RC: Essencial

Imagine que alguém lhe diga: “Eu preciso de você. Você em minha vida foi uma felicidade que aconteceu. Como é grande o meu amor por você! Quando eu estou aqui eu vivo esse momento lindo, e o que eu sinto por você não sei explicar, só sei que quero que você me aqueça neste inverno, e que tudo mais vá para o inferno. Eu te proponho nós nos amarmos, nos entregarmos, porque de que vale tudo isso se você não está aqui, eu não posso mais viver assim ao seu lado e ao mesmo tempo sem você, mas ficam esses detalhes tão pequenos de nós dois, coisas muito grandes pra esquecer, e se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi. Mas sabe, além do horizonte deve ter algum lugar bonito pra viver em paz, e talvez seja lá, ou talvez seja aqui mesmo, onde a gente possa simplesmente se amar, na beira do mar ou em qualquer lugar, e no fim das contas é simples assim, metade de mim é você, e a outra metade também. Vou cavalgar por toda a noite, usar meus beijos como açoite, e minha mão mais atrevida, vou me agarrar aos seus cabelos, pra não cair do seu galope…”
Imagine se você recebesse uma carta assim!?… Provavelmente pensaria estar diante de alguém tomado por uma coragem rara, dessas que já não se encontram com facilidade num tempo em que as pessoas têm medo até de nomear o que sentem. Poderia achar exagerado, talvez até ingênuo, mas dificilmente negaria a força de quem se dispõe a dizer o essencial sem disfarces, sem ironias, sem a proteção confortável do cinismo.
Pois é. Existe um sujeito que diz essas coisas há mais tempo do que eu tenho de vida: Roberto Carlos.
Talvez seja exatamente aí que esteja o fenômeno que muitos insistem em não compreender. Não se trata apenas de sucesso, longevidade ou repetição. Trata-se de algo mais raro e mais difícil, a capacidade de traduzir sentimentos complexos em linguagem simples sem empobrecê-los. Num mundo que valoriza cada vez mais a esperteza, a ambiguidade e a aparente sofisticação, Roberto fez o caminho inverso. Escolhe a clareza. Escolhe dizer “eu te amo” sem pedir desculpas por isso.
Há um risco permanente de se confundir aparência com essência, e no campo das emoções esse risco parece ainda mais pertinente. Há uma tendência contemporânea de tratar a simplicidade como superficialidade, quando muitas vezes ela é, na verdade, o resultado de um longo processo de depuração. Dizer o que sente com precisão e sem adornos é, no fundo, um exercício prático de verdade, e a verdade raramente se apresenta de forma confortável.
Roberto Carlos, gostem ou não, construiu sua obra exatamente nesse território. Ele não disputa com o hermetismo. Usa a metáfora como arma poderosa, mas não a usa em excesso nem em vão. Com ela transforma imagens de amor em quadros maravilhosos e traduz enigmas que a razão não alcança. Ele expõe, repete, afirma algo que o mundo parece determinado a esquecer.
Fui no sábado, 9 de maio, assistir Roberto em uma nova e maravilhosa casa de shows, o São Luís Hall. E aqui preciso abrir um parêntese. O local é fantástico. Ali nossa cidade poderá receber os maiores e melhores shows do Brasil e do mundo. De parabéns os empreendedores daquele projeto.
Mas como dizia, ali, diante de uma plateia que cantava cada palavra como se estivesse recuperando partes de sua própria história, ficou evidente que não se trata apenas de um cantor, mas de um depositário de memórias afetivas coletivas. Cada verso, por mais simples que pareça, funciona como um gatilho de lembranças, de histórias pessoais, de amores vividos e, muitas vezes, perdidos.
A memória é condição da aprendizagem e também condição da sensibilidade. Sem memória afetiva, o amor se torna raso, episódico, descartável. Roberto, ao repetir suas canções ao longo de décadas, não está apenas cantando. Está preservando um modo de sentir que resiste ao tempo.
Tudo passa. O tempo devora homens e histórias com a mesma indiferença. Talvez por isso mesmo seja tão significativo ver um artista que, ao invés de se render à efemeridade, insiste em afirmar sentimentos duradouros, permanentes, quase fora de moda.
E no fim, a impressão que fica é simples e ao mesmo tempo desconcertante: talvez o que chamamos de romantismo não seja um excesso, mas uma escassez. Talvez o que pareça exagero seja apenas falta de hábito. Talvez tenhamos nos desacostumado a ouvir, e mais ainda a dizer, aquilo que realmente importa.
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