REFAZENDO AQUELE SONHO

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De mim só me lembro estar elegante.
Terno escuro, camisa clara, gravata de seda…
Dela, não esquecerei de nada,
jamais…
Era um sonho…
Seu vestido longo de cetim,
seus olhos cor de mel,
sua boca carnuda.
Um aroma de sedução no ar…
Vinho,
conversa ao pé do ouvido,
música,
coisas pra beliscar,
inclusive seu braço pela fresta da cadeira.
Dança…
Seu corpo juntinho ao meu
encaixados como perola e ostra
ondulavam.
Seu olhar era denunciador,
seu rosto e seu corpo falavam por ela…
Tudo que aconteceu naquela noite
depois da hora em que a vi…
preferi esquecer…
Agora, distante em tempo e espaço
me imagino,
me quero em seu colo.
Mergulho em seu decote,
nele descortino o mundo e desço…
Encontro montes,
uma vasta pradaria,
vales,
um rio feito de suor…
Precipício…
Mergulho nele.
Quando emergir
quero estar de novo
nas costas dela,
imprensando-a contra a parede,
mordendo sua nuca,
lambendo seu pescoço,
e aos seus ouvidos
quero fechar a cortina de outra noite
e ver outro dia nascer.
Mais tarde,
depois do café,
ler pra ela esse poema
e fazê-la sentir ciúme
imaginando que refiz meu sonho
com outra mulher.
Republico esse poema a pedidos.

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CARRARA

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Quando se tira
mais do que se põe
o poema vira escultura.

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AMOLUAR

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Eu só queria saber luinha,
se tu ó menininha,
vem assim, toda certinha,
pra minha cabeça virar.
Vens cheia, pomposa, formosa
e te como, como queijo.
Vens minguante e no quarto
te como, como gueixa.
Vens crescente indecente!!!…
Te trago as pernas, a boca,
os seios, a mente.
Te como como louco
e tu louca,
te entrega a mim e consente.

PS: Antes que alguém ache que todo poema meu tem um endereçamento postal especifico, gostaria de avisar que o poema acima foi publicado no livro “O Quinto Cavaleiro”, em 1981, 28 anos atrás. 

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AUTOPSICOGRAFIA

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Não se faz poema de amor apenas à mulher amada, e para provar isso vou deixar que hoje fale por mim ninguém menos que Pessoa, que psicografando a ele mesmo vai oferecer em meu nome essa missiva a alguém que quando ler saberá ser especialmente para si. Essa pessoa, ao ler o poema abaixo talvez entenda que o sentimento de um poeta, desnudo em poesia, não expõe nem compromete jamais a sua amada. Ao contrario a veste com o manto branco e macio do amor. 
 

AUTOPSICOGRAFIA 

O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente 

E os que lêem o que escreve
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm 

E assim nas calhas da roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração

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A Costela de Adão

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Um dia desses…
pra ser mais preciso
numa noite dessas
depois de intenso amor
ela parou e perguntou a ele:
Qual a parte de teu corpo
em que parte dele
tu mais te excitas?
Ele ainda ofegante
dando tempo apenas ao pulmão
respondeu prontamente
“A parte de meu corpo onde mais me excito!?…
Você!
Cada vez que faço você se contorcer
cada vez que você acusa o golpe
cada vez que você retesa as coxas
as pernas em volta de mim…
nessa hora é a hora em que eu mais me excito.
Essa é a parte de meu corpo que mais se excita.
Você!”

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Uma casa na borda do mar

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Ainda criança
aprendi o que é uma ilha.
Nasci em uma!
Agora
marcado pelas memórias
descobri que podem haver outros tipos.
Descobri que uma porção de terra
cercada de poesia por todos os lados
cercada de amor
também é uma ilha.
Ontem fui à casa de Naftalí.
Lá, vi os olhos doces de sua Matilda
suas conchas queridas
seu cavalo de papel machê.
Vi sus mascarones de proa
seu barco
nunca navegado
Su comedor
onde ele era el capitan
os outros sus tripulantes.
Vi uma ancora imensa
varias bússolas
binóculos e mapas.
Vi suas roupas
seus chapéus
sua cama
seu banheiro.
Havia imensas rodas de charrete encostadas no alpendre.
Vi rostos congelados
pelo tempo
em madeira
mundo afora.
Um dia o mar lhe trouxe uma porta
ele a transformou em sua mesa de trabalho
navegou com ela
mares navegados
de forma única.
Vi o mesmo pacifico que ele via
nem sempre em paz
sentado em sua cama…
Mas o melhor de tudo
sobre ontem
vi Pablo em cada concha
em cada garrafa vazia
cheias de sueños e poesia
em cada objeto adicionado aos seus dias como o ar do qual precisava…
Entendi…
“Hoje é hoje.
Ontem se foi.
Não há dúvida.”

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Novos Caminhos, outros caminhos.

