Novela da Vida Real

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Faz muito tempo que tenho vontade de escrever sobre as novelas produzidas pelas Redes de Televisão brasileiras, e essa oportunidade parece-me perfeita para falarmos do produto artístico que identifica bem essa poderosa indústria que em nosso país é vista pela grande maioria da população como simples produtora de entretenimento e por alguns estudiosos da sociologia e da antropologia como meros produtores de alienação da massa inculta e incauta.

Em todo o mundo as empresas desse setor se transformaram em poderosas corporações porque dominaram a informação jornalística, na maioria dos casos por serem orientadoras e opinativas, acabam por criar uma “consciência social” ou ao defenderem posições ideológicas, políticas, econômicas, religiosas e sociais, funcionam como uma espécie de maestro da grande orquestra humana no raio do alcance de sua audiência.

O que vemos hoje em nosso país, como ocorre já faz algum tempo, é o grande predomínio de uma empresa sobre as demais, tanto no setor jornalístico quanto no ramo do entretenimento.

Mas chega de entretantos e vamos logo aos finalmentes. O assunto específico sobre o qual quero tratar hoje é o dos personagens de novelas, figuras que extraídas da vida real se transformam em ícones de nossa raça, espelhos nos quais vemos a nós e aqueles que convivem conosco, ou mesmo que não fazendo parte de nosso mundo, somos capazes de descobrir e identificar neles um trejeito familiar, uma característica peculiar a alguém.

Os personagens do bem, as boas moças e os bons rapazes representados normalmente por espécimes humanos quase perfeitos, são fáceis de serem identificados e agradarem a todos. Difícil é transformar a sempre boazinha da Lilia Cabral numa mulher rude, que para sustentar a família é obrigada a encarnar uma “faz tudo”, “o Pereirão”, uma operária que conserta pias, troca lâmpadas e fiação elétrica, resolve problemas em sistemas de refrigeração e permanece boa e doce, chegando a se tornar elegante e sofisticada. O inverso é o que acontece com personagens como o da belíssima e estonteante Cristiane Torloni que deu vida a Teresa Cristina, uma ricaça de dinheiro, mas paupérrima de princípios.

Nos primórdios das telenovelas os vilões não causavam tanto fascínio nos expectadores, mas com o passar do tempo, autores e diretores foram humanizando esses personagens ao ponto de os transformarem nos pontos altos de seus folhetins.

Perguntei a alguns amigos meus, escritores e roteiristas, entre eles José Louzeiro, Mario Prata e Di Moretti, qual o segredo de um bom roteiro para uma novela do horário nobre e eles foram unânimes em dizer que a única coisa que o autor tem a obrigação de ter em mente quando escreve um argumento e depois um roteiro é escolher bem o ponto da tensão, o caso em torno do qual os personagens devem desenvolver as suas trajetórias.

O ciúme, a inveja, o rancor, a vingança, o medo, tudo isso de um lado, e o desprendimento, a generosidade, a fraternidade, o perdão e a coragem do outro, sentimentos antagônicos que pautam as vidas, normalmente de pessoas próximas, irmãos, amigos, estão em qualquer folhetim televisivo que se preze, assim como no nosso dia a dia.

Odete Roitman é muito provavelmente o maior símbolo de vilania da Televisão brasileira. Do lado dos personagens do bem aparece a emblemática Maria da Graça.

Falemos dos vilões.

Na vida real existem muitos desses personagens de novela. Gente que pensa que é normal, que não consegue enxergar que não tendo “salgado a santa ceia” salgou a sua própria vida ao não olhar as coisas pelo melhor lado, com os melhores olhos.

Alguém que prefere esconder suas deficiências e os erros consequentes delas, imputando a outros os seus pecados, cujos maiores deles nem são mortais. São simplesmente a burrice e a falta de capacidade de bem se relacionar com as pessoas!

Existe um teste para que você possa descobrir se você daria um bom personagem maligno de novela. Basta que verifique se você sente a amargura do ciúme em sua garganta, se já sinta o calor da inveja em seus braços, se é comum sentir o calafrio do medo do abandono e do desprezo em sua espinha. Isso por si só não fará de você um importante vilão ou vilã de novela da Globo, mas deveria chamar sua atenção, pois esses são claros sintomas de que algo muito sério e difícil está acontecendo com você.

Se tudo isso vier agregado ao cultivo de relações problemáticas com seu parceiro, esposo ou esposa; se você cultivar uma inveja indisfarçável por um parente próximo ou por um amigo antigo; se você insistir em implicar com sua nora ou genro, tentando transformar a vida dela ou dele em um inferno sem pensar no mal que pode fazer para seus filhos e netos; se o apego por alguém transformar você em um trapo dependente da atenção, do amor e do carinho dessa pessoa; se você for uma pessoa amarga, mesquinha, intriguenta, desagregadora e ainda por cima incapaz de reconhecer que precisa de ajuda médica, ai sim!…Você estará bem perto de se transformar em matéria-prima para a próxima novela do horário nobre da Rede Globo, isso se você for uma pessoa citável, pois se for uma pessoa sem nenhum charme, talvez seu personagem só seja digno de uma rede de televisão bem menos importante.

Se você que me lê agora pensa que personagens como os descritos acima são difíceis de encontrar, entre em contato comigo que passarei a você uma lista imensa…

 

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