A Direita e a Esquerda

Dia desses estava conversando com dois bons amigos meus, um que se diz de esquerda e outro que se assume de direita e pude constatar que eles têm sérios e fortes dilemas sobre essa dicotomia, pois não conseguem entender as nuances e diferenças que existem entre uns e outros posicionamentos circunstanciais da política, nem aceitar as idiossincrasias consequentes destas posições.

Os jovens sempre foram levados a pensar que bonito é ser de esquerda, que esta posição é mais nobre que a outra, que há mais verdade deste lado. Os mais velhos são guinados a se posicionar à direita do cenário, pois o tempo e a experiência os fazem mais ponderados.

Naquele dia a discussão ficou acalorada e os dois se exaltaram a ponto de se alfinetarem. Imagino que muita gente passe pela mesma dificuldade deles em entender claramente esse assunto.

Afinal, o que é ser de direita e de esquerda?

Para nos ajudar a entender se alguém é de esquerda ou de direita podemos usar uma questão simples do dia a dia, como a polêmica sobre o estabelecimento de cotas raciais em vagas nas universidades ou no serviço público, por exemplo. É claro que o resultado dessa análise não estabelece uma classificação rígida – você pode concordar com algumas propostas e posicionamentos de esquerda e também concordar com outras de direita e vice-versa, mas estas são pistas muito esclarecedoras sobre o projeto de sociedade defendido por alguém de um ou de outro lado.

Saber o que significa ser de esquerda ou de direita é importante para que façamos nossas escolhas políticas com consciência. Identificar o posicionamento político de alguém ou de nós mesmos é muito mais complexo do que a mera observação de sua condição social, como se aqueles que têm uma boa situação financeira fossem necessariamente de direita e aqueles que vivem menos confortavelmente fossem necessariamente de esquerda.

Vejamos algumas situações que segundo os teóricos definem os posicionamentos de cada um dos lados.

Você será qualificado como sendo de esquerda se for a favor da inclusão social; caso acredite que todos devem ter acesso às oportunidades, independentemente da classe social ou nível de riqueza; for a favor da distribuição de renda; se acreditar que deva se distribuir o dinheiro público entre todas as pessoas; for a favor de serviços públicos bons e acessíveis a todos, de forma gratuita ou subvencionada. Se for a favor de educação e de saúde gratuita pra todo mundo; for a favor de uma reforma agrária radical, inclusive em terras que estejam produzindo; for a favor da defesa intransigente do meio ambiente, de tal modo que se oponha a qualquer projeto de desenvolvimento que agrida o meio ambiente; for a favor da descriminalização do uso da maconha e do aborto…

Você será tido como de direita, se for a favor da livre empresa, do acúmulo de capital; se for a favor de que as pessoas possam ficar ricas conforme sua honesta capacidade para assim o ser; for a favor da meritocracia e do livre comércio; for a favor de que as pessoas tenham acesso a emprego e renda e ao sucesso financeiro, sem a intervenção direta do poder público; caso seja a favor da desestatização, de serviços oferecidos por empresas privadas, de que o estado não seja operador nem administrador dos serviços que devam estar à disposição dos cidadãos, apenas sendo o poder público seu fiscalizador; for a favor da reforma agrária, mas apenas em terras ainda não cultivadas ou destinadas especificamente para esse fim; for a favor de regulamentos que possibilitem haver desenvolvimento, mesmo tendo que agredir um pouco o meio ambiente, destinando compensações para que isso aconteça; for contra a liberação do uso da maconha e o aborto…

Não se assuste se você descobrir que é a favor de coisas que o tornam uma pessoa de esquerda, ao mesmo tempo em que o classificam como sendo de direita. É que os itens que estabelecem essas posições nada mais são do que formas e caminhos para que atinjamos a tão sonhada felicidade e tudo o que é necessário para realizar os ideais de paz e justiça social. Você e eu podemos trilhar esses caminhos livremente, usando os da esquerda e os da direita. Os políticos não…

Esquerda e direita, por si só, não são partidos políticos. São as ideias que determinam se eles são de esquerda ou de direita. A maioria de nós não sabe o que é isso e saber realmente acrescenta muito pouco no final das contas.

