A única pista para o que o homem pode fazer é o que o homem fez

Durante algum tempo pensei que o cinema não mais produziria grandiosos filmes épicos, como Ben-Hur, Lawrence da Arábia, Os Dez Mandamentos, Spartacus, E o Vento Levou, Cleópatra, Quo Vadis, El Cid, A Ponte do Rio Kwai, Guerra e Paz, Apocalypse Now, O Poderoso Chefão, Ran, Coração Valente, Doutor Jivago, Gandhi, Titanic, A Lista de Schindler, Dança com Lobos, Uma Ponte Longe Demais, apenas para citar alguns, dos quais assisti a todos mais de uma vez. Alguns deles assisti uma dúzia de vezes e jamais me cansaram.

Pensei que iríamos nos acostumar com épicos de outra natureza, moldados por uma nova gramática visual, como Gladiador, O Senhor dos Anéis, Troia, Cruzada, Avatar, Duna, Game of Thrones, Vikings, The Crown, Chernobyl, todos igualmente vistos, revisitados e assimilados.

Pensei, também, que o uso cada vez mais sofisticado de tecnologias visuais acabaria por obscurecer aquilo que sempre foi o núcleo do cinema, a força das histórias, dos enredos, dos personagens, daquilo que inquieta mais do que impressiona. Mas, ao assistir a Nuremberg tive a confirmação de que o épico do nosso tempo não desapareceu, ele apenas mudou de lugar. Saiu dos campos de batalha e se instalou, com mais intensidade, dentro da consciência humana.

Mesmo sendo um tema amplamente conhecido, o julgamento dos criminosos nazistas ocorrido em 1946, o filme surpreende ao deslocar o eixo da narrativa. Não se trata apenas de reconstituir fatos, mas de investigar as condições psicológicas que os tornaram possíveis. Não é o que aconteceu que está em jogo, mas como aquilo pôde acontecer sem que o próprio homem se percebesse como aquilo era.

O que o filme expõe, com precisão incômoda, é a fragilidade daquilo que gostamos de chamar de consciência individual. Não há monstros no sentido clássico, não há caricaturas do mal. O que há são homens que pensaram, justificaram, obedeceram, organizaram e, sobretudo, se adaptaram. O mal ali não surge como ruptura, mas como continuidade. Ele não explode, ele se instala. Não é um desvio, é um processo.

E talvez seja esse o ponto mais perturbador. Aqueles homens não apenas participaram de uma engrenagem moralmente monstruosa, eles se tornaram compatíveis com ela. Não houve uma fratura interna suficiente para detê-los. Houve, ao contrário, uma reorganização íntima da realidade que tornou o inaceitável psicologicamente habitável.

Não se trata, portanto, de simples mentira ou cinismo. Trata-se de algo mais profundo e mais inquietante, a capacidade humana de reconstruir internamente os próprios atos de modo a preservá-los dentro de uma narrativa suportável. O homem não precisa ignorar o que fez, ele precisa apenas reinterpretar o que fez. E isso basta.

Dito isso, fica claro que “A única pista para o que o homem pode fazer é o que o homem fez”. Não há natureza ideal escondida sob a história, nem um “verdadeiro eu” moralmente protegido das circunstâncias. O homem é aquilo que já provou ser capaz de fazer quando as condições permitiram.

Essa constatação dissolve a distância confortável entre “eles” e “nós”. O filme, nesse sentido, não é apenas um tribunal histórico, é um espelho moral. Não julgamos apenas os réus, somos levados, inevitavelmente, a nos confrontar com a possibilidade de que os mecanismos que operaram ali continuam disponíveis, intactos, dentro de qualquer consciência humana.

Há, ao longo do filme, uma tensão constante entre culpa e responsabilidade. Muitos daqueles homens não se reconhecem culpados, mas são, inescapavelmente, responsáveis. E essa dissociação é reveladora. A culpa é um sentimento, a responsabilidade é um fato. O julgamento, portanto, não depende da consciência do acusado, mas da realidade dos seus atos.

E é nesse ponto que o filme alcança sua dimensão verdadeiramente épica. Não há multidões em marcha, não há batalhas coreografadas, não há grandiosidade externa. O que há é um conflito silencioso, travado no interior da consciência humana, entre aquilo que se fez e aquilo que se é capaz de admitir que fez. É um épico sem espetáculo, mas de uma grandeza moral sufocante.

No fim, o que permanece não é a sentença, nem os fatos, já conhecidos, mas a impossibilidade de escapar da pergunta que o filme nos impõe. Não se trata mais de saber se somos diferentes daqueles homens. Trata-se de reconhecer em que circunstâncias deixaríamos de ser.

PS: A frase título deste texto, “A única pista para o que o homem pode fazer é o que o homem fez”, de autoria de R. G. Collingwood, aparece no final do filme “Nuremberg”.

Perfil

“Poeta, contista e cronista, que, quando sobra tempo, também é deputado”. Era essa a maneira como Joaquim Elias Nagib Pinto Haickel aparecia no expediente da revista cultural Guarnicê, da qual foi o principal artífice. Mais de três décadas depois disso, o não mais, porem eterno parlamentar, ainda sem as sobras do tempo, permanece cronista, contista e poeta, além de cineasta.

Advogado, Joaquim Haickel foi eleito para o parlamento estadual pela primeira vez de 1982, quando foi o mais jovem parlamentar do Brasil. Em seguida, foi eleito deputado federal constituinte e depois voltou a ser deputado estadual até 2011. Entre 2011 e 2014 exerceu o cargo de secretario de esportes do Estado do Maranhão.

Cinema, esportes, culinária, literatura e artes de um modo geral estão entre as predileções de Joaquim Haickel, quando não está na arena política, de onde não se afasta, mesmo que tenha optado por não mais disputar mandato eletivo.

Cinéfilo inveterado, é autor do filme “Pelo Ouvido”, grande sucesso de 2008. Sua paixão pelo cinema fez com desenvolvesse juntamente com um grupo de colaboradores um projeto que visa resgatar e preservar a memória maranhense através do audiovisual.

Enquanto produz e dirigi filmes, Joaquim continua a escrever um livro sobre cinema e psicanálise, que, segundo ele, “se conseguir concluí-lo”, será sua obra definitiva.

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