Uma viagem, muitas histórias

No último sábado, eu e meu irmão, Nagib, fizemos uma rápida viagem para tratar de alguns negócios de nosso interesse nas cidades de Santa Inês e Pindaré-Mirim. Saímos de São Luís às quatro da madrugada e retornamos às onze da noite. O dia foi intenso. A viagem de ida durou pouco menos de quatro horas, e a volta, pouco mais de cinco. Trabalhamos cerca de oito horas e ainda desfrutamos de duas horas da hospitalidade inigualável de Nelson Frota, que nos recebeu para um almoço memorável na Fazenda Eldorado. Saboreamos bode cozido com verduras, filé de carneiro grelhado e um revigorante mocotó.

Confesso que, após o almoço, tive vontade de me deitar numa rede armada na varanda da fazenda, dormir o sono dos justos e esquecer o trabalho. Mas resisti bravamente e voltamos ao batente.

A viagem foi proveitosa, mas a melhor parte foram as nove horas que eu e meu irmão passamos dentro do carro, conversando sobre os mais diversos assuntos.

Nagib, sempre prevenido, conseguiu com um amigo um receptor de Starlink. Assim, viajamos o tempo inteiro conectados à internet, o que me permitiu acessar um aplicativo que utilizo diariamente: o Epictok, voltado à difusão de fatos e personalidades históricas por meio de vídeos curtos, apresentados com linguagem épica e sem filtros ideológicos. Durante boa parte do trajeto, ouvimos as histórias e comentamos os personagens citados.

Algo me chamou a atenção. Dois deles eram completamente desconhecidos para mim. Fiquei perplexo. Sempre imaginei que, em um aplicativo como aquele, dificilmente surgiria um personagem histórico que eu, homem razoavelmente instruído, não conhecesse.

A imperatriz Wu Zetian, única mulher a governar a China como imperatriz reinante, e Jacobo Arbenz, presidente da Guatemala entre 1951 e 1954, líder da chamada Revolução de Outubro e responsável por reformas profundas em seu país, foram essas descobertas.

Essa viagem serviu para reafirmar uma verdade simples: por mais que saibamos, sempre haverá algo que ignoramos.

Ouvimos também histórias sobre Margaret Thatcher e Ronald Reagan. Em certo momento, Nagib disse que, se não tivesse tido a sorte de nascer filho de nossos pais, gostaria de ter sido filho desses dois governantes, que considera dos mais importantes de nosso tempo.

Falamos sobre tensões internacionais, sobre a Venezuela, a Ucrânia, sobre a guerra do Irã, e sobre os verdadeiros interesses e causas em torno disso. Como não poderia deixar de ser, a política nacional veio à baila, com discussões sobre escândalos recentes e as absurdas decisões do nosso combalido poder Judiciário.

Exageramos hipóteses, propusemos punições imaginárias, tudo no território livre da especulação e do humor ácido.

Recorremos ao ChatGPT e perguntamos quantos anos de pena foram atribuídos aos vândalos de 8 de janeiro. Descobrimos que a soma ultrapassa quatro mil anos e, numa das nossas brincadeiras, imaginamos critérios dignos do Código de Hamurabi para penalizar o ministro Alexandre de Moraes, caso se descubra, comprovadamente, que ele tem culpa quanto às suspeitas que recaem sobre ele no caso do Banco Master: 40 chicotadas, em praça pública, uma para cada um dos 100 anos de pena que ele atribuiu aos vândalos injustiçados.

Nossa viagem foi uma espécie de regatão moderno. Não mais nos velhos navios-gaiola do tempo de meu avô, mas em um carro conectado nos satélites, atravessando o Maranhão e navegando pelo mundo ao mesmo tempo. Mudaram os meios, mas o espírito permanece: viajar, conversar, aprender e descobrir que ainda há muito a conhecer.Parte superior do formulário

Recorde de idiotice

O episódio envolvendo o Ministério Público Federal em Minas Gerais e a Rede Globo, em razão da pronúncia da palavra “recorde”, revela algo completamente absurdo e inaceitável. Algo que ultrapassa a gramática e vomita no campo jurídico. Quando um órgão cuja missão constitucional é defender a ordem jurídica e o regime democrático se mobiliza por causa da entonação adotada por jornalistas, a pergunta inevitável deixa de ter foco linguístico e passa a ter foco institucional.