Nos Estados Unidos da América, uma das maiores e mais sólidas democracias do planeta, uma nação poderosa composta por uma sociedade bem alicerçada, o que as pessoas querem? Elas querem ser bem lideradas, querem suas disputas resolvidas, seus acordos respeitados, seus trabalhos garantidos, seus criminosos punidos. Querem suas vidas regulares e regularizadas. Quem as lidera no sentido de que consigam o que desejam e precisam, ganha o poder. Isso é a democracia, um pacto, tácito e elementar.

Lá existem muitos partidos, mas apenas dois são realmente importantes. Mesmo assim, eles têm uma das mais poderosas e estáveis democracias do mundo. De um lado, os Democratas, que pelas avaliações citadas anteriormente é um partido de esquerda, e do outro o Partido Republicano que por esses mesmos parâmetros é de direita.

Acontece que eles são tão parecidos que muito pouca coisa é visível para a grande maioria da população americana. Para nós, estrangeiros, são poucos os que conseguem entender como é possível haver tanta disputa com tanta semelhança entre suas ideologias e seus dois partidos.

Existem outras coisas que são muito mais importantes para a definição de nosso posicionamento, não só político no sentido estrito, partidário, mas em lato sensu, para que você possa saber como se relacionar com a sociedade e como ela interfere na sua vida, na de sua família e de todos nós. Entre estas coisas está o bom senso, o discernimento. Isso é mais importante que qualquer argumento político.

Não importa se você ou eu sejamos de direita ou de esquerda. O que realmente importa é que ficando de um lado ou de outro, busquemos os caminhos que nos levem verdadeiramente a dias melhores, não importando se eles estão nessa ou naquela latitude. O que importa é que eles sejam reais, verdadeiros, que não sejam meras plataformas de campanha eleitoral.

 

 

 

Gostaria de ter escrito esse texto.

Reflexões de um pai judeu sobre Gaza

Gustavo Ioschpe

http://veja.abril.com.br/noticia/internacional/reflexoes-de-um-pai-judeu-sobre-gaza

 

Eu vou todos os anos para Israel. É um país incrível. Tem a 25ª mais alta renda per capita do mundo, com 36.000 dólares ao ano, à frente da média da União Europeia e mais de três vezes superior à brasileira (11.000 dólares ao ano). Já ganhou doze prêmios Nobel – tem mais prêmios Nobel por habitante do que a Alemanha, Estados Unidos e França. Israel tem excelentes museus, uma das melhores orquestras filarmônicas do mundo, grandes cineastas (Amos Gitai, Dror Moreh, Ari Folman), escritores magistrais (Amos Oz, David Grossman, S.Y. Agnon, A.B. Yehoshua…), músicos fantásticos. Apesar do seu tamanho minúsculo, é o terceiro país com mais empresas listadas na Nasdaq, a bolsa de empresas de tecnologia, atrás apenas dos EUA e da China. O primeiro serviço de instant messaging, ICQ, é de uma empresa israelense. O Waze também. A Teva, maior empresa do mundo de medicamentos genéricos, é de lá. O país tem grandes restaurantes, um Parlamento vibrante, vida noturna intensa. Tel Aviv poderia ser colocada em qualquer país europeu e o turista não saberia a diferença.

Que tudo isso tenha sido gerado por um país de 20 mil quilômetros quadrados (um pouco menor que Sergipe) fundado em 1948 já seria surpreendente; tendo acontecido sob constantes ataques em guerras e atentados terroristas e acolhendo milhões de imigrantes ao longo de décadas, é algo que aqueles com pendores religiosos poderiam chamar de milagre. Cercado por todas essas opulentas vitórias e conquistas, é perdoável que os visitantes estrangeiros e os próprios israelenses não consigam fazer o esforço sobre-humano de notar que, mantido o atual caminho, o país ruma para o suicídio.

