Visões de um mesmo fato

Na última sexta-feira, em um jantar na casa de um casal de amigos, como é inevitável, surgiu o assunto cinema. Todos queriam saber o que eu acreditava que poderia acontecer em relação à premiação do Oscar deste ano. Ocorre que só mencionei aqui esse tema para não parecer antipático, pois o que realmente me interessava naquela noite era outro assunto que havia surgido.

Uma das pessoas presentes começou a discorrer sobre a atitude do ministro Flávio Dino em relação aos famosos “penduricalhos remuneratórios”, que transformam os vencimentos de altos funcionários públicos, dos três Poderes da República, em supersalários.

A pessoa que puxou o assunto, uma advogada de destaque em nossa sociedade, comentava que aquela era uma atitude extraordinária, própria de um ministro diferente daqueles que envergonham o nosso Judiciário. Um ministro que, diferentemente de Mendes, Toffoli e Moraes, reacenderia a esperança de que a Suprema Corte pudesse voltar a ser moralizada e respeitada, não apenas pelos operadores do direito, mas também pela população do país.

Depois disso, um ex-parlamentar, conhecido por seu espírito sagaz e bem-humorado, interveio: “Doutora, não se esqueça de que a pessoa a quem a senhora se refere é a mesma que deu sumiço às imagens das centenas de câmeras de segurança da Praça dos Três Poderes e dos prédios ali localizados, no fatídico dia 8 de janeiro de 2023…”

Todos então se voltaram para mim, querendo saber o que eu pensava sobre aquela situação.

Respondi o que sempre digo a respeito do ministro Flávio Dino: que, em minha opinião, ele é o mais competente e o mais bem preparado ministro da Suprema Corte. Que peca, no entanto, ao se posicionar politicamente enquanto magistrado. Que, entre seus defeitos, não está a venalidade financeira, mas pesa contra ele o fato de agir politicamente em um ambiente onde a política é inaceitável. Ressaltei, contudo, que, tanto nesse caso quanto no das emendas parlamentares, ele se posicionou em total conformidade com a correção, a lei e a justiça.

Após isso, um senhor que conheci naquela noite, apresentou uma leitura um pouco diferente. Segundo ele, os fatos teriam ocorrido de forma mais complexa do que aparentavam. Disse que, depois de o Congresso Nacional aprovar, em tempo recorde e de maneira inesperada, um aumento vertiginoso nos salários de seus funcionários, o presidente da República ficou em uma situação extremamente desconfortável.

Se vetasse a medida, ficaria mal com o Poder Legislativo, de quem depende politicamente; se não vetasse, ficaria mal com a opinião pública, de quem depende eleitoralmente, ainda mais em um ano de eleições.

Segundo esse senhor, o presidente teria chamado o ministro Dino e pedido sua ajuda para livrá-lo daquela delicada situação. Dino, como fiel correligionário, teria se prontificado a fazer o que fosse necessário para tirar aquele “pepino” das mãos do presidente. E foi o que fez.

Parei por um instante e refleti que tudo o que havia sido dito ali, abstraindo-se o percentual inevitável de opinião pessoal presente nas falas, era extremamente plausível e que, mesmo não sendo um retrato fiel da realidade, dificilmente estaria muito distante da verdade.

Em uma verdadeira democracia, as leis são respeitadas, o poder é responsabilizado e os poderosos prestam contas

Há uma confusão recorrente e bastante conveniente, que estabelece que em países onde a democracia é mais formal do que substantiva, a ideia de que a responsabilização de governantes, altos funcionários ou mesmo juízes seria sinal de instabilidade. Não é. Em democracias maduras, a responsabilização de cada indivíduo é justamente a prova cabal de que as instituições funcionam plenamente.

Nesses países, o poder não é um privilégio pessoal nem um salvo-conduto. Ele é uma delegação provisória, sustentada por confiança pública e limitada pela lei. Quando essa confiança se rompe, não apenas governos caem, assim como ministros são afastados, altos servidores são demitidos e juízes são punidos. Tudo sem ruptura institucional, sem discursos redentores, sem excepcionalismos.

Foi assim nos Estados Unidos, no caso Watergate. Richard Nixon renunciou antes de ser formalmente destituído, mas não foi o único a cair. Altos funcionários do governo foram processados, condenados e presos. E, anos depois, juízes federais também seriam afastados por corrupção ou abuso de poder, por meio de impeachment conduzido pelo próprio Congresso. Nas verdadeiras democracias, nem a toga serve de escudo a corrupção e o abuso de poder.