A Constituição não atribuiu ao Ministério Público a função de guardião da dicção nacional. Sua atuação exige fundamento legal concreto, lesão identificável a direito difuso ou coletivo, ameaça real à ordem jurídica. Variação de pronúncia não configura um ato ilícito, não viola direito fundamental, não gera dano social mensurável. A língua é viva, dinâmica, sujeita a variações regionais e históricas. Transformar esse campo cultural em objeto de coerção institucional é deslocar a função pública para um terreno que não lhe pertence, nem pode jamais lhe pertencer em um regime democrático.

Não se trata de desprezar a norma culta, mas de exigir proporcionalidade. O princípio da razoabilidade impõe que a máquina estatal seja acionada para proteger bens jurídicos relevantes. Quando se mobiliza para corrigir entonações, cria-se um descompasso entre a gravidade da estrutura institucional e a leveza do fato que a provoca.

O que realmente inquieta é o contraste. Em um país marcado por escândalos sucessivos, por membros dos poderes da República frequentemente envolvidos em denúncias graves e por decisões que muitas vezes desafiam o senso comum de justiça, um país onde a violência cresce em níveis vertiginosos, ver energia institucional dedicada à sílaba tônica de um substantivo produz uma sensação de inversão de prioridades. Talvez a mesma diligência pudesse ser aplicada aos que banalizam a ética pública ou distorcem a própria linguagem da responsabilidade institucional.

Não me interessa dar palco a quem tenha protagonizado essa iniciativa. Interessa-me registrar o símbolo. Quando problemas estruturais exigem enfrentamento e a atuação pública se concentra na superfície, a autoridade institucional sofre desgaste.

No fim, a questão não é se se deve dizer “récorde” ou “recórde”, mas até onde o Estado pode e deve ir. A Justiça existe para proteger direitos, não para uniformizar pronúncias. Quando se ocupa do que não constitui violação jurídica relevante, corre-se o risco de banalizar sua própria função.

Confesso que episódios assim alimentam um certo cansaço cívico. Não é defesa do caos, é desabafo. Quando o essencial parece secundário e o secundário ganha protagonismo, a tentação do niilismo deixa de ser abstração filosófica e se aproxima da experiência cotidiana. Se estamos discutindo sílabas enquanto questões muito mais graves permanecem intocadas, talvez o verdadeiro recorde registrado aqui seja o de desalento.

Uma coisa como essa é tão absurda  e desproporcional que poderia ser tomada, por espíritos mais alarmistas, como um experimento sofisticado de gramscismo fonético.

A redefinição da inteligência na era da Inteligência Artificial

Com a expansão exponencial da tecnologia, culminando na consolidação da Inteligência Artificial como ferramenta cotidiana, a própria definição de inteligência sofreu uma transformação.

Durante muito tempo, ser inteligente significava acumular informação, demonstrar memória e domínio técnico sobre determinados assuntos. Hoje, esse parâmetro se revela insuficiente. A informação tornou-se abundante, acessível e automatizável. O que antes distinguia alguém era a posse do conhecimento, agora o que distingue é a capacidade de organizá-lo, interpretá-lo e aplicá-lo com discernimento.

A inteligência deixou de ser mera retenção de dados e passou a ser julgamento. Não basta saber, é preciso compreender. Não basta acessar respostas, é preciso formular perguntas adequadas. Em um mundo em que as máquinas produzem conteúdos em segundos, o diferencial humano reside na capacidade de estabelecer critérios, de distinguir o essencial do acessório, de atribuir sentido ao que é produzido.

Ser considerado funcionalmente inteligente hoje exige um conjunto mais complexo de qualidades, acesso a fontes confiáveis, cultura ampla, pensamento crítico, sensibilidade e empatia. São atributos que não se automatizam. A tecnologia calcula, mas não assume responsabilidade. Processa, mas não decide moralmente. Amplia capacidades, mas não substitui consciência.

A inteligência contemporânea não reside apenas em saber respostas, mas em saber perguntar. Não está apenas em conhecer conteúdos, mas em compreender como orientar as ferramentas disponíveis para que produzam resultados consistentes. Formular um bom comando tornou-se, em certa medida, uma nova forma de raciocínio. A clareza da pergunta passou a determinar a qualidade da resposta.

