
No último sábado, eu e meu irmão, Nagib, fizemos uma rápida viagem para tratar de alguns negócios de nosso interesse nas cidades de Santa Inês e Pindaré-Mirim. Saímos de São Luís às quatro da madrugada e retornamos às onze da noite. O dia foi intenso. A viagem de ida durou pouco menos de quatro horas, e a volta, pouco mais de cinco. Trabalhamos cerca de oito horas e ainda desfrutamos de duas horas da hospitalidade inigualável de Nelson Frota, que nos recebeu para um almoço memorável na Fazenda Eldorado. Saboreamos bode cozido com verduras, filé de carneiro grelhado e um revigorante mocotó.
Confesso que, após o almoço, tive vontade de me deitar numa rede armada na varanda da fazenda, dormir o sono dos justos e esquecer o trabalho. Mas resisti bravamente e voltamos ao batente.
A viagem foi proveitosa, mas a melhor parte foram as nove horas que eu e meu irmão passamos dentro do carro, conversando sobre os mais diversos assuntos.
Nagib, sempre prevenido, conseguiu com um amigo um receptor de Starlink. Assim, viajamos o tempo inteiro conectados à internet, o que me permitiu acessar um aplicativo que utilizo diariamente: o Epictok, voltado à difusão de fatos e personalidades históricas por meio de vídeos curtos, apresentados com linguagem épica e sem filtros ideológicos. Durante boa parte do trajeto, ouvimos as histórias e comentamos os personagens citados.
Algo me chamou a atenção. Dois deles eram completamente desconhecidos para mim. Fiquei perplexo. Sempre imaginei que, em um aplicativo como aquele, dificilmente surgiria um personagem histórico que eu, homem razoavelmente instruído, não conhecesse.
A imperatriz Wu Zetian, única mulher a governar a China como imperatriz reinante, e Jacobo Arbenz, presidente da Guatemala entre 1951 e 1954, líder da chamada Revolução de Outubro e responsável por reformas profundas em seu país, foram essas descobertas.
Essa viagem serviu para reafirmar uma verdade simples: por mais que saibamos, sempre haverá algo que ignoramos.
Ouvimos também histórias sobre Margaret Thatcher e Ronald Reagan. Em certo momento, Nagib disse que, se não tivesse tido a sorte de nascer filho de nossos pais, gostaria de ter sido filho desses dois governantes, que considera dos mais importantes de nosso tempo.
Falamos sobre tensões internacionais, sobre a Venezuela, a Ucrânia, sobre a guerra do Irã, e sobre os verdadeiros interesses e causas em torno disso. Como não poderia deixar de ser, a política nacional veio à baila, com discussões sobre escândalos recentes e as absurdas decisões do nosso combalido poder Judiciário.
Exageramos hipóteses, propusemos punições imaginárias, tudo no território livre da especulação e do humor ácido.
Recorremos ao ChatGPT e perguntamos quantos anos de pena foram atribuídos aos vândalos de 8 de janeiro. Descobrimos que a soma ultrapassa quatro mil anos e, numa das nossas brincadeiras, imaginamos critérios dignos do Código de Hamurabi para penalizar o ministro Alexandre de Moraes, caso se descubra, comprovadamente, que ele tem culpa quanto às suspeitas que recaem sobre ele no caso do Banco Master: 40 chicotadas, em praça pública, uma para cada um dos 100 anos de pena que ele atribuiu aos vândalos injustiçados.
Nossa viagem foi uma espécie de regatão moderno. Não mais nos velhos navios-gaiola do tempo de meu avô, mas em um carro conectado nos satélites, atravessando o Maranhão e navegando pelo mundo ao mesmo tempo. Mudaram os meios, mas o espírito permanece: viajar, conversar, aprender e descobrir que ainda há muito a conhecer.Parte superior do formulário