Uma estória da Romênia

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Quinhentos anos atrás, Valáquia e Moldávia ainda não unificadas com o nome de Romênia, antiga Dácia de Trajano, teve sua história sintetizada na história de uma de suas famílias mais nobres, uma historia muito interessante que precisa ser contada.
“Vladimir, terceiro filho de um ferreiro fazedor de sabres, tomou por casamento os destinos de seus cunhados e implantou a sua dinastia”. Vlad foi um governante severo, mas justo, combateu com sucesso os turcos ao sul e os russos ao norte, mantendo a unidade interna de seus domínios, fator indispensável para resistir aos adversários internos e externos.
Conta à lenda que Ruben, seu irmão caçula, o seu preferido, certa vez, espancou, num mercado, um estrangeiro, um desses franceses vendedores de queijos, só porque o queijo que este o vendera estaria fedido. Vlad o levou então a julgamento, onde o jovem príncipe foi absorvido. Após a proclamação da sentença, Vlad que se encontrava no recinto, levantou-se, chamou sua guarda pessoal com um simples gesto de mão, aprisionou tanto o irmão quanto o juiz que o absolvera, levou-os para a praça central da cidade, amarrou-os em um obelisco, e ele mesmo infligiu-lhes o castigo que achava que mereciam: no irmão deu doze chicotadas, o dobro da quantidade de socos e pontapés com que ele agrediu o queijeiro; no juiz, um antigo amigo e aliado, foram dezoito chicotadas, metade a mais que no réu absolvido injustamente.
Vlad governou quase vinte anos e morreu ainda jovem, tinha pouco mais de cinqüenta. A causa de sua morte é incerta, uns acreditam que foi em decorrência de ferimentos de batalha, outros a atribuem a uma forma incomum de envenenamento onde o veneno teria sido introduzido em sua corrente sanguínea através de suas feridas.
Com a morte de Vlad, o justo, seu filho mais velho Otto depois conhecido como o sábio, passou a governar. Pouco dado a batalhas, preferia delega-las a seus generais, quase todos estrangeiros, para que nenhum amigo ou parente se encantasse pelo poder e tentasse uma sublevação contra ele. Otto governou com uma tranqüilidade incomum para aquela época, naquela região tão conturbada do mundo. Incentivou as artes e tornou o estudo obrigatório a todas as crianças pelo menos dos sete aos doze anos. Construiu hospitais, estradas e firmou pactos comerciais com paises da Europa ocidental. Casou-se com Miguela, uma princesa Moldava, que durante anos só procriou filhas e que faleceu ao lhe presentear o seu único filho varão, o futuro príncipe Dácio.
Otto casou todas as suas filhas com seus sobrinhos mais inexpressivos, garantindo assim que ninguém cobiçaria o seu poder, o poder que ele preparava para o seu herdeiro.
Depois da morte de sua esposa Otto jamais se casou novamente e criou seu filho Dácio, sem uma presença feminina, de mãe. Quando Dácio completou treze anos, Otto chamou Serguei Kostakov, seu mais fiel general e mandou-lhe com ele para Paris onde o jovem príncipe deveria estudar para se tornar o governante, não mais de um principado, mas sim de um país unificado e independente, que Otto preparava para ele.
Quinze anos se passariam até o príncipe voltar a Valaquia e a Moldavia, terras de seu pai e de sua mãe. Mas Dácio era como chamaríamos no inicio do século passado, um Jonatas, um almofadinha. O próprio pai se assustou quando o viu pela primeira vez, mas o amor de pai é maior que tudo, logo, o velho Otto só tinha olhos para as qualidades do seu futuro “Hospodar” como os romenos chamavam o seu governante.
Otto fez então o que nenhum outro governante fez antes ou depois dele, abdicou em nome de seu filho e ficou olhando Dácio administrar uma embrionária Romênia, somatório de da Moldavia, da Valáquia e agora também da Transilvânia, libertada de seus vizinhos húngaros.
Dácio porem, para tomar suas decisões, ouvia mais ao seu mentor Serguei Kostakov que ao seu pai, o sábio e amado governante. Sem raízes, Dácio começou a descartar os amigos de seu pai, desprestigia-los, desqualifica-los, chegou até a persegui-los e exilá-los. Isso tudo causou grande dor e angustia ao velho Otto, que, no entanto não deixava nunca transparecer seu desagrado com as atitudes temerárias e irresponsáveis de seu filho.
Apenas alguns poucos anos se passaram desde que o “Hospodar” Otto, o sábio, abdicara em nome de seu filho Dácio, o tolo e o povo da Romênia já se rebelava contra seu novo governante. Mas o estopim da grande crise que viria ocorreu quando Kostakov, sob ordens diretas de Dácio prendeu todos os seus cunhados, sobrinhos e alguns conselheiros sob a acusação de alta traição. Otto, então com setenta anos apresentou-se nas masmorras para onde foram levados os prisioneiros, para também ser preso com eles, pois como os outros, estava descontente com os rumos que tomara sua nação. Quando o povo soube disso, invadiu o castelo, e só não chacinou o tolo Dácio e seu prepotente mentor estrangeiro, graças à intervenção de Otto, que reassumiu o comando, prendeu e depois exilou o filho, e colocou em seu lugar, um neto, filho de sua filha mais velha, Anna, como “Hospodar”. Foi esse neto, Carlos, depois conhecido como Carlos, o grande quem consolidou a unificação da Romênia.

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Uma carta de 500 anos

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Recentemente, um grupo de pesquisadores contratados pela biblioteca de Florença encontrou uma carta de autoria de Nicolau Maquiavel endereçada a Francisco Vetori. Ela me chegou as mãos através de e-mail assinado por alguém que usa um sugestivo nickname, Conde Lerin, nome do nobre que livrou Navarra, Florença, Roma e o Mundo da nociva figura de César Borgia.
Dou-me o direito, neste domingo, de reportar-lhes apenas as passagens mais interessantes, pois é uma carta muito extensa e nem sempre trata de assuntos pertinentes aos nossos dias.

