A escolha

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Um jovem conde, Sir Oliver de Warhill, foi surpreendido por seu monarca enquanto caçava furtivamente num bosque. O rei poderia tê-lo matado no ato, pois era o castigo para qualquer um que violasse as leis da propriedade real, contudo se comoveu ante a juventude e a simpatia do jovem tão recentemente órfão – seu pai havia a pouco sido morto em batalha. O rei, no entanto, que passava por serias dificuldades em seus relacionamentos com as mulheres; com sua mãe, com sua esposa e com suas duas filhas, lhe ofereceu a liberdade, desde que no prazo de um mês, Oliver lhe trouxesse a resposta a uma pergunta difícil. “O que querem realmente as mulheres?”
Semelhante pergunta deixaria perplexo até o mais sábio dos Druidas, e ao jovem Oliver lhe pareceu impossível de respondê-la. Contudo aquilo era melhor do que a morte, de modo que regressou a seu castelo e começou a interrogar as pessoas: a sua mãe, a sua irmã, as prostitutas, os monges, os sábios, o bobo da corte, em suma, a todos e ninguém soube dar-lhe uma resposta convincente. Porém todos o aconselharam a consultar a velha bruxa, porque somente ela saberia a resposta. O preço seria alto, já que a velha bruxa era famosa em todo o reino pelo exorbitante preço cobrado pelos seus serviços.
Chegou o último dia do prazo acordado e Oliver não teve mais remédio senão recorrer a feiticeira. Ela aceitou dar-lhe uma resposta satisfatória, com a condição de que ele aceitasse o preço: Ela queria casar-se com Saymor, o cavaleiro mais nobre do reino, tio e protetor de Oliver, um solteirão convicto, mas muito sábio e bondoso. O jovem Oliver olhou-a horrorizado: era horrenda, tinha um só dente, desprendia um fedor que causava náuseas até a um cão, fazia ruídos nojentos. Ele nunca havia encontrado com uma criatura tão repugnante. Acovardou-se diante da perspectiva de pedir a um tão querido amigo, o maior de toda a sua vida, para assumir essa carga terrível. Não obstante, ao inteirar-se do pacto proposto, Saymor afirmou que não era um sacrifício excessivo em troca da vida de seu sobrinho e a preservação do clã dos Warhill.
Anunciadas as bodas, a velha bruxa, com sua sabedoria infernal, disse: O que as mulheres realmente querem? Serem Soberanas de suas próprias vidas!
Todos souberam no mesmo instante que a feiticeira havia dito uma grande verdade e que o jovem Oliver estaria salvo. Assim foi. Ao ouvir a resposta, o monarca lhe devolveu-lhe o direito a sua vida. Porém, que bodas tristes foram aquelas. Toda a corte assistiu e ninguém se sentiu mais desgarrado, entre o alívio e a angústia, que o próprio Oliver. Saymor mostrou-se cortês, gentil e respeitoso. A velha bruxa usou de seus piores hábitos, comeu sem usar talheres, emitiu ruídos e um mau cheiro espantoso.
Chegou a noite de núpcias. Quando Saymor, já preparado para ir para a cama, aguardava sua esposa, ela apareceu como a mais linda, charmosa e delicada mulher que um homem poderia imaginar! Saymor ficou estupefato e lhe perguntou o que havia acontecido.
A jovem lhe respondeu com um sorriso doce, que como ele havia sido cortês com ela, a metade do tempo se apresentaria horrível, como aquela bruxa, outra metade com o aspecto de uma linda donzela, como ali estava. Então ela lhe perguntou qual ele preferiria para o dia e qual para a noite.
Uma pergunta cruel. Saymor se apressou em fazer cálculos. Poderia ter uma jovem adorável durante o dia para exibir a seus amigos e a noite na privacidade de seu quarto uma bruxa asquerosa ou quem sabe ter de dia uma bruxa e uma jovem linda nos momentos íntimos de sua vida conjugal.
O nobre Saymor, após pensar por um instante, respondeu-lhe que a deixaria escolher por si mesma.
Ao ouvir a resposta, ela anunciou que seria uma linda jovem de dia e de noite, porque ele a havia respeitado e permitido ser soberana de sua própria vida, senhora de seu destino.

* Crônica adaptada de uma estória antiga, mas pautada em acontecimentos recentes.

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A causa e seus argumentos.

