Jesus, o homem além dos dogmas

Na época da Páscoa, as pessoas que me prestigiam com a leitura de meus textos, assim como fazia minha amada mãe, esperam que eu escreva algo sobre este evento e sobre o personagem que, em minha opinião, é o mais importante de toda a história da humanidade: Jesus de Nazareth.

Jesus era um judeu reformista. Ele queria flexibilizar as rígidas leis do judaísmo, tornando-as mais acessíveis para as pessoas mais simples e para aqueles que não seguiam essa fé. Queria aproximar o judaísmo das pessoas comuns, queria também que ele não ficasse restrito aos fariseus estudiosos da Torah, aos doutores das leis de Deus, ou àqueles que hoje são conhecidos como ortodoxos ou tradicionalistas.

Jesus queria fazer com o judaísmo, há 2.000 anos, algo semelhante ao que Lutero fez com o cristianismo há 500 anos. Em minha opinião, os dois movimentos são bastante parecidos. A diferença primordial está nos personagens que os conduziram.

Mas voltemos aos significados da Páscoa. A Pessach judaica comemora a libertação do povo hebreu da escravidão no Egito, liderada por Moisés há cerca de 3.500 anos, conforme narrado no livro do Êxodo, enquanto a Páscoa cristã celebra a ressurreição de Jesus Cristo, ocorrida três dias após sua crucificação na Sexta-Feira Santa, simbolizando a vitória da vida sobre a morte, a renovação, a esperança e o perdão.

Para mim, todos esses dogmas têm pouca importância. Jesus não precisa ter ressuscitado efetivamente para que sua mensagem se tornasse poderosa a ponto de se transformar no maior movimento religioso da humanidade. Para mim sua ressurreição é apenas uma metáfora e os três últimos anos de vida do Nazareno, por si só, bastariam para sustentar a força de suas palavras e de seus ensinamentos.

Eu iria ainda mais longe: um único dia, um único evento da vida de Jesus, sendo ele verdadeiro ou ficcional, já seria suficiente para justificar por que esse personagem é seguido por tanta gente há tantos e tantos anos.

Se atentarmos para o que ele diz, ou para aquilo que Mateus relata no Sermão da Montanha, sobre as chamadas Bem-aventuranças, ali já estão contidos, em essência, todos os seus ensinamentos, todo o seu ministério.

Se qualquer um de nós, seres humanos imperfeitos, seguir minimamente o que ali está proposto, nossa vida poderia ser transformada e talvez até santificada, se é que isso existe.

Penso que a existência formal de Jesus é menos importante do que a mensagem que dizem que ele deixou. O fato de ele ser o filho unigênito de Deus significa pouco para mim. Prefiro pensar nele como um irmão meu, um irmão nosso, um outro filho de Deus, como nós.

O que realmente importa é que, sendo uma pessoa comum, ele foi capaz de realizar coisas extraordinárias. E não falo de milagres, falo de sua capacidade de dizer coisas simples, coisas que precisam ser vivenciadas para que possamos ter uma existência melhor, falo do legado de valores, sentimentos e exemplos que deixou para toda a humanidade.

O meu Deus não é o Deus de nenhuma religião, ele é aquele descrito por Espinosa e o meu Jesus não é esse que frequentemente apresentam padres e pastores, é o Jesus histórico, o homem, filho adotivo do carpinteiro José, que por mero acaso pertencia à descendência de Davi, e de Maria, jovem judia de uns 15 anos, filha de Joaquim e Ana, que, segundo a tradição, concebeu sendo virgem, fato que para mim também pouco importa, é mais um dogma sem relevância.

Quando desmistifico e elimino os dogmas da religião, não o faço por desrespeito, mas com o intuito de evidenciar a importância do Jesus homem, aquele que, se minimamente seguido em palavras e atos, pode nos tornar pessoas melhores.

Desejo uma boa Páscoa a todos, independentemente da forma como cada um encare esses eventos. Para mim, é apenas mais um dia na busca de ser uma pessoa digna de meu irmão.

Perfil

“Poeta, contista e cronista, que, quando sobra tempo, também é deputado”. Era essa a maneira como Joaquim Elias Nagib Pinto Haickel aparecia no expediente da revista cultural Guarnicê, da qual foi o principal artífice. Mais de três décadas depois disso, o não mais, porem eterno parlamentar, ainda sem as sobras do tempo, permanece cronista, contista e poeta, além de cineasta.

Advogado, Joaquim Haickel foi eleito para o parlamento estadual pela primeira vez de 1982, quando foi o mais jovem parlamentar do Brasil. Em seguida, foi eleito deputado federal constituinte e depois voltou a ser deputado estadual até 2011. Entre 2011 e 2014 exerceu o cargo de secretario de esportes do Estado do Maranhão.

Cinema, esportes, culinária, literatura e artes de um modo geral estão entre as predileções de Joaquim Haickel, quando não está na arena política, de onde não se afasta, mesmo que tenha optado por não mais disputar mandato eletivo.

Cinéfilo inveterado, é autor do filme “Pelo Ouvido”, grande sucesso de 2008. Sua paixão pelo cinema fez com desenvolvesse juntamente com um grupo de colaboradores um projeto que visa resgatar e preservar a memória maranhense através do audiovisual.

Enquanto produz e dirigi filmes, Joaquim continua a escrever um livro sobre cinema e psicanálise, que, segundo ele, “se conseguir concluí-lo”, será sua obra definitiva.

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