Mas há algo ainda mais profundo. A expansão tecnológica pode ampliar nossas possibilidades, mas não elimina nossas limitações humanas. Continuamos sujeitos à emoção, à dúvida, ao erro, à necessidade de pertencimento e de sentido. E é precisamente aí que reside nossa singularidade.

Ser inteligente agora é sustentar, em uma mão, a potência que a tecnologia oferece e, na outra, a responsabilidade que a condição humana impõe. É reconhecer que o progresso não nos exime da prudência. É compreender que nenhuma máquina pode substituir a consciência que responde por nossas escolhas.

No fim das contas, inteligência não é poder computacional, é equilíbrio. É saber usar as ferramentas sem se tornar ferramenta delas. É fazer da tecnologia um instrumento do pensamento, e não o seu substituto.

O verdadeiro Valor Sentimental

Em minha opinião, depois de assistir aos filmes que concorrem ao Oscar de Melhor Filme em 2026 (Bugonia, F1, Frankenstein, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, Marty Supreme, O Agente Secreto, Pecadores, Sonhos de Trem, Uma Batalha Após a Outra e Valor Sentimental), nenhum deles supera Valor Sentimental.

Tenho plena consciência de que toda premiação baseada em voto ou julgamento carrega inevitavelmente o peso da discricionariedade. Nenhuma escolha dessa natureza é neutra; toda decisão estética é também uma decisão valorativa. O resultado de uma competição artística sempre agradará a alguns e desagradará a outros, porque o que está em jogo não é apenas técnica, mas sensibilidade. Ainda assim, mesmo reconhecendo esse caráter inevitavelmente subjetivo, sustento que, segundo os critérios que estabeleci para avaliar os filmes, Valor Sentimental é superior aos demais.

Meus critérios são quatro: a relevância e a universalidade do tema abordado; a clareza narrativa e a inteligibilidade da história; a capacidade de comover e gerar identificação; a excelência formal do roteiro, da direção, das performances do elenco e os aspectos técnicos que constituem o filme enquanto obra audiovisual.

Todos os indicados apresentam qualidades nesses quatro eixos. A diferença entre eles está na intensidade e na harmonia com que esses elementos se articulam. Em alguns, a forma é exuberante, mas o tema é limitado; em outros, o tema é ambicioso, mas a narrativa se perde; em outros ainda, a técnica impressiona, mas não cria vínculo.

O que distingue Valor Sentimental é algo mais difícil de quantificar: sua capacidade de incluir o espectador na experiência estética. Em diversos momentos, senti-me não apenas conduzido pela história, mas convidado a habitá-la. O percurso narrativo parecia dialogar com meus próprios caminhos interiores, como se o roteiro antecipasse possibilidades que eu mesmo imaginaria. Não se tratava de previsibilidade, mas de cumplicidade. O filme não me surpreendia para me afastar; ele me envolvia para me integrar.

A grande arte, a meu ver, não é apenas aquela que impressiona ou exibe virtuosismo técnico. É aquela que amplia o espaço do espectador dentro dela. Um filme, um livro, uma música ou um quadro se tornam maiores na medida em que nos permitem reconhecer-nos neles, mais do que isso, sentir-nos parte deles. A obra que apenas se impõe é admirável, mas aquela que nos inclui é inesquecível.

Valor Sentimental alcança essa inclusão. Seu tema é universal sem ser genérico; sua narrativa é clara sem ser simplista; sua forma é elegante sem ser exibicionista. Mas, sobretudo, sua força reside na capacidade de tocar algo estrutural da condição humana: a memória afetiva, a perda, o pertencimento, aquilo que nos constitui antes mesmo de sabermos nomear.

Foi o filme que mais me comoveu e mais me fez pensar. Fez-me rir e chorar, mas, acima de tudo, fez-me desejar ter participado de sua criação, como se aquela história fosse também, de algum modo, minha, uma parte de minha memória.

Talvez esse seja o critério definitivo: o melhor filme não é apenas o mais bem realizado, mas aquele que, ao terminar, permanece em nós como se sempre tivesse estado ali.

