O valor e o preço

A diferença entre valor e preço é, ao mesmo tempo, semântica, prática e existencial. Confundi-los costuma empobrecer decisões pessoais, sociais e econômicas, além de distorcer a forma como compreendemos o mundo e a nós mesmos.

Valor é uma medida qualitativa, não redutível a números. Refere-se ao significado, à importância e ao peso simbólico, moral, afetivo ou funcional que algo possui para alguém ou para uma coletividade. O valor não é fixo nem universal. Ele depende de contexto, experiência, cultura e história. Pode existir mesmo sem possibilidade de troca e pode aumentar ou diminuir sem que ocorra qualquer transação econômica.

A confiança entre duas pessoas, a dignidade humana, um filme que transforma a forma como alguém compreende a própria vida, um objeto herdado de família. Nada disso tem valor porque custa algo. Tem valor porque importa.

Preço, por sua vez, é uma medida quantitativa. É a expressão numérica atribuída a algo dentro de um sistema de troca, geralmente monetário. Ele é determinado por fatores como mercado, escassez, oferta, demanda, custos e convenções sociais. O preço é mensurável, negociável e temporário, e só existe dentro de um sistema econômico organizado.

O valor em dinheiro de um ingresso de cinema, o custo de produção de um livro, a remuneração paga por um serviço são exemplos claros de preço. Para saber o preço de algo, respondemos à pergunta “quanto custa?”. Para compreender o valor de algo, precisamos responder a outra pergunta, muito mais complexa, “quanto isso importa?”.

Na prática, preço pode ser pago, valor não. Preço se quita, valor se sustenta. É possível pagar caro por algo de pouco valor, pagar pouco por algo de valor imenso, perder algo valioso sem que nenhum dinheiro seja capaz de reparar a perda, ou comprar algo caro que rapidamente se torne irrelevante.

A diferença ética e existencial entre preço e valor torna-se evidente quando uma sociedade passa a tratar valor como se fosse preço. É nesse momento que se precificam pessoas, se monetizam relações, se confunde sucesso com remuneração e se reduz o sentido da vida à utilidade e à rentabilidade.

Preço é o que se paga por algo. Valor é o que permanece depois do pagamento. Preço pertence ao mercado. Valor pertence à experiência humana. Saber distinguir um do outro é uma das formas mais silenciosas e, ao mesmo tempo, mais decisivas de maturidade.

Ontem roubaram meu aparelho celular. O preço dele é de aproximadamente cinco mil reais. O valor, porém, é incalculável, completamente inestimável. Não por acessos a contas bancárias ou cartões de crédito, já que não realizo transações financeiras pelo celular, mas pelo que ele continha.

O valor desse aparelho estava nos documentos pessoais de identidade, arquivos de fotos, nas mensagens de amigos e, sobretudo, nas mensagens de áudio de minha mãe, que eu ouvia sempre que precisava me fortalecer, me acalmar ou recuperar ânimo.

Essa é, em essência, a verdadeira diferença entre preço e valor.

Sobre o Brasil no Oscar 2026

Muita gente vinha me cobrando comentários sobre o filme O Agente Secreto, que vem recebendo indicações e prêmios em importantes festivais internacionais, mas, como estou com vários projetos em andamento, acabei adiando a escrita desse texto até a tarde de quinta-feira, 22 de janeiro, poucas horas após o anúncio dos indicados ao Oscar.

Naquele dia, meu telefone não parou de vibrar com mensagens sobre as quatro indicações do filme. As reações eram variadas: entusiasmo absoluto de quem amou a obra, esperança de que essa visibilidade fortaleça o cinema brasileiro, desinteresse de quem não assistiu ao filme por recomendação contrária de um amigo.

Eu o assisti ainda no ano passado, na abertura do Festival Maranhão na Tela, e gostei. Trata-se de um trabalho muito bem produzido e dirigido. O roteiro tem altos e baixos, mas funciona e satisfaz algumas pessoas.

Em minha opinião, o grande trunfo do filme está no elenco. Não resta dúvida que o Wagner é um excelente ator, mas a seleção dos atores foi perfeita. O ajuste preciso das interpretações revelam um trabalho de extrema atenção. Todos estão afinados com a narrativa e o ritmo do filme.

É fundamental lembrar que O Agente Secreto é uma obra de ficção. Embora traga referências claras ao cotidiano do Recife, algo recorrente no cinema de Kleber Mendonça Filho, mas é importante ressaltar que o personagem central não existiu. Ainda assim, presenciei discussões em que jovens defendiam o filme como relato fiel de um fato real, o que revela uma confusão preocupante entre ficção e realidade.

A cena inicial do filme é deliciosamente insólita: o frentista do posto de gasolina merece um prêmio. O cadáver exposto, os cachorros, os policiais corruptos, o fusca amarelo e a trilha sonora criam, de imediato, um ambiente poderoso. O núcleo liderado por Dona Sebastiana, vivida pela cativante Tânia Maria, transporta o espectador aos anos 1970 com rara verossimilhança. Até os mitos urbanos, como um tubarão e o Perna Cabeluda, se encaixam naturalmente na narrativa, entra e sai do assunto principal.