Conflito — A atual campanha de Gaza apenas reforça alguns pontos nos quais acredito há muitos anos. Primeiro: Israel não pode vencer o conflito com os palestinos militarmente sem que se torne um pária entre as nações. Porque a única maneira militar de acabar com o terrorismo dos radicais do Hamas seria dizimar todo o povo palestino.  Algo inconcebível. Enquanto houver palestinos vivos, eles vão querer ter um Estado – uma aspiração que o povo judeu, apátrida por dois milênios, certamente entende bem, e cuja legitimidade é inquestionável.

Eu acompanho esse conflito com lupa há pelo menos vinte anos. Já nem me recordo mais a quantidade de vezes que os comentaristas militares israelenses e seus apoiadores disseram que uma certa ação militar ou o assassinato de um líder do Hamas (Yehia Ayash, Ahmed Yassin, Abdel Aziz al-Rantissi, Salah Shahade, Ahmed Jaabari) daria o “golpe definitivo”.  Mas o enredo é sempre o mesmo: centenas ou milhares de palestinos inocentes são assassinados, casas são destruídas, mísseis explodidos, soldados e civis israelenses morrem e, assim que as operações acabam, a preparação para o próximo conflito começa. Com um saldo sempre negativo para Israel. A operação Chumbo Fundido, de 2008-09, matou entre 1.166 e 1.417 palestinos e treze israelenses.

A operação atual, no momento em que escrevo essas linhas, já custou a vida de 1.492 palestinos e 66 israelenses, além de um soldado sequestrado. A imagem internacional do país se deteriorou sensivelmente de lá pra cá. Chama a atenção que os defensores dessa operação não percebam a sua inutilidade: Israel está usando todo o aparato bélico de que o século XXI dispõe para…enterrar túneis (?!). Túneis que podem ser feitos com pás e um pouco de cimento e que certamente começarão a ser cavados novamente assim que o conflito terminar. É óbvio que Israel precisa se defender dos foguetes e não permitir túneis adentrando seu território, como é óbvio não ser possível eliminá-los militarmente.

Guerrilha –– Muito tem se escrito, nos últimos dias, sobre a indecência do comportamento do Hamas, que estaria vitimando seus concidadãos de propósito para danificar a imagem de Israel. Do outro lado, há aqueles que acusam Israel de “genocídio” e imaginam que o objetivo da ação é matar o maior número possível de palestinos. Não pretendo me ater a teorias e gostaria de ficar no terreno do que considero obviedades. A primeira é que, se os palestinos não podem ter Exército e não conseguem obter concessões pela via da negociação, sua arma será o terrorismo, por não terem outra. A segunda é que terroristas são o que de pior a humanidade produz, e os militantes do Hamas, e sua ideologia, são asquerosos, racistas, desumanos, torpes. A terceira, derivada das duas acima, é que um Exército nacional não pode lutar contra e vencer uma milícia terrorista sem que adote suas táticas, coisa que um Exército nacional não pode fazer. É por isso que os americanos não ganharam no Vietnã nem os franceses na Argélia, e é por isso que o exército israelense não ganhará em Gaza, se por “vitória” entendermos uma ação militar que gere uma paz duradoura.

Não entendo essas pessoas que ficam apontando as atrocidades do Hamas. Ninguém, em sã consciência, acha que essa é uma organização digna e honrada. O que essas pessoas esperam? Que ao denunciar as vilezas do Hamas seus militantes comecem a guerrear de acordo com as Convenções de Genebra?! Não vai acontecer. Que a população de Gaza se insurja contra o Hamas e entenda as razões israelenses para matar centenas de mulheres e crianças, e aceitem o bloqueio marítimo, terrestre e aéreo que Israel impõe a Gaza de maneira resignada? Não vai acontecer. Que a comunidade internacional aceite a morte de centenas de inocentes porque os militantes do Hamas estão jogando foguetes contra cidades israelenses? Não vai acontecer.

