Não é um filme baseado em Jane Austen, mas foi Desconfiança e Encantamento

Quem me conhece sabe o quanto eu gosto de assistir a filmes, e as pessoas mais íntimas sabem que não há um dia em minha vida que eu não assista pelo menos um.

Minha esposa, Jacira, é também apaixonada por filmes, mas normalmente os títulos escolhidos por ela acabam não sendo dos melhores, com algumas exceções, entre elas uma que superou totalmente as minhas expectativas.

Costumo dizer a ela que pelo título, o gênero, a nacionalidade, o diretor e o elenco, é possível saber se um filme é bom, regular ou ruim, e a prática de 60 anos de dedicação e paixão ao cinema me garantem um nível de acerto bem elevado.

Mas Jacira, que gosta de filmes de suspense, eu menos, de filmes muito densos e profundos, eu que sou claustrofóbico, fez uma escolha curiosa, que acabou por me surpreender.

“Meu Nome é Agneta” é uma produção sueca, dirigida por uma mulher, Johanna Runevad, que é curiosamente 14 dias mais nova que minha filha Laila.

Comecei a assistir ao filme, mesmo desconfiando da escolha de Jacira, mas algumas coisas me chamaram a atenção, como a abordagem inicial, o fato do letreiro só aparecer depois da introdução da história, o fato de ser sueco, adaptado de um livro de sucesso, roteirizado e dirigido por uma mulher jovem e com experiência anterior em séries para televisão. Aquilo tudo me deixou curioso.

O livro de Emma Hamberg, publicado em 2021, cujo título original é “Jag heter Agneta”, é a fonte onde Johanna Runevad foi beber e se refrescar, criando uma obra que, se dependesse de mim, estaria no mínimo indicada a prêmios nos mais importantes festivais de cinema do mundo.

“Meu Nome é Agneta” acompanha a personagem título, uma mulher de 49 anos que, após perder o emprego e se sentir invisível dentro do próprio casamento e da própria vida, decide aceitar uma vaga de au pair numa cidadezinha no sul da França. Lá ela descobre que a pessoa de quem deve cuidar não é o menino sueco que esperava, mas Einar, um senhor idoso, excêntrico e resistente, interpretado por Claes Månsson. A relação improvável entre os dois, construída em atritos, humor e pequenos gestos cotidianos, transforma ambos de formas que nenhum dos dois previa.

O filme é protagonizado por Eva Melander, atriz premiada pelo filme Border, e tem como cenário central a paisagem luminosa e sensorial da Provença, usada como contraponto à frieza emocional e climática da vida sueca de Agneta. É uma comédia dramática sobre invisibilidade, identidade, recomeço e a coragem de existir para si mesma numa fase da vida que o mundo costuma ignorar.

No meio do filme me lembrei de outro que assisti nos anos 90, “A Excêntrica Família de Antônia”, da diretora holandesa Marleen Gorris. Os dois filmes têm em comum o fato de serem europeus, dirigidos por mulheres, centrados em personagens femininas que recusam a invisibilidade que o mundo lhes impõe. Nos dois há personagens excêntricos que desafiam a ordem estabelecida e provocam transformações nos que estão ao redor. O fio invisível que conecta os dois é o mesmo: a recusa em desaparecer.

Esse filme me fez observar algumas coisas: Jacira nem sempre escolhe filmes que não me agradam; países incomuns produzem filmes improváveis e causam em mim reações inesperadas; e acreditar que o cinema tem um caráter sempre ideológico, do ponto de vista político, está limitando demais o cinema brasileiro, impedindo que existam em nosso país produções como essa, capazes de sensibilizar universalmente todos que as assistirem, que não estejam acima de tudo querendo autoritariamente doutrinar o espectador, mas que abram os seus olhos e possibilitem que ele veja, com graça, alegria e inteligência, opiniões, ideias e mundos diferentes.

RC: Essencial

Imagine que alguém lhe diga: “Eu preciso de você. Você em minha vida foi uma felicidade que aconteceu. Como é grande o meu amor por você! Quando eu estou aqui eu vivo esse momento lindo, e o que eu sinto por você não sei explicar, só sei que quero que você me aqueça neste inverno, e que tudo mais vá para o inferno. Eu te proponho nós nos amarmos, nos entregarmos, porque de que vale tudo isso se você não está aqui, eu não posso mais viver assim ao seu lado e ao mesmo tempo sem você, mas ficam esses detalhes tão pequenos de nós dois, coisas muito grandes pra esquecer, e se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi. Mas sabe, além do horizonte deve ter algum lugar bonito pra viver em paz, e talvez seja lá, ou talvez seja aqui mesmo, onde a gente possa simplesmente se amar, na beira do mar ou em qualquer lugar, e no fim das contas é simples assim, metade de mim é você, e a outra metade também. Vou cavalgar por toda a noite, usar meus beijos como açoite, e minha mão mais atrevida, vou me agarrar aos seus cabelos, pra não cair do seu galope…”

Imagine se você recebesse uma carta assim!?… Provavelmente pensaria estar diante de alguém tomado por uma coragem rara, dessas que já não se encontram com facilidade num tempo em que as pessoas têm medo até de nomear o que sentem. Poderia achar exagerado, talvez até ingênuo, mas dificilmente negaria a força de quem se dispõe a dizer o essencial sem disfarces, sem ironias, sem a proteção confortável do cinismo.

