O valor e o preço

A diferença entre valor e preço é, ao mesmo tempo, semântica, prática e existencial. Confundi-los costuma empobrecer decisões pessoais, sociais e econômicas, além de distorcer a forma como compreendemos o mundo e a nós mesmos.

Valor é uma medida qualitativa, não redutível a números. Refere-se ao significado, à importância e ao peso simbólico, moral, afetivo ou funcional que algo possui para alguém ou para uma coletividade. O valor não é fixo nem universal. Ele depende de contexto, experiência, cultura e história. Pode existir mesmo sem possibilidade de troca e pode aumentar ou diminuir sem que ocorra qualquer transação econômica.

A confiança entre duas pessoas, a dignidade humana, um filme que transforma a forma como alguém compreende a própria vida, um objeto herdado de família. Nada disso tem valor porque custa algo. Tem valor porque importa.

Preço, por sua vez, é uma medida quantitativa. É a expressão numérica atribuída a algo dentro de um sistema de troca, geralmente monetário. Ele é determinado por fatores como mercado, escassez, oferta, demanda, custos e convenções sociais. O preço é mensurável, negociável e temporário, e só existe dentro de um sistema econômico organizado.

O valor em dinheiro de um ingresso de cinema, o custo de produção de um livro, a remuneração paga por um serviço são exemplos claros de preço. Para saber o preço de algo, respondemos à pergunta “quanto custa?”. Para compreender o valor de algo, precisamos responder a outra pergunta, muito mais complexa, “quanto isso importa?”.

Na prática, preço pode ser pago, valor não. Preço se quita, valor se sustenta. É possível pagar caro por algo de pouco valor, pagar pouco por algo de valor imenso, perder algo valioso sem que nenhum dinheiro seja capaz de reparar a perda, ou comprar algo caro que rapidamente se torne irrelevante.

A diferença ética e existencial entre preço e valor torna-se evidente quando uma sociedade passa a tratar valor como se fosse preço. É nesse momento que se precificam pessoas, se monetizam relações, se confunde sucesso com remuneração e se reduz o sentido da vida à utilidade e à rentabilidade.

Preço é o que se paga por algo. Valor é o que permanece depois do pagamento. Preço pertence ao mercado. Valor pertence à experiência humana. Saber distinguir um do outro é uma das formas mais silenciosas e, ao mesmo tempo, mais decisivas de maturidade.

Ontem roubaram meu aparelho celular. O preço dele é de aproximadamente cinco mil reais. O valor, porém, é incalculável, completamente inestimável. Não por acessos a contas bancárias ou cartões de crédito, já que não realizo transações financeiras pelo celular, mas pelo que ele continha.

O valor desse aparelho estava nos documentos pessoais de identidade, arquivos de fotos, nas mensagens de amigos e, sobretudo, nas mensagens de áudio de minha mãe, que eu ouvia sempre que precisava me fortalecer, me acalmar ou recuperar ânimo.

Essa é, em essência, a verdadeira diferença entre preço e valor.

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Perfil

“Poeta, contista e cronista, que, quando sobra tempo, também é deputado”. Era essa a maneira como Joaquim Elias Nagib Pinto Haickel aparecia no expediente da revista cultural Guarnicê, da qual foi o principal artífice. Mais de três décadas depois disso, o não mais, porem eterno parlamentar, ainda sem as sobras do tempo, permanece cronista, contista e poeta, além de cineasta.

Advogado, Joaquim Haickel foi eleito para o parlamento estadual pela primeira vez de 1982, quando foi o mais jovem parlamentar do Brasil. Em seguida, foi eleito deputado federal constituinte e depois voltou a ser deputado estadual até 2011. Entre 2011 e 2014 exerceu o cargo de secretario de esportes do Estado do Maranhão.

Cinema, esportes, culinária, literatura e artes de um modo geral estão entre as predileções de Joaquim Haickel, quando não está na arena política, de onde não se afasta, mesmo que tenha optado por não mais disputar mandato eletivo.

Cinéfilo inveterado, é autor do filme “Pelo Ouvido”, grande sucesso de 2008. Sua paixão pelo cinema fez com desenvolvesse juntamente com um grupo de colaboradores um projeto que visa resgatar e preservar a memória maranhense através do audiovisual.

Enquanto produz e dirigi filmes, Joaquim continua a escrever um livro sobre cinema e psicanálise, que, segundo ele, “se conseguir concluí-lo”, será sua obra definitiva.

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