão tranquilamente que eu só tinha entrado pra te dar um beijo e ao nem estar ali ao teu lado por cinco segundos, sair.

Isso me lembrou como quando eu caí do cavalo, naquela viagem que fizemos, em cima de uma pedra e tudo o que tu fizeste foi rir com tranquilidade e falar pra eu levantar dizendo que não tinha acontecido nada, quando meu maior medo era ter perdido o movimento das pernas. Eu e tu somos dramáticos, e sim, sempre pensamos no pior: ‘não vou andar mais pro resto da vida’ ou ‘meu cérebro deve estar à mostra mas eu não consigo sentir, afinal de contas, de onde vem tanto sangue?’. Percebo agora que tudo o que eu quis te passar ficando só cinco segundos ao teu lado, sorrir e dizer que eu tinha ido lá só pra te dar um beijo e que eu sabia que tava tudo bem, foi pra te passar uma segurança que eu sabia que tu não tinha. Nós dois além de dramáticos, somos muito, muito medrosos. Pelo menos não sou eu que passo mal só em ver sangue.

Eu tinha passagens compradas pra uma viagem em algumas horas daquela espera torturante de algum resultado de novos exames, pensei em não ir mais, em ficar, pensei que ainda assim poderia ter alguma coisa que os médicos não haviam captado, e no meio da viagem eu recebesse um telefonema muito pior. Eu tive medo, eu tive muito medo. Eu tanto esperava por uma certeza que estava realmente tudo bem, quanto um tempo só pra mim, pra que eu pudesse chorar o que tava preso por um nó dolorido aqui dentro.

Quando falei contigo de novo tu ainda quis saber o que eu ainda fazia ali! Vê se pode… E tu me disse pra eu ir cuidar de arrumar minha mala. E eu ri e te fiz rir. Te fiz prometer que tu não seria teimoso e dormiria no hospital senão eu não ia embora. Tu me prometer e eu dizer ‘Tu tá mentindo’ e tu responder ‘Eu to’ e rirmos me aliviou mais do que chorar. ‘E não ri, porque tu não pode rir, senão vai doer tudo!’. Não tem nada no mundo que eu goste mais de fazer contigo do que isso, rir dos nossos diálogos cômicos em momentos deveras inoportunos para comédias, mas que nós dois de alguma forma conseguimos encaixar um motivo pra uma risada.

Lembrar disso tudo e dos ‘o que poderia ter sido’ me faz tremer por dentro. Mas, ‘ele tá bem’. E eu vou rir muito da tua cara no tapete vermelho inglesando palavras em português e da tua empolgação infantil, assim como vou continuar com raiva da tua teimosia e da necessidade de dar pitacos em tudo que crio com essa mania de querer lapidar minhas pedras. Sim, nada vai mudar, e a isso eu não sei a quem agradecer, mas eu agradeço.

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Frase horrível, mas verdadeira: Há males que vem para o bem!

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Tempos atrás, publiquei neste mesmo espaço um texto intitulado “16 minutos”, onde relatava um incidente que ocorreu com um bimotor que transportava a mim e alguns diretores do Jornal O Estado de São Paulo, numa viagem entre Santa Inês e São Luis. Naquela ocasião falei da certeza que tive de que ainda não havia chegado à hora de empreender a minha grande viagem. Disse que o meu Deus não iria me guiar por essa vida para que eu acabasse ali, daquela forma. Prolongou-se durante intermináveis 16 minutos a apreensão e a duvida entre o que eu acreditava que iria acontecer e o que aconteceria realmente. Bem, ainda estou por aqui. Graças a Deus eu estava certo.

Deus tem e espero que ainda tenha algumas missões e provações para mim. Entre elas, uma que aconteceu na ultima quinta-feira, dia de Corpus Christie, quando tive outro encontro com o imponderável, com o imprevisível. 

Voltava para casa por volta das 14 horas, pela Avenida dos Holandeses, quando observei que uma Toyota SW4, branca, que trafegava no sentido Olho D’água/Calhau, começou a rodar na pista, do outro lado do canteiro central.