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Gostaria de desenvolver o nosso bate papo deste domingo em cima de uma frase do filosofo alemão Friedrich Hegel: “Quem exagera o argumento, prejudica a causa”.
O conhecimento e o entendimento que resultam da analise desta sentença é simples como um ovo. E poucas coisas são tão simples, eficientes e completas como um ovo.
A historia tem demonstrado que, todas as vezes que se carregou muito a mão nas tintas dos argumentos, as causas que os mesmos defendiam, caiam para um plano inferior, tornavam-se secundarias, dando origem, muitas vezes, a outras causas bem diferentes daquelas originalmente defendidas tão ferozmente por seus argumentos.
Um exemplo disso é o macartismo. Joseph McCarthy, obscuro Senador pelo pequeno estado de Michigan, presidiu o comitê permanente de investigação de operações do governo, no inicio dos anos 50 do século passado. No intuito de investigar, a principio, a infiltração comunista na administração publica, ele implantou nos Estados Unidos um clima bem parecido ao da santa inquisição, estendendo as investigações a toda sociedade americana, principalmente nos meios jornalísticos e artísticos.
As causas não devem jamais ser suplantadas por seus argumentos. Argumentos excessivos têm a capacidade de invalidar causas muitas vezes perfeitas, corretas e justas.
Outro exemplo é o nacional socialismo na Alemanha. No inicio, ele tinha como causa fundamental o ressurgimento da nação e o fortalecimento do moral do povo alemão, derrotado em uma guerra suja que se dizia ter sido feita para acabar com todas as guerras, e usurpado por um tratado de paz humilhante e escorchante.
Depois de ter chegado ao poder, o partido nazista, deu demasiada ênfase a alguns argumentos radicais que defendiam sua causa, que no tocante à restauração do funcionamento eficiente do estado alemão, no restrito beneficio de seu povo, era uma causa muito justa. Mas com a exacerbação de seus argumentos, com a elasticidade moral, ética e lógica deles, sua causa que antes era justa, tornou totalmente abominável e inaceitável.
O projeto que visa reverter a doação do Convento das Mercês, legalmente feita pelo Estado, através de projeto de lei formalmente votado e aprovado pelo poder legislativo à Fundação da Memória Republicana, é o uso exagerado de argumentos em defesa de uma determinada causa, mais recente e próximo de nossa realidade. Isso para não se falar, nos tais trinta milhões de dólares que, segundo alguns, quando liberados, irão resolver o problema da miséria e da pobreza no Maranhão! Como se esse dinheiro fosse realmente para resolver tal problema!
A Fundação da Memória Republicana é possuidora de imenso e magnífico acervo histórico, artístico e cultural, e desenvolve ações de cunho social e assistencial em nossa comunidade, notadamente em sua circunvizinha.
Imagino que os adversários do ex-presidente José Sarney tenham muita vontade de vê-lo fora do comando político de nosso estado, coisa que acredito, não acontecerá tão cedo. Mas exagerar nos argumentos para defender essa sua causa não vai levá-los a lugar algum. Talvez só a mais uma derrota.
É bom que se diga que o prédio do Convento das Mercês, antes, estava totalmente destruído e que foi reformado através de recursos federais destinados ao Maranhão quando Sarney era presidente da republica.
Pra que devolver-se ao estado um prédio, onde funciona, e bem, o nosso museu mais visitado? A devolução do prédio do convento significará desmontar-se um museu que recebe milhares de visitantes todos os anos, o desmantelamento da Banda do Bom Menino e a condenação do prédio ao abandono, da mesma forma em que se encontram outros monumentos históricos e culturais de nossa terra.
Tal projeto, só existe, na vã e torpe tentativa de, com ele, atingir-se a pessoa de José Sarney. Uma figura, a quem alguns se opõem politicamente, mas que nem por isso deve ser atacado tão covardemente, através da tentativa de se destruir esse projeto só por ser de sua concepção e autoria. Projeto que só engrandece a nossa terra e principalmente às pessoas humildes que vivem no bairro do Desterro.
Quem quiser se opor politicamente à Sarney, que se oponha a ele nos palanques ou nas urnas. Porque exagerar nos argumentos quando a causa na verdade é outra?
O que a Fundação da Memória Republicana e o Convento das Mercês têm a ver com o fato de um deputado, um governador ou mesmo todo um grupo político, se oporem à Sarney?
Qual o desserviço que causa ao Maranhão e a sua gente o ótimo Funcionamento da Fundação da Memória Replubicana no prédio do Convento das Mercês?
A reversão do convento ao Estado vai resolver o seu problema de IDH? Vai solucionar nossos problemas de educação, saúde, água, energia elétrica, estradas, emprego, agricultura…?
Se isso for resolver os problemas que afligem o nosso Estado e a nossa gente, eu, como deputado, votarei a favor. Como sei que essa é apenas e tão somente mais uma manobra política para tentar atingir objetivos estratégicos e fragilizar Sarney, e o que é pior, causando grave prejuízo para nosso patrimônio cultural, votarei contra.
Ao exagerar nos argumentos para tentar ganhar de Sarney, seus adversários comprovam o entendimento da frase de Hegel: quem exagera nos argumentos, é porque não tem uma causa digna para defender.

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A comparação

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Por volta do ano de 1200 da nossa era, no Japão feudal, havia um poderoso senhor da guerra conhecido como Kira Moru, o sábio. Ele possuía um exército muito bem preparado e motivado apesar de não ser tão numeroso. A frente desse exército estava um ex-monge budista chamado Ykeda Jodo, um guerreiro frio, exímio estrategista, um comandante respeitado e amado por seus homens, admirado e temido por seus inimigos. Ykeda era um Samurai muito orgulhoso, mas já sentindo que o seu fim estava próximo, quis rever seu velho mestre zen, a quem não via há muitos anos. Foi então até seu senhor e pediu-lhe permissão para fazer a viagem até ao mosteiro de Nagazori. Kira consentiu desde que Ykeda levasse consigo dois pupilos para treina-los pelo caminho, o senhor escolheria um e o samurai escolheria o outro. E foram os três, Ykeda e seus pupilos, Akio e Terume.
Meses depois os três chegaram ao mosteiro onde vivia o mestre Matshushiro. Ao reencontrar seu antigo professor e guia espiritual, a beleza e o encanto daquele momento fez com que o orgulhoso guerreiro se sentisse repentinamente inferior, e perguntou ao mestre: “- Matshushiro san, por que estou me sentindo tão pequeno? Apenas um momento atrás, tudo estava bem. Quando aqui entrei, subitamente me senti inferior, eu jamais me senti assim antes. Encarei a morte muitas vezes, mas nunca experimentei medo algum. Por que estou me sentindo assustado agora?” “- Espere. Quando todos tiverem partido, mostrar-lhe-ei a resposta.” – disse o mestre.
Durante todo o dia, pessoas chegavam para ver o mestre Matshushiro, e Ykeda estava ficando cansado de esperar. Ao anoitecer, quando não havia mais ninguém para ver o mestre, o Samurai perguntou novamente:- “Agora o senhor pode me responder por que me sinto tão inferior?”