Magnífico oratori Florentino Francisco Vectori
Apud Summum Pontificem et benefactori suo
Romae,
Magnífico embaixador

Tardias jamais foram as graças divinas. Digo isto porque me parecia não ter perdido, mas sim estar apenas esmaecida a vossa graça, tendo estado vós muito tempo sem escrever-me; estava em dúvida de onde pudesse vir a razão de tal.
Readquiri, no entanto, essa graça pela vossa última de 23 do mês passado, pelo que fico contentíssimo e mais ainda com o seu pedido de enviar-lhe alguns trechos do livro que estou escrevendo sobre um determinado príncipe e que reluto e relutarei, até serem consumidas as minhas derradeiras forças, em publica-lo antes de meu próprio passamento, mesmo que o retratado já estiver perante o juiz supremo. Dante, tenho certeza, o teria incluído em seu poema.(…)
(…) Há um capitulo em que comento como deve agir um príncipe para ganhar uma disputa, qualquer que seja ela, “Se ele deseja conquistar uma determinada honraria, um cargo ou um titulo é de bom alvitre que tenha reconhecidamente por todos, povo, súditos, cortesãos e nobres, uma conduta impecável ou pelo menos razoável, onde o saldo seja-lhe sempre favorável, isto é, que ele tenha feito pelo menos, um pouco de coisas melhores que as piores coisas que ele com toda certeza o fez.” (… ).
(…) Em certa altura desse meu retrato eu pergunto e eu mesmo respondo, “se é melhor, ser amado ou ser temido”, nele discorro sobre as duas possibilidades de agir de um príncipe, através da distribuição do amor e de seus sentimentos complementares como a amizade, a liberdade, a sinceridade, a humildade, a abnegação, a bondade, a gratidão dentre outros ou pela consumação do medo e de seus correlatos, como a ganância, a usurpação, a força, o descaminho, a fraude e a falsidade, dentre tantas. “Se o dito poderoso sempre usou no trato com a sua gente, o caminho do amor, com toda certeza será guiado ao poder para sempre, até ele e através dele. Se foi o caminho do medo que usou em seu mandato, terá sucesso por algum tempo, mas um dia ele será defenestrado do poder como todo tirano, em qualquer lugar, a qualquer tempo”(… )
( … )” Se o príncipe tiver a oportunidade, de construir em torno de si, um grupo de aliados, por meio de um grande evento político, e não o fizer, predefinindo sobressair-se mais que todos, então esse será o começo do seu fim, pois é em eventos episódicos, numa guerra por exemplo, que os príncipes conseguem se afirmar. É onde a sua bravura, a sua coragem e a sua nobreza o colocam irremediavelmente no coração do povo e na mente dos nobres, seus pares. Mas se ele no meio da batalha, ao invés de procurar proteger os seus mais fieis colaboradores, distribuindo-lhes armamentos adequados, colocando-lhes em posições favoráveis no campo de batalha, se ao invés disso, ele só pensar em si, em si resguardar, em si proteger, em garantir que ele próprio sobreviva em detrimento dos demais, ai então o seu fim estará muito próximo”. (…)
(…)”Há uma outra coisa que poderá abreviar o reinado de um príncipe. É se ele no intuito de perpetuar-se no poder, tentar e conseguir mudar leis antigas, que o povo aprove, que se identifique com elas, aí então tudo estará perdido, principalmente se essa nova lei privilegiar aqueles de pouco caráter, se for uma lei que exponha ainda mais o fígado, as vísceras, de um Prometeu acorrentado que clama por uma mínima chance de pelo menos defender-se do bico, das garras daquela ave sinistra, colocada ali, há muitos anos, por um deus supremo, ou quase.
Apostar na fragilidade do caráter de seus iguais é um jogo muito perigoso, pois é pouca a diferença que há entre a conseqüência do amor e do medo, porque quem pode o mais, pode o menos. Quem pode hoje sustentar-lhe poderá um dia derrubar-lhe”. (…)
( … )” A essa altura, ele terá se transformado num transtorno: terá se expandido muito, pisado em muita gente, terá então uma grande população de asseclas dependendo exclusivamente dele, a quem ele terá que alimentar, vestir, cuidar da saúde, mas agora contará com um pequeno grupo de leais e mesmo nele, alguns de seus condes, cardeais e generais não o suportarão mais.
De sua maneira ele é leal com seus, mas cria muitas dificuldades e vai cobrar-lhes pelas facilidades que já são deles. Terá desagradado um exercito de nobres, arriscado-se à condenação da plebe, terá sido pego diversas vezes desviando para si, suprimentos do tesouro, e o que é pior, estará ameaçando uma coisa que para os seus é sagrada: a imagem deles. Ele será um vulcão, prestes a explodir a qualquer momento e não vai atingir quem se opuser a ele, mas pode liquidar quem a ele se aliar, quem por ele quebrar lanças.” (…)
( … )Desejaria, pois, que vós ainda me escrevêsseis aquilo que sobre estes assuntos vos pareça. A vós me recomendo. Seja feliz.

Florença, 10 de Dezembro de 1502
Niccolò Machiavelli

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Tertuliano ?

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Livre, porém honesta adaptação de um discurso com aparte.
Nomes e cargos foram onitidos e/ou trocados, para que uma obra política possa ser transformada em obra literária.

Um deputado destilava o seu comprovado talento para a critica …

“… Por mais que se discutam outros assuntos importantes e relevantes o assunto do momento na realidade é esse troca-troca de partidos. São deputados que estão se acomodando em outras legendas e de quinta-feira até ontem muita coisa ocorreu e parece que muita coisa ainda vai ocorrer. Fui informado que o próprio primeiro mandatário, ele próprio telefonava, ou procurava deputados para se filiarem ao seu partido, então me lembrei do barão de Itararé que dizia que “ há alguma coisa no ar além dos aviões de carreira ” , e havia . Tanto havia, que na convenção desse partido – presente estava o Presidente do de uma outra agremiação partidária e Líder maior, do maior Bloco Parlamentar desta casa – filiaram-se cinco deputados, inclusive três do próprio Bloco. Mas esse deputado, Presidente desta outra agremiação partidária, talvez tenha pensado consigo mesmo e dito que o “ bom cabrito não berra ”, foi a tribuna dizer que procuraria fazer do seu partido um grande partido ou talvez o maior partido do Estado .
Mas logo em seguida um senador que tinha vindo a essa Casa antes da eleição para a Mesa Diretora prestar o seu apoio ao Presidente vai à tribuna e assumindo os ares de pitonisa diz que os pequenos partidos, inclusive o do anfitrião iria acabar. Aí eu me lembrei de Shakespeare : “Há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia”.
Mas o deputado não passou recibo, homem católico foi para casa, se recolheu e consultou as escrituras e viu lá no evangelho segundo São Mateus que Jesus disse : “ quem não é por mim é contra mim ”. E tratou naturalmente de cair em campo para reforçar o seu partido. Filiou quatro deputados e ele com certeza deve ter dito a si mesmo, aquele provérbio árabe, “ Nada melhor que um dia depois do outro ”.
Isso naturalmente deve ter causado algum comentário no almoço lá no palácio, é possível que alguém tenha dito ao Governador “ Quem com ferro fere, com ferro será ferido ”. E o Governador deve ter comentado , “ Quem tem com que me pague não me deve nada ”. Lembrando de um ditado muito conhecido “ Quando a gente vê a barba do vizinho pegar fogo trata de colocar a nossa de molho ”. Como “ para bom entendedor meia palavra basta” , e como dizia um grande deputado do passado “ Quem viver verá ”.