Pois é. Existe um sujeito que diz essas coisas há mais tempo do que eu tenho de vida: Roberto Carlos.

Talvez seja exatamente aí que esteja o fenômeno que muitos insistem em não compreender. Não se trata apenas de sucesso, longevidade ou repetição. Trata-se de algo mais raro e mais difícil, a capacidade de traduzir sentimentos complexos em linguagem simples sem empobrecê-los. Num mundo que valoriza cada vez mais a esperteza, a ambiguidade e a aparente sofisticação, Roberto fez o caminho inverso. Escolhe a clareza. Escolhe dizer “eu te amo” sem pedir desculpas por isso.

Há um risco permanente de se confundir aparência com essência, e no campo das emoções esse risco parece ainda mais pertinente. Há uma tendência contemporânea de tratar a simplicidade como superficialidade, quando muitas vezes ela é, na verdade, o resultado de um longo processo de depuração. Dizer o que sente com precisão e sem adornos é, no fundo, um exercício prático de verdade, e a verdade raramente se apresenta de forma confortável.

Roberto Carlos, gostem ou não, construiu sua obra exatamente nesse território. Ele não disputa com o hermetismo. Usa a metáfora como arma poderosa, mas não a usa em excesso nem em vão. Com ela transforma imagens de amor em quadros maravilhosos e traduz enigmas que a razão não alcança. Ele expõe, repete, afirma algo que o mundo parece determinado a esquecer.

Fui no sábado, 9 de maio, assistir Roberto em uma nova e maravilhosa casa de shows, o São Luís Hall. E aqui preciso abrir um parêntese. O local é fantástico. Ali nossa cidade poderá receber os maiores e melhores shows do Brasil e do mundo. De parabéns os empreendedores daquele projeto.

Mas como dizia, ali, diante de uma plateia que cantava cada palavra como se estivesse recuperando partes de sua própria história, ficou evidente que não se trata apenas de um cantor, mas de um depositário de memórias afetivas coletivas. Cada verso, por mais simples que pareça, funciona como um gatilho de lembranças, de histórias pessoais, de amores vividos e, muitas vezes, perdidos.

A memória é condição da aprendizagem e também condição da sensibilidade. Sem memória afetiva, o amor se torna raso, episódico, descartável. Roberto, ao repetir suas canções ao longo de décadas, não está apenas cantando. Está preservando um modo de sentir que resiste ao tempo.

Tudo passa. O tempo devora homens e histórias com a mesma indiferença. Talvez por isso mesmo seja tão significativo ver um artista que, ao invés de se render à efemeridade, insiste em afirmar sentimentos duradouros, permanentes, quase fora de moda.

E no fim, a impressão que fica é simples e ao mesmo tempo desconcertante: talvez o que chamamos de romantismo não seja um excesso, mas uma escassez. Talvez o que pareça exagero seja apenas falta de hábito. Talvez tenhamos nos desacostumado a ouvir, e mais ainda a dizer, aquilo que realmente importa.

O peso da leveza

Uma pessoa sentia-se energeticamente enfraquecida, cansada, bocejava o tempo inteiro, mesmo sem sentir sono. Apresentava sintomas daquilo que comumente se chama de mau-olhado ou olho gordo.

Alguns amigos indicaram medidas no sentido de estancar a perda de energia e sanar o problema: um banho com sal grosso, do pescoço para baixo, acender uma vela para São Miguel Arcanjo, o guerreiro de Deus, e um banho com ervas, plantas e pétalas de rosas brancas e amarelas, da cabeça para baixo, para lavar-se e livrar-se de todo mal.

Essa pessoa me perguntou se eu acreditava em tudo aquilo, e lhe respondi que acredito que as energias das pessoas sofrem influência do ambiente, das outras pessoas e, principalmente, de aspectos ligados a cada um de nós mesmos, que, quando em desequilíbrio ou em fragilidade, refletem em nossa performance.