O mestre o levou para o jardim, era uma noite de lua cheia e a lua estava justamente surgindo no horizonte. E o mestre disse:- “Olhe para aquelas duas árvores, lembra-se delas, foi eu quem mandou que você as plantasse, há muitos anos. A árvore alta e a árvore pequena ao seu lado, ambas estiveram sempre juntas aqui no nosso jardim e nunca houve problema algum com elas. A árvore menor jamais se sentiu inferior. Esta árvore é pequena e a outra é maior, e isto é fato, e nunca houve sussurro algum sobre isso. O Samurai então, argumentou dizendo que Isso acontecia porque as arvores não podiam se comparar, ao que o Mestre replicou:- “Então não deverias me perguntar porque te sentes menor agora que voltastes aqui, Você sabe a resposta. Quando você não compara, toda a inferioridade e superioridade desaparecem. Você é o que é. Simplesmente existe. Um pequeno arbusto ou uma grande árvore, não importa. Uma conchinha do imenso mar é tão necessária quanto a maior das estrelas do firmamento. O canto de um pássaro é tão necessário quanto qualquer Buda, pois o mundo será menos rico se este canto desaparecer. Simplesmente olhe à sua volta. Tudo que há é necessário e tudo se encaixa. É uma unidade orgânica: ninguém é mais alto ou mais baixo, ninguém é superior ou inferior. Cada um é incomparavelmente único. Você é necessário como é e basta. Na Natureza, tamanho não é diferença. Tudo é expressão igual de vida. Cada coisa e tudo têm o seu lugar. Veja os seus dois discípulos: um é pequenino e ágil, o outro é um gigante fortíssimo. Um é excelente arqueiro e domina o uso das armas, o outro tem grande astúcia e raciocínio rápido. Se você fizer comparações entre eles poderá imaginar que eles são dispensáveis e não são, pois depois de você, seu senhor e seu povo ira precisar de todos os talentos dos dois para substituir os seus.”
Depois de concluído o treinamento de Akio e Terume, Ykeda os mandou de volta para Kira, o sábio. Ele, no entanto permaneceu no mosteiro até o fim de seus dias. Não mais se sentia inferior.

* Crônica adaptada de uma estória antiga, mas pautada em acontecimentos recentes.

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A bondade de Deus

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Há muito tempo atrás, no longínquo reino de Samarcan, na antiga rota da seda, havia um rei chamado Tariq, que não acreditava na bondade do Deus todo poderoso. Ele tinha, porém, um súdito que atendia pelo nome de Amir que sempre lhe lembrava dessa verdade eterna e imutável que é a sabedoria e a bondade de Deus, e que em todas as situações dizia a seu soberano: “Meu rei, não desanime, porque Deus é bom, ele sempre sabe o que fazer!”.
Um dia, o rei Tariq saiu para caçar e levou consigo o seu súdito Amir. Ao entardecer do segundo dia de caçada, uma fera atacou o rei. Amir, sempre com ele, conseguiu matar o animal, porém não evitou que sua majestade perdesse o dedo mínimo da mão esquerda.
Ao voltar ao palácio, o rei, furioso pelo que tinha acontecido, e sem demonstrar agradecimento por ter sua vida salva pelos esforços de seu leal servo, perguntou e este: “E agora, o que você me diz? Deus é bom? Ele sabe o que faz? Se Deus fosse bom eu não teria sido atacado, e não teria perdido o meu dedo”. Amir, como sempre, insistia: “Meu rei, apesar de todas essas coisas, somente posso dizer-lhe que Deus é bom, e que mesmo isso, perder um dedo é para o seu bem!” O rei, indignado com a resposta do súdito, mandou que fosse preso na cela mais escura e mais fétida do calabouço do palácio.
Havia na corte de Samarcan um outro súdito de Tariq, Amal Ibni-Marud, que se roia de inveja da amizade que o rei tinha para com Amir e aproveitando-se do infortúnio dos dois, para aproximar-se mais do rei, Amal mandou o artesão real confeccionar um dedo mínimo de ouro, para esconder o aleijume de sua majestade. Tariq ficou muito sensibilizado e agradecido.
Após algum tempo, o rei saiu novamente para caçar e dessa vez levou Amal consigo. Aconteceu dele ser atacado novamente, desta vez foi emboscado por uma tribo que vivia nas estepes, os Surihns. Estes eram temidos, pois se sabia que eles faziam sacrifícios humanos para seus deuses. Mal prenderam a todos os Surihns passaram a preparar, cheios de júbilo, o ritual do sacrifício. Quando já estava tudo pronto, e o rei Tariq já estava diante do altar, o sumo-sacerdote, observou um brilho estranho na mão do rei. Aproximou-se para ver melhor, pegou Tariq com força pelo pulso, o que fez com que seu dedo de ouro caísse, e rolasse a escadaria do altar, então gritou furioso: “Este homem não pode ser sacrificado, pois é defeituoso! Falta-lhe um dedo!”
O rei foi então libertado, mas o mesmo não aconteceu com aqueles que o acompanhavam, todos foram sacrificados.
Ao voltar para o palácio, muito alegre e aliviado, Tariq tratou imediatamente de mandar libertar seu leal súdito Amir e pediu que este viesse a sua presença. Ao ver o servo, o rei ajoelhou-se a seus pés, desculpou-se e o abraçou afetuosamente dizendo-lhe: “Meu caro, o seu Deus realmente foi bom comigo! Você já deve estar sabendo que escapei da morte justamente porque não tinha um dos dedos. Mas ainda tenho em meu coração uma grande dúvida. Se esse Deus é tão bom como diz, porque permitiu que você fosse preso da maneira como foi? Logo você, que tanto o ama e o defende! O servo sorriu e disse:” Majestade, se eu estivesse junto contigo naquele dia, certamente teria sido sacrificado como os outros o foram, pois não me faltava dedo algum!”
A partir daquele dia o rei Tariq não teve mais vergonha por não ter um dos dedos. Quanto a seu dedo de ouro, ele o deu de presente a seu leal súdito Amir, que o vendeu por mil moedas e as presenteou todas à viúva e aos filhos do falecido Amal.