Admirado com a verve do colega e sabendo de que o maior interesse do tribuno era fazer “o mar pegar fogo para comer peixe frito, um novato resolve aparteá-lo e citando Shakespeare,, para colocá-lo em cheque …

O nobre colega me lembra muito um Senador famoso, que faz discursos através de versos e rimas.Mas eu tenho certeza que V.Exa não decorou essa grande pérola da oratória maranhense, tenho certeza que isso tudo é feito de improviso. É por isso que eu gostaria apenas de citar Shakespeare em sua frase mais conhecida e talvez a mais forte: “ Ser ou não ser eis a questão ” .

E o macaco velho, astuto e matreiro, talvez o único que realmente tenha entendido o sentido do aparte , talvez o único que realmente saiba o endereço certo daquela profética frase, não se fez de rogado …

Eis a questão, deputado. Eis a questão. V.Exa certamente não vai se zangar comigo. É que V.Exa, atabalhoado, sempre com a melhor das boas intenções, ãs vezes me faz lembrar um velho poeta português, Guerra Junqueiro, que até foi excomungado porque era ateu . Ele é autor de um poema chamado a velhice do padre eterno, mas ele é autor também de uma pequena sátira que em parte, deputado, encaixa-se perfeitamente com o que V.Exa tem feito aqui e eu vou pedir mais uma vez perdão não é para ofender V. Exa, mas eu sou daqueles que “ perde o amigo mais não perde a piada ” e V.Exa vai me permitir dizer esse pequeno verso cujo o título é , e o poema dizia o seguinte: , frívolo e peralta que foi um paspalhão desde fedelho, tipo incapaz de ouvir um bom conselho, vivo ou morto não faria falta, um belo dia deixando de andar a malta foi ter a casa do pai honrado velho e na sala, diante ao espelho a admirar-se perguntou: , és jovem, és rico, és formoso, que mais no mundo se te faz preciso? E o pai que atrás de uma cortina ouvia tudo, respondeu : Juízo. É isso que falta para V.Exa, muito obrigado. ”

Ao outro, nada restou, a não ser levantar-se e aplaudir. Na saída, ao pé da escada, comentava com um terceiro colega : ainda bem que ele recitou , e não Morte e vida Severina ,pois naquele poema há muita dor ,miséria e seca .

“Não adianta chorar pelo leite derramado” , ou pela água . “ Alea jacta est,” Resmungou.

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Zapiando *

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Outro dia, zapiando pelos mais de 200 canais de televisão disponíveis, deparei-me com o governador eleito da Bahia, Jaques Wagner, dando uma entrevista no programa do Jô. Lá pelas tantas ele tentou resumir e simplificar os motivos que levaram o grupo liderado pelo senador Antonio Carlos Magalhães perder as ultimas eleições: “porque já era tempo de perder” disse ele explicando que Antonio Carlos já detinha o poder na Bahia há tempo demais e que chega uma hora que as coisas precisam mudar.
Quando ouvi o que ele disse, imediatamente, me lembrei de uma conversa bem parecida com essa que tivemos, eu, meu pai e meu tio Zé Antonio, logo depois de perdemos a eleição para Prefeitura de Pindaré.
O mesmo aconteceu em São Domingos. Um grupo deteve o poder por 16 anos e agora o outro já comanda o município há 18. Isso também é o que deverá acontecer nas próximas eleições municipais em São Bernardo, onde um único grupo tem se mantido no poder nos últimos 46 anos. Já ta na hora de perder, né!?
Imaginei que além do fator tempo, outras coisas contribuíram para a queda de Antonio Carlos na Bahia, então liguei para um amigo e ex-colega constituinte, que é intimo de ACM, pra saber dele quais os verdadeiros motivos que levaram o governador Paulo Souto a não se reeleger.
“Ele fez um mau governo?”, perguntei-lhe, ao que ele foi categórico em dizer que não, muito pelo contrario, fez um ótimo governo tanto política quanto administrativamente. “Então o que foi que houve?” Ele me enumerou alguns erros inacreditáveis de serem cometidos por um grupo que se imagina ser profissional na política.
Em primeiro lugar ele disse que havia certa sensação de já ganhou, o que prejudicou a todos, inclusive as bancadas na Câmara e na Assembléia. Em segundo lugar, a escolha dos candidatos à vice, a senador e seus suplentes foram grandes equívocos e até certo ponto arrogância e prepotência.
O candidato à vice, que foi nosso colega na constituinte e é uma grande figura, um político de primeira, era o nome mais indicado pra ser o maior puxador de votos na chapa para Câmara Federal. No lugar dele deveriam ter colocado alguém novo, ligado ao pólo petroquímico, um deputado estadual, um prefeito de uma cidade importante. O terceiro erro crucial do PFL baiano foi também um grande acerto do PT. A candidatura de Rodolfo Tourinho pesou muito na campanha, enquanto João Durval do PDT contava com o beneplácito do PT que não tendo candidato a senador, ficou livre pra pedir votos só para governador, o que agregou pra si, para o PT, muitos votos de todos os candidatos ao senado. Isso sem contar que muitos agregados de ACM e de Souto, trataram de se garantir e buscaram um mandato de deputado numa das duas esferas, o que ao invés de ajudar, acabou prejudicando. Poderíamos ainda citar um quarto erro, o fato de o grupo liderado por ACM, pela primeira vez em muitos anos, não ter se renovado, não apresentou novas lideranças capazes de motivar o eleitor a votar em suas propostas que também não foram renovadas. O grupo envelheceu.
Depois dessa conversa, resolvi ligar para dois outros velhos amigos meus, também ex-constituintes, para saber o que aconteceu nos seus Estados.
Liguei para um amigo no Para e para um outro no Paraná. Dos dois ouvi comentários bem parecidos.
No Para o governador Almir Gabriel posicionou-se contrario a criação do Estado de Carajás e ainda por cima optou por uma correligionária de Belém e da mesma legenda, quando poderia ter agregado um companheiro de outro partido e da região do futuro Estado do Ferro (Carajás). Esse erro foi apontado como decisivo para sua derrota. Mas Almir e o seu PSBD ainda são tão fortes que elegeram o senador Mário Couto com 52% dos votos, mas ainda assim perdeu para Ana Julia no segundo turno com 10% de diferença. Meu interlocutor também comentou que Almir Gabriel, em seus mandatos anteriores, tratou de desmontar toda a antiga base política paraense, a estrutura de sustentação do poder. Coisa do neoliberalismo. Quando ele mais precisou dessas bases, dos antigos caciques, não os tinha a seu lado, estavam do lado de Jader.
Foi comentado também que, em alguns Estados, aconteceram grandes e importantes rupturas de grupos dominantes ou simplesmente verdadeiras traições, como nos casos dos Estados do Ceara e do Tocantins.
No Paraná aconteceu a disputa mais acirrada do último pleito, 10.479 votos ou 0,10% de diferença. Aqui fica a impressão de que o fato do PMDB de Requião não ter tido candidato ao senado, e o PSDB do senador Álvaro Dias não ter tido candidato a governador, pode ter sido decisivo. Mas com uma diferença tão ínfima de votos, não há como apontar algum erro ou algum acerto mais ou menos importante.
A opinião unânime dos meus três interlocutores daquela noite é que perder uma eleição não significa necessariamente ser fraco, ruim, ou pior que o adversário. Todos concordaram que os eventuais erros ou acertos de um lado ou de outros foram menos importantes, concordaram muito mais com a explicação do governador eleito da Bahia, chega uma hora que tem de se perder mesmo. Teve um, evangélico, que citou até a bíblia: “… há tempo para tudo, pra plantar, pra colher…” E acrescentou, “pra ganhar e pra perder, mas tudo que Deus faz é bom, Deus é fiel…”.
Depois dessas conversas, voltei a zapiar até cair num canal de documentários, onde uma voz grave dizia aquela celebre frase: “Este filme é baseado em fatos reais. Alguns nomes e lugares foram modificados para facilitar a sua realização”.