Visões de um mesmo fato

Na última sexta-feira, em um jantar na casa de um casal de amigos, como é inevitável, surgiu o assunto cinema. Todos queriam saber o que eu acreditava que poderia acontecer em relação à premiação do Oscar deste ano. Ocorre que só mencionei aqui esse tema para não parecer antipático, pois o que realmente me interessava naquela noite era outro assunto que havia surgido.

Uma das pessoas presentes começou a discorrer sobre a atitude do ministro Flávio Dino em relação aos famosos “penduricalhos remuneratórios”, que transformam os vencimentos de altos funcionários públicos, dos três Poderes da República, em supersalários.

A pessoa que puxou o assunto, uma advogada de destaque em nossa sociedade, comentava que aquela era uma atitude extraordinária, própria de um ministro diferente daqueles que envergonham o nosso Judiciário. Um ministro que, diferentemente de Mendes, Toffoli e Moraes, reacenderia a esperança de que a Suprema Corte pudesse voltar a ser moralizada e respeitada, não apenas pelos operadores do direito, mas também pela população do país.

Depois disso, um ex-parlamentar, conhecido por seu espírito sagaz e bem-humorado, interveio: “Doutora, não se esqueça de que a pessoa a quem a senhora se refere é a mesma que deu sumiço às imagens das centenas de câmeras de segurança da Praça dos Três Poderes e dos prédios ali localizados, no fatídico dia 8 de janeiro de 2023…”

Todos então se voltaram para mim, querendo saber o que eu pensava sobre aquela situação.

Respondi o que sempre digo a respeito do ministro Flávio Dino: que, em minha opinião, ele é o mais competente e o mais bem preparado ministro da Suprema Corte. Que peca, no entanto, ao se posicionar politicamente enquanto magistrado. Que, entre seus defeitos, não está a venalidade financeira, mas pesa contra ele o fato de agir politicamente em um ambiente onde a política é inaceitável. Ressaltei, contudo, que, tanto nesse caso quanto no das emendas parlamentares, ele se posicionou em total conformidade com a correção, a lei e a justiça.

Após isso, um senhor que conheci naquela noite, apresentou uma leitura um pouco diferente. Segundo ele, os fatos teriam ocorrido de forma mais complexa do que aparentavam. Disse que, depois de o Congresso Nacional aprovar, em tempo recorde e de maneira inesperada, um aumento vertiginoso nos salários de seus funcionários, o presidente da República ficou em uma situação extremamente desconfortável.

Se vetasse a medida, ficaria mal com o Poder Legislativo, de quem depende politicamente; se não vetasse, ficaria mal com a opinião pública, de quem depende eleitoralmente, ainda mais em um ano de eleições.

Segundo esse senhor, o presidente teria chamado o ministro Dino e pedido sua ajuda para livrá-lo daquela delicada situação. Dino, como fiel correligionário, teria se prontificado a fazer o que fosse necessário para tirar aquele “pepino” das mãos do presidente. E foi o que fez.

Parei por um instante e refleti que tudo o que havia sido dito ali, abstraindo-se o percentual inevitável de opinião pessoal presente nas falas, era extremamente plausível e que, mesmo não sendo um retrato fiel da realidade, dificilmente estaria muito distante da verdade.

Em uma verdadeira democracia, as leis são respeitadas, o poder é responsabilizado e os poderosos prestam contas

Há uma confusão recorrente e bastante conveniente, que estabelece que em países onde a democracia é mais formal do que substantiva, a ideia de que a responsabilização de governantes, altos funcionários ou mesmo juízes seria sinal de instabilidade. Não é. Em democracias maduras, a responsabilização de cada indivíduo é justamente a prova cabal de que as instituições funcionam plenamente.

Nesses países, o poder não é um privilégio pessoal nem um salvo-conduto. Ele é uma delegação provisória, sustentada por confiança pública e limitada pela lei. Quando essa confiança se rompe, não apenas governos caem, assim como ministros são afastados, altos servidores são demitidos e juízes são punidos. Tudo sem ruptura institucional, sem discursos redentores, sem excepcionalismos.