Como costuma acontecer na filmografia de Kleber Mendonça Filho, este filme é atravessado por inúmeras referências reais, retiradas do cotidiano das pessoas, da cidade do Recife, de seu ambiente urbano e de suas histórias. Aproveito para parabenizá-lo por isso, pelo amor incondicional que demonstra por sua cidade, pelas pessoas que nela vivem, pelas narrativas que brotam como raminhos nos beirais das casas. Sinto algo muito parecido em relação a São Luís e, ao ver o que ele faz, reforço minha convicção de que precisamos agir assim.

Há, no entanto, uma decisão que me parece dispensável: escalar Wagner Moura também como o filho do protagonista, décadas após a morte deste. Achei desnecessário.

As indicações ao Oscar são justas, mas uma delas merece destaque especial: a nova categoria de Melhor Seleção de Elenco. Se houver um prêmio com verdadeiro sabor brasileiro nessa disputa, é esse.

Enquanto arrumava minhas ideia para produzir esse texto, recebi outras duas ligações curiosas. Uma questionava o uso das premiações como manifestações políticas. Respondi com um trecho de uma música de Caetano Veloso: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Eu não faria o mesmo, mas reconheço que talvez nunca ganhe um Globo de Ouro. Ainda assim, teria preferido ver aquele espaço usado para conclamar cineastas brasileiros à busca permanente da excelência e a lutarem por seus projetos.

A outra ligação veio de alguém convencido de que O Agente Secreto é o melhor filme já feito no Brasil. Disse a pessoa que respeitava a opinião dela, e perguntei-lhe se havia assistido Central do Brasil, Cidade de Deus e O Pagador de Promessas.

PS: O Brasil concorre também ao Oscar de Melhor Direção de Fotografia, com Adolpho Veloso, pelo belo filme Sonhos de Trem. Um prêmio técnico, mas essencial à linguagem cinematográfica. Fiquei muito feliz com essa indicação.

Ter dinheiro não é garantia de correção nem de bom senso

Depois de ter passado o dia inteiro mergulhado na solução de algumas pendências, antes de dormir, resolvi me atualizar sobre os acontecimentos mais recentes do Maranhão, do Brasil e do mundo.

No Maranhão, pouco ou nada mudou. O tempo vai moldando os acontecimentos e os prazos vão se encurtando, precipitando, assim, decisões que ninguém parece disposto a tomar. Essa constatação pode até soar falaciosa, mas é verdadeira. Um espera pela decisão do outro, que depende da decisão de outros, que, por sua vez, aguardam que alguém mais se decida. O resultado é a paralisia travestida de prudência.

No Brasil, a situação é pior. Aqui ninguém espera por nada nem por ninguém para fazer besteira. O presidente fala e faz o que não deve; o ministro da Fazenda não fala nem faz o que deveria; e os ministros do STF falam e fazem coisas que, se o país fosse minimamente sério, os colocariam fora de seus cargos, a serem processados e, muito provavelmente, presos.

Ocorre que essa realidade não é nova. Ela nos acompanha já faz algum tempo, e ninguém aguenta mais.

Mas é no mundo que as coisas estão realmente estranhas. Não porque o presidente da maior, mais rica e mais poderosa nação do planeta faça biquinho ao falar ou sacuda os braços fingindo dançar, mas porque ele é tolo o suficiente para escrever ao primeiro-ministro de um país amigo dizendo que, como não recebeu o Prêmio Nobel da Paz, sente-se desobrigado de ajudar a promovê-la. Alega preocupar-se apenas com a segurança do próprio país, não com a do mundo.

Ser rico nunca foi garantia de inteligência. Tenho visto e sentido isso muito de perto ultimamente. Não se trata, neste caso, de falta de capacidade intelectual, já que o bilionário em questão é bastante inteligente para ter falido seis vezes e sobrevivido ainda mais rico.

O problema é outro: hipocrisia, arrogância, prepotência e, sobretudo, ausência de inteligência emocional. Falta-lhe a compreensão básica de que a segurança de seu país não vale nada se o mundo não for seguro. Falta-lhe também humildade para perceber que ele e seu partido caminham rumo a uma derrota eleitoral acachapante nas próximas eleições legislativas deste ano.

A ideia de anexar ou comprar a Groenlândia é completamente descabida. Os argumentos contra isso são simples: se aquele território sofrer qualquer tipo de ameaça, seus aliados irão em sua defesa, e serão recompensados por isso. É assim que agem os que desejam ser corretos. Qualquer outra atitude é abusiva e inadmissível.

Um país pode estabelecer regras de contenção à imigração, bem como estabelecer, em seu território, as leis que forem por ele aprovadas. Isso é normal.

Um país bombardear alvos terroristas para eliminar covardes e facínoras que espalham ódio e terror pelo mundo, pode até ser algo até desejável.

Um país destruir instalações nucleares destinadas claramente a fins bélicos pode até ser aceitável.

Até mesmo uma intervenção pontual e cirúrgica contra um governante ilegítimo e sanguinário pode ser compreendida, ainda que traga riscos graves e precedentes perigosos.

Mas um país desejar se apoderar do território de outro simplesmente por medo, é algo completamente indesejável, inaceitável e incompreensível. Em suma: inadmissível.