Existe aquele dia em que estamos mais lentos, sem vontade de sair de casa, desejando nos jogar no fundo de uma rede e simplesmente cochilar. Isso acontece com todo mundo. Disse a essa pessoa que esse tipo de coisa é natural e que, de uma forma ou de outra, tudo se resolve.

Fazendo tudo que lhe foi indicado, de certa forma sentiu-se melhor, mas só veio a melhorar de verdade depois que recebeu uma mensagem pelo Instagram, de alguém de quem não tinha notícia há mais de trinta anos, pedindo-lhe cem reais emprestado, pois se encontrava doente e sem emprego.

Assim que leu a mensagem, dois pensamentos vieram-lhe ao mesmo tempo. O primeiro, que sua vida invejável estampada nas redes sociais, cheia de alegria, sucesso e felicidade, poderia estar atraindo energias pesadas de quem a observava com inveja. O segundo, que aquela mensagem poderia ser um desses golpes que ocorrem a todo instante, pois duvidou que alguém conhecido na juventude pudesse estar tão mal financeiramente.

Por um instante sentiu um aperto na garganta e um desconforto que começava no abdômen e subia para o tórax.

Respirou fundo e pensou que ajudar aquela pessoa, fosse ou não golpe, surtiria mais efeito positivo que os banhos, a vela e a reza, no sentido de melhorar seu estado.

Dito e feito. Imediatamente transferiu via pix o dobro do que havia sido pedido. A pessoa então respondeu dizendo que havia um engano, que havia pedido apenas a metade daquele valor. A resposta foi que aquilo não era um empréstimo, mas um presente.

Assim que terminou de teclar a mensagem, sentiu como se saísse de seus ombros um peso enorme, o mesmo peso que vinha carregando desde o início de todo aquele mal-estar. Os rituais talvez tivessem preparado o terreno. Mas foi aquele gesto de empatia e generosidade que verdadeiramente lhe curou.

O Pitch – uma declaração de amor ao cinema

Depois de cinco meses, voltei a assistir, desta vez em sua versão totalmente finalizada e revisada, ao nosso filme O Pitch – uma declaração de amor ao cinema, e devo dizer que estou feliz com o resultado que alcançamos.

Esse projeto nasceu do desejo de homenagear o cinema e as pessoas que idealizam e realizam filmes, valorizando, principalmente, a ideia por trás de tudo: a motivação, a história, o roteiro, sua adaptação e o esforço para transformar tudo isso em um produto audiovisual que transmita informação e cultura, e que seja veículo de arte e entretenimento.

Para que isso fosse possível, reuni cinco histórias que acredito terem o potencial necessário para prender a atenção do espectador, despertar sua curiosidade e lhe proporcionar satisfação, permitindo que ele se veja, ou reconheça nelas situações e experiências próximas às suas.

Um dos meus maiores prazeres na realização deste projeto foi poder contar com o apoio de uma das empresas ligadas ao Polo de Cinema do Maranhão e do Sindicato da Indústria do Audiovisual do Maranhão, a Steady Comunicação, além de pessoas como Coi Belluzzo, Sheury Manu Neves e Adriano Silper, e de um elenco formado por alguns dos melhores atores e atrizes do nosso estado, bem como de uma equipe técnica integralmente composta por maranhenses.

O elenco, com Áurea Maranhão, Breno Nina, Tassia Duh, Cesar Boaes, Tiago Andrade, Alberto Danúzio e Nádia de Cássia, demonstrou claramente a excelente qualidade artística que temos em nossa terra para a realização de bons projetos.

O corpo técnico do filme, igualmente composto por maranhenses, reafirma nossa capacidade de produzir com autonomia nesse setor.

Ter esse time comigo foi a garantia de realizar uma boa obra, de trabalhar em um ambiente harmonioso e de construir um processo em que a tônica fosse a alegria e o prazer.

Finalizado em dezembro de 2025, O Pitch foi inscrito, até o momento, em 25 festivais, tendo sido selecionado para 8, rejeitado em 2 e aguardando o resultado de outros 15.

Agora seguimos aguardando os resultados das seleções e das premiações nos festivais em que já fomos incluídos, bem como o retorno dos demais.

A mim, resta apenas agradecer a todos que participaram comigo desta jornada e dizer que, sempre que possível, estaremos juntos em novos projetos.

Quando a investigação ameaça o poder

Hoje vou tratar aqui de um dos desdobramentos da CPI do crime organizado no Senado Federal.

Os trabalhos da comissão vinham transcorrendo dentro da normalidade. O presidente era do PT, o relator do MDB, e não havia, até então, maiores sobressaltos no seu funcionamento. O quadro começa a se alterar quando o presidente do Senado nega a possibilidade de prorrogação dos trabalhos, decisão que, no mínimo, levanta questionamentos relevantes, especialmente diante do entendimento consolidado de que CPIs, uma vez preenchidos certos requisitos, podem ter seus prazos estendidos.