Foi assim nos Estados Unidos, no caso Watergate. Richard Nixon renunciou antes de ser formalmente destituído, mas não foi o único a cair. Altos funcionários do governo foram processados, condenados e presos. E, anos depois, juízes federais também seriam afastados por corrupção ou abuso de poder, por meio de impeachment conduzido pelo próprio Congresso. Nas verdadeiras democracias, nem a toga serve de escudo a corrupção e o abuso de poder.

Na Itália da Operação Mãos Limpas, não foram apenas políticos que caíram. Empresários poderosos foram presos, altos burocratas afastados e magistrados investigados e punidos quando ultrapassaram os limites da lei. O sistema mostrou algo essencial: o combate à corrupção não escolhe lado nem corporação.

Na Islândia, após os Panama Papers, o primeiro-ministro renunciou em poucos dias. Mas o processo não parou aí. Autoridades financeiras e reguladores foram investigados, e reformas institucionais profundas foram feitas. O problema não foi tratado como “crise política”, mas como falha institucional a ser corrigida.

Na Coreia do Sul, a presidente foi destituída e presa, mas também juízes, promotores e altos executivos foram responsabilizados. Em casos posteriores, magistrados da mais alta corte foram afastados e condenados por corrupção. A mensagem foi clara: ninguém está acima da lei, nem mesmo quem a interpreta.

Na Alemanha, o padrão é ainda mais severo. Ministros deixaram seus cargos por plágio acadêmico. Juízes foram afastados por conflitos de interesse, favorecimento indevido ou quebra de decoro. Muitas vezes, nem se espera o desfecho penal. A responsabilidade ética antecede a criminal.

Esses exemplos revelam algo fundamental: em democracias funcionais, o sistema reage em cadeia. O erro não é isolado, não é protegido por hierarquia, não é relativizado pelo cargo. Quando o poder falha, ele é responsabilizado, seja no Executivo, na burocracia de Estado, no legislativo ou em qualquer nível do Judiciário.

Por isso, quando escândalos de corrupção bilionários não afastam ministros, não derrubam altos dirigentes e não alcançam magistrados, o problema não está na gravidade do caso, mas na fragilidade das instituições. Está na confusão deliberada entre governar e sobreviver, entre julgar e proteger-se.

A verdadeira instabilidade não é a queda de governos, nem o afastamento de juízes ou servidores poderosos. A verdadeira instabilidade é a normalização da impunidade. Democracias não se enfraquecem quando responsabilizam seus agentes; enfraquecem quando a sociedade aprende a conviver com o abuso como método.

Onde as instituições funcionam, o poder é responsabilizado. Os poderosos prestam contas. Onde isso não acontece, é porque algo muito mais grave já aconteceu, é porque ali não existe verdadeiramente um Estado democrático.

Pequeno ensaio sobre mim mesmo

Estive pensando sobre mim, sobre quem sou enquanto escritor e cineasta, e resolvi listar algumas coisas que acredito me definirem, para que, ao final, eu possa saber se realmente sei quem sou.

Minha relação com a ética, o poder, a justiça, as aparências e a verdade é platônica, no sentido idealista mais rigoroso, não ornamental. Penso, digo e escrevo aquilo em que acredito, porque imagino já ter deixado para trás a crítica à moral rasa, à hipocrisia social e à mediocridade confortável.

Tenho grande interesse pelas coisas absurdas, pela dignidade simples do cotidiano e pelo sentido que nasce apesar do mundo. Uso, sempre que posso, um tanto de ironia ética e lanço meu olhar crítico sobre o poder pequeno e o autoengano humano. Isso está no meu DNA intelectual.

Valorizo a metafísica da linguagem, da memória e da travessia moral, embora não o faça tanto quanto gostaria. Valorizo a grandeza silenciosa do homem comum enfrentando o tempo, seus limites e seu destino. Valorizo o insólito, o inesperado.

Às vezes, tento dialogar criticamente com a psicanálise, pois preciso conhecer, por dentro, as reações e as sensações humanas. Minha ideia de dignidade, resistência e sentido não é abstrata, é existencial, histórica e humana. Essas ideias regem minhas ações mais básicas.

Minha atenção às casas, às ruas, às praças, às ruínas e à memória dos lugares está presente em mim de forma definitiva. Meu imenso apego aos objetos, não por seu preço, muitas vezes nem mesmo por seu valor, mas pela energia que deles emana, também faz parte de mim.

