Sobre meu querido amigo António Gaspar

Pensei em começar esse texto contando a você, que me prestigia com sua atenção, o que disse meu tio Zé Antonio Haickel, ao seu filho, meu primo, Elias Haickel Neto, depois que este lhe deu a notícia do falecimento de meu pai, Nagib Haickel.
Tio Zé Antonio, que estava jogando pife-pafe na casa de Zé Meireles, um velho amigo de Pindaré Mirim, ao ver Elias adentrar a sala onde estavam jogando, com uma cara de dor e constrangimento por ter de dizer ao seu pai que seu amado irmão havia falecido, ficou calado e recebeu, como resposta, uma pergunta exclamativa: “Foi Nagib!?”. Elias apenas sacodiu suavemente a cabeça, aquiescendo, e Tio Zé Antonio retrucou: Ô meu Deus, porque tu não levaste Miguel ao invés de Nagib!”. (Miguel era primo de Nagib e Zé Antonio)
Elias conta que, mesmo diante de tamanha consternação de todos os presentes, pela notícia trágica da morte de um ente tão querido, não se controlaram e riram de tamanha loucura proferida por um irmão corroído pela dor. A pergunta que todos faziam era por que Zé Antonio conclamou Deus a levar Miguel no lugar de Nagib e não se ofereceu ao todo-poderoso para ir à viagem no lugar de seu irmão.
O fato é que passei quatro dos melhores anos de minha vida convivendo de perto com Antonio Gaspar, de quem fui colega na Assembleia Nacional Constituinte e na Câmara dos Deputados, entre 1987 e 1991.
Antes de sermos deputados juntos, já nos conhecíamos informalmente, pelo convívio natural que tínhamos em nossa ainda pequena cidade.
Antonio era 16 anos mais velho que eu, mas, em muitos aspectos, tínhamos a mesma idade, pois eu sempre fui mais velho em meus gostos, costumes e afazeres, e Antonio, ao contrário, sempre foi mais jovem do que os de sua idade.
Devo fazer aqui uma inconfidência sem trair a confiança do falecido. Ele e eu admirávamos muito a beleza e a inteligência das mulheres, e nisso eu era um monge do mosteiro, enquanto ele era um dos monsenhores.
Durante a campanha eleitoral de 1986, quando concorremos, ambos pelo PMDB, nos aproximamos bastante.
No dia da convenção do partido, no momento da escolha dos números com os quais iríamos concorrer, ficamos ele e eu propensos a escolher os mesmos números: 1515 e 1516
Em sinal de respeito a ele, deixei que ele escolhesse e ficaria com o outro. Ele escolheu 1515 e eu fiquei com o 1516. Naquele dia, brinquei com ele: “Gaspar, espero seguir sempre seus passos e nos elegermos um atrás do outro”.
Aquele pleito foi uma loucura. Eu tinha apenas 26 anos e vinha de um mandato de deputado estadual, no qual me elegera com 22 anos e fui o mais jovem do Brasil naquela legislatura, mas tive mestres como Celso Coutinho, Bento Neves, Raimundo Leal, Gervásio Protásio dos Santos e José Elouf, só para citar alguns.
Antonio tinha outra trajetória. Participou ativamente dos movimentos de política estudantil e chegou a ser presidente da União Maranhense de Estudantes Secundaristas, no período, entre 1962 e 1964. Formou-se em farmácia, especializou-se em bioquímica e passou a ser professor universitário desses cursos. Foi empresário de grande sucesso no ramo das análises clínicas, tendo construído um dos maiores laboratórios desse setor, não só do nosso Estado, mas do Norte e do Nordeste do Brasil.
Ainda durante a campanha eleitoral de 1986, muitos fatos nos colocariam lado a lado, lutando juntos por nossas eleições e também pelo maior aproveitamento possível dos votos de legenda, para que conseguíssemos eleger a maior quantidade de parlamentares naquela eleição.
Gaspar disparou na quantidade de votos e eu fui o penúltimo colocado naquele pleito, mas a caligrafia ruim dos eleitores foi responsável, em muitos casos, para que o 1515 fosse 1516, e vice-versa.
Outro fato interessante é que éramos votados em muitos municípios por lideranças adversárias, mas sempre mantivemos o respeito e a consideração um para com o outro, jamais permitindo que rusgas de chefes políticos locais, de Viana, São Bento, Matinha, Penalva, Cajarí, São João Batista, São Vicente de Ferrer, Peri Mirim, Palmeirândia, Cedral, Mirinzal, Pinheiro… afetassem nosso relacionamento e nossa amizade.
Durante os trabalhos da constituinte convivemos mais de perto. Tínhamos os mesmos grupos e nos relacionávamos com os mesmos amigos: Artur da Távola, Nelson Jobim, Gastone Righi, Pedro Ciolin, Manoel Moreira, sem contar os maranhenses, Albérico Filho, Haroldo Saboia e Eliezer Moreira.
A última vez que encontrei com Antonio foi na inauguração do Makani Mall, de Roberto Hachem e passamos duas horas falando sobre política, negócios, cinema, e falamos também sobre a vida, inclusive sobre saúde e descobrimos que nós dois tínhamos a mesma ideia sobre como deve ser a vida, depois de um determinado tempo, depois que atingirmos uma determinada idade: A vida só vale a pena ser vivida se ela for boa, se ela não trouxer para as pessoas, grandes dificuldades e incômodos, constrangimentos e humilhações, dores dilacerantes e insuportáveis. Que o melhor caminho para uma vida que não fosse satisfatória para o indivíduo, era uma morte serena e tranquila.
Tenho certeza de que Antonio Gaspar teve uma vida boa, cheia de alegrias e realizações. Tenho certeza que ele foi um homem feliz e realizado em todos os âmbitos e sei que quem mais perde com sua partida somos nós que ficamos aqui sem mais desfrutarmos de seu bom humor e de sua agradável companhia.
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