Resta, então, uma pergunta diante do caso da Groenlândia e ela vale também para qualquer pretensão semelhante envolvendo o Canal do Panamá, o México ou o Canadá: o que fazer?

Confesso que não sei exatamente qual é a melhor resposta. Mas uma coisa é certa: é preciso resistir, da forma que for possível, às ações desse tipo de poder quando ameaçam não apenas países específicos, mas também a própria ideia de convivência civilizada no mundo.

Sobre meu querido amigo António Gaspar

Pensei em começar esse texto contando a você, que me prestigia com sua atenção, o que disse meu tio Zé Antonio Haickel, ao seu filho, meu primo, Elias Haickel Neto, depois que este lhe deu a notícia do falecimento de meu pai, Nagib Haickel.

Tio Zé Antonio, que estava jogando pife-pafe na casa de Zé Meireles, um velho amigo de Pindaré Mirim, ao ver Elias adentrar a sala onde estavam jogando, com uma cara de dor e constrangimento por ter de dizer ao seu pai que seu amado irmão havia falecido, ficou calado e recebeu, como resposta, uma pergunta exclamativa: “Foi Nagib!?”. Elias apenas sacodiu suavemente a cabeça, aquiescendo, e Tio Zé Antonio retrucou: Ô meu Deus, porque tu não levaste Miguel ao invés de Nagib!”. (Miguel era primo de Nagib e Zé Antonio)

Elias conta que, mesmo diante de tamanha consternação de todos os presentes, pela notícia trágica da morte de um ente tão querido, não se controlaram e riram de tamanha loucura proferida por um irmão corroído pela dor. A pergunta que todos faziam era por que Zé Antonio conclamou Deus a levar Miguel no lugar de Nagib e não se ofereceu ao todo-poderoso para ir à viagem no lugar de seu irmão.

O fato é que passei quatro dos melhores anos de minha vida convivendo de perto com Antonio Gaspar, de quem fui colega na Assembleia Nacional Constituinte e na Câmara dos Deputados, entre 1987 e 1991.

Antes de sermos deputados juntos, já nos conhecíamos informalmente, pelo convívio natural que tínhamos em nossa ainda pequena cidade.

Antonio era 16 anos mais velho que eu, mas, em muitos aspectos, tínhamos a mesma idade, pois eu sempre fui mais velho em meus gostos, costumes e afazeres, e Antonio, ao contrário, sempre foi mais jovem do que os de sua idade.

Devo fazer aqui uma inconfidência sem trair a confiança do falecido. Ele e eu admirávamos muito a beleza e a inteligência das mulheres, e nisso eu era um monge do mosteiro, enquanto ele era um dos monsenhores.

Durante a campanha eleitoral de 1986, quando concorremos, ambos pelo PMDB, nos aproximamos bastante.

No dia da convenção do partido, no momento da escolha dos números com os quais iríamos concorrer, ficamos ele e eu propensos a escolher os mesmos números: 1515 e 1516
Em sinal de respeito a ele, deixei que ele escolhesse e ficaria com o outro. Ele escolheu 1515 e eu fiquei com o 1516. Naquele dia, brinquei com ele: “Gaspar, espero seguir sempre seus passos e nos elegermos um atrás do outro”.

Aquele pleito foi uma loucura. Eu tinha apenas 26 anos e vinha de um mandato de deputado estadual, no qual me elegera com 22 anos e fui o mais jovem do Brasil naquela legislatura, mas tive mestres como Celso Coutinho, Bento Neves, Raimundo Leal, Gervásio Protásio dos Santos e José Elouf, só para citar alguns.

Antonio tinha outra trajetória. Participou ativamente dos movimentos de política estudantil e chegou a ser presidente da União Maranhense de Estudantes Secundaristas, no período, entre 1962 e 1964. Formou-se em farmácia, especializou-se em bioquímica e passou a ser professor universitário desses cursos. Foi empresário de grande sucesso no ramo das análises clínicas, tendo construído um dos maiores laboratórios desse setor, não só do nosso Estado, mas do Norte e do Nordeste do Brasil.

Ainda durante a campanha eleitoral de 1986, muitos fatos nos colocariam lado a lado, lutando juntos por nossas eleições e também pelo maior aproveitamento possível dos votos de legenda, para que conseguíssemos eleger a maior quantidade de parlamentares naquela eleição.

Gaspar disparou na quantidade de votos e eu fui o penúltimo colocado naquele pleito, mas a caligrafia ruim dos eleitores foi responsável, em muitos casos, para que o 1515 fosse 1516, e vice-versa.

Outro fato interessante é que éramos votados em muitos municípios por lideranças adversárias, mas sempre mantivemos o respeito e a consideração um para com o outro, jamais permitindo que rusgas de chefes políticos locais, de Viana, São Bento, Matinha, Penalva, Cajarí, São João Batista, São Vicente de Ferrer, Peri Mirim, Palmeirândia, Cedral, Mirinzal, Pinheiro… afetassem nosso relacionamento e nossa amizade.

Durante os trabalhos da constituinte convivemos mais de perto. Tínhamos os mesmos grupos e nos relacionávamos com os mesmos amigos: Artur da Távola, Nelson Jobim, Gastone Righi, Pedro Ciolin, Manoel Moreira, sem contar os maranhenses, Albérico Filho, Haroldo Saboia e Eliezer Moreira.