* Crônica adaptada de uma estória antiga, mas pautada em acontecimentos recentes.

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Na tarde da última quarta-feira, dia 24, fui para Santa Inês, em um avião bimotor, acompanhado de dois executivos da TV Eldorado, emissora pertencente ao Jornal O Estado de São Paulo, com quem temos negócios.
Trabalhamos até tarde e depois nos recolhemos. Teríamos que regressar a São Luis no outro dia pela manhã cedo. Teófilo e Alfonso tinham passagens marcadas para São Paulo, no vôo das 14 horas da quinta-feira, 25.
Na quinta, acordei angustiado, com um nó na garganta, com a sensibilidade aflorada e uma vontade inexplicável de chorar.
Naquele estado, a primeira coisa que fiz após acordar e abrir os olhos foi pensar em minha filha Laila. Depois em minha mãe, no meu irmão e em minhas mães de criação que já estão velhinhas. Pensei em minhas outras filhas, Avana, Ananda… Pensei em Ivana com seu inseparável maço de cigarros. Pensei em Thiego e Vanessa vivendo da violenta cidade maravilhosa. Pensei nos meus sobrinhos, Nagib Neto, Pilar, Rocha, Tadeu, Caterine, Vinicius… E pensei em M, com quem passara boa parte da noite conversando ao telefone.
Depois de tomar o delicioso café da manhã feito por Iva, cozinheira da fazenda de meu primo Nelson Frota, esqueci da angustia que estava sentindo e fui terminar o trabalho.
Contatos feitos, vistorias realizadas, projetos alinhavados, possibilidades estimadas, trabalho concluído, pegamos o avião.
Logo que decolamos comentei com o comandante Sergio que estava ouvindo um barulho estranho, como se um cabo estivesse batendo na fuselagem do avião. Mas não parecia ser algo grave.
Fizemos um vôo normal até mais ou menos o meio do caminho. Eu e Teófilo nos bancos de trás, Sergio pilotando e Alfonso, que é piloto de helicóptero, ao seu lado, de co-piloto. Lá pelas tantas, a aeronave sacoleja forte, o manche puxa violentamente os braços de Alfonso para frente e o avião imbica. Rapidamente Sergio aciona a bomba reserva de combustível, prevenindo-se sabiamente de uma possível pane seca, falta de combustível, coisa que não poderia ser, pois enchemos os tanques antes de sairmos de SLZ.
Imediatamente todos nós empalidecemos. Sergio que é um piloto experimentado, tomou todas as precauções possíveis naquelas circunstancias, enquanto Alfonso lhe assessorava. Eu e Teófilo, lá atrás, apenas assistíamos a tudo, impotentes.
Depois de algum tempo, já tendo identificado com certeza absoluta que se tratava de uma pane de motor, Sergio nos avisa do problema e tenta nos tranqüilizar, mas o suor em sua testa tencionada denunciava que a coisa não era lá muito boa não.
Ele regula alguns instrumentos no painel e pede que Alfonso leia o GPS para nos dizer quanto tempo tínhamos de vôo até São Luis. Nessa hora é que me veio à idéia de todo esse relato que estou lhes fazendo, aqui e agora.
Alfonso vira-se um pouco em nossa direção, e como quem quisesse nos confortar, diz com uma expressão tênue de segurança: “

