
Recentemente, assisti a um sujeito um tanto aloprado, que se dizia professor da USP, recorrer a uma explicação antiga e já bastante gasta, que remonta ao século XVIII, para tentar definir o que seriam os posicionamentos de esquerda e de direita na política. Ele, de cara, comete um erro recorrente e grave: ignora a necessidade de submeter a aplicação do fato histórico à luz do tempo, de sua adaptação e acomodação, justamente quando o fator temporal e evolutivo deveria ser parte essencial para o perfeito entendimento da equação histórica.
A narrativa que ele repete não resiste a uma análise minimamente profunda. Basta observar que, mesmo em uma disposição aleatória, os semelhantes nem sempre ocupam a mesma posição espacial ou simbólica. Pode-se até admitir que, em determinado momento, tenha havido uma arrumação circunstancial entre grupos com afinidades. Mas isso não autoriza a transposição mecânica dessa imagem para a realidade prática contemporânea.
Ser de esquerda ou de direita hoje é outra coisa.
Pessoas de direita são, em essência, liberais. Defendem a livre iniciativa, o Estado Democrático de Direito e o respeito irrestrito às leis. Sustentam o direito à propriedade, valorizam a meritocracia e preservam valores tradicionais ligados à família, à religião, ao patriotismo e à cidadania responsável. Para essas pessoas, o Estado deve interferir o mínimo possível na vida dos indivíduos, limitando-se a regular questões comuns a todos, como leis, direitos e garantias, que devem ser aplicados de forma igualitária e equilibrada. Observando que quanto mais à direita, mais essas noções se intensificam e se radicalizam.
Pessoas de esquerda, por sua vez, são socialistas. Acreditam e valorizam mais as iniciativas do Estado do que as dos indivíduos. Defendem que a coletividade deve prevalecer sobre o indivíduo, muitas vezes relegando a pessoa a um plano inferior ao da comunidade. Para as pessoas de esquerda, a propriedade privada só se justifica em função da coletividade. Seus adeptos pregam a revolução permanente, a mudança contínua, e tendem a rejeitar ou relativizar valores tradicionais como família, religião e pátria. Acreditam que o Estado deve regular e controlar praticamente todos os aspectos da vida social, estabelecendo regras e métodos para tudo, sempre a partir de um padrão ideológico específico. Nessa lógica, a meritocracia deixa de ser um valor e passa a ser vista como um privilégio, e não como resultado da capacidade individual. Da mesma forma, mas em sentido oposto, quanto mais à esquerda, mais essas posições se exacerbam e se tornam radicais.
Entre esses polos, tanto à direita quanto à esquerda, situam-se os moderados: aqueles que flexibilizam suas posições com ponderação e bom senso, dialogando e transitando entre os campos que, em geral, se encontram em conflito permanente. É nesse espaço de moderação que ocorrem as negociações entre esquerda e direita, e é nele que surgem os avanços e a evolução possíveis entre esses interesses, que conseguem sobreviver neste constante conflito da lateralidade em que o mundo se encontra.
1 comentário em “A verdadeira história sobre esquerda e direita – nos dias de hoje”
Muito bom esse artigo. Joaquim é um.dos melhores analistas de ideias e políticas.