Ao perceber, tratei de me afastar do lado esquerdo da via, e como não vinha nenhum carro ao meu lado, rumei para a direita.

A SW4 nem estava em alta velocidade, mas como chuviscava, o controle do carro tornou-se mais difícil e na tentativa de controlar o veiculo, seu condutor tentou usar os freios, o que foi seu erro maior naquela situação. O carro projetou-se sobre o canteiro, tendo atingido-o de lado. Nesse momento perdeu uma de suas rodas e ao invés de continuar sua trajetória para frente e na diagonal, rodopiou e mudou de direção em uns 45 graus e chocou-se fortemente com a lateral da Pajero Sport que eu já desviara para a direita, na tentativa de sair de sua rota de colisão.

Nunca vou me esquecer do som daquele impacto, daquela visão. Tudo aquilo está gravado em minha mente, cinematograficamente, quadro a quadro, em câmera lenta, para sempre.

A princípio não acreditei no que acontecera. A manobra que fiz, sem nem ter aumentado a velocidade, era suficiente para me desviar do carro desgovernado, mas não contei com o fato imponderável dele ter mudado de direção ao chocar-se com o canteiro central da avenida.

Depois da colisão, tudo ficou mais claro e simples durante alguns segundos. O susto causou em mim um efeito estranho, um misto de paz e tranqüilidade. Primeiro olhei em volta e depois, com a mão direita apalpei meu peito que doía muito. Coloquei a mão direita debaixo do braço esquerdo e soube que aquele lugar estava bem machucado. Balancei levemente o pescoço, os ombros, a cintura, as pernas e os pés e vi que não havia quebrado nada, foi quando senti que escorria muito sangue de minha cabeça, pelo meu rosto, meu pescoço então olhei no retrovisor e vi a imagem de uma figura que parecia ter saído de um filme de guerra, um rosto completamente ensangüentado. Passei a mão pela cabeça e vi que todo aquele sangue provinha de uma pequena ferida em seu topo, onde uma lasca de vidro se impusera.

Não sei onde consegui tamanha tranqüilidade. Imagino que foi proviniente dos rostos amigos e dos olhares fraternais que imediatamente apareceram na minha janela estilhaçada. A princípio eram pessoas desconhecidas, mas extremamente preocupadas e que tentavam me ajudar e me confortar.

Apareceu uma moça que disse que era enfermeira e ficou conversando comigo e eu disse pra ela que eu estava bem e lhe pedi que fosse até ao outro carro ver se havia alguém ferido. Outra moça, esta bem forte, tratou de rasgar a minha camiseta que estava totalmente ensangüentada, foi quando de repente, aproximou-se de mim uma moça loura, que achei já conhecer. Ela chegou chorando, desesperada, pegou em meu braço sem saber que ele estava machucado e perguntou se eu estava bem. Depois eu vim saber que era ela quem dirigia o carro branco que colidira com o meu. 

Logo depois chegaram Felix Alberto, Elie Hachem, Carlos Adler, César Freitas, José Correa, Paulo Nagem, Marcio Assub, Claudinho Costa, Zé Antonio Almeida, Caetano Jorge e Pipoca, entre tantos outros.

Alguém me perguntou pra quem deveria ligar pra avisar do acontecido. Pensei em meu irmão, mas ele estava viajando. Minha mãe ficaria muito preocupada, minha filha Laila também, então eu disse “Ananda” e na mesma hora me lembrei do significado do nome dessa minha Filha, que se eu não a fiz, deveria tê-la feito. Paraíso, Ananda significa paraíso em sânscrito. Ananda não demorou a chegar.

Chamaram o resgate, mas antes dele chegar um rapaz bem forte e muito prático abriu a porta que me imprensava ao console e ao painel do meu carro. Força somada a bom senso às vezes ajuda bastante.

