Os pais são bons mestres.

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Quem me conhece sabe que eu sou um sujeito muito organizado. Faço agenda e a programo de acordo com o trajeto que tenho que realizar. Quando vou viajar arrumo a mala com dias de antecedência, não sem antes listar os itens que deverei levar e os locais aonde irei.

Não chego a ser um daqueles chatos metódicos quanto a isso, e de vez em quando quebro minhas próprias regras e resolvo sair “sem lenço e sem documento, nada no bolso ou nas mãos”, para ver o que o dia me reserva.

Quase sempre é um desastre. Esqueço os compromissos, perco ou troco os horários e acabo voltando ao método tradicional: planejar e listar tudo que tenho a fazer. Imaginar cada detalhe do que precisa ser feito, quando, onde, com quem, e principalmente os porquês.

Quero deixar claro que algumas pessoas podem pensar que alguém como eu, que se acha organizado, não o é. Ocorre que organização é uma coisa muito pessoal. Às vezes um quarto, um escritório ou uma mesa de trabalho que parece uma zorra para um é uma perfeição para outro.

Algumas vezes não me contenho em apenas planejar. Chego a ensaiar o que preciso fazer, o que pode ser dito e o que não deve ser comentado. Preparo inclusive argumentos e contra-argumentos. Ainda assim algumas vezes as coisas acabam acontecendo de forma bem diferente da desejada.

Tem sido assim desde que me entendo por gente.

Muito do que sei aprendi com meu pai, que entre as diversas coisas fantásticas que realizou na vida, uma, foi ter sido o precursor do Excel, programa de planilhas, baseado em linhas e colunas, desenvolvido, patenteado e comercializado com imenso sucesso pela Microsoft.

Meu pai fazia seu Excel à mão, sem computador. Acredito que ele tenha feito isso pela primeira vez antes que eu e o próprio Bill Gates tivéssemos nascido. Quem o conheceu pode confirmar. Não é invenção minha.

Pode alguém pensar que como filho devotado a memória do pai eu quisesse dar-lhe o crédito por essa façanha, mas não é esse o caso.

Ele andava para cima e para baixo com sua planilha no bolso. Onde quer que chegasse, tendo um telefone ao seu alcance, ligava para seu armazém e falava com uma de suas secretárias, fosse ela Elizabeth, Augusta ou Sebastiana. Atualizava sua planilha, orientava compras e vendas, controlava saldos e estoque e geria os destinos de seus negócios, baseado exclusivamente no seu conhecimento do mercado, nos dados que possuía e na confiança que depositava em seus colaboradores e parceiros.

Aprendi a fazer essas planilhas com meu pai, com quem aprendi muitas outras coisas. Poucas no que diz respeito diretamente às minhas atividades artísticas e culturais, mas indiretamente o que aprendi com ele se tornou indispensável para bem desenvolvê-las.

Por exemplo, aprendi muito a respeito de gente. Sobre o ser humano, suas características, suas necessidades, seus anseios e as formas e artifícios que eles usam para alcançá-los. Meu pai era formado em antropologia e em sociologia sem jamais ter cursado uma universidade. Ele dizia brincando ser formado pela universidade da vida.

Com meu pai aprendi também como falar em público. Ele ensaiava os discursos que faria na Assembleia Legislativa dentro do carro, enquanto levava a mim e a meu irmão para o colégio. Imaginava até os apartes que seus colegas poderiam fazer. Os mais chegados, que compartilhavam com ele as mesmas posições e opiniões se portariam de modo favorável, já os que se opunham às suas ideias e colocações iriam admoestá-lo e ele deveria estar preparado para a réplica e às vezes para a tréplica.

Passei anos vendo isso e o aprendizado foi automático. Agreguei a esse ensinamento apenas um pouco de cultura e alguma erudição. Acredito que este é o mesmo tipo de aprendizado que ocorre com o filho do açougueiro, com o filho do mecânico ou com o filho do padre… Ops!!! Padre não tem filho…

Pois bem, ao chegar a este ponto de nossa conversa, fico sem saber como os filhos de hoje em dia fazem para aprender algo diretamente com seus pais, já que a convivência entre eles está cada vez mais escassa, pois as crianças de hoje em dia passam a maior parte do tempo com seus joguinhos eletrônicos e com os itudos da vida.

Olho pra trás e tenho certeza de que, tudo que fiz quando criança serviu extraordinariamente na edificação da pessoa que sou. Essa é uma verdade humana, geral e eterna.

Quanto ao saldo, me parece positivo, mas vejo que de meu mesmo só há essa vontade avassaladora de aprender.

O que constato é que tenho um jeito próprio de usar a gustação, o olfato, o tato e principalmente a visão e a audição como instrumentos de descoberta e captura do mundo, lançando mão da indispensável memória, muitas vezes involuntariamente seletiva, que privilegia as boas coisas em detrimento das más.

PS: Muitos amigos têm reclamado de minha ausência desta página. Fico lisonjeado, mas devo esclarecer que a grande quantidade de afazeres com os quais me comprometi me deixa com pouco tempo para me dedicar à crônica, que por mais que pareça uma tarefa fácil, toma-me bastante tempo. De qualquer modo estarei por aqui uma ou duas vezes por mês para conversar com você o botarmos os assuntos em dia.

Ah, sim! Ia me esquecendo! Que o enunciado deste texto sirva de alerta para todos nós.

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