O segundo fato, portanto, que essa operação deixa claro é que o problema israelo-palestino precisa ser resolvido na mesa de negociação. Essa, aliás, é a única forma de derrotar o Hamas: mostrar aos palestinos que o terrorismo não leva a nada e que o caminho dos moderados traz resultados. Aqui os defensores de Israel repetem mais uma frase sem sentido, que vem dos partidos da direita israelense: a de que não há parceiro para a paz, de que os palestinos não reconhecem a existência de Israel, de que todos os árabes – ou todo o mundo, dependendo do nível de paranoia do interlocutor – quer jogar os judeus ao mar. Assim sendo, não há nada a fazer, além daquilo que os militares israelenses chamam de “aparar a grama”: ações militares periódicas que causam bastante morte e destruição e retardam em alguns anos o fortalecimento das milícias palestinas. (Esse linguajar desumano, inaceitável, já é um indício de uma brutalização da sociedade israelense e de grande parte da comunidade judaica, que comento a seguir).

Pra ser sincero, acho essa visão equivocada. Ela emana do pecado original do sionismo: a ideia, difundida nos primórdios do movimento, de que a criação do Estado judeu na Palestina histórica era dar “um povo sem terra para uma terra sem povo”. Ocorre que a segunda metade da frase é falsa: havia milhares de palestinos morando, há séculos, nas terras sagradas do judaísmo. Eu entendo perfeitamente que um povo perseguido por milênios e tendo recentemente saído do Holocausto não tenha podido demonstrar empatia para com o sofrimento dos palestinos naquela época – mas não hoje. Também entendo que os palestinos não tenham aceitado a presença judaica em terras que percebiam como suas. Como bem disse David Ben-Gurion, primeiro premiê israelense: “Se eu fosse um líder árabe, eu jamais assinaria um acordo de paz com Israel. É normal, nós tomamos o país deles. É verdade que Deus prometeu-o a nós, mas o que eles têm a ver com isso? Nosso Deus não é o deles. O único que eles veem é: nós viemos aqui e roubamos o seu país. Por que eles deveriam aceitar isso?”

História — Os palestinos e os vizinhos árabes cometeram um erro histórico ao não aceitar o plano de partilha da ONU em 1947 e declarar guerra a Israel em 1948. Pagaram por esse erro com uma derrota fragorosa, exílio e morte, naquilo que chamam de “Naqba” (“Catástrofe”), e continuam pagando até hoje. Em 1947 eles lutavam por 100% da terra. Agora lutam por apenas 22%, a área correspondente à Cisjordânia e Faixa de Gaza.  A ideia de que não há parceiro do outro lado deriva da ideia de que os palestinos rejeitaram ofertas “generosas” de Israel, que previam a devolução de até 95% dos territórios ocupados. Mas mesmo para os palestinos moderados, qualquer coisa que não seja a totalidade dos 22% que lhes restaram é um insulto. Não haverá paz enquanto todos os territórios não forem devolvidos.

Há várias propostas na mesa que chegam muito perto do fim do conflito, como o que foi negociado em Taba em 2001, a Iniciativa de Genebra de 2003, a proposta da Liga Árabe de 2002. Creio que um governo israelense com respaldo popular para chegar a um acordo conseguiria concluí-lo em poucos meses de negociação. A questão que parece mais espinhosa é provavelmente o direito de retorno dos refugiados palestinos, mas ao contrário do que os radicais israelenses espalham, 90% dentre eles não querem voltar para o Estado judeu, e sim para um eventual Estado palestino. Se você tem dúvida sobre a confiabilidade da informação, vale dizer que ela foi auferida por um pesquisador palestino que, ao divulgá-la, teve seu escritório depredado por seus conterrâneos radicais (esse dado, assim como todos os outros mencionados ao longo deste artigo, estão disponíveis em twitter.com/gioschpe).

Cenário — Creio que a maior oposição a um acordo justo e duradouro venha do atual governo israelense, que acredita na manutenção do status quo, talvez desejando que em algum momento os palestinos desistam de suas aspirações ou que alguma mudança radical aconteça no Oriente Médio (muitos ainda imaginam que algum dia será possível fazer um Estado palestino na Jordânia…). Creio que quem analisa os dados friamente, e não através do prisma do pensamento mágico, haverá de concluir que a passagem do tempo é altamente contrária ao interesse israelense. Por quatro motivos: demográfico, geopolítico, sociológico e de relações internacionais.