Na Itália da Operação Mãos Limpas, não foram apenas políticos que caíram. Empresários poderosos foram presos, altos burocratas afastados e magistrados investigados e punidos quando ultrapassaram os limites da lei. O sistema mostrou algo essencial: o combate à corrupção não escolhe lado nem corporação.

Na Islândia, após os Panama Papers, o primeiro-ministro renunciou em poucos dias. Mas o processo não parou aí. Autoridades financeiras e reguladores foram investigados, e reformas institucionais profundas foram feitas. O problema não foi tratado como “crise política”, mas como falha institucional a ser corrigida.

Na Coreia do Sul, a presidente foi destituída e presa, mas também juízes, promotores e altos executivos foram responsabilizados. Em casos posteriores, magistrados da mais alta corte foram afastados e condenados por corrupção. A mensagem foi clara: ninguém está acima da lei, nem mesmo quem a interpreta.

Na Alemanha, o padrão é ainda mais severo. Ministros deixaram seus cargos por plágio acadêmico. Juízes foram afastados por conflitos de interesse, favorecimento indevido ou quebra de decoro. Muitas vezes, nem se espera o desfecho penal. A responsabilidade ética antecede a criminal.

Esses exemplos revelam algo fundamental: em democracias funcionais, o sistema reage em cadeia. O erro não é isolado, não é protegido por hierarquia, não é relativizado pelo cargo. Quando o poder falha, ele é responsabilizado, seja no Executivo, na burocracia de Estado, no legislativo ou em qualquer nível do Judiciário.

Por isso, quando escândalos de corrupção bilionários não afastam ministros, não derrubam altos dirigentes e não alcançam magistrados, o problema não está na gravidade do caso, mas na fragilidade das instituições. Está na confusão deliberada entre governar e sobreviver, entre julgar e proteger-se.

A verdadeira instabilidade não é a queda de governos, nem o afastamento de juízes ou servidores poderosos. A verdadeira instabilidade é a normalização da impunidade. Democracias não se enfraquecem quando responsabilizam seus agentes; enfraquecem quando a sociedade aprende a conviver com o abuso como método.

Onde as instituições funcionam, o poder é responsabilizado. Os poderosos prestam contas. Onde isso não acontece, é porque algo muito mais grave já aconteceu, é porque ali não existe verdadeiramente um Estado democrático.

Pequeno ensaio sobre mim mesmo

Estive pensando sobre mim, sobre quem sou enquanto escritor e cineasta, e resolvi listar algumas coisas que acredito me definirem, para que, ao final, eu possa saber se realmente sei quem sou.

Minha relação com a ética, o poder, a justiça, as aparências e a verdade é platônica, no sentido idealista mais rigoroso, não ornamental. Penso, digo e escrevo aquilo em que acredito, porque imagino já ter deixado para trás a crítica à moral rasa, à hipocrisia social e à mediocridade confortável.

Tenho grande interesse pelas coisas absurdas, pela dignidade simples do cotidiano e pelo sentido que nasce apesar do mundo. Uso, sempre que posso, um tanto de ironia ética e lanço meu olhar crítico sobre o poder pequeno e o autoengano humano. Isso está no meu DNA intelectual.

Valorizo a metafísica da linguagem, da memória e da travessia moral, embora não o faça tanto quanto gostaria. Valorizo a grandeza silenciosa do homem comum enfrentando o tempo, seus limites e seu destino. Valorizo o insólito, o inesperado.

Às vezes, tento dialogar criticamente com a psicanálise, pois preciso conhecer, por dentro, as reações e as sensações humanas. Minha ideia de dignidade, resistência e sentido não é abstrata, é existencial, histórica e humana. Essas ideias regem minhas ações mais básicas.

Minha atenção às casas, às ruas, às praças, às ruínas e à memória dos lugares está presente em mim de forma definitiva. Meu imenso apego aos objetos, não por seu preço, muitas vezes nem mesmo por seu valor, mas pela energia que deles emana, também faz parte de mim.

Minha relação com o cinema não é de consumo, mas de dependência do pensamento narrativo, moral e simbólico da linguagem. Tenho minha noção de virtude como prática cotidiana, não como discurso, e sei o quanto isso é difícil de manter. Minha dislexia me define e me protege.