A última vez que encontrei com Antonio foi na inauguração do Makani Mall, de Roberto Hachem e passamos duas horas falando sobre política, negócios, cinema, e falamos também sobre a vida, inclusive sobre saúde e descobrimos que nós dois tínhamos a mesma ideia sobre como deve ser a vida, depois de um determinado tempo, depois que atingirmos uma determinada idade: A vida só vale a pena ser vivida se ela for boa, se ela não trouxer para as pessoas, grandes dificuldades e incômodos, constrangimentos e humilhações, dores dilacerantes e insuportáveis. Que o melhor caminho para uma vida que não fosse satisfatória para o indivíduo, era uma morte serena e tranquila.

Tenho certeza de que Antonio Gaspar teve uma vida boa, cheia de alegrias e realizações. Tenho certeza que ele foi um homem feliz e realizado em todos os âmbitos e sei que quem mais perde com sua partida somos nós que ficamos aqui sem mais desfrutarmos de seu bom humor e de sua agradável companhia.

A verdadeira história sobre esquerda e direita – nos dias de hoje

Recentemente, assisti a um sujeito um tanto aloprado, que se dizia professor da USP, recorrer a uma explicação antiga e já bastante gasta, que remonta ao século XVIII, para tentar definir o que seriam os posicionamentos de esquerda e de direita na política. Ele, de cara, comete um erro recorrente e grave: ignora a necessidade de submeter a aplicação do fato histórico à luz do tempo, de sua adaptação e acomodação, justamente quando o fator temporal e evolutivo deveria ser parte essencial para o perfeito entendimento da equação histórica.

A narrativa que ele repete não resiste a uma análise minimamente profunda. Basta observar que, mesmo em uma disposição aleatória, os semelhantes nem sempre ocupam a mesma posição espacial ou simbólica. Pode-se até admitir que, em determinado momento, tenha havido uma arrumação circunstancial entre grupos com afinidades. Mas isso não autoriza a transposição mecânica dessa imagem para a realidade prática contemporânea.

Ser de esquerda ou de direita hoje é outra coisa.

Pessoas de direita são, em essência, liberais. Defendem a livre iniciativa, o Estado Democrático de Direito e o respeito irrestrito às leis. Sustentam o direito à propriedade, valorizam a meritocracia e preservam valores tradicionais ligados à família, à religião, ao patriotismo e à cidadania responsável. Para essas pessoas, o Estado deve interferir o mínimo possível na vida dos indivíduos, limitando-se a regular questões comuns a todos, como leis, direitos e garantias, que devem ser aplicados de forma igualitária e equilibrada. Observando que quanto mais à direita, mais essas noções se intensificam e se radicalizam.

Pessoas de esquerda, por sua vez, são socialistas. Acreditam e valorizam mais as iniciativas do Estado do que as dos indivíduos. Defendem que a coletividade deve prevalecer sobre o indivíduo, muitas vezes relegando a pessoa a um plano inferior ao da comunidade. Para as pessoas de esquerda, a propriedade privada só se justifica em função da coletividade. Seus adeptos pregam a revolução permanente, a mudança contínua, e tendem a rejeitar ou relativizar valores tradicionais como família, religião e pátria. Acreditam que o Estado deve regular e controlar praticamente todos os aspectos da vida social, estabelecendo regras e métodos para tudo, sempre a partir de um padrão ideológico específico. Nessa lógica, a meritocracia deixa de ser um valor e passa a ser vista como um privilégio, e não como resultado da capacidade individual. Da mesma forma, mas em sentido oposto, quanto mais à esquerda, mais essas posições se exacerbam e se tornam radicais.

Entre esses polos, tanto à direita quanto à esquerda, situam-se os moderados: aqueles que flexibilizam suas posições com ponderação e bom senso, dialogando e transitando entre os campos que, em geral, se encontram em conflito permanente. É nesse espaço de moderação que ocorrem as negociações entre esquerda e direita, e é nele que surgem os avanços e a evolução possíveis entre esses interesses, que conseguem sobreviver neste constante conflito da lateralidade em que o mundo se encontra.

Contabilidade e dosimetria de uma possível pena atribuída a Alexandre de Moraes por seus crimes contra o Brasil e os brasileiros

Neste dia 8 de janeiro de 2026, resolvi contabilizar o número de condenados na dita tentativa de golpe de Estado, que teria ocorrido em nosso país em 8 de janeiro de 2023, uma fantasia criada pelo STF, pelo governo e por parte da imprensa, para justificar sua abjeta interferência no destino político no Brasil.

Resolvi então inverter o polo das acusações e julgar apenas o ministro Alexandre de Moraes, por abuso de poder, descumprimento do devido processo legal, destruição do Estado Democrático de Direito, atentado à lei constitucional de nosso país, e resolvi usar de forma ténue uma dosimetria que ele jamais levou em consideração nos processos que julgou, dando a ele um dia de pena para cada ano que ele tenha atribuído de para as pessoas que ele condenou injustamente.

Vocês sabem quantos anos de cadeia este verme receberia se esse julgamento fosse proferido e essa pena fosse cumprida? Mais de 30 anos de prisão.