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O poder e o conhecimento

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Quando Nicolau Copérnico expôs ao mundo a sua teoria do heliocentrismo, a igreja católica se recusou a aceitar tal idéia. Ela não só contestou como não admitiu esse avanço do conhecimento cientifico durante muitos e muitos anos.
De certo modo, é até muito compreensível que isso tivesse acontecido há quase quinhentos anos atrás, até mesmo porque, dizer-se naquela época que o sol e não a terra era o centro do universo, chocava-se frontalmente com a interpretação literal que era e infelizmente muitas vezes ainda é comumente dada ao texto bíblico.
Interpretado assim, literalmente, o texto sempre fantástico, muitas vezes épico e poético do livro do gênesis, leva a crer que a terra fosse mesmo o centro e a mãe do universo. Ela seria estática e imóvel enquanto o sol e os demais planetas giravam em torno dela, majestosa. Majestática.
O alemão Copérnico formulou sua teoria e provou sua tese no que foi seguido pelo italiano Galileu Galilei que ao comprová-la cientificamente, observando o planeta Júpiter e de suas luas, foi obrigado a negá-la sob pena de morrer queimado numa das fogueiras da santa inquisição, instrumento de coação usado pela poderosa e corrupta igreja católica de então.
Galileu, sabiamente preferiu viver mesmo que em prisão domiciliar pelo resto da vida, pois nada que dissesse iria mudar nem a verdade do universo nem a vontade da cúria Romana e do então Papa Urbano VIII, que, diga-se de passagem, fora seu amigo quando ainda era conhecido como Cardinale Maffeo Barberini.
Estamos vivendo numa época parecida com a de Urbano e Galileu. Existem questões que são claras e cientificamente comprovadas, mas que a Igreja, hoje muito mais aberta, esclarecida e evoluída que aquela de quinhentos anos atrás, não consegue admitir ou aceitar.
Um grupo de Jesuítas, inspirados em Santo Inácio de Loiola, fundador de sua ordem, e subvencionados pelo Vaticano, já admite: O planeta terra e toda vida que nele existiu e existe, foi criado por Deus bilhões de anos depois que este criou o Universo. Eles admitem que somos o resultado da mistura de poeiras estrelares que viajaram por todo o espaço, por quase uma eternidade, ate se transformar em todos os tipos de vida, no ambiente propicio deste planeta, que um dia, daqui a outros milhões de anos, também desaparecerá.
Essa conclusão, segundo os padres-cientistas, em nada contradiz a existência e o poder de Deus, “ao contrario, só o reafirma”. A igreja, como instituição, no entanto e apesar disso nem sequer admite discutir outros assuntos, mais terrenos e humanos.
Não vou nem falar aqui dos casos mais delicados, que no meu entender, são a eutanásia e a clonagem humana, mesmo que só de células tronco, advento que ajudaria a salvar milhões de vidas. Ou mesmo nos casos que imagino ser de complexidade mediana, como do aborto, mesmo em caso de comprovada doença preexistente do feto ou de estupro. Ou ainda no caso de casamento de pessoas do mesmo sexo.
Mas é inadmissível que no começo do terceiro milênio dessa religião, seus dirigentes não aceitem a igualdade de mulheres e homens no tocante a ordenação sacerdotal, com a desculpa de que os escritores-evangelistas, aceitos pela igreja, não citaram a presença de mulheres em seus relatos sobre a santa ceia.
É inconcebível que seja proibido a um casal católico o uso de pílulas anticoncepcionais. E o que é pior ainda! A proibição do uso de preservativo, tendo a nossa porta, uma epidemia mundial de doenças sexualmente transmissíveis. Isso é nada mais nada menos que teimosia para não chamar de burrice.
Li em algum lugar que o novo Papa, Bento XVI, é contra o Rock, que rotula como musica do demônio e contra o pop que diz ser expressão da banalidade. Ora, seu padre! Vá tratar de coisas mais serias e graves que isso. Isso é manifestação cultural e se a igreja não está dando conta de resolver os problemas religiosos, não será tentando controlar as vidas dos indivíduos e sua liberdade que o conseguirá.
Sou a favor da eutanásia como forma extrema de misericórdia, extermínio da dor e do suplicio do ser humano.
Sou a favor do uso controlado e moral do aborto, do uso de anticoncepcionais e sou totalmente a favor da obrigatoriedade do uso do preservativo, das camisinhas.
Sou a favor da ordenação de mulheres para oficiarem ritos sacerdotais.
Sou a favor do casamento, por amor, independentemente do sexo dos parceiros.
Principalmente sou contra qualquer restrição ou cerceamento de liberdade no que diz a respeito ao tipo de musica que a pessoa cante ou ouça, assim como o cerceamento ou restrição de qualquer outra manifestação cultural.
Mas quem sou eu para ser contra ou a favor de alguma coisa. A única coisa que posso fazer é conversar um pouco com você, aqui nesse meu cantinho de pagina. No mais, é só torcer para que eu consiga me fazer entender e que você concorde pelo menos em alguns pontos comigo. Se conseguir isso, já vou estar muito satisfeito.

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Os dez mandamentos de Maquiavel *

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Sou um dos mais novos adeptos do orkut. Na verdade nem sei bem como definir o que seja essa geringonça. Acho que sua melhor definição é que ele é um site de relacionamento onde você encontra pessoas que se agrupam em comunidades temáticas, e conversam, trocam idéias e opiniões sobre os mais diversos e variados temas.

Lá existem grupos pra tudo: dos que odeiam filmes legendados aos que adoram as coisas simples da vida. Dos que acreditam em príncipe encantado aos que são viciados em comida japonesa.