Esse é apenas um dos aspectos controversos do caso. Afinal, a continuidade de uma comissão com esse objeto inevitavelmente produz efeitos no tabuleiro político nacional, o que torna difícil dissociar completamente decisões regimentais de suas consequências políticas.

A CPI investigava o crime organizado de forma ampla, mas o relator decidiu concentrar seu trabalho na existência de organizações com atuação em níveis sensíveis das estruturas das instituições governamentais. Foi a partir desse recorte que as dificuldades começaram a surgir, culminando na decisão do presidente do Senado de não permitir a prorrogação dos trabalhos da comissão.

Esse direcionamento passou a lançar luz sobre um terreno particularmente sensível, uma zona histórica e tradicionalmente pouco iluminada justamente por suas implicações, que não parece interessar a determinados segmentos dos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário que seja plenamente conhecida e compreendida em toda a sua extensão.

Findo o prazo da CPI, e apresentado o relatório pelo relator da comissão, membros dos poderes Legislativo e Executivo passaram a operar manobras regimentais e legais, mas nem por isso decentes, morais ou éticas, com o objetivo de alterar a composição da comissão. Em outras palavras, substituíram seus integrantes para que, no momento da votação do parecer, este fosse rejeitado, impedindo que as medidas nele contidas fossem acolhidas como decisão do Senado Federal.

É importante registrar que o relator concentrou excessivamente sua análise nas organizações criminosas com atuação nas instituições políticas nacionais,  especialmente em episódios recentes envolvendo o INSS e o Banco Master, avançando sobre algumas figuras do Poder Judiciário. Esse recorte abriu espaço para críticas pertinentes, no sentido de que o relatório acabou assumindo contornos mais políticos do que técnicos, o que, em certa medida, é um ponto com o qual concordo.

Isso, no entanto, não elimina o fato de existirem organizações criminosas formalmente estruturadas em nosso país, com atuação em níveis sensíveis das estruturas dos três poderes, fenômeno que, por sua gravidade, deve ser enfrentado com rigor.

Lembremo-nos de que o crime organizado não se limita às práticas mais visíveis, como tráfico de drogas, armas e pessoas, assaltos, sequestros e assassinatos. Trata-se de um fenômeno mais amplo, que envolve a atuação coordenada de indivíduos voltados à obtenção de objetivos em desconformidade com a lei.

Nesse contexto, inserem-se condutas como corrupção ativa e passiva, peculato, fraudes em licitações e contratos públicos, lavagem de dinheiro, concussão, prevaricação, quando praticada de forma articulada, facilitação de crimes, extorsão, associação criminosa e obstrução de justiça.

É verdade que o fato de o relatório não pedir o indiciamento de figuras conhecidas do crime organizado em nosso país, ao mesmo tempo em que solicita o indiciamento de três ministros do STF e do Procurador-Geral da República, enfraquece sua consistência e abre espaço para questionamentos legítimos.

Ainda assim, esse ponto não pode servir de justificativa para reações que ultrapassem os limites institucionais. Não cabe a autoridades eventualmente mencionadas no relatório recorrer a mecanismos que possam ser interpretados como formas de pressão ou intimidação contra o relator, que atua no exercício regular de seu mandato, amparado pelas prerrogativas constitucionais e pela imunidade parlamentar.

Aqui cabe um dos questionamentos mais relevantes do nosso tempo: quem controla aqueles cujas decisões, na prática, tornam-se irrecorríveis? Quem estabelece limites quando o exercício do poder ultrapassa o razoável? E, sobretudo, quem os contém?

Em um ambiente institucional sólido, seria no mínimo questionável que um ministro mencionado em relatório de CPI acionasse o Procurador-Geral da República, que, além de figurar no mesmo relatório, possui relação pregressa com o próprio interessado, para investigar o senador responsável pelo documento.

Não sei o que é mais grave: a ausência de um diagnóstico mais amplo sobre o crime organizado no relatório final da CPI, a inclusão de autoridades no pedido de indiciamento sem a devida robustez técnica, ou a reação dos mencionados no relatório, que, sendo quem são e ocupando os cargos que ocupam, reagem de forma a pressionar, confrontar e tentar intimidar quem os questiona.

Diante de tudo isso, a impressão que se impõe é a de que algo essencialmente errado se instalou no funcionamento das instituições.