Sou um transgressor. Sortudo, mas um transgressor, mas acho que ninguém deve ser como eu sou. Estava sem cinto de segurança e tive a sorte de a colisão ter sido lateral e não frontal. A ausência do cinto, se me ajudou, poderia ter me matado. Estava falando ao celular e talvez isso tenha salvado a minha vida, mas com toda certeza salvou minha face, pois os cortes que tenho no cotovelo, no braço e no tórax, seriam em meu pescoço e em meu rosto, quem sabe até atingisse meus olhos.

Sorte, foi isso que eu tive, muita sorte. Não só eu, mas as pessoas que se encontravam num automóvel que vinha atrás de mim, pois se aquela camionete desgovernada não se chocasse com a minha que era do mesmo tamanho, teria passado por cima e destruído o pequeno carro que vinha logo atrás de mim.  

Fui levado para o hospital e na emergência, comecei a passar mal e resolveram me levar para a UTI, para onde não queria ir, pois lá com toda certeza, seria o paciente em melhores condições. Com toda certeza lá havia pessoas que realmente precisavam de cuidados intensivos, enquanto eu só precisava de cuidados emergenciais.

Por um instante imaginei como seria aquilo tudo se não tivesse dinheiro para fazer frente àquelas despesas!? Me senti muito mal. Foi essa a única hora em que chorei. Lembrei que meu amigo, Deputado Carlos Filho, havia me pedido para resolver o caso de uma senhora que veio do interior e estava, havia dois dias, em uma maca no corredor do Socorrão 2. Falei disso com o Dr. Yuri e com o Dr. Santiago que me atendiam e com minha amiga Dra. Raquel, que viera ficar comigo quando soube do acidente, e os dois últimos, que trabalham também no Socorrão 2, ficaram de resolver o problema da moça. Fiquei aliviado e naquele momento comecei a me curar, através da cura da responsabilidade e da culpa.

Se houve algo de bom nessa tragédia foi só a confirmação da imensa quantidade de amigos que tenho e de pessoas que gostam de mim.

Não saíram de perto de mim enquanto estive no hospital, Dona Clarice, minha mãe, minha ex-mulher e melhor amiga, Ivana, minhas filhas, Laila, Avana e Ananda, minha prima Cristina, meus motoristas, Neto e Marcelo, meus amigos, Paulo, Wadi, Rui, César, Zé Assub, Júnior Assub, Elie, Rômulo, Rogério, Felix, Correa, Pinto, Gilberto e Pêrôba, suas esposas, namoradas, minhas amigas Priscila, Mariana, Gabriela, Juliana, Bruna, Raquelzinha e Agnes e meu compadre Gafanha. Meus telefones não pararam de tocar nem por um minuto se quer.

Doeu, mas dos males o menor. Me machuquei, é verdade, mas pude ver e confirmar o que já sabia: tem um monte de gente boa que gosta muito de mim.

Muito obrigado amigos, por tudo!

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Quando acaba a paciência…

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Dizem que aconteceu em Minas Gerais, em Ubá, cidade onde nasceu o genial Compositor Ary Barroso. Na cidade havia um senhor cujo apelido era Cabeçudo. Nascera com uma cabeça grande, dessas cuja boina dá pra botar dentro, fácil, fácil, uma dúzia de Laranjas. Mas fora isso, era um cara pacato, bonachão e paciente. Não gostava, é claro, de ser chamado de Cabeçudo, mas desde os tempos do grupo escolar, tinha um chato que não perdoava. Onde quer que o encontrasse, lhe dava um tapa na cabeça e perguntava:- ‘Tudo bom, Cabeçudo’? O Cabeçudo, já com seus quarenta e poucos anos, e o cara sempre zombando dele. Um dia, depois do milésimo tapão na sua cabeça, o Cabeçudo meteu a faca no zombeteiro e matou-o na hora. A família da vítima era rica; a do Cabeçudo, pobre. Não houve jeito de encontrar um advogado para defendê-lo, pois o crime tinha muitas testemunhas. Depois de apelarem para advogados de Minas e do Rio, sem sucesso algum, resolveram procurar um tal de ‘Zé Caneado’, advogado que há muito tempo deixara a profissão, pois, como o próprio apelido indicava, vivia de porre. Pois não é que o ‘Zé Caneado’ aceitou o caso?