* Zapiar é ficar trocando insistentemente de canal de televisão, em busca de um programa que mais lhe agrade.

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Salada de Shakespeare

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A doença do governador

Antonio Cliff
Postdoctoral Fellow de psicanálise da John Hopkins University

Passei alguns anos fora do Maranhão para fazer o meu doutorado em Baltimore, na John Hopkins University. Voltei para passar alguns dias e fiquei escandalizado com o que vi no nosso Estado. Era impossível pensar que o pupilo do Sarney, aquele a quem ele dera todas as oportunidades na vida, iria traí-lo da maneira mais ignominiosa e com inacreditável conduta. Mas isso me dá matéria para recordar um dos meus professores mais brilhantes, o doutor Moore sobre suas dissertações sobre a traição.
Freud buscou sempre seus exemplos patológicos em personagens literários. E, assim, valeu-se de Lady Macbeth para simbolizar a mulher destruidora que obriga o marido a matar o bondoso rei Duncan, seu virtual pai, para roubar-lhe o reino e fazê-la rainha. Essa mulher é a imagem de tudo que pode ser diabólico. Ela incentiva o marido ao parricídio e diz: “Tu não és homem? Mata. Eu te abjuro se não o fizerdes”. Macbeth assim se conduz e comete um dos maiores atos de traição. Depois, ele é atormentado pelo remorso e ela retruca: “O que foi feito não pode ser desfeito”.
O sangue não sai das mãos dele nem das dela. Ela procura lavá-las. Mas não consegue. “Elas jamais ficam limpas”. O odor da traição também não sai e Shakespeare, na tragédia de Macbeth, diz que nem todas as águas dos oceanos, nem todos os perfumes do mundo limparão a cor nem o cheiro da traição.
Macbeth é rei, ela é rainha, mas o remorso bate em seu corpo. E vem a maldição: “Não dormirás jamais”. E ele não dorme e exclama: “O inferno é escuro. Quem poderia pensar que o Velho tivesse tanta força? Ainda sinto o odor da traição”.
Levado pela mulher ele constrói sua grande desgraça e diz: “Não há remédio que cure uma consciência atormentada. Perdi a honra, a lealdade, o amor, os amigos”.
Ele fica doente preso pelo remorso, pelo ato vil que praticou. Assim está o governador. Por mais monstro que seja ele não pode deixar de sentir o que fez. Sua consciência o atormenta. Ela pode ser chamada de hepatite, depressão, quarto caído e aleijado. Mas o que tem realmente é aquilo que ele não pode, como Macbeth, afastar: o odor da traição, sua consciência queimando.
Quando voltar à universidade, vou relatar esse complexo clássico de Lady Macbeth e Macbeth, que Freud dizia que se fundiram na mesma desgraça. Ela suicida-se e ele desaparece por não ter filho varão.
O padre Vieira fez um sermão sobre as mulheres fatais que levaram os homens à desgraça: Herodias, Bersabé, Cleópatra e outras. Destas mulheres diz ele: “tu es diaboli janua”. (Tu és a porta por onde entra o diabo ao homem.)
A doença do governador José Reinaldo não precisa ser desvendada: é o complexo de Lady Macbeth de que falava Freud. Não tem cura, é a doença da traição.