Minha relação com o cinema não é de consumo, mas de dependência do pensamento narrativo, moral e simbólico da linguagem. Tenho minha noção de virtude como prática cotidiana, não como discurso, e sei o quanto isso é difícil de manter. Minha dislexia me define e me protege.

Cultivo um olhar crítico sobre o poder, a responsabilidade e a banalidade do mal que dele pode decorrer. Para mim, o poder não é uma abstração: é algo prático, concreto, cotidiano e silencioso, que altera e define todas as relações que toca. Acredito na honradez e na nobreza e até no heroísmo, mas jamais no herói.

Sinto uma imensa solidão moral diante do mundo. Recuso-me, sempre que posso, a participar do teatro social, pois minha lucidez me impede. Tenho verdadeira obsessão por memória, tempo e detalhes vividos, e isso me faz perguntar se sou um memorialista ou apenas um nostálgico.

Tenho profunda consciência das minhas responsabilidades e penso que a liberdade pode vir a ser um fardo. Acredito na educação como base de todo poder, uma das poucas coisas capazes de destruir a hipocrisia e até mesmo a violência.

O fato de enumerar essas coisas que penso e sinto, minhas ações e atitudes, não é um exercício de autoelogio, é a exposição nua e crua daquilo que busco enquanto escritor e cineasta, alguém que pretende usar esses instrumentos para se comunicar com as pessoas e com o mundo. Se consigo, é outra coisa.

O poder da fé

Tenho acompanhado de perto a luta de Roseana Sarney em seu mais recente tratamento de saúde e, dessa experiência, tenho extraído uma quantidade inesperada de lições.

Ao assistir às postagens que ela compartilha no Instagram, vejo uma mulher gigante, realmente uma guerreira.

Vejo que Roseana é mais guerreira agora do que antes. Não uma guerreira por causa de um slogan de propaganda; não por ser a primeira de seu gênero a governar um Estado brasileiro; não por ser uma gestora firme, obstinada ou politicamente combativa. Não por isso.

Quando expõe essa sua luta, Roseana se eleva a uma dimensão raramente alcançada. Nessa hora ela faz jus ao adjetivo de guerreira, sem que esse adjetivo tenha sido criado por um marqueteiro. Muito pelo contrário! Marqueteiros com quem tenho conversado, dizem que o que Rose tem feito ao expor o seu tratamento, é algo desaconselhado, pois demonstra fraqueza, e político fraco não é admirado nem é seguido.

A própria família de Roseana foi contrária a ela se expor como tem feito, mas, como ela é Roseana Sarney, e só faz o que acredita ser a coisa certa, nos mostra que mesmo as pessoas mais poderosas, em todo e qualquer  sentido, são passíveis de sofrer com uma grave enfermidade.

Há, porém, um efeito dessa exposição que preciso compartilhar. Algo que ela provocou em mim e que jamais imaginei experimentar dessa forma.

Fui criado na tradição católica. Minha mãe era profundamente religiosa. Deu-me valores, ensinou-me orações, transmitiu-me um sentido ético da vida. Mas não me formou como um homem religioso no sentido estrito. Ainda assim, deixou em mim a convicção de que existe algo maior, uma ordem que atravessa o universo, a natureza, o tempo e a própria existência. Algo que muitos chamam de Deus.

Essa convicção sempre esteve comigo, de maneira silenciosa, quase abstrata. O que mudou agora foi o gesto. Pela primeira vez em muito tempo, tenho rezado diariamente as orações que minha mãe me ensinou. Não por medo, não por barganha, não por obrigação. Rezo porque a luta de Roseana despertou em mim uma fé que eu não sabia possuir.

Eu creio nisso, e, por isso, tenho rezado diariamente aquelas mesmas orações que minha mãe me ensinou, para que Roseana vença essa batalha, para que ela se recupere e volte logo ao convívio de sua família e de seus amigos.

A fé de Roseana, ao se mostrar sem ornamentos, sem heroísmo, acabou me ensinando isso. Às vezes, acreditar não é afirmar certezas, é simplesmente sustentar esperanças, fé.

A fé de Roseana tem me feito sentir coisas que eu desconhecia.