Passou a semana anterior ao julgamento sem botar uma gota de cachaça na boca! Na hora de defender o Cabeçudo, ele começou a sua peroração assim: – Meritíssimo juiz, honrado promotor, dignos membros do júri. Quando todo mundo pensou que ele ia continuar a defesa, ele repetiu: – Meritíssimo juiz, honrado promotor, dignos membros do júri. Repetiu a frase mais uma vez e foi advertido pelo juiz: – Peço ao advogado que, por favor, inicie a defesa.Zé Caneado, porém, fingiu que não ouviu e:- Meritíssimo juiz, honrado promotor, dignos membros do júri.E o promotor: – A defesa está tentando ridicularizar esta corte!O juiz: – Advirto ao advogado de defesa que se não apresentar imediatamente os seus argumentos… Foi cortado por Zé Caneado, que repetiu: – Meritíssimo juiz, honrado promotor, dignos membros do júri. O juiz não agüentou: – Seu moleque safado, seu bêbado irresponsável, está pensando que a justiça é motivo de zombaria?

Ponha-se daqui para fora antes que eu mande prendê-lo. Foi então que o Zé Caneado disse: -Senhoras e Senhores jurados, esta Côrte chegou ao ponto em que eu queria chegar… Vejam que: se apenas por repetir algumas vezes que o juiz é meritíssimo, que o promotor é honrado e que os membros do júri são dignos, todos perdem a paciência, consideram-se ofendidos e me ameaçam de prisão…, pensem então na situação deste pobre homem, que durante quarenta anos, todos os dias da sua vida, foi chamado de Cabeçudo!

Cabeçudo foi absolvido e o Zé voltou a tomar suas cachaças em Paz.

Mais vale um ‘Bêbado Inteligente’ do que um ‘Alcoólatra Anônimo! ‘

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A menina do balouço azul

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Isso foi há muito tempo
mas eu não me esqueço jamais.

Ela usava um vestidinho florido com girassóis,
um cheiro de alfazema
e um sorriso quase asiático que
fechava-lhe os olhos e
entreabria os lábios.

Seus cabelos dourados,
voavam ao vento matinal.

Ela sentava em seu balouço,
calabouço,
segurava-se nas correntes
e balançava-se para frente e para trás
e voava!
vai
e vem
vai
e vem
vai
e vem
vai…
foi.

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El Matador

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Não há flores
nem champanhe
nem beijos                             
só há teus olhos
tua boca
e tuas mãos.

Há uma estrela
no céu
e um buraco negro
no pulmão.

Há a espada do toureiro
enamorada
por teu colo perfumado
coração.

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A morte é simplesmente uma longa viagem!

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O que realmente é a morte? Como é que ela deve ser encarada? A quem ela atinge mais contundentemente, a quem vai ou a quem fica? São apenas algumas perguntas que eu tenho me feito recorrentemente sobre esse assunto, que sempre me causou bastante perplexidade.

Da morte sei, com absoluta certeza, sobre sua inexorabilidade. Ela é a única coisa certa que há na vida de uma pessoa. A vida pode ser boa, longa, produtiva ou absolutamente o oposto disso, mas ela, em algum momento, se extinguirá. O quando, o como e o porquê é que ficam por conta exclusiva das leis próprias da imponderabilidade.

Sobre essa imponderabilidade, meu pai me disse certa vez, após acabarmos de ver o filme “Lawrence da Arabia”, que apesar daquela história incrível, uma coisa lhe chamara bastante atenção, o fato de Lawrence não ter morrido na feroz Primeira Guerra Mundial, mas ter perecido depois das batalhas, em um simples e absurdo acidente de motocicleta. Desde então, passei a encarar tanto a vida como a morte de maneira bastante peculiar e pragmática.

A vida é tudo, substantivo, adjetivo, sujeito e predicado enquanto a morte é simplesmente a ausência, uma longa viagem.

Digo isso para falar da longa viagem que um querido amigo meu iniciou na ultima sexta-feira, dia 9.