Joaquim Nagib Haickel
Deputado estadual – PSB

Ligou-me na última terça-feira um amigo com quem não falava há muito tempo. Ele parecia preocupado. Ligou para me relatar uma conversa que teve com alguém de dentro do Palácio, na qual a pessoa lhe disse que todo mundo, por lá, estava comentando que eu seria o verdadeiro autor de um artigo intitulado A Doença do Governador, publicado sob o nome fictício de Antônio Cliff. Alusão a minha pessoa como o autor do referido artigo já havia sido feita anteriormente, na minha presença e de brincadeira, diga-se de passagem, por alguns amigos, em um vôo entre São Luís e Imperatriz.
Li o referido artigo que foi publicado neste jornal há algumas semanas atrás. Li e reli. Achei uma obra literária de ótima qualidade, e não pretendo aqui analisá-la pelo ponto de vista político, pois acredito já ter deixado bem clara, em várias ocasiões, a minha posição quanto a toda essa crise que assola o nosso Estado. Apesar disso, acho justo e oportuno dizer ao autor, quem quer que seja ele, que analisando as coisas pelo seu ponto de vista, mesmo não concordando in totum, reconheço que ele teve um grande senso de oportunidade e um timing preciso ao abordar a questão.
Quero deixar bem claro, em primeiro lugar, que, se tivesse sido de minha lavra tal material, por achá-lo excelente, bem concebido e bem executado, jamais o publicaria sob pseudônimo. Não daria o credito de algo que achasse tão bom a um cavalo, para usar aqui a terminologia apropriada ao candomblé, seus encostos e incorporações.
Todo mundo que leu o tal artigo concorda pelo menos em uma coisa: que ele é de ótima qualidade. Algumas destas pessoas imaginam que tenha sido eu o seu autor. Devo confessar que chego a ficar lisonjeado e envaidecido com isso, porem fico também duplamente triste. Comigo mesmo, pelo fato de não ter tido eu a idéia nem a competência para escrevê-lo. Depois, pelo fato de algumas pessoas imaginarem, erradamente, que eu usaria um pseudônimo para dizer o que penso, para defender uma idéia. Nunca precisei disso. Digo sempre o que penso e tenho a coragem de fazer isso amparado em meu próprio nome, dando a cara pra bater, se for o caso.
Nos meus artigos, uso e abuso das figuras de linguagem, principalmente das metáforas. De vez, em quando recorro ao artifício da comparação. Sempre que posso, traço um paralelo entre os fatos de nosso dia-a-dia com personagens literários, cinematográficos ou com fatos e figuras históricas. Como ocorreu no caso dos artigos Deu no New York Times, De Quem é a Culpa e Uma Carta de 500 Anos, para citar apenas três. Mas todos estes, apesar de polêmicos, foram escritos e assinados por mim.
Quem me conhece, sabe que sou uma pessoa direta e franca. Acredito que dizer a verdade é bem mais barato, mas acredito que o uso e a prática da verdade não significa o exercício da grosseria ou da deselegância, e isso eu aprendi desde cedo na vida.
O uso de um personagem de Shakespeare como estereótipo não é novo nem na literatura nem na psicanálise, e uma vez que o tal Antônio Cliff se diz pós-doutorando em Psicologia pela conceituada Universidade de Johns Hopkins, pelo menos ele deve ser sabedor disso, já que não soube escrever nem o nome da Universidade de que se diz estudante (É Johns e não John). A única ressalva literária que faço ao artigo é quanto ao fato do autor ter usado um nome que não é apenas fictício, chega a ser inverossímil, parece até sacanagem. Faz-me pensar que ele queria propositalmente menosprezar a nossa inteligência.
Quanto ao conteúdo do texto e aos personagens a que alude, gostaria de dizer ao doutor Antônio que existem outros personagens shakespeareanos que ele poderia agregar a essa história, para melhor exemplificar o momento caótico pelo qual passamos.
Lembro-me de saída do Yago, intriguento e dissimulado, que, visando apenas vantagens próprias, destrói através da calúnia e da difamação, a vida de seu senhor Otelo, o Mouro de Veneza. Tal qual Yago, temos dúzias, de todos os lados. Ou ainda o corcunda e o coxo Ricardo III, que, a certa altura de sua covardia, em meio a uma batalha decisiva, brada que trocaria seu reino por um cavalo. Deste, existem alguns por aí. E finalmente, poderíamos acrescentar a essa lista Catarina, de A Megera Domada (ao lembrar dela, só me vem à mente a fisionomia enlouquecida da Catarina interpretada por Elizabeth Taylor, que neste filme contracena com seu marido, Richard Burton).
Nessa nossa tragicomédia Timbira e bufa, se procurarmos bem, encontraremos figuras perfeitas para todos esses papéis, para cada um dos arquétipos e personagem de Shakespeare. Encontraremos vários Brutus de Júlio César; Goneril, Regane e Cordélia, as três filhas do rei Lear e o próprio rei; o Romeu e a Julieta, apaixonados e suicidas, da obra de mesmo nome. Shylok, o agiota do Mercador de Veneza; Há até o fantasma do pai de Hamlet, príncipe da Dinamarca. E por ai vai.
No final, o que todo mundo vai acabar descobrindo, até mesmo o doutor Antônio Cliff, é que há pelo menos um título de uma das obras do grande dramaturgo inglês que cabe como uma luva para definir tudo isso que estamos vivenciando: Muito barulho por nada.
Quem viver, verá.

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Pequeno e rápido explicador *.

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A propósito da febre de dicionários que assola o país, aqui vão algumas perolas de significados e citações:

HISTÉRICO:
Do grego hysterikos, referente ao útero. Adjetivo. 1. Relativo à ou próprio da histeria. 2. Quem tem histeria. 3. Do popular irritadiço, zangadiço, nervoziço.
Citação: “Chamar-se de histérico o indivíduo que ainda consegue indignar-se com as mazelas, as hipocrisias, as injustiças, e as safadezas deste mundo, longe de ser um insulto, é grande louvação”.Trecho do discurso proferido pelo Senador Afonso Arinos em comemoração ao dia do Jornalista em 1946.

DESINFORMADO:
Adjetivo. 1. Que, a respeito de determinada coisa não está informado ou está mal informado. 2. Diz-se daquele que foi mal informado. 3. A quem foi prestada informação falsa.
Citação: “Dizer que um cidadão é desinformado não diminui a culpa do detentor da notícia. Mal formado ou deformado, é normalmente aquele que detentor de um poder maior, sofisma, frauda e ilude, semeando notícias falsas, fazendo proliferar a mentira, terreno fértil da corrupção”.Do mesmo discurso do Senador Afonso Arinos citado acima.

BURRO:
1.Sinônimo de asno, jerico, jumento. Brasileirismo nordestino, jegue. 2. Mu. 3. Adjetivo. Individuo bronco, curto de inteligência, estúpido, imbecil.
Citação: “…E o burro, como todo prepotente, pensando na impunidade, mudou a colocação das peças no tabuleiro de xadrez, esquecendo-se que todo jogo é anotado lance a lance.” Do livro A Procura de Bob Fischer de George Greenhood.

DESONESTO:
Prefixação, des + honesto = não honesto. 1. Diz-se do indivíduo que não é honesto, que não tem qualidade ou caráter honesto. 2. Sem honra, sem dignidade, sem probidade, sem decoro, sem decência. 3. Aquele que não é probo, não é conveniente, não é virtuoso, não é íntegro.
Citação: “…Desonesto mesmo, não é só aquele que rouba. Não é só aquele que ontem nada tinha e hoje tudo tem, mesmo sem ter trabalhado, herdado, ou ganho nas apostas. Desonesto não é apenas aquele que enricou diminuindo o soldo das legiões ou desviando o pecúlium das viúvas. Não é só aquele que fraudou, corrompeu e que burlou. Desonestos são principalmente aqueles que dentre vós aceitam tudo isso.” Discurso de Caio Graco no Senado Romano em 78 AC.

MOLEQUE:
Do Quibundo, mu ’ leke, menino. 1. Negrinho. 2.Indivíduo sem palavra ou sem gravidade. 3. Canalha, patife, velhaco. 4. Brasileirismo, menino de pouca idade. 5. Adjetivo engraçado, pilhérico, trocista, jocoso. Aquele que vive de molecagens.
Citação: “Todo mundo, um dia já fez das suas, já colou chiclete sobre o assento da cadeira do cinema, já colocou laxante no ponche da festa em que entrou de penetra ou já esvaziou os pneus do carro do namorado chato da irmã mais velha. Mas há aqueles que não só fizeram tudo isso ao seu tempo, mas que continuaram fazendo durante toda a vida. Há aquele que não conseguiu se livrar do seu moleque primordial”.Do livro, Infância: A Raiz dos Problemas, do Psicólogo Walmir Penteado Mourão.

