O verdadeiro Valor Sentimental

Em minha opinião, depois de assistir aos filmes que concorrem ao Oscar de Melhor Filme em 2026 (Bugonia, F1, Frankenstein, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, Marty Supreme, O Agente Secreto, Pecadores, Sonhos de Trem, Uma Batalha Após a Outra e Valor Sentimental), nenhum deles supera Valor Sentimental.

Tenho plena consciência de que toda premiação baseada em voto ou julgamento carrega inevitavelmente o peso da discricionariedade. Nenhuma escolha dessa natureza é neutra; toda decisão estética é também uma decisão valorativa. O resultado de uma competição artística sempre agradará a alguns e desagradará a outros, porque o que está em jogo não é apenas técnica, mas sensibilidade. Ainda assim, mesmo reconhecendo esse caráter inevitavelmente subjetivo, sustento que, segundo os critérios que estabeleci para avaliar os filmes, Valor Sentimental é superior aos demais.

Meus critérios são quatro: a relevância e a universalidade do tema abordado; a clareza narrativa e a inteligibilidade da história; a capacidade de comover e gerar identificação; a excelência formal do roteiro, da direção, das performances do elenco e os aspectos técnicos que constituem o filme enquanto obra audiovisual.

Todos os indicados apresentam qualidades nesses quatro eixos. A diferença entre eles está na intensidade e na harmonia com que esses elementos se articulam. Em alguns, a forma é exuberante, mas o tema é limitado; em outros, o tema é ambicioso, mas a narrativa se perde; em outros ainda, a técnica impressiona, mas não cria vínculo.

O que distingue Valor Sentimental é algo mais difícil de quantificar: sua capacidade de incluir o espectador na experiência estética. Em diversos momentos, senti-me não apenas conduzido pela história, mas convidado a habitá-la. O percurso narrativo parecia dialogar com meus próprios caminhos interiores, como se o roteiro antecipasse possibilidades que eu mesmo imaginaria. Não se tratava de previsibilidade, mas de cumplicidade. O filme não me surpreendia para me afastar; ele me envolvia para me integrar.

A grande arte, a meu ver, não é apenas aquela que impressiona ou exibe virtuosismo técnico. É aquela que amplia o espaço do espectador dentro dela. Um filme, um livro, uma música ou um quadro se tornam maiores na medida em que nos permitem reconhecer-nos neles, mais do que isso, sentir-nos parte deles. A obra que apenas se impõe é admirável, mas aquela que nos inclui é inesquecível.

Valor Sentimental alcança essa inclusão. Seu tema é universal sem ser genérico; sua narrativa é clara sem ser simplista; sua forma é elegante sem ser exibicionista. Mas, sobretudo, sua força reside na capacidade de tocar algo estrutural da condição humana: a memória afetiva, a perda, o pertencimento, aquilo que nos constitui antes mesmo de sabermos nomear.

Foi o filme que mais me comoveu e mais me fez pensar. Fez-me rir e chorar, mas, acima de tudo, fez-me desejar ter participado de sua criação, como se aquela história fosse também, de algum modo, minha, uma parte de minha memória.

Talvez esse seja o critério definitivo: o melhor filme não é apenas o mais bem realizado, mas aquele que, ao terminar, permanece em nós como se sempre tivesse estado ali.

Perfil

“Poeta, contista e cronista, que, quando sobra tempo, também é deputado”. Era essa a maneira como Joaquim Elias Nagib Pinto Haickel aparecia no expediente da revista cultural Guarnicê, da qual foi o principal artífice. Mais de três décadas depois disso, o não mais, porem eterno parlamentar, ainda sem as sobras do tempo, permanece cronista, contista e poeta, além de cineasta.

Advogado, Joaquim Haickel foi eleito para o parlamento estadual pela primeira vez de 1982, quando foi o mais jovem parlamentar do Brasil. Em seguida, foi eleito deputado federal constituinte e depois voltou a ser deputado estadual até 2011. Entre 2011 e 2014 exerceu o cargo de secretario de esportes do Estado do Maranhão.

Cinema, esportes, culinária, literatura e artes de um modo geral estão entre as predileções de Joaquim Haickel, quando não está na arena política, de onde não se afasta, mesmo que tenha optado por não mais disputar mandato eletivo.

Cinéfilo inveterado, é autor do filme “Pelo Ouvido”, grande sucesso de 2008. Sua paixão pelo cinema fez com desenvolvesse juntamente com um grupo de colaboradores um projeto que visa resgatar e preservar a memória maranhense através do audiovisual.

Enquanto produz e dirigi filmes, Joaquim continua a escrever um livro sobre cinema e psicanálise, que, segundo ele, “se conseguir concluí-lo”, será sua obra definitiva.

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