Eu explico como cheguei a esse número. Foram mais de 800 condenações que, em média, atingiram 14 anos de pena. O montante de anos ultrapassa 11.200, que, divididos por 365, resultam em mais de 30 anos de pena que seriam aplicados a esse Torquemada moderno.

Essa alegoria serve apenas para exemplificar a destruição que esse ser abominável operacionalizou em nosso país. É apenas uma alegoria, mas bem que poderia se transformar em realidade, e isso não seria vingança, seria apenas justiça.

Ações semelhantes, motivos diferentes (ou O que Carmem Lúcia e Donald Trump têm em comum)

Há momentos na história em que decisões excepcionais são justificadas em nome de valores considerados superiores. É justamente nesses momentos que se torna indispensável um exame crítico rigoroso, pois o risco maior não está apenas na decisão em si, mas no precedente moral e institucional que ela representa.

Quando a ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, afirmou que um de seus votos seria claramente incorreto do ponto de vista jurídico, mas que ainda assim o proferiria “apenas daquela vez”, em nome de um bem maior, em nome da defesa da democracia, estabeleceu-se um raciocínio de exceção. O argumento central não foi o da legalidade estrita, mas o da finalidade política supostamente virtuosa. A correção do meio deixou de ser essencial porque o fim foi considerado superior, o que iguala a ação da ministra ao pensamento interpretativo vinculado à ideia atribuída a Maquiavel, segundo a qual o fim justifica os meios.

A lógica subjacente a esse posicionamento é simples e perigosa: a legalidade pode ser relativizada quando se acredita estar protegendo algo maior do que ela própria. Ainda que o propósito declarado seja nobre, o efeito prático é a introdução de um critério subjetivo de legitimidade, no qual o intérprete da lei se autoriza a suspendê-la parcialmente em nome de um valor que ele define de forma pessoal e discricionária.

Esse mesmo raciocínio pode ser observado, em escala distinta, mas com natureza equivalente, na defesa da intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela para depor o ditador Nicolás Maduro. Também aqui o argumento central não é a legalidade internacional, a soberania nacional ou os tratados multilaterais, mas a ideia de que a existência de uma ditadura brutal invalida esses princípios. O fim, libertar um povo oprimido, seria tão moralmente superior que justificaria a violação das regras que organizam a convivência entre os Estados.

Nos dois casos, o fundamento é idêntico: a suspensão consciente de normas reconhecidas como corretas em nome de um bem maior previamente definido por quem decide. No caso do STF, suspende-se a coerência jurídica em nome da democracia; no caso da Venezuela, suspende-se a soberania e o direito internacional em nome da libertação política.

No segundo caso, cabe ainda um outro argumento relevante, de que o povo oprimido da Venezuela não usufruía da soberania que deveria ter porque ela já havia sido usurpada dele pela ditadura ali implantada há quase 30 anos.

A equivalência moral e lógica entre essas duas atitudes não está na comparação de suas consequências materiais, mas no método de justificação. Ambas operam por exceção. Ambas afirmam, explicitamente, que a regra é válida, mas não naquele caso, naquele momento. Ambas pressupõem que o agente que decide possui legitimidade para determinar quando a norma deve ser respeitada e quando deve ser relativizada.

O problema central desse tipo de raciocínio não é apenas o risco de abuso, mas também a corrosão silenciosa dos próprios valores que se pretende proteger. Uma democracia sustentada por decisões assumidamente incorretas deixa de ser um regime de regras e passa a ser um regime de intenções. Da mesma forma, a libertação de um povo por meios que desconsideram princípios básicos do direito internacional pode substituir uma opressão por outra forma de tutela externa, que deve ser evitada a todo custo.

Em ambos os casos, a pergunta decisiva não é se o objetivo é justo, mas quem decide quando a justiça autoriza a violação da regra. Quando esse critério deixa de ser objetivo e passa a ser moralmente autodeclarado, abre-se um terreno instável em que qualquer exceção futura poderá reivindicar o mesmo argumento.

Assim, colocar essas duas atitudes em pé de igualdade não significa afirmar que são idênticas em escala ou em impacto, mas reconhecer que compartilham o mesmo fundamento ético-procedimental: a crença de que, diante de um bem maior, a fidelidade à norma pode ser momentaneamente dispensada. É justamente essa crença que, historicamente, tem mais servido para fragilizar instituições, relativizar direitos e transformar exceções em método permanente de poder, o que se viu e sentiu claramente no caso do voto “político” da ministra brasileira.

Há uma diferença moral decisiva entre repulsa institucional e alívio existencial, e é exatamente nessa fratura que se instala minha indignação.

Sinto asco ao ouvir uma ministra do Supremo Tribunal Federal, cuja função primordial é guardar a Constituição e proteger os direitos do povo brasileiro, admitir que proferiu um voto sabidamente incorreto, ainda que “apenas daquela vez”, em nome de um bem maior. Quando uma integrante da mais alta Corte do país, declara conscientemente a exceção à legalidade, não estamos diante de um erro técnico ou de uma divergência interpretativa; estamos diante de uma ruptura ética. A Constituição deixa de ser o limite do poder e passa a ser um instrumento contingente, acionado ou suspenso conforme a conveniência moral do intérprete.