* Em Portugal, os portugueses chamam dicionário de explicador. Enquanto isso aqui no Brasil, meias palavras bastam.

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Os pichadores que se pichem.

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Apresentei na Assembléia Legislativa um projeto de lei que normatiza a venda de tinta spray. Tomei essa iniciativa como forma de ajudar a combater os efeitos danosos das pichações. Nem tanto para minha surpresa, mas principalmente para a definitiva constatação de que realmente existem pelo menos dois tipos de lei, a lei justa e necessária e outra legal e nem sempre eficaz, a Comissão de Constituição e Justiça da ALM, baseando-se apenas no ponto de vista processual, deu parecer contrário ao meu projeto.
Consumir drogas é crime, logo cheirar cola de sapateiro, à luz da lei vigente, é crime. Criaram-se então leis para dificultar que uma pessoa cheire cola de sapateiro. Seguindo o mesmo raciocínio, fazer pichações é crime, mas será possível que não se pode criar uma lei para inibir o crime das pichações?
O espírito do projeto não é outro senão o de contribuir para a preservação do nosso patrimônio, individual e coletivo, conservar monumentos históricos e obras de arte que são alvo fácil do vandalismo. Com a regulamentação da venda da tinta spray, pretendia-se desarmar os pichadores, pôr fim aos ataques dos vândalos, que emporcalham monumentos históricos e até prosaicas fachadas e muros de casas de pessoas simples.
Ora bolas! se é proibido bandido portar arma de fogo – e o cidadão respeitável também – como é que podemos permitir que um bandido, de outra espécie, porte uma lata de tinta spray, arma com a qual pode vir a ferir gravemente o patrimônio de alguém ou mesmo o patrimônio publico.
E aqui cabe contar-lhes uma história que aconteceu comigo mesmo: Uma vez, ao chegar no meu escritório, deparei com o muro totalmente emporcalhado por uma pichação. Mandei imediatamente retocar o muro. No outro dia ele amanheceu pichado novamente. Tive então uma idéia, um tanto maquiavélica, devo reconhecer, resolvi quebrar economicamente o vândalo, repintando o muro tantas vezes quantas fosse pichado, pois imaginei que deveria eu ter mais condições de comprar cal para caiar o muro que ele para comprar tinta para suja-lo. Foram quase duas semanas nessa lenga – lenga. Ele sujava, eu mandava limpar. Certa manhã, recebi um telefonema do vigia, o nosso muro não havia sido pichado. Tive uma maravilhosa sensação de vitória, havia vencido, não pelo cansaço, mas pela dificuldade econômica que impingi ao meliante. Estava tão satisfeito que larguei o que estava fazendo e fui ate lá, para ver com meus próprios olhos. Chegando lá constatei que o nosso muro realmente não estava pichado, mas fiquei furioso ao ver que o muro e a parede externa da casa do vizinho estava completamente rabiscada, e com certeza este não teria a mesma disponibilidade para enfrentar essa guerra suja, de tinta.
A pichação é um tipo de vandalismo cada vez mais freqüente e que cresce sob as barbas da polícia. Apresentei esse projeto como proposta de resistência à praga dos pichadores, para manter o vandalismo à distância, longe dos nossos muros e monumentos. A tinta spray, como bem se sabe, é a principal ferramenta das gangues de pichadores. A praga do spray hoje atormenta a maioria das cidades brasileiras. No Rio de Janeiro, as gangues sujaram até a cúpula da Igreja da Candelária e picharam o Cristo Redentor. Em São Paulo, a turma da sujeira também avança como uma epidemia. Em São Luís as gangues – pelo que fui informado – são dezenas e têm nomes estranhos, como GKP, Oi, GNC, GVF, Garotos do Anjo, dentre outras.
É bom que se ressalte que grafiteiro não é pichador. Os pichadores espalham mensagens que irritam pela poluição visual, o desrespeito ao patrimônio público e também por não fazerem nenhum sentido. Mas não é difícil entender os mecanismos que impulsionam esse festival de selvageria que enfeia as nossas cidades. De um lado, pode-se dizer que os adolescentes são assim mesmo, passam por aquela fase em que desafiam as regras da família e da sociedade. Entre os rapazes de boa família, rouba-se o carro do pai para disputar “pegas” em avenidas mal-iluminadas. Entre os filhos de famílias pobres, eles levam uma vida dura, sem dinheiro para se divertir – e encontram nesse tipo de “programa de índio”, digamos assim, uma espécie de emoção que costuma faltar em seu cotidiano difícil e modorrento.
Há uns 20 anos, um estudante que pichasse muros com slogans como “Diretas já”, por exemplo, estava exercendo seu elementar direito de expressão – proibido pela censura e pela polícia da época. Os pichadores de hoje são simples marmanjos arruaceiros que destroem impunemente o patrimônio público – por pura diversão. E ninguém faz nada.

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Os filhos de “seu” Bras

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Meses atrás quando assisti a excelente interpretação do ator Jamie Foxx no filme Ray, que narrava a vida do ícone da musica americana, Ray Charles, fiquei imaginando quantas histórias semelhantes temos em nosso país. A magnífica interpretação do musico cego valeu a Foxx o Oscar de melhor ator deste ano, quando foi protagonista de uma outra grande façanha. Concorreu também, ao premio de melhor ator coadjuvante por seu impecável desempenho em Colateral, onde contracena com Tom Cruise.
Mas o filme Ray não se sustenta apenas na interpretação de um brilhante ator. O filme é o resultado de anos de pesquisa e trabalho árduo, inclusive com a participação do próprio Charles, que pouco antes de falecer, pode comprovar a qualidade do trabalho comandado pelo diretor Taylor Hackford.
O filme mostra a trajetória do garoto negro, nascido num estado segregacionista, que ainda criança, aos sete anos, perde a visão, e que pelas mãos de um pianista de sua cidade, descobre a própria genialidade. Ray Charles foi um virtuoso autodidata, um destes magníficos gênios das artes que brotam de tempos em tempos.
Não preciso aqui comentar a grande capacidade e competência da indústria cinematográfica americana em produzir e contar historias. No caso de Ray não poderia ser diferente.
Digo isso para poder entrar no meu assunto de hoje. Quero aqui afirmar e comprovar que temos em nosso país histórias tão interessantes quanto às americanas ou européias. Histórias que só agora o nosso cinema, muito mais pobre e menos experiente que o deles, começa a mostrar. Histórias exemplares e universais das vidas de personagens anônimos ou famosos. Histórias que são preciosas pérolas da vivencia de nossa gente.
Vou dar-lhes apenas dois exemplos disso. Existem mais de cem filmes falando sobre Billy “The Kid”, personagem que até hoje não se sabe ao certo se existiu e o que aconteceu com ele. A vida de Billy “The Kid”, se historicamente comparada a Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, escorreria por entre nossos dedos, como as areias do tempo.
A historia do bandido brasileiro é bem mais substancial e mais rica do que a do facínora americano, mas mesmo assim existe apenas uma dúzia de filmes que tratam do advento do cangaço no sertão nordestino. Se Lampião tivesse nascido no Texas ou no Kansas seria conhecido e admirado em todo mundo, como Búfalo Bill ou Eyatt Erpp.