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Há muito não sentia
nem lembrava mais como era.
Tendo amado
pensei ser aquilo coisa única.
Mas entre
o tempo
constante e imutável
e o espaço
inconstante e modificável
continuei
amando
vida afora.
Desde então
procurava por você
Andava com uma forma, um molde
em minha cabeça,
em minha mão,
em minha boca.
Andava testando,
vivia provando.
Em umas, a boca encaixava, mas a cabeça não.
Em outras era a cabeça que encaixava,
o que não dava certo eram as mãos, a boca.
Noutras encaixava tudo,
cabeça,
tronco,
membros…
Nessas, era eu que não me encaixava.
Eu procurava você há muito tempo.
Não sabia como você era.
Não sabia como você seria.
Cantarias!?
Pedras duras e frias
Lastros de naus antigas.
Cantigas de mares
nunca dantes navegados.
Meu coração é o mar,
uma nau.
Você é uma vela,
o vento.
Vento que me faz singrar
em busca de algo que não sabia
não imaginava como seria,
mas que tinha certeza,
existia.

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Cardinália

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O primeiro grande prazer
inocente
foi colocar teu nome
antes secreto
na agenda

O segundo grande prazer
assustado
foi sentir meu pêlo eriçado
tua lingua
segredo de liquidificador

O terceiro grande prazer
contemplativo
foi vê-lo dormindo ao meu lado
havia um sorriso escapando dos lábios
resto do sonho da noite passada.

O quarto grande prazer
completo
foi sentir que tudo isso
nada mais é que a tal
felicidade!

O quinto grande prazer
eterno
continuar
sentindo
vivendo

Para Jacira, que deu primeiro o motivo e depois a idéia deste poema.

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Mini-contos ou micro-crônicas ou poesia?

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1
PADRE NOSSO

No lugar onde nasci, o padre, três horinhas, saía pela sacristia e cruzava a Praça Cursino Rabelo – nome do avô do ex-prefeito.
Toalha branca no pescoço, saboneteira na mão, quixotesco, ia banhar-se na casa da viúva sibá – dona da padaria.
Seis horas, já banhado e paramentado, rezava a Missa: Em nome do pai, do filho e do espírito santo… – “amante”.

2
ULTRASONOGRAFIA

O feto é fato. Fito a foto do fruto.
Angústia do pronto.

3
DEZEMBRO

Não quero ficar solene.
Rasgo terno e gravata, visto a velha roupa
de zorro – capa e espada e refaço o bilhete pra Papai Noel.

4
MENINO

Ser menino, arriar o calção e mijar o mundo.

5
A GELADEIRA

Dois litros (Johnnie Walker) d’água pelo meio – um manchado de batom.
Numa lata de salsichas (Wilson), só duas.
Uma caneca (de alumínio) emborcada num prato. Um talher enrolado num guardanapo de papel. Três fôrmas de gelo (vazias) na prateleira do meio.
Numa frigideira o resto do jantar de ontem (arroz, feijão, ovo, macarrão e salsicha).
Uma panela de arroz tampada com um prato. Uma lata de feijão (Wilson) na porta.
Na gaveta, dois tomates (mínimos), uma banda de limão, um pedaço de cebola e dois dentes de alho.
Os ovos que não foram almoçados ontem estão na fôrma. Da manteiga restou a manteigueira.
Em baixo, na porta, uma lata de óleo (Salada) e duas garrafas de Brahma (cerveja).
O açúcar contra a formiga (e o poeta contra ó mundo?). Leite condensado (Moça?).
1/4 de mamão (família).
Dois parafusos dos pés da geladeira e quatro pilhas (Ray-o-Vac) médias no congelador.
Há também um fusca (desmontado) atrás da geladeira.

6
O SUICIDA

Suicida seduzido pela janela.
E ninguém, ninguém para segurar pela asa do caixão.

7
TRÂNSITO GRÁFICO

Transeunte em diagonal, defunto em horizontal.

8
AMBULANTE

Maria Rita armava barraca na mureta da Praça Benedito Leite e vendia:
Dois-tão de pernas grossas; duas coxas macias, ancas graciosas e luzidias como as da égua Esmeralda, caso de amor de “seu” Dico.
Cintura de umbigo tufado – culpa da parteira “Dona” Maria José do Bom Parto.
Peitos ainda durinhos, mas já querendo murchar de tanto freguês apalpar.
Pescoço de bailarina, cabelos de espanhola, olhos de moça-virgem e andar de brincar ganzola.
Maria Rita armava barraca e vendia…

9
O JORNALISTA

A verdade em camisa-de-força.
E você aí batendo as teclas da máquina, criando obstáculos entre versão e realidade.

10
O DIA

O sol ao sul do quintal.
No oeste, seria a noite chegando.

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A Verdade

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Mais um texto da Sessão Pensamentos
 
Quando você estabelece qual o tipo de verdade que você quer ouvir, nesse momento você estabelece que o que você quer ouvir pode ser uma grande mentira.

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