Cultivo um olhar crítico sobre o poder, a responsabilidade e a banalidade do mal que dele pode decorrer. Para mim, o poder não é uma abstração: é algo prático, concreto, cotidiano e silencioso, que altera e define todas as relações que toca. Acredito na honradez e na nobreza e até no heroísmo, mas jamais no herói.

Sinto uma imensa solidão moral diante do mundo. Recuso-me, sempre que posso, a participar do teatro social, pois minha lucidez me impede. Tenho verdadeira obsessão por memória, tempo e detalhes vividos, e isso me faz perguntar se sou um memorialista ou apenas um nostálgico.

Tenho profunda consciência das minhas responsabilidades e penso que a liberdade pode vir a ser um fardo. Acredito na educação como base de todo poder, uma das poucas coisas capazes de destruir a hipocrisia e até mesmo a violência.

O fato de enumerar essas coisas que penso e sinto, minhas ações e atitudes, não é um exercício de autoelogio, é a exposição nua e crua daquilo que busco enquanto escritor e cineasta, alguém que pretende usar esses instrumentos para se comunicar com as pessoas e com o mundo. Se consigo, é outra coisa.

O poder da fé

Tenho acompanhado de perto a luta de Roseana Sarney em seu mais recente tratamento de saúde e, dessa experiência, tenho extraído uma quantidade inesperada de lições.

Ao assistir às postagens que ela compartilha no Instagram, vejo uma mulher gigante, realmente uma guerreira.

Vejo que Roseana é mais guerreira agora do que antes. Não uma guerreira por causa de um slogan de propaganda; não por ser a primeira de seu gênero a governar um Estado brasileiro; não por ser uma gestora firme, obstinada ou politicamente combativa. Não por isso.

Quando expõe essa sua luta, Roseana se eleva a uma dimensão raramente alcançada. Nessa hora ela faz jus ao adjetivo de guerreira, sem que esse adjetivo tenha sido criado por um marqueteiro. Muito pelo contrário! Marqueteiros com quem tenho conversado, dizem que o que Rose tem feito ao expor o seu tratamento, é algo desaconselhado, pois demonstra fraqueza, e político fraco não é admirado nem é seguido.

A própria família de Roseana foi contrária a ela se expor como tem feito, mas, como ela é Roseana Sarney, e só faz o que acredita ser a coisa certa, nos mostra que mesmo as pessoas mais poderosas, em todo e qualquer  sentido, são passíveis de sofrer com uma grave enfermidade.

Há, porém, um efeito dessa exposição que preciso compartilhar. Algo que ela provocou em mim e que jamais imaginei experimentar dessa forma.

Fui criado na tradição católica. Minha mãe era profundamente religiosa. Deu-me valores, ensinou-me orações, transmitiu-me um sentido ético da vida. Mas não me formou como um homem religioso no sentido estrito. Ainda assim, deixou em mim a convicção de que existe algo maior, uma ordem que atravessa o universo, a natureza, o tempo e a própria existência. Algo que muitos chamam de Deus.

Essa convicção sempre esteve comigo, de maneira silenciosa, quase abstrata. O que mudou agora foi o gesto. Pela primeira vez em muito tempo, tenho rezado diariamente as orações que minha mãe me ensinou. Não por medo, não por barganha, não por obrigação. Rezo porque a luta de Roseana despertou em mim uma fé que eu não sabia possuir.

Eu creio nisso, e, por isso, tenho rezado diariamente aquelas mesmas orações que minha mãe me ensinou, para que Roseana vença essa batalha, para que ela se recupere e volte logo ao convívio de sua família e de seus amigos.

A fé de Roseana, ao se mostrar sem ornamentos, sem heroísmo, acabou me ensinando isso. Às vezes, acreditar não é afirmar certezas, é simplesmente sustentar esperanças, fé.

A fé de Roseana tem me feito sentir coisas que eu desconhecia.

O valor e o preço

A diferença entre valor e preço é, ao mesmo tempo, semântica, prática e existencial. Confundi-los costuma empobrecer decisões pessoais, sociais e econômicas, além de distorcer a forma como compreendemos o mundo e a nós mesmos.

Valor é uma medida qualitativa, não redutível a números. Refere-se ao significado, à importância e ao peso simbólico, moral, afetivo ou funcional que algo possui para alguém ou para uma coletividade. O valor não é fixo nem universal. Ele depende de contexto, experiência, cultura e história. Pode existir mesmo sem possibilidade de troca e pode aumentar ou diminuir sem que ocorra qualquer transação econômica.