Se eu disser pra vocês o nome verdadeiro dele, pouca gente vai saber de quem realmente se trata: Paulo Alberto Monteiro de Barros. Se eu disser o nome pelo qual ele ficou conhecido, muita gente vai se perguntar como é que eu pude ter ficado seu amigo e alguns até duvidaram de que realmente fui amigo de figura tão conhecida e importante: Artur da Távola.

Digo sempre que além de minha formação acadêmica de advogado, tive uma ótima formação de base, estudei em ótimos colégios e tive uma família que me proporcionou o aprendizado do que é a vida. No entanto, eu fiz também mestrado e doutorado em ciências políticas.

De 1983 a 1987 tive como mestres-orientadores Gervasio Santos, José Bento Neves e Raimundo Leal, dentre outros. No doutorado, de 1987 a 1991 tive o privilégio de ter como professores Florestan Fernandes, Afonso Arinos e Artur da Távola, para citar apenas três.

É sobre este último que eu desejo falar a vocês muito rapidamente, pois tenho que sair correndo pra ver se ainda o alcanço pelo menos na estação do trem que vai levá-lo nessa viagem, para tentar pelo menos acenar pra ele, olhá-lo mais uma vez e dizer-lhe o quanto aprendi com ele. Como ele me serviu de inspiração, desde quando ainda menino, sem conhecê-lo pessoalmente, ele me influenciou e como seu exemplo de pessoa humana, de homem, de político, fez com que eu costurasse minhas próprias roupas tendo as suas como exemplo de corte e elegância. Certamente não consegui me igualar ao mestre, mas só o fato de ter tentado, já me consola e apraz.

Queria poder, antes dessa sua viagem, ter sentado com ele para novamente ouvirmos as músicas que ele tanto amava. Os clássicos como Rachmaninoff, Gershwin e Prokofiev, mas com toda certeza ele não esqueceria de fazer tocar também a Bossa de seus ídolos e amigos, Tom e Vinicius.

Eu e Artur fomos colegas durante a Assembléia Nacional Constituinte, digo colegas porque ambos éramos deputados, mas ele, com idade pra ser meu pai – só era três anos mais novo que o meu pai – e capacidade de mestre, me propiciou alguns momentos antológicos, me apresentou pessoas incríveis, me ensinou coisas que pude praticar na minha vida, como político, como homem e como pessoa.

Há coisas que não se diz pra ninguém, mas depois de algum tempo essas mesmas coisas perdem o sentido e podem ser ditas pra todos. Paulo Alberto foi a primeira pessoa a notar meu problema de dislexia, o que de certa forma me libertou do estigma de ser simplesmente irrequieto e desatento, um leitor inapto e um escritor medíocre.

Não nos víamos já fazia algum tempo. Na verdade ele não me via, mas eu o via e o ouvia sempre em seu maravilhoso programa ‘Quem tem medo de música clássica?’, na TV Senado. E quando em Brasília ou no Rio, sempre ouvia seus programas de rádio, onde a sua música servia de bálsamo e de desculpa para que ele desse uma verdadeira aula de sensibilidade, cultura e humanismo.

Artur escreveu em seu último artigo publicado um dia antes de sair em viagem, intitulado “Papo dispersivo sobre a paixão”, depois de um pouco antes ter citado ninguém menos que Goethe, uma frase que é bem a cara dele: “… Amor é coisa muito diversa… Amor não clama nem reclama: amor dá”.

PS: Certa vez, conversando com Artur sobre a morte, disse para ele que gostaria de morrer de forma parecida com a que meu tio João havia morrido: dormindo. Na última sexta-feira, dia 9, ele usou a minha idéia e se foi, dormindo.

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Na mente dela, ninguém!

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O ombro dele
era o meu
na boca dela
que é minha.

A boca dele – não a minha – na dela
não a beija como a minha
não a morde
não a lambe
como a minha.
Como.
Minha.

A boca dela
no ombro dele.

Com toda certeza
a cadela
lembrou de mim.