Prefiro acreditar em Aristóteles, Kant, Kelsen, Hart e Schmitt a aceitar que o direito seja reduzido a uma mera vontade moralista de ocasião

Volto a comentar sobre esse assunto, a pedido de um amigo, mas também por acreditar que ele esteja no cerne de uma das questões mais fundamentais do nosso tempo: a mudança do paradigma judicial em nosso país. Um deslocamento sutil, porém profundo, em que o fato jurídico perde relevância diante da conotação moral atribuída às intenções, muitas vezes encobertas sob os véus das vestais moralistas que parecem habitar certos setores de nossos tribunais superiores, onde não raro se estabelecem, com inquietante elasticidade, os conceitos e limites que a sociedade deve seguir.

Tenho acompanhado o debate em torno da forma de preenchimento da vaga de governador do Rio de Janeiro, aberta com a renúncia de Cláudio Castro, e confesso que me chama atenção a facilidade com que se tenta deslocar o eixo da discussão, saindo do terreno objetivo da norma para um campo mais nebuloso, onde motivações políticas passam a disputar espaço com regras constitucionais claras. É como se, diante de um fato jurídico simples, a vacância do cargo, houvesse uma tentativa deliberada de sofisticar o problema para justificar uma solução previamente desejada.

A Constituição, nesse ponto, não deixa margem para grandes exercícios de criatividade interpretativa nem para a politização do tema. Ela não pergunta por que o cargo ficou vago. Não investiga se a renúncia foi fruto de cálculo político, pressão, conveniência ou estratégia. Limita-se a constatar o fato da vacância e, a partir daí, estabelece um critério temporal objetivo para o seu preenchimento. Se a vacância ocorre na primeira metade do mandato, a solução é uma, eleição direta. Se ocorre na segunda metade, a solução é outra, eleição indireta. Trata-se de uma regra simples, deliberadamente concebida para blindar a estabilidade institucional contra circunstâncias conjunturais.

O que se observa, no entanto, é a tentativa de trazer para o centro da análise aquilo que deveria permanecer na periferia, a motivação da renúncia. Argumenta-se, ainda que nem sempre de forma explícita, que uma renúncia realizada com o objetivo de evitar uma cassação não poderia produzir os mesmos efeitos de uma renúncia neutra, como se o ordenamento jurídico operasse com categorias morais dessa natureza. Esse raciocínio, embora sedutor no plano político, é juridicamente frágil, porque introduz um elemento subjetivo justamente onde a Constituição optou pela objetividade.

É evidente que a motivação não é irrelevante em todos os contextos. Ela pode ser decisiva, por exemplo, para avaliar a validade do próprio ato de renúncia, em hipóteses extremas de fraude, coação ou simulação. Mas esse é outro debate. Uma vez reconhecida a validade da renúncia, o que resta é um fato jurídico consumado, a vacância do cargo, e é sobre esse fato que incide a norma constitucional. Misturar esses planos é abrir espaço para que decisões passem a ser tomadas não com base no que a lei diz, mas no que se imagina que deveria ter sido a conduta do agente.

Há, nesse movimento, um risco que não é pequeno. Ao admitir que a motivação possa interferir na forma de preenchimento da vaga, cria-se um precedente em que cada caso passa a exigir uma investigação moral sobre intenções. Com isso, perde-se aquilo que o direito tem de mais valioso em situações como essa, a previsibilidade. E, sem previsibilidade, o que se instala é a discricionariedade, que, em matéria constitucional, costuma ser apenas um nome mais sofisticado para a arbitrariedade.

No fundo, a questão é simples, ainda que se tente complicá-la. Ou se julga o fato, e se aplica a regra, ou se julga a intenção.

E, quando se passa a julgar intenções, o direito deixa de ser norma e passa a ser vontade.

As decisões de Eduardo Braide

Por saberem de minha amizade com Eduardo Braide, muitas pessoas me perguntavam sobre sua candidatura ao governo do Maranhão. Eu sempre respondia da mesma forma: Eduardo é um homem discreto, um político que fala pouco e raramente revela ideias ou planos antes que estejam praticamente definidos. Foi exatamente o que ocorreu com sua decisão de disputar o governo do Estado.

Eu mesmo tinha dúvidas se ele seria candidato. Passei, então, a analisar os cenários possíveis de forma prática, como procuro fazer sempre, buscando compreender não apenas o que pode acontecer, mas o que é plausível que aconteça.

Costumo recorrer a quatro referências mentais. As duas primeiras são ilustrativas: imagino o que faria meu pai, Nagib Haickel, um homem pouco sofisticado, mas extremamente prático e voluntarioso. Em seguida, penso no que faria José Sarney, sofisticado, culto, politicamente refinado. Depois disso, passo a me colocar no cenário, tentando conciliar essas duas naturezas, para então construir uma análise mais consistente, procurando pensar como o personagem analisado.

Foi assim que examinei a candidatura de Eduardo Braide.

