
Muita gente vinha me cobrando comentários sobre o filme O Agente Secreto, que vem recebendo indicações e prêmios em importantes festivais internacionais, mas, como estou com vários projetos em andamento, acabei adiando a escrita desse texto até a tarde de quinta-feira, 22 de janeiro, poucas horas após o anúncio dos indicados ao Oscar.
Naquele dia, meu telefone não parou de vibrar com mensagens sobre as quatro indicações do filme. As reações eram variadas: entusiasmo absoluto de quem amou a obra, esperança de que essa visibilidade fortaleça o cinema brasileiro, desinteresse de quem não assistiu ao filme por recomendação contrária de um amigo.
Eu o assisti ainda no ano passado, na abertura do Festival Maranhão na Tela, e gostei. Trata-se de um trabalho muito bem produzido e dirigido. O roteiro tem altos e baixos, mas funciona e satisfaz algumas pessoas.
Em minha opinião, o grande trunfo do filme está no elenco. Não resta dúvida que o Wagner é um excelente ator, mas a seleção dos atores foi perfeita. O ajuste preciso das interpretações revelam um trabalho de extrema atenção. Todos estão afinados com a narrativa e o ritmo do filme.
É fundamental lembrar que O Agente Secreto é uma obra de ficção. Embora traga referências claras ao cotidiano do Recife, algo recorrente no cinema de Kleber Mendonça Filho, mas é importante ressaltar que o personagem central não existiu. Ainda assim, presenciei discussões em que jovens defendiam o filme como relato fiel de um fato real, o que revela uma confusão preocupante entre ficção e realidade.
A cena inicial do filme é deliciosamente insólita: o frentista do posto de gasolina merece um prêmio. O cadáver exposto, os cachorros, os policiais corruptos, o fusca amarelo e a trilha sonora criam, de imediato, um ambiente poderoso. O núcleo liderado por Dona Sebastiana, vivida pela cativante Tânia Maria, transporta o espectador aos anos 1970 com rara verossimilhança. Até os mitos urbanos, como um tubarão e o Perna Cabeluda, se encaixam naturalmente na narrativa, entra e sai do assunto principal.
Como costuma acontecer na filmografia de Kleber Mendonça Filho, este filme é atravessado por inúmeras referências reais, retiradas do cotidiano das pessoas, da cidade do Recife, de seu ambiente urbano e de suas histórias. Aproveito para parabenizá-lo por isso, pelo amor incondicional que demonstra por sua cidade, pelas pessoas que nela vivem, pelas narrativas que brotam como raminhos nos beirais das casas. Sinto algo muito parecido em relação a São Luís e, ao ver o que ele faz, reforço minha convicção de que precisamos agir assim.
Há, no entanto, uma decisão que me parece dispensável: escalar Wagner Moura também como o filho do protagonista, décadas após a morte deste. Achei desnecessário.
As indicações ao Oscar são justas, mas uma delas merece destaque especial: a nova categoria de Melhor Seleção de Elenco. Se houver um prêmio com verdadeiro sabor brasileiro nessa disputa, é esse.
Enquanto arrumava minhas ideia para produzir esse texto, recebi outras duas ligações curiosas. Uma questionava o uso das premiações como manifestações políticas. Respondi com um trecho de uma música de Caetano Veloso: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Eu não faria o mesmo, mas reconheço que talvez nunca ganhe um Globo de Ouro. Ainda assim, teria preferido ver aquele espaço usado para conclamar cineastas brasileiros à busca permanente da excelência e a lutarem por seus projetos.
A outra ligação veio de alguém convencido de que O Agente Secreto é o melhor filme já feito no Brasil. Disse a pessoa que respeitava a opinião dela, e perguntei-lhe se havia assistido Central do Brasil, Cidade de Deus e O Pagador de Promessas.
PS: O Brasil concorre também ao Oscar de Melhor Direção de Fotografia, com Adolpho Veloso, pelo belo filme Sonhos de Trem. Um prêmio técnico, mas essencial à linguagem cinematográfica. Fiquei muito feliz com essa indicação.