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Correspondência quase suspeita.

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São Luis, 3 de maio de 2008.

Joaquim,

Dê só uma olhadinha no que essa minha filha anda escrevendo!

A “pikena” ta demais… Só queria ver a cara do pessoal daquela escola, uma das melhores da nossa cidade, que não tiveram nem um pouquinho se quer, de paciência e compreensão para com ela…

Minha menina vai longe. Parabéns para mim!

ITAAF

São Luis, 4 de maio de 2008.

Ivana,

Tenho visto! E lido. E conversado com ela.

Meu coração tem estado mais tranqüilo.

Minha vontade agora é que ela possa estudar, se formar e fazer o que ela mais gosta… Literatura, fotografia… Cinema quem sabe!?

Mas pra 19 anos ela ta muito bem obrigado!

Parece que fizemos um bom trabalho, e não vamos brigar pra saber pra quem ela puxou, se foi pra mim ou pra você!

JENPH

Donnie & Giu

Por Laila Haickel

Donnie era um cara misterioso e fazia questão de ser assim. Ele pensava que o mistério dele era simplesmente não deixar as coisas claras, e mal sabia o que realmente atraía aquela garota que ele falou a primeira vez no final de fevereiro daquele ano que veio pra mudar tudo.

Giu era uma sonhadora, sempre foi e provavelmente sempre será, mesmo que possa acabar se escondendo através de palavras demais impossibilitando o mundo de compreendê-la. E mal ela sabia também o que viria a se tornar.

Donnie tinha uma propensão genuína que ele desconhecia pelos obstáculos que se impunha, todos os escudos contra as essencialidades da vida que ele via como perda de tempo e contextualizava como fraqueza. Mal ele sabia que seus escudos que eram estúpidos e se tornaria mais um desses que escrevem canções de amor e cartas enquanto tomam doses de uísque.

Giu sempre escreveu canções de amor, mas pra alguém invisível, com toda a imaturidade de uma criança e todas as indagações de um adulto. Ela nunca soube onde estaria se metendo e nem como sairia disso. Na verdade ela nunca pensou em saídas, ela sempre pensou nos começos e nos meios, fins eram ocasionalidades tristes que ela preferia não pensar a respeito. Mal ela sabia que fins realmente existem.

Donnie procurou estabelecer regras pra organizar esse sentimento estranho ao seu corpo dentro da sua vida que nunca realmente precisou de nada disso pra valer à pena. Todas as regras se quebraram, tudo se espatifou e ele se perdeu em uma imensidão de horizontes vazios. Mal ele sabia definir como isso veio a acontecer, e riu pra si mesmo o sorriso mais triste que alguém já deu.

Giu flutuava ou boiava. Não tinha o pé fincado em lugar algum, não via diferença entre céu e terra, ficava assim… rodopiando em uma atmosfera de dor e perguntas sem resposta. Mal ela sabia que o que a envenenava seria aquilo que a faria crescer.

Donnie não conseguia controlar suas palavras agressivas, era o mínimo que ele podia fazer depois de ter se decepcionado tanto. E ele sentia raiva de si mesmo por apesar de tudo sentir saudades do cheiro da pele dela, mesmo que ele não admita sentir raiva por coisas assim. Mal ele sabia que ela conhecia todos os seus defeitos e os aceitava não porque pensava que merecia como penitência, mas porque amava suas qualidades muito mais.

Giu chorava todos os dias e por tudo, talvez ela seja assim até hoje, eu não sei ao certo. Ela sabia que merecia ser feliz mas não conseguia levá-lo pro mesmo abismo que ela se encaminhava, não era justo, porque ele não merecia aquilo, ele merecia ser feliz. De impulsiva se fez inconseqüente e cada segundo da sua vida em contagem regressiva vem uma sensação de claustrofobia que ela adquiriu com o passar do tempo. Mal ela sabia que a vida seria tão dura.