Se fosse Nagibão, ele não seria candidato. Preferiria consolidar-se como o melhor prefeito de São Luís desde Haroldo Tavares a enfrentar a poderosa máquina do governo estadual. Se fosse Sarney, seria candidato, ainda que isso implicasse aceitar apoios incômodos, politicamente úteis, mas pessoalmente indesejáveis.

Até ali, o jogo permanecia equilibrado. Restava a terceira análise: o que eu faria?

Parte de mim permaneceria na prefeitura, aprofundando o trabalho já realizado. Outra parte se inclinaria a expandi-lo para o Estado. Logo surgiriam as dúvidas inevitáveis: seria possível vencer? E, vencendo, seria possível reproduzir em escala maior o que foi feito em São Luís?

Ao me colocar no lugar de Eduardo, vivi esse conflito. Parte de mim era certeza, outra parte era dúvida.

A partir daí, passei a observar ainda mais um traço que sempre me chamou atenção em Eduardo: seu individualismo. Um individualismo funcional, nascido de uma desconfiança estrutural, que o leva a depender o mínimo possível de terceiros, evitando tornar-se refém de pessoas ou grupos.

Essa característica tem vantagens evidentes, mas também limitações. Quem decide sozinho tende a demorar mais, justamente quando a política exige rapidez. O esforço para não errar pode, paradoxalmente, conduzir ao erro, ou, no mínimo, à perda de tempo.

Ao decidir se candidatar, Eduardo aparentemente não considerou a derrota como fator determinante. E faz bem. Na política, perder pode ser parte do caminho para vencer, como demonstram Lula e, em nosso Estado, Flávio Dino.

Em 2006, um jornalista me perguntou sobre o futuro de Flávio Dino. Respondi que ele seria um dia governador. Do mesmo modo, afirmo agora: Eduardo Braide será governador do Maranhão. Pode ser já, pode ser depois. Mas será.

Para que isso aconteça agora, terá de tomar decisões difíceis. Precisará avaliar até que ponto aceitará apoios que, pessoalmente, rejeitaria. Terá de decidir se amplia sua base, inclusive dialogando com setores com os quais hoje não se identifica plenamente.

São escolhas inevitáveis.

Conhecendo Eduardo como penso conhecer, acredito que tentará trilhar o caminho do centro, preservando sua autonomia e reduzindo, tanto quanto possível, sua dependência política.

A escolha de seus companheiros de chapa ilustra isso. Ao indicar uma empresária da região tocantina, ligada ao agronegócio, com vínculos com o empresariado de Imperatriz e identidade com o eleitorado evangélico e de direita, fez uma escolha pessoal, sem negociações aparentes, deixando claro quem conduz sua campanha.

Quando me perguntam o que penso sobre Eduardo Braide, respondo que, partindo do pressuposto de que não existem políticos plenamente bons, mas sim graus de imperfeição, dentro dessa escala, acredito que Eduardo não está entre os mais imperfeitos políticos em atividade em nosso estado.

Sobre o preenchimento do cargo de governador do Rio de Janeiro

Tenho acompanhado os votos dos ministros do STF sobre o preenchimento do cargo de governador do Estado do Rio de Janeiro e, a cada justificativa apresentada, cresce em mim o espanto diante da fragilidade, para dizer o mínimo, dos argumentos ali sustentados.

Ouvi considerações de toda ordem, inclusive algumas que extrapolam os limites objetivos do julgamento. Em determinados momentos, traz-se à baila o suposto motivo da vacância; em outros, menciona-se o fato de os ocupantes dos cargos terem sido afastados por irregularidades ou crimes. Nada disso, contudo, parece juridicamente relevante para a questão central.

E é justamente aí que reside o problema.

As normas que regulam a matéria não fazem qualquer distinção quanto à causa da vacância. Não importa se ela decorre de renúncia, cassação, morte ou qualquer outro motivo. A Constituição é direta: considera apenas o fato da vacância e estabelece dois critérios temporais para o seu preenchimento. Se ocorrer no primeiro biênio do mandato, impõe-se a eleição direta; se ocorrer após esse período, a eleição deve ser indireta, realizada no âmbito do Poder Legislativo.

Não há margem interpretativa razoável que autorize afastar essa regra. Nenhum tribunal, por mais elevado que seja, pode substituir um comando constitucional claro por construções argumentativas baseadas em elementos estranhos ao texto normativo.

O que se observa, portanto, não é uma controvérsia jurídica genuína, mas a introdução de considerações de natureza política em um campo que deveria ser regido por critérios estritamente constitucionais.

E isso, mais do que qualquer erro técnico, é o que realmente inquieta.