Essa atitude provoca indignação porque nasce de cima para baixo, de quem detém autoridade institucional, estabilidade, proteção e poder. Não há desespero, não há coerção, não há sobrevivência em jogo. Há escolha. E a escolha foi relativizar o dever constitucional, que é exatamente o que legitima a existência do cargo.

Em sentido oposto, a satisfação do povo venezuelano ao ver-se livre do ditador Nicolás Maduro não decorre de um cálculo jurídico ou de uma abstração moral confortável. Ela nasce do esgotamento humano. É o alívio de quem foi submetido por décadas à violência de Estado, à perseguição política, à miséria administrada e à supressão sistemática de qualquer possibilidade real de escolha. Trata-se de uma reação visceral, compreensível, quase inevitável: a alegria de sobreviver à opressão.

Não se pode exigir desse povo o mesmo rigor normativo que se exige de uma ministra do STF. Um povo esmagado por uma ditadura não delibera em termos de tratados internacionais, soberania formal ou teoria constitucional; delibera em termos de vida, medo e esperança. Se, para romper o ciclo de opressão, foi necessária a intervenção de uma potência estrangeira, o sentimento de alívio não se confunde com adesão irrestrita ao meio utilizado. Confunde-se, isso sim, com a gratidão imediata por a violência cotidiana ter sido interrompida.

É justamente aí que reside o contraste moral. O povo venezuelano não tinha escolha real; a ministra brasileira, sim. O povo celebrou o fim de um algoz; a ministra relativizou a lei que jurou proteger. Um reagiu à opressão; a outra a normalizou sob o verniz do “bem maior”.

Essa diferença é essencial. Quando autoridades institucionais passam a justificar exceções conscientes à legalidade, a democracia deixa de ser um regime de regras e passa a ser um regime de intenções declaradas. Já quando um povo oprimido celebra a queda de um tirano, ainda que por meios traumáticos, não está corroendo princípios abstratos; está tentando retomar a própria condição de sujeito histórico.

Por isso, minha indignação não é contraditória. Ela é seletiva e, justamente por isso, moralmente coerente. Repudio a violação consciente da Constituição por quem existe para defendê-la. E compreendo, ainda que com reservas quanto aos meios, a satisfação de um povo que, finalmente, vislumbra a possibilidade de decidir seu próprio destino.

Confundir essas duas coisas é apagar a diferença entre quem detém o dever e quem sofre a violência, entre quem escolhe relativizar a regra e quem apenas tenta sobreviver fora dela. É essa confusão que me causa repulsa. E é contra ela que faço questão de me posicionar.

Promiscuidade como sintoma moral de uma crise coletiva

Há palavras que, quando bem compreendidas, ajudam a iluminar realidades complexas. “Promiscuidade” é uma delas. Nos últimos anos, ela parece sintetizar, de modo incômodo, muito do que vem acontecendo no Brasil, não apenas no campo dos costumes, mas, sobretudo, no plano ético e institucional dos relacionamentos.

Em seu sentido mais comum, promiscuidade costuma ser associada à prática sexual desregrada, à multiplicidade indiscriminada de parceiros e à ausência de vínculos afetivos estáveis. Trata-se de um entendimento corrente, quase automático, que carrega uma forte carga moral. No entanto, limitar o conceito a essa dimensão é empobrecê-lo. Do ponto de vista filosófico, promiscuidade diz respeito a algo mais profundo: à recusa de critérios éticos na forma como nos relacionamos com pessoas, instituições, valores e responsabilidades.

Nesse sentido ampliado, promíscuo não é apenas aquele que se entrega ao instinto sexual sem freios, mas todo aquele que aceita se relacionar, social, política ou institucionalmente, sem considerar princípios morais mínimos. É a substituição do discernimento pelo oportunismo, do compromisso pelo cálculo imediato, da ética pela conveniência. Trata-se, portanto, de uma degradação relacional que ultrapassa o indivíduo e se espalha como cultura.

A crise institucional brasileira parece encontrar aí um de seus ambientes mais férteis. Não se trata de apontar uma causa única para todos os nossos problemas, mas de reconhecer um elemento transversal que atravessa diferentes esferas da vida pública: a normalização de relações eticamente frágeis, quando não abertamente espúrias. Relações essas que passam a ser vistas como naturais, inevitáveis ou até necessárias ao funcionamento do sistema.

Quando observamos o relacionamento entre representantes eleitos e parte do eleitorado, por exemplo, percebe-se com frequência a substituição do vínculo político legítimo por trocas de favores, benefícios específicos e recompensas indiretas. O voto deixa de ser expressão de projeto coletivo e passa a ser moeda de troca. O que deveria ser exceção torna-se regra; o que deveria causar indignação passa a ser tolerado.

O mesmo padrão se reproduz nas relações entre os Poderes da República. Executivo e Legislativo, em vez de dialogarem a partir de suas atribuições constitucionais, muitas vezes se conectam por meio de interesses cruzados, negociações obscuras e dependências mútuas pouco transparentes. Quando esse tipo de lógica também alcança o Judiciário, instala-se um quadro ainda mais preocupante: o da corrosão das instâncias que deveriam arbitrar conflitos e proteger a legalidade.