Donnie de vez em quando lembra da sua gargalhada enquanto fuma um cigarro no terraço, e ela ecoa até ficar tão distante que some, assim, inexistente como a presença dela. Ele percebeu que continuava com seus métodos frios mas também não queria mudar, ele pensava que assim que tinha que ser e guardava dentro de si um fiapo de esperança de felicidade tão frágil de se olhar… mas inquebrantável. Mal ele sabia que a vida não precisava ser tão dolorosa.

Giu não sabia mais no que pensar, no que acreditar, mas seguia em frente, sabe-se lá pra qual destino. Quem a olhava nos olhos podia perceber que ela tava lá no fundo, se arrastando, procurando uma brecha de luz. Ela se tornou uma pessoa ansiosa e sentia o coração pulsando cada vez mais acelerado. A agonia de não saber o que se espera a fazia esperar por coisas sem valor, como a hora que ela tivesse que sair de casa obrigada a enfrentar o mundo lá fora, simples coisas cotidianas. Mal ela sabia como era se sentir assim e que ele já havia passado por isso.

Donnie e Giu mal sabem de nada, mal sabem de tudo. Mal sabem como é sentar um de frente pro outro e jogar barriga inchada em um dia tedioso, mal sabem o que é nadar no mar juntos, mal sabem o que é pegar uma estrada só os dois, mal sabem o que é pegar um livro de receitas e tentar uma coisa nova, mal sabem quantas canções tristes de amor poderiam compor e mal sabem ainda mais que nem toda canção de amor tem que ter uma ponta de tristeza.

Mas Donnie sabe o que é rir da risada dela, o que é ir pro aeroporto e esperar que ela chegue e ainda vestindo uma roupa imprópria, sabe o que é ter que agüentar toda aquela teimosia que ela insiste em não largar, sabe que ela segura o garfo de maneira engraçada, sabe que ela não cala a boca um segundo e quando se cala alguma coisa ta errada, sabe por que ela gostou ou gostaria daquele filme, sabe que ela perde a vaidade de tempos em tempos, sabe que ela finge não estar com dor de cabeça pra poder fumar em paz, sabe como é dançar sem música com ela, sabe como ela é medrosa, sabe como ela pega no cabelo, sabe como fazer cócegas nela, sabe que ela é capaz de bater nele se estiver com raiva e falar mais palavrões do que ele já escutou na vida, sabe que ela fala alto demais e deixa-o com vergonha, sabe como é acordar e vê-la dormindo ao seu lado, sabe como é se entreolharem e não precisar de uma palavra pra compreender, sabe que ela bate o pé no chão quando quer alguma coisa e como ela fica um saco quando ta manhosa. Donnie sabe muito, sabe mais do que ela própria sobre si mesma.

E Giu sabe exatamente como a sobrancelha dele vai se mover, sabe que ele não ri pra fora quando tem uma crise de riso e pega tão forte no braço dela que fica a marca, sabe que a risada dele também muda de tempos em tempos e que ele já teve uma que mais parecia um porco, sabe que quando ele diz que tem uma surpresa pra ela é um porco rosa aliás, sabe como é sentir admiração só de ficar observando-o, sabe o que é ficar irritada com o silêncio dele, preso nos próprios pensamentos, sabe que ele fica com as costas encurvadas e ainda assim fica a mandando ajeitar a postura, sabe o que é ter que ficar ouvindo mil reclamações e querer mandar ele pra algum lugar não muito prazeroso, sabe como é quando ele se empolga com algo e só consegue falar disso, sabe como ele se vicia em uma música e a faz escutar a mesma toda hora, sabe que ele não consegue largar o violão e sabendo que ela não agüenta mais ter que ser platéia, ele toca uma música da banda preferida dela, sabe qual é a sensação do melhor abraço do mundo, sabe que ele faz carinho como se tivesse acariciando um cachorro. Giu sabe muito também, e dá valor pra coisas que ele talvez nem imagine que ela lembra. Ela costuma pensar que o dia em que eles saíram só os dois pela primeira vez é feriado por causa deles, porque definitivamente é motivo de feriado, e fica imaginando se ele continua ruim de datas ou se lembrou que é hoje.

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