O orkut serve também para se reencontrar pessoas que não vemos há muito tempo, que não sabemos por onde andam. Por lá encontrei muita gente que há séculos não via, como foi o caso de um amigo de infância e colega do Colégio Batista, Antônio José Ritter Martins, que anda mergulhando mundo afora.

Tem gente que chega a ter mais de duas centenas de comunidades em seu cadastro. Eu só participo de umas duas dezenas delas. Todas giram em torno dos meus interesses: Literatura, cinema, história, cultura, lazer, política…

Outro dia entrei numa comunidade denominada Maquiavel e deparei com uma questão que já tinha visto antes, mas que nunca quis abordar. Naquela oportunidade resolvi tocar no assunto por lá, e hoje quero abordar o mesmo assunto por aqui. É o caso de uns tais dez mandamentos que teriam sido estabelecidos por Maquiavel. Puro mito.

Em seu livro O Príncipe, Maquiavel traça o perfil que deveria ter, e diz como deveria agir um governante na transição da idade média para o renascimento. O perfil que ele traçou para um poderoso Príncipe daquela época, sempre se mostrou atual todas às vezes em que foi, desde então, confrontado com a realidade.

Não me lembro de ter lido em nenhum lugar sobre estes tais dez mandamentos de Maquiavel, em todo caso, para um melhor entendimento, vou tentar desentortar e analisar estes dez mandamentos que encontrei no orkut como sendo dele.

Procurarei fazer uma analise segundo o que acredito que fosse a ótica de Maquiavel. Procurarei ser fiel à ótica que ele relata em sua obra, em que aconselhava, e continua aconselhando, aos detentores ou pretensos detentores do poder.

1- Zele apenas por seus interesses.
O apenas aqui na verdade quer dizer em primeiro lugar. Zele em primeiro lugar pelos seus interesses. Somente zele pelos interesses dos outros se eles vierem a coincidir com os seus interesses, ai eles passam a ser seus também. Quando você tiver que abrir mão de um interesse seu em beneficio do interesse de outros, que isso fique muito claro, e que se sobressaia a sua grandeza por ser capaz de tal feito.

2- Não honre a ninguém além de você mesmo.
Não se submeta, não se diminua, não se agache, não seja subserviente. Se faça útil, indispensável, tenha orgulho do que faz e o faça com competência e honra.

3- Faça o mal, mas finja fazer o bem.
Quando por acaso você vier a fazer o mal, quando for obrigado a prejudicar alguém, ou um determinado grupo, o faça. Mas procure minorar ou esconder tal feito, tal atitude, e principalmente seus efeitos.

4- Cobice e procure obter o que puder.
Busque, lute para que sua voz tenha força e suas ações tenham peso, importância e conseqüência e para que consiga atingir todos os seus objetivos.

5- Seja miserável.
Seja obstinado, não tenha medo do que vão falar de você, faça o que tem de ser feito. Se seu cavalo mais amado quebrar a perna, sacrifiquei-o. Se seu amigo mais querido lhe trair, esqueça-o.

6- Seja brutal.
Seja firme. Seja duro. Não tenha pena do enfermo pelo gosto amargo do remédio eficiente que tem que lhe ministrar, pela dor que a injeção irá causar, lembre-se da cura que provirá desse gosto amargo e dessa dor.

7- Engane o próximo toda vez que puder.
Engane apenas quando for indispensável e quando for possível, de tal forma e de preferência que esse próximo, e os distantes também, não descubram que foi enganado. Melhor ainda, que pense que foi na verdade ajudado.

8- Mate seus inimigos, e se for preciso mate seus amigos também.
Imobilize seus inimigos, tire-os de combate, faça com que eles não possam lhe causar nenhum dano ou problema. Coopte seus amigos, consiga seu apoio irrestrito, caso contrario, terá que agir com estes como se fossem inimigos. Melhor seria que seus amigos entendessem isso por si só.

9- Use a força em vez da bondade ao tratar com o próximo.
Use a justiça, a sabedoria, a inteligência, o poder. Quem detém tudo isso detém a força.

10- Pense exclusivamente na guerra.
Pense em primeiro lugar em suas estratégias, em sua logística, em seus movimentos, em suas ações e nas possíveis reações de seus parceiros e de seus adversários. A guerra é o jogo da vida. As mortes que acontecem nos campos de batalha são as conseqüências de um jogo da vida mal jogado, ou como preferem pensar alguns, são os efeitos colaterais de um jogo da vida bem jogado demais.

Vejam só como é possível distorcer ou mal interpretar as palavras e as idéias das pessoas. Se fazem isso com Maquiavel, imaginem com qualquer um de nós, pobres mortais.

* Estes tais dez mandamentos de Maquiavel são invenção de algum sujeito muito desocupado, analisado aqui por outro sujeito, este nem tão desocupado, mas que é fã até das lendas em torno da vida e dos pensamentos do mestre florentino.

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De quem é a culpa?