Outro exemplo disso é o mais recente sucesso do cinema nacional. Trata-se de 2 filhos de Francisco, uma primorosa produção que vem comprovar definitivamente o quanto os nossos personagens e as suas historias são ricas. O quanto elas merecem e precisam ser contatadas. E bem contadas como esta foi pelo diretor Breno Silveira.
Os filhos de seu Francisco Camargo, Mirosmar e Welson, ou melhor, Zezé e Luciano, nos dão conta e comprovam o quanto tem valor as histórias de vida dessa “brava gente brasileira”.
Quando vou ao cinema, não tenho a menor vergonha de rir ou de chorar. Na sala de exibição atinjo a minha plenitude como pessoa. Presto atenção, me revolto, afundo na poltrona, me envolvo na trama. Viajo. Vou, mas volto.
Na última quarta-feira fui ao cinema com Vanessa e Ian. A sala estava totalmente lotada, e o mais interessante é que a platéia era composta por pessoas das mais variadas idades, principalmente pessoas mais velhas. Tivemos que sentar separados, mas próximos o suficiente para ouvirmos o som abafado de nosso choro.
Sentei-me entre um garoto de uns dez anos e uma senhora de uns cinqüenta. Ele passou o tempo inteiro atento a tudo que acontecia na tela e às dicas que a avó, ao seu lado, lhe dava. Do outro lado, a senhora às vezes levava as mãos ao rosto e soluçava, talvez vendo ali um pouco de sua realidade, um pouco da realidade de pessoas como ela. Em determinado momento, depois de tanto ela quanto eu termos ido às lagrimas, nos entreolhamos, e ainda com os olhos mareados, sorrimos, como que reconhecendo um no outro, a maravilhosa capacidade humana de entender e de se emocionar.
Saí do cinema com um sentimento estranho. Um misto de orgulho por nossa capacidade de fazer bons filmes. De honra por pertencer a uma nação de valorosos Franciscos que se atrevem a sonhar com um futuro melhor para seus filhos. E uma profunda angustia por constatar a grande quantidade de outros Franciscos, que carregam consigo os fracassos que a vida impõe, uns por falta de oportunidade, outros por falta de condição de continuar lutando.
Assistir a Ray ou a 2 filhos de Francisco e não chorar não significa ser um forte, mas vê essas historias e não se emocionar, isso sim é tema para um filme. Um filme de ficção cientifica, sobre uma pobre criatura aleijada, desprovida de alma.

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Os dez do século

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A mãe, a princesa, o estudante, o ideólogo, o psicólogo,
o cientista, o estadista, o pacifista, o prisioneiro e o peregrino

Escolher a mulher mais bonita do século é fácil. Qualquer um escolhe. É uma simples questão de gosto. A minha é Ava Gardner, mas mesmo assim lembrei-me de pelo menos outras dez que poderiam com ela disputar. Agora, apontar as personalidades mais marcantes, mais importantes, mais influentes, deste século, são outros quinhentos. Primeiro porque cada pessoa tem sua própria perspectiva de julgamento. Segundo, que em se tratando de personagens que fizeram a história recente da humanidade, o que não faltam são nomes. Aliás, surgiram nas últimas semanas, listas e mais listas com um vasto arsenal destes personagens, nos principais veículos tanto da imprensa brasileira como da internacional.
Na avaliação que se faça de figuras históricas é preciso, sem dúvida, considerar o grau de idealismo, a honestidade pessoal e a coerência de propósitos – vale dizer, a correspondência entre pensamento e ação – de cada personagem. Não se pode deixar de lado, no entanto, o grau de acerto de sua visão de mundo, o descortino ou, ao contrário, o equívoco histórico fundamental em que tenham caído, por mais que se dispusessem ao sacrifício pela promoção de seu ideal. Fica claro para mim também, que esse tipo de escolha não deixa de ter grande influência da personalidade de quem escolhe. Na minha concepção, por exemplo, fazer listas é sempre injusto, porque toda lista tem, previamente, um tamanho definido e isso por si só, já é um fator excludente. Também sou daqueles que acha que o valor maior das pessoas, consiste no uso que elas fazem do seu direito mais individual e primordial, do seu livre arbítrio. Posto isso, declaro a minha característica de dar mais importância, àqueles que influenciaram nosso mundo e nosso tempo, mais por causa de suas ações, sejam individuais ou coletivas, motivados por sua escolha antropológica, sociológica, psicológica ou ideológica e menos por causa de suas atribuições profissionais ou funcionais. São os casos dos cientistas, artistas, esportistas e estadistas, pelos quais, apesar de ter grande admiração e profundo respeito, não fazem nada mais que suas obrigações, quando agem apenas e tão somente, no estrito cumprimento de seus deveres e das suas funções.
Madre Teresa de Calcutá, a mãe dos desamparados, pobres, miseráveis e doentes, mulher que encarnou os ensinamentos da bondade, distribuiu conforto aos desvalidos e provou que mais vale doar, mesmo tendo muito pouco, que negar, ficando com um tudo mesquinho. Lady Diana Spencer, princesa da Inglaterra, mãe do futuro rei. Rica e famosa, usou seu imenso prestigio e sua privilegiada posição na mídia internacional para agir na defesa de causas humanitárias. Sun Yat-Sen, que ninguém saberá de quem se trata se não for explicado: quem não se lembra daquelas imagens emocionantes transmitidas ao vivo, para todo o mundo, direto da praça da paz celestial em Pequim, onde um jovem chinês enfrenta uma linha de tanques, portando como armas, apenas seu grande espírito e aquele seu frágil corpo, posicionado como se quisesse tirar aquelas enormes e pesadas máquinas de guerra para uma contra-dança. Era ele. Por isso é que estes personagens são para mim alguns dos mais importantes de nosso século.
Coisa curiosa acontece no que diz respeito aos homens que ocupam o cargo mais importante da terra, a presidência dos Estados Unidos: pelo fato de que, essa posição já é muito importante, os seus ocupantes só se sobressaem verdadeiramente quando são realmente excepcionais ou então quando algum grande acontecimento ocorre durante o seu mandato. Por isso, quase todos os presidentes americanos deste século foram importantes, (Theodore Roosevelt, Truman, Eisenhower, Kennedy, Nixon, Carter, Reagan, Bush e Clinton), porém, o que realmente fez a diferença, no seu e no nosso contexto, foi Franklin Delano Roosevelt, o homem que, mesmo em cadeiras de rodas, tirou seu país da falência e ajudou o mundo a livrar-se do flagelo do nazismo.
Em todas as listas de que tomei conhecimento, há um destaque especial para Marx, Freud e Einstein, que são apontados como os três pensadores que moldaram o século 20. É bem verdade que cada um, à sua maneira, virou o mundo de cabeça para baixo. Eles merecem uma distinção especial. Marx, mudou o mundo pelo ponto de vista da ideologia política e social, a ditadura do proletariado. Freud, por sua vez, muda o nosso entendimento do homem como individuo e como parte da engrenagem psico-antropológica, visto através da psicanálise. Enquanto o cientista mais matemático, mais físico dessa lista, com certeza, o mais importe de todos os tempos, (mesmo assim, ficou reprovado duas vezes no ginásio) passa para historia como o maior humanista deste século, pois mais do que qualquer um, este homem, que tinha tudo para se distanciar de Deus e das explicações metafísicas da nossa existência, ao contrário, atesta que não há incompatibilidade entre a fé a ciência.
Três homens de cor, estão entre os mais importantes deste século. Três príncipes: um príncipe amarelo, defensor internacional dos direitos humanos e da não violência. Mahatama Gandhi; um príncipe negro dos africanos do sul. Nelson Mandela; um príncipe branco da Cúria Romana. Karol Wojtyla,ou melhor, João Paulo II .
Gandhi, na primeira metade do século e para todo o sempre, representa a esperança de todo aquele que busca a justiça através da paz e simboliza a imensa força que pertence aos mais fracos.
Mandela, que mesmo aprisionado por 28 anos, foi o líder – talvez o último de uma espécie em extinção, a dos heróis salvadores de seu povo – que, com seu carisma e obstinação, conseguiu desencadear em seu país um dos mais fascinantes processos políticos deste século: a desmontagem da apartheid, regime que dividia, por lei, negros e brancos na África do Sul.
Já o polonês Karol Wojtyla, o papa que um dia foi chamado de Atleta de Deus e que, depois de chegar à todo-poderosa Cúria Romana, teve papel importante na dissolução do comunismo. Primeiro papa não italiano depois de cinco séculos, João Paulo II chega ao alvorecer do ano 2000 com um fascínio todo especial porque, mesmo alquebrado pela doença e sob o peso da idade, ele insiste em ser o admirável peregrino do mundo, onde prega a paz a união e a fraternidade entre os povos.
Estes dez nomes, formam no meu entender, a galeria de maiores personagens de nosso tempo.
Que as pessoas do futuro procurem supera-los sempre, pois só essa tentativa já fará com que nosso mundo se torne um lugar melhor para se viver.
Um feliz ano 2000 para todos nós.