O valor e o preço

A diferença entre valor e preço é, ao mesmo tempo, semântica, prática e existencial. Confundi-los costuma empobrecer decisões pessoais, sociais e econômicas, além de distorcer a forma como compreendemos o mundo e a nós mesmos.

Valor é uma medida qualitativa, não redutível a números. Refere-se ao significado, à importância e ao peso simbólico, moral, afetivo ou funcional que algo possui para alguém ou para uma coletividade. O valor não é fixo nem universal. Ele depende de contexto, experiência, cultura e história. Pode existir mesmo sem possibilidade de troca e pode aumentar ou diminuir sem que ocorra qualquer transação econômica.

A confiança entre duas pessoas, a dignidade humana, um filme que transforma a forma como alguém compreende a própria vida, um objeto herdado de família. Nada disso tem valor porque custa algo. Tem valor porque importa.

Preço, por sua vez, é uma medida quantitativa. É a expressão numérica atribuída a algo dentro de um sistema de troca, geralmente monetário. Ele é determinado por fatores como mercado, escassez, oferta, demanda, custos e convenções sociais. O preço é mensurável, negociável e temporário, e só existe dentro de um sistema econômico organizado.

O valor em dinheiro de um ingresso de cinema, o custo de produção de um livro, a remuneração paga por um serviço são exemplos claros de preço. Para saber o preço de algo, respondemos à pergunta “quanto custa?”. Para compreender o valor de algo, precisamos responder a outra pergunta, muito mais complexa, “quanto isso importa?”.

Na prática, preço pode ser pago, valor não. Preço se quita, valor se sustenta. É possível pagar caro por algo de pouco valor, pagar pouco por algo de valor imenso, perder algo valioso sem que nenhum dinheiro seja capaz de reparar a perda, ou comprar algo caro que rapidamente se torne irrelevante.

A diferença ética e existencial entre preço e valor torna-se evidente quando uma sociedade passa a tratar valor como se fosse preço. É nesse momento que se precificam pessoas, se monetizam relações, se confunde sucesso com remuneração e se reduz o sentido da vida à utilidade e à rentabilidade.

Preço é o que se paga por algo. Valor é o que permanece depois do pagamento. Preço pertence ao mercado. Valor pertence à experiência humana. Saber distinguir um do outro é uma das formas mais silenciosas e, ao mesmo tempo, mais decisivas de maturidade.

Ontem roubaram meu aparelho celular. O preço dele é de aproximadamente cinco mil reais. O valor, porém, é incalculável, completamente inestimável. Não por acessos a contas bancárias ou cartões de crédito, já que não realizo transações financeiras pelo celular, mas pelo que ele continha.

O valor desse aparelho estava nos documentos pessoais de identidade, arquivos de fotos, nas mensagens de amigos e, sobretudo, nas mensagens de áudio de minha mãe, que eu ouvia sempre que precisava me fortalecer, me acalmar ou recuperar ânimo.

Essa é, em essência, a verdadeira diferença entre preço e valor.

Sobre o Brasil no Oscar 2026

Muita gente vinha me cobrando comentários sobre o filme O Agente Secreto, que vem recebendo indicações e prêmios em importantes festivais internacionais, mas, como estou com vários projetos em andamento, acabei adiando a escrita desse texto até a tarde de quinta-feira, 22 de janeiro, poucas horas após o anúncio dos indicados ao Oscar.

Naquele dia, meu telefone não parou de vibrar com mensagens sobre as quatro indicações do filme. As reações eram variadas: entusiasmo absoluto de quem amou a obra, esperança de que essa visibilidade fortaleça o cinema brasileiro, desinteresse de quem não assistiu ao filme por recomendação contrária de um amigo.

Eu o assisti ainda no ano passado, na abertura do Festival Maranhão na Tela, e gostei. Trata-se de um trabalho muito bem produzido e dirigido. O roteiro tem altos e baixos, mas funciona e satisfaz algumas pessoas.

Em minha opinião, o grande trunfo do filme está no elenco. Não resta dúvida que o Wagner é um excelente ator, mas a seleção dos atores foi perfeita. O ajuste preciso das interpretações revelam um trabalho de extrema atenção. Todos estão afinados com a narrativa e o ritmo do filme.