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Se você é bom em história geral ou pelo menos é bom de memória, então me diga rápido, de quem é a culpa pela deflagração da primeira guerra mundial? Não sabe? Não se lembra? Não fique triste, não se sinta diminuído, muito pouca gente irá se lembrar. Esse é um episodio que muita gente acha pouco importante, é um fato distante no tempo e no espaço. Mas quem for realmente bom em história geral ou simplesmente tiver uma boa memória vai se lembrar do que aprendeu na escola, vai se lembrar que foi o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono austro-húngaro, e de sua mulher, Duquesa de Hohenberg que visitavam a cidade de Sarajevo, no dia 28 de junho de 1914, por Gavrilo Princip, um estudante de origem sérvia, o que acendeu o rastilho de pólvora que detonou a primeira grande guerra. Nenhum professor nunca nos ensinou que a conjuntura geopolítica da Europa e do mundo no inicio do século XX propiciava as condições para eclodir aquele conflito. Ninguém nunca chamou a nossa atenção, para a grande parcela de culpa que tiveram as grandes potências da época, Inglaterra e França, culpa essa motivada pela tentativa de manutenção de seu domínio sobre aquele mundo novo, que logo fugiria do controle de suas mãos. Poucos ligam, de pronto, esse conflito como uma das causas ou das culpas que culminou com a revolução Russa, quase que simultaneamente e com a segunda guerra mundial, mais de vinte anos depois.

Você é bom de cultura geral ou em curiosidades? Gosta de grandes desastres ou acidentes? Por acaso você saberia as causas ou de quem foi a culpa pelo naufrágio do Titanic ou pela queda do zepelim Hindenburg?

Dizem que na noite do dia 14 de abril de 1912, o comandante Edward J. Smith tinha ido dormir mas pedira ao 1º oficial, William Murdoch, que assumisse o seu posto e o avisasse de qualquer imprevisto que ocorresse. Por volta de 23h40, o sino do cesto dos vigias tocou três vezes, indicando que algo estava no caminho do Titanic. Murdoch conseguiu ver que surgia à frente do navio uma massa escura de gelo. A ordem foi que se virasse ao máximo a estibordo e se fizesse marcha à ré a toda potência. Entretanto, a medida não foi suficiente para evitar o choque entre o barco e o iceberg. De quem terá sido a culpa? Do comandante? Do 1º oficial? Da companhia White Star Line, dona do barco? Aqui, ficam claras todas as culpas, uns com mais, outros com menos, mas a maior culpada pelas 1.521 mortes, que isso também fique muito claro, foi a arrogância humana, a arrogância do comandante, a arrogância do 1º oficial e principalmente a arrogância da companhia, que acreditando ser o navio insubmersível, não disponibilizou nem botes nem coletes salva-vidas para todos os 2.227 passageiros da primeira e única viagem daquele lendário colosso dos mares.

No inicio de maio de 1937, o zepelim Hindenburg partiu da Alemanha, cruzou o Oceano Atlântico e chegou ao aeroporto de Lakehurst, em Nova York, nos Estados Unidos. No dia seis, durante a aterrissagem, com o atrito dos cabos de aço de ancoragem, o material que cobria a parte traseira, pegou fogo. O incêndio dominou o compartimento principal de hidrogênio e provocou uma grande catástrofe, causando a morte de 36 pessoas. Naquele tempo, a inflamabilidade do hidrogênio já era bem conhecida, e as medidas necessárias de segurança, regularmente tomadas. Porém, ninguém conhecia ainda a periculosidade do material plástico da cobertura. A culpa foi do piloto, do manobrista ou dos engenheiros?

Você é bom de religião ou em política? Gosta de biografias de grandes vultos da humanidade? Você sabe de quem é a culpa pelas mortes de Alexandre, o Grande, de Jesus Cristo, de Ganhdi, de Malcolm X, de Martin Luther King e de John Kennedy? Suspeitava-se que Alexandre tinha sido envenenado, mas pesquisas recentes nos levam a crer que ele tenha morrido de uma doença que em sua época era conhecida como a peste do Nilo, a nossa velha conhecida dengue, talvez a hemorrágica. Há quem diga que o culpado pela morte de Jesus é o povo Judeu, no que eu discordo totalmente. No entanto estou muito propenso a concordar com a culpa de um Judeu em especial, Caifás, e a sua gangue do cinedrium. Quanto a Judas Iscariotes, pobre coitado, bode expiatório, a culpa dele foi ser um zelote tolo que queria mais um rei que um salvador, a culpa dele foi acreditar que Jesus quando perseguido se libertaria, a si e a todo o seu povo. Pilatos? Esse é culpado literalmente por lavar as mãos, por ver a verdade e não julgar com base nela, mas sim com base numa diplomacia, numa política, corrupta e criminosa. Todos culpados.

A culpa pelo assassinato de Ganhdi, de Malcolm X e de Martin Luther King não é muito diferente, é culpa da intolerância, do fanatismo, da loucura, da pressão política e do homem que apertou os gatilhos. O caso de Kennedy só difere dos três anteriores por não trazer em si nenhum aspecto religioso, porem, está repleto de fatores políticos, de tramas e conspirações.

Alguém afinal de contas saberia me dizer com certeza de quem foi realmente a culpa pela falência da Encol ou pelo rompimento daquelas socialites famosas?