A confiança entre duas pessoas, a dignidade humana, um filme que transforma a forma como alguém compreende a própria vida, um objeto herdado de família. Nada disso tem valor porque custa algo. Tem valor porque importa.

Preço, por sua vez, é uma medida quantitativa. É a expressão numérica atribuída a algo dentro de um sistema de troca, geralmente monetário. Ele é determinado por fatores como mercado, escassez, oferta, demanda, custos e convenções sociais. O preço é mensurável, negociável e temporário, e só existe dentro de um sistema econômico organizado.

O valor em dinheiro de um ingresso de cinema, o custo de produção de um livro, a remuneração paga por um serviço são exemplos claros de preço. Para saber o preço de algo, respondemos à pergunta “quanto custa?”. Para compreender o valor de algo, precisamos responder a outra pergunta, muito mais complexa, “quanto isso importa?”.

Na prática, preço pode ser pago, valor não. Preço se quita, valor se sustenta. É possível pagar caro por algo de pouco valor, pagar pouco por algo de valor imenso, perder algo valioso sem que nenhum dinheiro seja capaz de reparar a perda, ou comprar algo caro que rapidamente se torne irrelevante.

A diferença ética e existencial entre preço e valor torna-se evidente quando uma sociedade passa a tratar valor como se fosse preço. É nesse momento que se precificam pessoas, se monetizam relações, se confunde sucesso com remuneração e se reduz o sentido da vida à utilidade e à rentabilidade.

Preço é o que se paga por algo. Valor é o que permanece depois do pagamento. Preço pertence ao mercado. Valor pertence à experiência humana. Saber distinguir um do outro é uma das formas mais silenciosas e, ao mesmo tempo, mais decisivas de maturidade.

Ontem roubaram meu aparelho celular. O preço dele é de aproximadamente cinco mil reais. O valor, porém, é incalculável, completamente inestimável. Não por acessos a contas bancárias ou cartões de crédito, já que não realizo transações financeiras pelo celular, mas pelo que ele continha.

O valor desse aparelho estava nos documentos pessoais de identidade, arquivos de fotos, nas mensagens de amigos e, sobretudo, nas mensagens de áudio de minha mãe, que eu ouvia sempre que precisava me fortalecer, me acalmar ou recuperar ânimo.

Essa é, em essência, a verdadeira diferença entre preço e valor.

Sobre o Brasil no Oscar 2026

Muita gente vinha me cobrando comentários sobre o filme O Agente Secreto, que vem recebendo indicações e prêmios em importantes festivais internacionais, mas, como estou com vários projetos em andamento, acabei adiando a escrita desse texto até a tarde de quinta-feira, 22 de janeiro, poucas horas após o anúncio dos indicados ao Oscar.

Naquele dia, meu telefone não parou de vibrar com mensagens sobre as quatro indicações do filme. As reações eram variadas: entusiasmo absoluto de quem amou a obra, esperança de que essa visibilidade fortaleça o cinema brasileiro, desinteresse de quem não assistiu ao filme por recomendação contrária de um amigo.

Eu o assisti ainda no ano passado, na abertura do Festival Maranhão na Tela, e gostei. Trata-se de um trabalho muito bem produzido e dirigido. O roteiro tem altos e baixos, mas funciona e satisfaz algumas pessoas.

Em minha opinião, o grande trunfo do filme está no elenco. Não resta dúvida que o Wagner é um excelente ator, mas a seleção dos atores foi perfeita. O ajuste preciso das interpretações revelam um trabalho de extrema atenção. Todos estão afinados com a narrativa e o ritmo do filme.

É fundamental lembrar que O Agente Secreto é uma obra de ficção. Embora traga referências claras ao cotidiano do Recife, algo recorrente no cinema de Kleber Mendonça Filho, mas é importante ressaltar que o personagem central não existiu. Ainda assim, presenciei discussões em que jovens defendiam o filme como relato fiel de um fato real, o que revela uma confusão preocupante entre ficção e realidade.

A cena inicial do filme é deliciosamente insólita: o frentista do posto de gasolina merece um prêmio. O cadáver exposto, os cachorros, os policiais corruptos, o fusca amarelo e a trilha sonora criam, de imediato, um ambiente poderoso. O núcleo liderado por Dona Sebastiana, vivida pela cativante Tânia Maria, transporta o espectador aos anos 1970 com rara verossimilhança. Até os mitos urbanos, como um tubarão e o Perna Cabeluda, se encaixam naturalmente na narrativa, entra e sai do assunto principal.