Demográfico: em Israel, hoje, aproximadamente 75% da população é judia e 21% é árabe. Dentro da população judia, os ortodoxos representam 10% do total. Mas, devido ao diferencial de fertilidade – 7 filhos por mulher ortodoxa versus 2,3 para as judias não-ortodoxas – hoje os religiosos são 20% da população judia com menos de 20 anos. Em 2050, a projeção demográfica é de que os religiosos representem 30% da população judia. Os árabes israelenses também têm fertilidade mais alta do que os judeus não-religiosos: 3,5 filhos por mulher, versus 3,0 para a população judia como um todo. Ou seja, a proporção de árabes e ortodoxos aumenta e a de judeus não-religiosos diminui. Se já é difícil chegar a um consenso hoje, imagine quando talvez a maioria da população for composta de judeus ortodoxos e árabes. Além disso, há a população palestina nos territórios ocupados. Se a incluirmos, hoje temos aproximadamente 12 milhões de pessoas vivendo entre o rio Jordão e o Mediterrâneo. 52% desses são judeus e 45% árabes. Segundo o demógrafo Sergio Della Pergola, da Universidade Hebraica de Jerusalém, essa proporção se inverte em poucos anos; em 2030 os palestinos representarão 56% da população. Imagine se a Autoridade Palestina se dissolver e Israel voltar a ter controle legal sobre toda essa população…

Geopolítico: hoje Israel consegue manter o status quo porque os Estados Unidos oferecem apoio diplomático – vetando sanções no Conselho de Segurança da ONU, por exemplo – e militar. Com o fim da Guerra Fria, caiu a razão estratégica para o apoio americano. Com a descoberta do gás de xisto americano e a reduzida dependência deste país do petróleo do Oriente Médio, a razão econômica também se enfraqueceu. Resta a motivação da política interna, com a pressão da comunidade judaica e, em menor escala, evangélica em favor de Israel. Mas, como mostram críticos como Peter Beinart, o apoio da juventude judaica americana a Israel é menor do que a da geração de seus pais. Mas mesmo que, apesar de todos esses fatores, o apoio americano continue firme e forte (o que me parece improvável), é difícil que ele seja suficiente em um mundo que caminha para a bipolaridade, com a China ocupando o posto de maior economia mundial. A China não tem, nem nunca teve, uma comunidade judaica expressiva. Não é, nem nunca foi, uma democracia. Com 69 carros por 1.000 habitantes (vs. 786 nos EUA) e poucas reservas de petróleo, é difícil de se imaginar que a China irá se alinhar com Israel e não os países árabes. No próprio Oriente Médio, a Primavera Árabe foi mais um sinal de alerta. Quando as populações árabes depuseram seus ditadores militares, em alguns casos escolheram movimentos radicais islâmicos em seus lugares. Quando o Egito foi governado pela Irmandade Muçulmana, houve grande cumplicidade entre o presidente Mursi e o Hamas, incluindo o tráfico de armas. Se a situação de hoje é difícil, o que acontecerá se o Egito voltar a ser governado pela Irmandade, o Líbano pelo Hezbollah, a Síria e o Iraque pelo Isis?

Sociológico: a ocupação militar de outro povo corrói uma nação democrática. É difícil se imaginar que um jovem israelense passe três anos (o período do serviço militar obrigatório para os judeus israelenses; mulheres servem dois anos) suprimindo a liberdade alheia e depois transforme-se em um democrata exemplar. O filósofo israelense Yeshayahu Leibowitz escreveu essas palavras proféticas em um ensaio de 1968, enquanto a população israelense ainda estava embevecida com as conquistas territoriais do ano anterior: “Um Estado dominando uma população hostil de [à época] 1,5 a 2 milhões de estrangeiros necessariamente se tornará um Estado policialesco, com todas as consequências que isso traz para a educação, liberdade de expressão e instituições democráticas. A degeneração característica de todo regime colonial também prevalecerá no Estado de Israel.” Assim está sendo. Atualmente, manifestantes contrários à campanha de Gaza têm sido espancados por militantes de direita e até presos pela polícia. Os apoiadores da ação militar vão às ruas cantando, abertamente, “Morte aos árabes!” e “Morte aos esquerdistas!”. Não é preciso um PhD em Ciência Política para saber que esse ódio e sectarismo são sinais de uma profunda falência democrática, normalmente vista apenas em períodos pré-convulsão civil.