Qualquer que seja o suporte empírico enfrentado por qualquer tribunal, isso não lhe permite ou autoriza a desconhecer as regras constitucionais básicas, diretas e claras. Fora disso o que há é desrespeito direto e acintoso aos preceitos constitucionais, coisa que está ficando comum e corriqueira em nosso país.

Fico a refletir sobre o fato de ser apenas um advogado, alguém que estudou o Direito como instrumento para a vida pública como parlamentar, enquanto juristas de renome parecem incapazes, ou talvez indispostos, a reconhecer a simplicidade do que está posto. Diante disso, resta uma dúvida incômoda: trata-se de incapacidade de compreender o óbvio ou de deliberada opção por ignorá-lo.

A única pista para o que o homem pode fazer é o que o homem fez

Durante algum tempo pensei que o cinema não mais produziria grandiosos filmes épicos, como Ben-Hur, Lawrence da Arábia, Os Dez Mandamentos, Spartacus, E o Vento Levou, Cleópatra, Quo Vadis, El Cid, A Ponte do Rio Kwai, Guerra e Paz, Apocalypse Now, O Poderoso Chefão, Ran, Coração Valente, Doutor Jivago, Gandhi, Titanic, A Lista de Schindler, Dança com Lobos, Uma Ponte Longe Demais, apenas para citar alguns, dos quais assisti a todos mais de uma vez. Alguns deles assisti uma dúzia de vezes e jamais me cansaram.

Pensei que iríamos nos acostumar com épicos de outra natureza, moldados por uma nova gramática visual, como Gladiador, O Senhor dos Anéis, Troia, Cruzada, Avatar, Duna, Game of Thrones, Vikings, The Crown, Chernobyl, todos igualmente vistos, revisitados e assimilados.

Pensei, também, que o uso cada vez mais sofisticado de tecnologias visuais acabaria por obscurecer aquilo que sempre foi o núcleo do cinema, a força das histórias, dos enredos, dos personagens, daquilo que inquieta mais do que impressiona. Mas, ao assistir a Nuremberg tive a confirmação de que o épico do nosso tempo não desapareceu, ele apenas mudou de lugar. Saiu dos campos de batalha e se instalou, com mais intensidade, dentro da consciência humana.

Mesmo sendo um tema amplamente conhecido, o julgamento dos criminosos nazistas ocorrido em 1946, o filme surpreende ao deslocar o eixo da narrativa. Não se trata apenas de reconstituir fatos, mas de investigar as condições psicológicas que os tornaram possíveis. Não é o que aconteceu que está em jogo, mas como aquilo pôde acontecer sem que o próprio homem se percebesse como aquilo era.

O que o filme expõe, com precisão incômoda, é a fragilidade daquilo que gostamos de chamar de consciência individual. Não há monstros no sentido clássico, não há caricaturas do mal. O que há são homens que pensaram, justificaram, obedeceram, organizaram e, sobretudo, se adaptaram. O mal ali não surge como ruptura, mas como continuidade. Ele não explode, ele se instala. Não é um desvio, é um processo.

E talvez seja esse o ponto mais perturbador. Aqueles homens não apenas participaram de uma engrenagem moralmente monstruosa, eles se tornaram compatíveis com ela. Não houve uma fratura interna suficiente para detê-los. Houve, ao contrário, uma reorganização íntima da realidade que tornou o inaceitável psicologicamente habitável.

Não se trata, portanto, de simples mentira ou cinismo. Trata-se de algo mais profundo e mais inquietante, a capacidade humana de reconstruir internamente os próprios atos de modo a preservá-los dentro de uma narrativa suportável. O homem não precisa ignorar o que fez, ele precisa apenas reinterpretar o que fez. E isso basta.

Dito isso, fica claro que “A única pista para o que o homem pode fazer é o que o homem fez”. Não há natureza ideal escondida sob a história, nem um “verdadeiro eu” moralmente protegido das circunstâncias. O homem é aquilo que já provou ser capaz de fazer quando as condições permitiram.

Essa constatação dissolve a distância confortável entre “eles” e “nós”. O filme, nesse sentido, não é apenas um tribunal histórico, é um espelho moral. Não julgamos apenas os réus, somos levados, inevitavelmente, a nos confrontar com a possibilidade de que os mecanismos que operaram ali continuam disponíveis, intactos, dentro de qualquer consciência humana.

Há, ao longo do filme, uma tensão constante entre culpa e responsabilidade. Muitos daqueles homens não se reconhecem culpados, mas são, inescapavelmente, responsáveis. E essa dissociação é reveladora. A culpa é um sentimento, a responsabilidade é um fato. O julgamento, portanto, não depende da consciência do acusado, mas da realidade dos seus atos.