Como costuma acontecer na filmografia de Kleber Mendonça Filho, este filme é atravessado por inúmeras referências reais, retiradas do cotidiano das pessoas, da cidade do Recife, de seu ambiente urbano e de suas histórias. Aproveito para parabenizá-lo por isso, pelo amor incondicional que demonstra por sua cidade, pelas pessoas que nela vivem, pelas narrativas que brotam como raminhos nos beirais das casas. Sinto algo muito parecido em relação a São Luís e, ao ver o que ele faz, reforço minha convicção de que precisamos agir assim.

Há, no entanto, uma decisão que me parece dispensável: escalar Wagner Moura também como o filho do protagonista, décadas após a morte deste. Achei desnecessário.

As indicações ao Oscar são justas, mas uma delas merece destaque especial: a nova categoria de Melhor Seleção de Elenco. Se houver um prêmio com verdadeiro sabor brasileiro nessa disputa, é esse.

Enquanto arrumava minhas ideia para produzir esse texto, recebi outras duas ligações curiosas. Uma questionava o uso das premiações como manifestações políticas. Respondi com um trecho de uma música de Caetano Veloso: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Eu não faria o mesmo, mas reconheço que talvez nunca ganhe um Globo de Ouro. Ainda assim, teria preferido ver aquele espaço usado para conclamar cineastas brasileiros à busca permanente da excelência e a lutarem por seus projetos.

A outra ligação veio de alguém convencido de que O Agente Secreto é o melhor filme já feito no Brasil. Disse a pessoa que respeitava a opinião dela, e perguntei-lhe se havia assistido Central do Brasil, Cidade de Deus e O Pagador de Promessas.

PS: O Brasil concorre também ao Oscar de Melhor Direção de Fotografia, com Adolpho Veloso, pelo belo filme Sonhos de Trem. Um prêmio técnico, mas essencial à linguagem cinematográfica. Fiquei muito feliz com essa indicação.

Ter dinheiro não é garantia de correção nem de bom senso

Depois de ter passado o dia inteiro mergulhado na solução de algumas pendências, antes de dormir, resolvi me atualizar sobre os acontecimentos mais recentes do Maranhão, do Brasil e do mundo.

No Maranhão, pouco ou nada mudou. O tempo vai moldando os acontecimentos e os prazos vão se encurtando, precipitando, assim, decisões que ninguém parece disposto a tomar. Essa constatação pode até soar falaciosa, mas é verdadeira. Um espera pela decisão do outro, que depende da decisão de outros, que, por sua vez, aguardam que alguém mais se decida. O resultado é a paralisia travestida de prudência.

No Brasil, a situação é pior. Aqui ninguém espera por nada nem por ninguém para fazer besteira. O presidente fala e faz o que não deve; o ministro da Fazenda não fala nem faz o que deveria; e os ministros do STF falam e fazem coisas que, se o país fosse minimamente sério, os colocariam fora de seus cargos, a serem processados e, muito provavelmente, presos.

Ocorre que essa realidade não é nova. Ela nos acompanha já faz algum tempo, e ninguém aguenta mais.

Mas é no mundo que as coisas estão realmente estranhas. Não porque o presidente da maior, mais rica e mais poderosa nação do planeta faça biquinho ao falar ou sacuda os braços fingindo dançar, mas porque ele é tolo o suficiente para escrever ao primeiro-ministro de um país amigo dizendo que, como não recebeu o Prêmio Nobel da Paz, sente-se desobrigado de ajudar a promovê-la. Alega preocupar-se apenas com a segurança do próprio país, não com a do mundo.

Ser rico nunca foi garantia de inteligência. Tenho visto e sentido isso muito de perto ultimamente. Não se trata, neste caso, de falta de capacidade intelectual, já que o bilionário em questão é bastante inteligente para ter falido seis vezes e sobrevivido ainda mais rico.

O problema é outro: hipocrisia, arrogância, prepotência e, sobretudo, ausência de inteligência emocional. Falta-lhe a compreensão básica de que a segurança de seu país não vale nada se o mundo não for seguro. Falta-lhe também humildade para perceber que ele e seu partido caminham rumo a uma derrota eleitoral acachapante nas próximas eleições legislativas deste ano.

A ideia de anexar ou comprar a Groenlândia é completamente descabida. Os argumentos contra isso são simples: se aquele território sofrer qualquer tipo de ameaça, seus aliados irão em sua defesa, e serão recompensados por isso. É assim que agem os que desejam ser corretos. Qualquer outra atitude é abusiva e inadmissível.