Quando a promiscuidade ética passa a funcionar como lubrificante das engrenagens institucionais, o problema deixa de ser apenas político e torna-se civilizacional. Seus efeitos alcançam a imprensa, o meio empresarial, a academia, diversas categorias profissionais, os militares e, em última instância, o próprio tecido social. A fronteira entre o aceitável e o inaceitável se desloca silenciosamente.

Diante disso, surgem perguntas inevitáveis: até quando esse estado de coisas será tolerado? Em que momento a sociedade decidirá interromper esse processo de degradação moral travestido de pragmatismo? Não se trata de esperar por um evento milagroso, mas de reconhecer que nenhuma reforma institucional será eficaz enquanto não houver recuperação dos critérios éticos que orientam nossas relações.

Talvez o primeiro passo seja justamente este: nomear o problema, compreendê-lo em profundidade e recusar sua normalização. Sem isso, qualquer tentativa de mudança será apenas mais um arranjo superficial em meio a uma crise que é, antes de tudo, moral.

Minha carta para Papai Noel – 2025

Caro Papai Noel,

Nem sei se o senhor aceita receber cartas de alguém que já passou da idade de acreditar que o senhor existe e que seja capaz de presentear crianças crédulas, que tenham se comportado bem, respeitado pai, mãe e professores e mantido boas relações com irmãos e amigos ao longo de todo o ano.

Na verdade, nem me lembro mais de quando foi a última vez que lhe escrevi, mas isso pouco importa, pois hoje, mais do que nunca, eu preciso — preciso mesmo — que o senhor dê de presente para mim e para todos nós, brasileiros, algumas coisas importantes. Coisas simples, porém essenciais, que nos permita alcançar tudo aquilo que é realmente necessário para fazermos de nós mesmos, e de nosso “amado, idolatrado, salve, salve” país, um lugar melhor, mais justo; um lugar onde as leis sejam respeitadas, onde o devido processo legal seja rigidamente cumprido e onde haja irrestrita observância ao Estado Democrático de Direito.

Em suma, meu bom velhinho, precisamos que o senhor faça com que o Poder Executivo pare de comprar o Poder Legislativo por meio de emendas parlamentares e de outros subsídios. Que o ocupante dele deixe de pensar apenas em se manter no comando e passe, de fato, a zelar pelos melhores interesses de nosso povo e de nosso país. Precisamos também que o Poder Legislativo deixe de usar essas mesmas emendas como instrumento de capitalização política e financeira para perpetuação no poder e passe a trabalhar, verdadeiramente, pelo bem do povo e da Nação. E, por fim, que o Poder Judiciário cesse a usurpação das atribuições dos demais poderes, respeite e não deturpe as leis e deixe de agir de forma hipócrita, venal e prevaricadora.

Caro Papai Noel, sei que esses pedidos são complexos e difíceis de serem atendidos. Caso não seja possível realizar o que lhe peço, então considere ao menos a seguinte alternativa: Faça com que toda vez que alguém ligado aos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário estiver prestes a cometer algum ato moral ou eticamente reprovável, ou a desrespeitar as leis, seja imediatamente acometido por uma disenteria convulsiva e incontrolável, defecando sem parar até que pare com qualquer pensamento, intenção ou impulso de prevaricação, desvio de conduta ou abuso de poder.

Peço isso encarecidamente, porque já vivemos, Noel, em meio a tantas fezes que um pouco mais de merda não fará diferença alguma; ao menos, porém, eles deixarão de destruir nossas vidas, a vida de nosso povo e a vida de nosso país.

Sem mais para o momento, despeço-me desejando a você, à Mamãe Noel e a todos os seus ajudantes, e também a todo o povo brasileiro, tempos menos imundos.

O PREÇO DA DEMOCRACIA, DA JUSTIÇA E DA ESTABILIDADE JURÍDICA E POLÍTICA DE UM PAÍS (Ou o verdadeiro valor da soberania nacional)

Alguns amigos têm me perguntado por que ando tão ausente das redes sociais. Explico: nas últimas oito semanas, estive totalmente dedicado à realização de um projeto cinematográfico que exigiu de mim tempo, concentração e entrega absoluta. Ainda assim, encontrei um tempinho para escrever o texto abaixo.

No entanto, os fatos em nosso país têm ocorrido com tamanha velocidade e volatilidade que fui compelido a redigir também um segundo texto, atualizado, que reforça e aprofunda minhas reflexões.

Se você tiver paciência e interesse, leia ambos e tire suas próprias conclusões.

TEXTO 1: O CUSTO E O PREÇO INVISÍVEL DO SISTEMA

Se um ministro da Suprema Corte de um país que se pretende sério e democrático utiliza o jatinho particular do advogado de um investigado em processo envolvendo uma instituição bancária acusada de crimes contra o sistema financeiro nacional, podemos concluir que este é um dos custos e dos preços, altos e silenciosos, que somos obrigados a pagar pela democracia, pela justiça e pela estabilidade jurídico-política de nossa nação?

Se o escritório da esposa de outro ministro da Suprema Corte firma um contrato de 130 milhões de reais com a mesma instituição bancária que figura como ré neste mesmo processo, é lícito questionar se este também não é um dos custos e preços que se impõem ao país em nome de uma suposta ordem institucional?