E é nesse ponto que o filme alcança sua dimensão verdadeiramente épica. Não há multidões em marcha, não há batalhas coreografadas, não há grandiosidade externa. O que há é um conflito silencioso, travado no interior da consciência humana, entre aquilo que se fez e aquilo que se é capaz de admitir que fez. É um épico sem espetáculo, mas de uma grandeza moral sufocante.

No fim, o que permanece não é a sentença, nem os fatos, já conhecidos, mas a impossibilidade de escapar da pergunta que o filme nos impõe. Não se trata mais de saber se somos diferentes daqueles homens. Trata-se de reconhecer em que circunstâncias deixaríamos de ser.

PS: A frase título deste texto, “A única pista para o que o homem pode fazer é o que o homem fez”, de autoria de R. G. Collingwood, aparece no final do filme “Nuremberg”.

O paspalho

Desde ontem estou tentando apaziguar minha mente para poder escrever um texto sobre Donald Trump sem incorrer em erro grave, nem como escritor, nem como observador da cena política mundial, nem como mero tripulante deste imenso veículo chamado Terra.

Mas querem saber de uma coisa? Não vou ligar para nada disso. Não vou me preocupar em ser elegante, nem em ser ponderado, porque há momentos em que a tentativa de parecer equilibrado tira o foco daquilo que é essencial. E o essencial aqui é simples, estamos diante de um homem que brinca com o destino de milhões como se estivesse operando um negócio qualquer, alguém que trata o poder como extensão do próprio ego, não como algo que exija responsabilidade.

Não se trata apenas de estilo, de grosseria ou de retórica inflamada. Trata-se de incapacidade, ou pior, de indiferença. Um bilionário sem pedigree, que parece não compreender, ou o que é pior, compreende perfeitamente e ainda assim ignora, o impacto real de suas decisões sobre economias, alianças, guerras e vidas humanas.

E isso é o que mais assusta.

Até senti pena dele quando sofreu um atentado. Até cheguei a nutrir alguma esperança de que sua vitória pudesse evitar algo ainda pior, representado por uma alternativa igualmente frágil, hipócrita e despreparada. Mas o que se seguiu não foi um governo imperfeito, foi uma sucessão de atos que revelam não apenas erro, mas completo despreparo para o exercício racional e sadio do poder.

Desculpem, mas estou transtornado, não por antipatia pessoal, mas porque o que está em jogo não é a figura de um homem, é o equilíbrio do mundo.

Essa criatura me enoja, não apenas pelo que diz, mas pelo que faz, e principalmente pelo que parece não ser capaz de compreender.

E há algo ainda mais inquietante.

Por um instante, ocorreu-me que tudo isso pode não ser apenas desordem ou incompetência. Pode haver método no caos. Pode ser que, ao enfraquecer estruturas, tensionar alianças e desorganizar o que sustenta o Ocidente, ele esteja, consciente ou inconscientemente, contribuindo para reduzir o valor daquilo que deveria proteger, quem sabe para comprá-lo na bacia das almas.

E, se isso for verdade, o problema deixa de ser apenas um líder inadequado.

Passa a ser algo muito mais grave.

Porque então não estaremos diante apenas de um paspalho.

Estaremos diante de alguém que, por ignorância ou cálculo, pode estar ajudando a desmontar aquilo que levou séculos para ser construído.

Perfil

“Poeta, contista e cronista, que, quando sobra tempo, também é deputado”. Era essa a maneira como Joaquim Elias Nagib Pinto Haickel aparecia no expediente da revista cultural Guarnicê, da qual foi o principal artífice. Mais de três décadas depois disso, o não mais, porem eterno parlamentar, ainda sem as sobras do tempo, permanece cronista, contista e poeta, além de cineasta.

Advogado, Joaquim Haickel foi eleito para o parlamento estadual pela primeira vez de 1982, quando foi o mais jovem parlamentar do Brasil. Em seguida, foi eleito deputado federal constituinte e depois voltou a ser deputado estadual até 2011. Entre 2011 e 2014 exerceu o cargo de secretario de esportes do Estado do Maranhão.

Cinema, esportes, culinária, literatura e artes de um modo geral estão entre as predileções de Joaquim Haickel, quando não está na arena política, de onde não se afasta, mesmo que tenha optado por não mais disputar mandato eletivo.

Cinéfilo inveterado, é autor do filme “Pelo Ouvido”, grande sucesso de 2008. Sua paixão pelo cinema fez com desenvolvesse juntamente com um grupo de colaboradores um projeto que visa resgatar e preservar a memória maranhense através do audiovisual.

Enquanto produz e dirigi filmes, Joaquim continua a escrever um livro sobre cinema e psicanálise, que, segundo ele, “se conseguir concluí-lo”, será sua obra definitiva.

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