Um país pode estabelecer regras de contenção à imigração, bem como estabelecer, em seu território, as leis que forem por ele aprovadas. Isso é normal.

Um país bombardear alvos terroristas para eliminar covardes e facínoras que espalham ódio e terror pelo mundo, pode até ser algo até desejável.

Um país destruir instalações nucleares destinadas claramente a fins bélicos pode até ser aceitável.

Até mesmo uma intervenção pontual e cirúrgica contra um governante ilegítimo e sanguinário pode ser compreendida, ainda que traga riscos graves e precedentes perigosos.

Mas um país desejar se apoderar do território de outro simplesmente por medo, é algo completamente indesejável, inaceitável e incompreensível. Em suma: inadmissível.

Resta, então, uma pergunta diante do caso da Groenlândia e ela vale também para qualquer pretensão semelhante envolvendo o Canal do Panamá, o México ou o Canadá: o que fazer?

Confesso que não sei exatamente qual é a melhor resposta. Mas uma coisa é certa: é preciso resistir, da forma que for possível, às ações desse tipo de poder quando ameaçam não apenas países específicos, mas também a própria ideia de convivência civilizada no mundo.

Sobre meu querido amigo António Gaspar

Pensei em começar esse texto contando a você, que me prestigia com sua atenção, o que disse meu tio Zé Antonio Haickel, ao seu filho, meu primo, Elias Haickel Neto, depois que este lhe deu a notícia do falecimento de meu pai, Nagib Haickel.

Tio Zé Antonio, que estava jogando pife-pafe na casa de Zé Meireles, um velho amigo de Pindaré Mirim, ao ver Elias adentrar a sala onde estavam jogando, com uma cara de dor e constrangimento por ter de dizer ao seu pai que seu amado irmão havia falecido, ficou calado e recebeu, como resposta, uma pergunta exclamativa: “Foi Nagib!?”. Elias apenas sacodiu suavemente a cabeça, aquiescendo, e Tio Zé Antonio retrucou: Ô meu Deus, porque tu não levaste Miguel ao invés de Nagib!”. (Miguel era primo de Nagib e Zé Antonio)

Elias conta que, mesmo diante de tamanha consternação de todos os presentes, pela notícia trágica da morte de um ente tão querido, não se controlaram e riram de tamanha loucura proferida por um irmão corroído pela dor. A pergunta que todos faziam era por que Zé Antonio conclamou Deus a levar Miguel no lugar de Nagib e não se ofereceu ao todo-poderoso para ir à viagem no lugar de seu irmão.

O fato é que passei quatro dos melhores anos de minha vida convivendo de perto com Antonio Gaspar, de quem fui colega na Assembleia Nacional Constituinte e na Câmara dos Deputados, entre 1987 e 1991.

Antes de sermos deputados juntos, já nos conhecíamos informalmente, pelo convívio natural que tínhamos em nossa ainda pequena cidade.

Antonio era 16 anos mais velho que eu, mas, em muitos aspectos, tínhamos a mesma idade, pois eu sempre fui mais velho em meus gostos, costumes e afazeres, e Antonio, ao contrário, sempre foi mais jovem do que os de sua idade.

Devo fazer aqui uma inconfidência sem trair a confiança do falecido. Ele e eu admirávamos muito a beleza e a inteligência das mulheres, e nisso eu era um monge do mosteiro, enquanto ele era um dos monsenhores.

Durante a campanha eleitoral de 1986, quando concorremos, ambos pelo PMDB, nos aproximamos bastante.

No dia da convenção do partido, no momento da escolha dos números com os quais iríamos concorrer, ficamos ele e eu propensos a escolher os mesmos números: 1515 e 1516
Em sinal de respeito a ele, deixei que ele escolhesse e ficaria com o outro. Ele escolheu 1515 e eu fiquei com o 1516. Naquele dia, brinquei com ele: “Gaspar, espero seguir sempre seus passos e nos elegermos um atrás do outro”.

Aquele pleito foi uma loucura. Eu tinha apenas 26 anos e vinha de um mandato de deputado estadual, no qual me elegera com 22 anos e fui o mais jovem do Brasil naquela legislatura, mas tive mestres como Celso Coutinho, Bento Neves, Raimundo Leal, Gervásio Protásio dos Santos e José Elouf, só para citar alguns.