E ainda tem um monte de gente que chega pra mim e me pergunta de quem é a culpa. Pouco importa. É realmente insignificante se saber de quem foi ou de quem é a culpa por alguma coisa. No final vamos acabar descobrindo que todos os personagens, de qualquer historia, de uma forma ou de outra, uns mais outros menos, tem sua cota de culpa e de responsabilidade no desfecho do enredo que protagonizam, seja como atores principais ou como meros figurantes, mas uma coisa é certa, a parte maior da culpa cabe sempre a quem detém o poder, a quem manda, ou a quem delega esse mandato. Dessa culpa ninguém pode fugir.

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Leal ou fiel?

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Sei de antemão que o que vou dizer aqui, hoje, neste nosso bate papo, vai chocar muita gente. Mas é assim que fui ensinado a agir e é assim que sempre faço na minha vida. Digo o que penso, mesmo que para isso tenha aprendido a dizê-lo de tal modo, que mesmo chocando algumas pessoas, o que diga, possa suscitar algum acréscimo no indispensável conhecimento de nós mesmos e da vida.
Sou da opinião que lealdade e fidelidade são duas coisas bem diferentes, em que pese o fato de serem facilmente confundíveis.

Diferenciar coisas tão parecidas, e que ainda por cima se completam e se confundem é uma tarefa extremamente difícil, o que geralmente requer que se usem exemplos claros e práticos para dirimir qualquer possível duvida.

A principio pode-se pensar que se trata do uso de palavras diferentes para expressar a mesma idéia, a mesma ação, o mesmo sentimento. Não é. Da mesma forma que ética é diferente de moral, lealdade difere de fidelidade.

Este é um tema tão controverso que talvez não iremos exauri-lo em uma única crônica dominical, mas mesmo assim vou tentar.

Lealdade é uma espécie de mãe, de coletivo de fidelidade. Lealdade você tem que ter em primeiro lugar para consigo mesmo para que só então, possa ser no mínimo fiel para com os outros.

O mais incrível nisso tudo é que o oposto de fidelidade é infidelidade e de lealdade é deslealdade. No entanto há uma palavra que sintetiza o oposto das duas. Traição. Inclusive, traição não possui um antônimo único, prefixal. Não existem as palavras intraição ou destraição.

Mais incrível ainda é que quando se fala de lealdade ou de fidelidade, o que nos vem imediatamente na cabeça, antes de qualquer outra coisa, é o seu antônimo.

Um cônjuge pode ser espiritual e mentalmente leal ao outro e ser carnalmente infiel. Este pode ser desleal mentalmente para com o outro sem nunca tê-lo traído carnalmente.

Tempos atrás comentei esse assunto numa roda de amigos e notei o mal estar que causei, principalmente em algumas mulheres que estavam na conversa. Para algumas delas pareceu que eu estava tentando tirar uma carta de seguro, uma licença previa e tácita para trair. Quem pensou assim se enganou. Tentava era mostra-lhes o peso, a importância de certas ações, de certos sentimentos, nem sempre claros, nem sempre bem entendidos.

Em minha opinião a lealdade é um sentimento maior, individual. Independente do outro. Meu, pra mim, por mim. Fidelidade é coisa externa, de mim para o outro. É o sentimento, o vinculo que há entre animal e amestrador. Entre senhor e servo.
Um político pode permanecer leal, mesmo não podendo cumprir um compromisso preestabelecido.

Mas às vezes seu código de ética é tão frágil, que não lhe fornece moral para que seja honrado e leal, fazendo com que se torne um reles traidor infiel.

Caso real é a historia daquele político que tendo se empenhado na candidatura de três correligionários, depois da eleição destes, teve tratamentos distinto de cada um deles.

O primeiro, apesar de ser analfabeto, mas tendo grande senso de honra manteve-se leal a si e fiel ao companheiro. Exceção que confirma a regra.
O segundo, apesar de pouco instruído, mas sendo sábio, antes de cometer qualquer ato que pudesse ser interpretado como infidelidade, chamou o bom amigo das horas difíceis e mostrou-lhe a situação em que se encontrava. Foi leal consigo e com o outro, apesar de não cumprir in totum o que havia sido acordado. Meno male.
O terceiro, apesar de doutor, sendo covarde o bastante para não enfrentar a situação de cabeça erguida, sumiu sem dar explicação. Foi desleal e infiel consigo e com o companheiro. Com esse, o julgamento da historia será impiedoso.

Mas o melhor e mais claro exemplo da diferença que há entre lealdade e fidelidade se encontra na historia medieval de Tristão e Isolda(não percam o filme em cartaz nos cinemas), onde o amor de um rapaz por uma moça supera o sentimento de gratidão e devoção dos dois para com o pai adotivo dele que é esposo dela.

Em Tristão e Isolda, ficam bem aclaradas as semelhanças e as diferenças entre lealdade e fidelidade.

Há uma linha tênue entre estes dois sentimentos, entre estas duas ações, mas em minha opinião, são coisas bem distintas uma da outra.

Se perguntarem pra mim como prefiro ser tratado, responderei sem titubear, prefiro que as pessoas me sejam leais.

PS: Assistindo as chamadas da próxima novela das vinte horas da Rede Globo, “Paginas da vida”, escrita por Manoel Carlos, vi que o personagem Olívia, interpretada por Ana Paula Arosio, diz uma coisa muito parecida com isso, lealdade e fidelidade não são a mesma coisa. Resta apenas se saber em que contexto será desenvolvida e explorada tal afirmação, por este que é um dos grandes mestres da polemica televisiva.

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