Se, além disso, um terceiro ministro do mesmo tribunal defende publicamente que a Constituição Federal deve ser alterada para blindar os próprios ministros contra responsabilização por seus atos, mesmo diante de denúncias de irregularidades, prevaricações, abusos de poder e desvios éticos, então somos obrigados a perguntar: É este o custo e o preço que deve ser cobrado da sociedade para manter uma democracia saudável e um regime republicano funcional?

O discurso constitucional que estabelece, no Artigo 2º de nossa Carta Magna, a independência e harmonia entre os Poderes, parece, diante desses episódios, mais uma promessa abstrata do que uma prática institucional concreta. Afinal, não há equilíbrio possível quando um Poder se coloca acima dos mecanismos de controle que deveriam limitá-lo.

TEXTO 2: SOBERANIA, DIPLOMACIA E A FRÁGIL ARQUITETURA DOS PODERES

Circulam, nos bastidores diplomáticos e na imprensa especializada, relatos segundo os quais as negociações entre o Brasil e os Estados Unidos, que culminaram na retirada das sanções da Lei Magnitsky aplicadas a um ministro do Supremo Tribunal Federal, sua esposa e a instituição gestora de seus bens, teriam envolvido concessões extremamente sensíveis.

Entre tais relatos,  cuja veracidade ainda precisa ser confirmada, mencionam-se: a facilitação de tratativas envolvendo terras e minerais raros e estratégicos; compromissos de limitar projetos tecnológicos e aeroespaciais em parceria com a China; e o compromisso de não interferir radicalmente nas ações militares dos EUA no Caribe e na Venezuela.

Se tais informações vierem a ser comprovadas, ficará evidente que o inflamado discurso do governo, em defesa da soberania nacional, ocorre apenas quando lhe é conveniente. Quando não é, cede-se silenciosamente à lógica das conveniências geopolíticas, econômicas e dos interesses pessoais.

Ainda mais inquietante, porém, é saber que o ministro beneficiado pelas negociações teria agradecido pessoalmente ao Presidente da República pelo empenho em revogar as sanções. Tal gesto,  se confirmado, estabelece a existência de uma dívida pessoal e política impagável, fonte potencial de interferência indevida e de ameaça direta ao equilíbrio entre os Poderes, fundamento essencial do regime republicano.

O simples gesto de agradecimento do ministro da Suprema Corte ao chefe do Poder Executivo, por sua interferência em defesa dos interesses pessoais do ministro, estabelece um vínculo incompatível com a normalidade constitucional prevista pelo legislador originário em nossa Carta Magna. 

Como diria qualquer pessoa sensata, que consiga somar corretamente “um mais um”, fica óbvio que o sistema de freios e contrapesos previsto no Artigo 2º da Constituição não apenas encontra-se fragilizado, mas está, em grande parte, completamente inoperante.

A conclusão mais óbvia a qual se pode chegar é de que a democracia não morre de um golpe, mas de concessões silenciosas e sorrateiras.

O preço da democracia não deveria ser a corrosão de seus próprios pilares.
A estabilidade jurídica não pode repousar em privilégios, blindagens e conchavos, e a soberania nacional não pode ser moeda de troca, nem internamente, nem externamente.

Quando ministros se tornam intocáveis, quando o Legislativo abdica de seu papel fiscalizador e quando o Executivo se enreda em alianças que comprometem sua autonomia, não há harmonia entre os Poderes, mas sim subordinação, dependência e risco institucional grave.

A democracia brasileira não está sendo ameaçada por discursos extremos, mas por pequenas capitulações sucessivas que, juntas, produzem uma deformação estrutural do sistema republicano.

Acredito piamente que no futuro, os historiadores escreverão que este período pelo qual passamos, foi marcado não pela defesa da democracia ou da soberania nacional, mas pelo uso dessas bandeiras como álibis para violar os próprios fundamentos delas.

Perfil

“Poeta, contista e cronista, que, quando sobra tempo, também é deputado”. Era essa a maneira como Joaquim Elias Nagib Pinto Haickel aparecia no expediente da revista cultural Guarnicê, da qual foi o principal artífice. Mais de três décadas depois disso, o não mais, porem eterno parlamentar, ainda sem as sobras do tempo, permanece cronista, contista e poeta, além de cineasta.

Advogado, Joaquim Haickel foi eleito para o parlamento estadual pela primeira vez de 1982, quando foi o mais jovem parlamentar do Brasil. Em seguida, foi eleito deputado federal constituinte e depois voltou a ser deputado estadual até 2011. Entre 2011 e 2014 exerceu o cargo de secretario de esportes do Estado do Maranhão.

Cinema, esportes, culinária, literatura e artes de um modo geral estão entre as predileções de Joaquim Haickel, quando não está na arena política, de onde não se afasta, mesmo que tenha optado por não mais disputar mandato eletivo.

Cinéfilo inveterado, é autor do filme “Pelo Ouvido”, grande sucesso de 2008. Sua paixão pelo cinema fez com desenvolvesse juntamente com um grupo de colaboradores um projeto que visa resgatar e preservar a memória maranhense através do audiovisual.

Enquanto produz e dirigi filmes, Joaquim continua a escrever um livro sobre cinema e psicanálise, que, segundo ele, “se conseguir concluí-lo”, será sua obra definitiva.

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