Antonio tinha outra trajetória. Participou ativamente dos movimentos de política estudantil e chegou a ser presidente da União Maranhense de Estudantes Secundaristas, no período, entre 1962 e 1964. Formou-se em farmácia, especializou-se em bioquímica e passou a ser professor universitário desses cursos. Foi empresário de grande sucesso no ramo das análises clínicas, tendo construído um dos maiores laboratórios desse setor, não só do nosso Estado, mas do Norte e do Nordeste do Brasil.

Ainda durante a campanha eleitoral de 1986, muitos fatos nos colocariam lado a lado, lutando juntos por nossas eleições e também pelo maior aproveitamento possível dos votos de legenda, para que conseguíssemos eleger a maior quantidade de parlamentares naquela eleição.

Gaspar disparou na quantidade de votos e eu fui o penúltimo colocado naquele pleito, mas a caligrafia ruim dos eleitores foi responsável, em muitos casos, para que o 1515 fosse 1516, e vice-versa.

Outro fato interessante é que éramos votados em muitos municípios por lideranças adversárias, mas sempre mantivemos o respeito e a consideração um para com o outro, jamais permitindo que rusgas de chefes políticos locais, de Viana, São Bento, Matinha, Penalva, Cajarí, São João Batista, São Vicente de Ferrer, Peri Mirim, Palmeirândia, Cedral, Mirinzal, Pinheiro… afetassem nosso relacionamento e nossa amizade.

Durante os trabalhos da constituinte convivemos mais de perto. Tínhamos os mesmos grupos e nos relacionávamos com os mesmos amigos: Artur da Távola, Nelson Jobim, Gastone Righi, Pedro Ciolin, Manoel Moreira, sem contar os maranhenses, Albérico Filho, Haroldo Saboia e Eliezer Moreira.

A última vez que encontrei com Antonio foi na inauguração do Makani Mall, de Roberto Hachem e passamos duas horas falando sobre política, negócios, cinema, e falamos também sobre a vida, inclusive sobre saúde e descobrimos que nós dois tínhamos a mesma ideia sobre como deve ser a vida, depois de um determinado tempo, depois que atingirmos uma determinada idade: A vida só vale a pena ser vivida se ela for boa, se ela não trouxer para as pessoas, grandes dificuldades e incômodos, constrangimentos e humilhações, dores dilacerantes e insuportáveis. Que o melhor caminho para uma vida que não fosse satisfatória para o indivíduo, era uma morte serena e tranquila.

Tenho certeza de que Antonio Gaspar teve uma vida boa, cheia de alegrias e realizações. Tenho certeza que ele foi um homem feliz e realizado em todos os âmbitos e sei que quem mais perde com sua partida somos nós que ficamos aqui sem mais desfrutarmos de seu bom humor e de sua agradável companhia.

A verdadeira história sobre esquerda e direita – nos dias de hoje

Recentemente, assisti a um sujeito um tanto aloprado, que se dizia professor da USP, recorrer a uma explicação antiga e já bastante gasta, que remonta ao século XVIII, para tentar definir o que seriam os posicionamentos de esquerda e de direita na política. Ele, de cara, comete um erro recorrente e grave: ignora a necessidade de submeter a aplicação do fato histórico à luz do tempo, de sua adaptação e acomodação, justamente quando o fator temporal e evolutivo deveria ser parte essencial para o perfeito entendimento da equação histórica.

A narrativa que ele repete não resiste a uma análise minimamente profunda. Basta observar que, mesmo em uma disposição aleatória, os semelhantes nem sempre ocupam a mesma posição espacial ou simbólica. Pode-se até admitir que, em determinado momento, tenha havido uma arrumação circunstancial entre grupos com afinidades. Mas isso não autoriza a transposição mecânica dessa imagem para a realidade prática contemporânea.

Ser de esquerda ou de direita hoje é outra coisa.

Pessoas de direita são, em essência, liberais. Defendem a livre iniciativa, o Estado Democrático de Direito e o respeito irrestrito às leis. Sustentam o direito à propriedade, valorizam a meritocracia e preservam valores tradicionais ligados à família, à religião, ao patriotismo e à cidadania responsável. Para essas pessoas, o Estado deve interferir o mínimo possível na vida dos indivíduos, limitando-se a regular questões comuns a todos, como leis, direitos e garantias, que devem ser aplicados de forma igualitária e equilibrada. Observando que quanto mais à direita, mais essas noções se intensificam e se radicalizam.