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O eterno amor de Pai

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Havia em Susa, nos tempos do rei Assuero e da rainha Esteér, um homem muito trabalhador e muito rico, que possuía muitas terras e muitos bens: um grande rebanho de cabras e ovelhas, muito gado, plantações de milho, trigo e cevada. Imensos pomares de uvas, maçãs, damascos, tâmaras e figos, além de vários empregados a seu serviço.
Abbdulla era o seu nome, e ele tinha um único filho, Haman, um herdeiro que, ao contrário do pai, não gostava de trabalho nem de compromissos. O que ele mais gostava era de jogar cartas, participar de festas como seus amigos e de ser bajulado por eles.
Abbdulla sempre dizia a Haman que alguns de seus amigos só estavam ao seu lado enquanto ele tivesse o que lhes oferecer, sem isso, o abandonariam. Os insistentes conselhos do pai lhe entupiam seus ouvidos, mas logo se ausentava sem dar o mínimo de atenção.
Um dia, o velho Abbdulla já com idade avançada, disse aos seus empregados para construírem um pequeno celeiro e dentro dele, ele mesmo, tratou de fazer uma forca e junto a ela, uma placa com os dizeres: “Para você Haman nunca mais desprezar as palavras de teu pai”.Mais tarde chamou o filho, levou-o até o celeiro e disse: “Meu filho eu já estou velho e, quando eu partir, você tomara conta de tudo que é meu e, eu sei qual será o teu futuro. Você vai deixar as terras nas mãos dos empregados e irá gastar todo o dinheiro com teus amigos. Irá vender os animais e os bens para se sustentar e, quando não tiver mais dinheiro, teus amigos vão se afastar de você e, quando você então não tiver mais nada, vai se arrepender amargamente de não ter me dado ouvidos. Foi por isto que eu construí esta forca. Ela é meu presente para você e quero que me prometa que se acontecer o que eu disse, você se enforcará nela”. O jovem sorriu, achando um absurdo, mas, para não contrariar o pai, já tão velho e alquebrado, prometeu, mas pensou consigo mesmo que isso jamais pudesse acontecer.
Passado algum tempo, Abbdulla morreu e seu filho Haman passou a ser o dono de tudo, mas, assim como seu pai havia previsto, o jovem gastou rapidamente o que o pai passara a vida toda construindo. Vendeu os bens, perdeu os falsos amigos e a própria dignidade.Desesperado e aflito começou a refletir sobre sua vida e viu que havia sido um grande tolo. Lembrou-se das palavras de seu pai e começou a chorar e dizer: “Ah, meu pai… Se eu tivesse ouvido os teus conselhos… mas agora é tarde demais.”
Pesaroso, o jovem levantou os olhos e, ao longe, avistou o pequeno celeiro. Era a única coisa que lhe restava. A passos lentos, se dirigiu até lá e entrando, viu a forca, a placa empoeirada e pensou: “Eu nunca segui as palavras do meu pai, não pude alegra-lo quando estava vivo, pelo menos desta vez, farei a vontade dele. Vou cumprir a minha promessa. Não me resta mais nada…”. Então ele pegou um banquinho e subiu nele, colocou a corda no pescoço e pensou: ”Ah, se eu tivesse uma nova chance…” Então se atirou do banco. Por um instante, sentiu a corda apertar sua garganta. Era o fim. Mas o braço da forca que seu pai fizera especialmente para ele era oco e quebrou-se facilmente e o rapaz caiu no chão. Sobre ele, caíram jóias, esmeraldas, pérolas, rubis, safiras e brilhantes, além de muitas moedas de ouro. A forca estava cheia de pedras preciosas, dinheiro e o mais importante, um bilhete deixado ali anos antes por seu velho pai: “Haman, meu querido filho, aí esta a nova chance que com certeza tu iras almejar. Saiba que teu pai te ama muito e para sempre”.

* Crônica adaptada de uma estória antiga, mas pautada em acontecimentos recentes.

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