É fundamental lembrar que O Agente Secreto é uma obra de ficção. Embora traga referências claras ao cotidiano do Recife, algo recorrente no cinema de Kleber Mendonça Filho, mas é importante ressaltar que o personagem central não existiu. Ainda assim, presenciei discussões em que jovens defendiam o filme como relato fiel de um fato real, o que revela uma confusão preocupante entre ficção e realidade.

A cena inicial do filme é deliciosamente insólita: o frentista do posto de gasolina merece um prêmio. O cadáver exposto, os cachorros, os policiais corruptos, o fusca amarelo e a trilha sonora criam, de imediato, um ambiente poderoso. O núcleo liderado por Dona Sebastiana, vivida pela cativante Tânia Maria, transporta o espectador aos anos 1970 com rara verossimilhança. Até os mitos urbanos, como um tubarão e o Perna Cabeluda, se encaixam naturalmente na narrativa, entra e sai do assunto principal.

Como costuma acontecer na filmografia de Kleber Mendonça Filho, este filme é atravessado por inúmeras referências reais, retiradas do cotidiano das pessoas, da cidade do Recife, de seu ambiente urbano e de suas histórias. Aproveito para parabenizá-lo por isso, pelo amor incondicional que demonstra por sua cidade, pelas pessoas que nela vivem, pelas narrativas que brotam como raminhos nos beirais das casas. Sinto algo muito parecido em relação a São Luís e, ao ver o que ele faz, reforço minha convicção de que precisamos agir assim.

Há, no entanto, uma decisão que me parece dispensável: escalar Wagner Moura também como o filho do protagonista, décadas após a morte deste. Achei desnecessário.

As indicações ao Oscar são justas, mas uma delas merece destaque especial: a nova categoria de Melhor Seleção de Elenco. Se houver um prêmio com verdadeiro sabor brasileiro nessa disputa, é esse.

Enquanto arrumava minhas ideia para produzir esse texto, recebi outras duas ligações curiosas. Uma questionava o uso das premiações como manifestações políticas. Respondi com um trecho de uma música de Caetano Veloso: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Eu não faria o mesmo, mas reconheço que talvez nunca ganhe um Globo de Ouro. Ainda assim, teria preferido ver aquele espaço usado para conclamar cineastas brasileiros à busca permanente da excelência e a lutarem por seus projetos.

A outra ligação veio de alguém convencido de que O Agente Secreto é o melhor filme já feito no Brasil. Disse a pessoa que respeitava a opinião dela, e perguntei-lhe se havia assistido Central do Brasil, Cidade de Deus e O Pagador de Promessas.

PS: O Brasil concorre também ao Oscar de Melhor Direção de Fotografia, com Adolpho Veloso, pelo belo filme Sonhos de Trem. Um prêmio técnico, mas essencial à linguagem cinematográfica. Fiquei muito feliz com essa indicação.

Perfil

“Poeta, contista e cronista, que, quando sobra tempo, também é deputado”. Era essa a maneira como Joaquim Elias Nagib Pinto Haickel aparecia no expediente da revista cultural Guarnicê, da qual foi o principal artífice. Mais de três décadas depois disso, o não mais, porem eterno parlamentar, ainda sem as sobras do tempo, permanece cronista, contista e poeta, além de cineasta.

Advogado, Joaquim Haickel foi eleito para o parlamento estadual pela primeira vez de 1982, quando foi o mais jovem parlamentar do Brasil. Em seguida, foi eleito deputado federal constituinte e depois voltou a ser deputado estadual até 2011. Entre 2011 e 2014 exerceu o cargo de secretario de esportes do Estado do Maranhão.

Cinema, esportes, culinária, literatura e artes de um modo geral estão entre as predileções de Joaquim Haickel, quando não está na arena política, de onde não se afasta, mesmo que tenha optado por não mais disputar mandato eletivo.

Cinéfilo inveterado, é autor do filme “Pelo Ouvido”, grande sucesso de 2008. Sua paixão pelo cinema fez com desenvolvesse juntamente com um grupo de colaboradores um projeto que visa resgatar e preservar a memória maranhense através do audiovisual.

Enquanto produz e dirigi filmes, Joaquim continua a escrever um livro sobre cinema e psicanálise, que, segundo ele, “se conseguir concluí-lo”, será sua obra definitiva.

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