Pessoas de esquerda, por sua vez, são socialistas. Acreditam e valorizam mais as iniciativas do Estado do que as dos indivíduos. Defendem que a coletividade deve prevalecer sobre o indivíduo, muitas vezes relegando a pessoa a um plano inferior ao da comunidade. Para as pessoas de esquerda, a propriedade privada só se justifica em função da coletividade. Seus adeptos pregam a revolução permanente, a mudança contínua, e tendem a rejeitar ou relativizar valores tradicionais como família, religião e pátria. Acreditam que o Estado deve regular e controlar praticamente todos os aspectos da vida social, estabelecendo regras e métodos para tudo, sempre a partir de um padrão ideológico específico. Nessa lógica, a meritocracia deixa de ser um valor e passa a ser vista como um privilégio, e não como resultado da capacidade individual. Da mesma forma, mas em sentido oposto, quanto mais à esquerda, mais essas posições se exacerbam e se tornam radicais.

Entre esses polos, tanto à direita quanto à esquerda, situam-se os moderados: aqueles que flexibilizam suas posições com ponderação e bom senso, dialogando e transitando entre os campos que, em geral, se encontram em conflito permanente. É nesse espaço de moderação que ocorrem as negociações entre esquerda e direita, e é nele que surgem os avanços e a evolução possíveis entre esses interesses, que conseguem sobreviver neste constante conflito da lateralidade em que o mundo se encontra.

Contabilidade e dosimetria de uma possível pena atribuída a Alexandre de Moraes por seus crimes contra o Brasil e os brasileiros

Neste dia 8 de janeiro de 2026, resolvi contabilizar o número de condenados na dita tentativa de golpe de Estado, que teria ocorrido em nosso país em 8 de janeiro de 2023, uma fantasia criada pelo STF, pelo governo e por parte da imprensa, para justificar sua abjeta interferência no destino político no Brasil.

Resolvi então inverter o polo das acusações e julgar apenas o ministro Alexandre de Moraes, por abuso de poder, descumprimento do devido processo legal, destruição do Estado Democrático de Direito, atentado à lei constitucional de nosso país, e resolvi usar de forma ténue uma dosimetria que ele jamais levou em consideração nos processos que julgou, dando a ele um dia de pena para cada ano que ele tenha atribuído de para as pessoas que ele condenou injustamente.

Vocês sabem quantos anos de cadeia este verme receberia se esse julgamento fosse proferido e essa pena fosse cumprida? Mais de 30 anos de prisão.

Eu explico como cheguei a esse número. Foram mais de 800 condenações que, em média, atingiram 14 anos de pena. O montante de anos ultrapassa 11.200, que, divididos por 365, resultam em mais de 30 anos de pena que seriam aplicados a esse Torquemada moderno.

Essa alegoria serve apenas para exemplificar a destruição que esse ser abominável operacionalizou em nosso país. É apenas uma alegoria, mas bem que poderia se transformar em realidade, e isso não seria vingança, seria apenas justiça.

Perfil

“Poeta, contista e cronista, que, quando sobra tempo, também é deputado”. Era essa a maneira como Joaquim Elias Nagib Pinto Haickel aparecia no expediente da revista cultural Guarnicê, da qual foi o principal artífice. Mais de três décadas depois disso, o não mais, porem eterno parlamentar, ainda sem as sobras do tempo, permanece cronista, contista e poeta, além de cineasta.

Advogado, Joaquim Haickel foi eleito para o parlamento estadual pela primeira vez de 1982, quando foi o mais jovem parlamentar do Brasil. Em seguida, foi eleito deputado federal constituinte e depois voltou a ser deputado estadual até 2011. Entre 2011 e 2014 exerceu o cargo de secretario de esportes do Estado do Maranhão.

Cinema, esportes, culinária, literatura e artes de um modo geral estão entre as predileções de Joaquim Haickel, quando não está na arena política, de onde não se afasta, mesmo que tenha optado por não mais disputar mandato eletivo.

Cinéfilo inveterado, é autor do filme “Pelo Ouvido”, grande sucesso de 2008. Sua paixão pelo cinema fez com desenvolvesse juntamente com um grupo de colaboradores um projeto que visa resgatar e preservar a memória maranhense através do audiovisual.

Enquanto produz e dirigi filmes, Joaquim continua a escrever um livro sobre cinema e psicanálise, que, segundo ele, “se conseguir concluí-lo”, será sua obra definitiva.

Busca

E-mail

No Twitter

Posts recentes

Comentários

Arquivos

Arquivos

Categorias

Mais Blogs

Rolar para cima