 

Heitor Feitosa/VEJA.com/VEJA.com

O economista Gustavo Ioschpe

Comunidade internacional — Por último, e talvez mais importante, Israel está virando um pária aos olhos da comunidade internacional. É o único país que domina outra população, e é a única democracia ocidental que desrespeita leis internacionais, impõe bloqueios a outro povo, causando enormes dificuldades e sofrimento desde 1967. Muitos judeus veem nesses ataques da opinião internacional o espectro do antissemitismo e até do nazismo, como se criticar o governo israelense fosse sempre uma versão sublimada de ódio antissemita. Discordo, mas não vou entrar nessa discussão. Atenho-me ao fato: a percepção de Israel na comunidade internacional está em queda livre desde a segunda intifada. Já há vários países, ONGs, universidades e igrejas que boicotam o país e incentivam seus membros a não comprar produtos ou ações de companhias israelenses.

Para um país minúsculo em estado de conflagração com quase todos os seus vizinhos, é impossível para Israel manter o seu nível de desenvolvimento caso as sanções da comunidade internacional evoluam para um boicote do estilo imposto à África do Sul da época do apartheid. Pode ser que os esforços propagandísticos do governo israelense surtam efeito, mas eu duvido fortemente que – por mais que o Hamas seja odiado – a comunidade internacional tolere a morte e as privações que as ações israelenses vêm impondo aos civis palestinos.

Israel — Quero concluir com uma experiência muito pessoal. Nessas férias de julho, minha mulher, israelense, foi com nossos filhos visitar sua família, perto de Tel Aviv. Eu não pude ir, por motivos de trabalho. Eles chegaram lá no segundo dia da operação em Gaza e ficaram por duas semanas. Como os que me leem devem saber, considero-me um racionalista, humanista e pacifista. Desde a adolescência. Pois quando minha mulher me contou que teve de ir, junto com os nossos filhos, para um abrigo antiaéreo para se proteger dos foguetes do Hamas, durante algumas horas eu pensei com o fígado, e tive vontade de que o exército israelense despejasse sobre Gaza todo tipo de armamentos, nas quantidades que fossem necessárias, para que os foguetes parassem de cair e eu pudesse ter os meus de volta e em segurança.

Comecei a sair desse estupor ao ver o indescritível sofrimento de pais e familiares que tiveram seus filhos destroçados pelos mísseis que eu desejara que caíssem sobre eles. Antes de ser um judeu sionista sou um ser humano, e por ser humano e pai consigo sentir a dor que acomete um pai que precisa viver como realidade aquilo que, como um mero temor, já me causara tamanha angústia. Se eu tive esse acesso de bile mesmo morando a milhares de quilômetros de distância e tendo familiares no conflito por duas semanas, posso imaginar como se sentem os israelenses que passam por isso, constantemente, há anos. E, ainda mais, o que passa pela cabeça dos habitantes de Gaza, cujo sofrimento é infinitamente maior. Consolidou-se em mim a crença de que esses dois povos, sozinhos, não conseguirão superar seus ódios e medos e chegar a um acordo de paz justo e duradouro.

Caminhos –– Hoje, acredito que Israel tem apenas três alternativas. A primeira é seguir o caminho atual, e confiar em sua supremacia militar e na aliança com o poder hegemônico. Esse é um caminho que, no curto prazo, vai levar apenas a mais conflito, mais mortes, mais isolamento externo e rupturas internas. No longo prazo, tende a levar a um segundo Holocausto. Quem conhece História sabe que o atual atraso econômico e militar do mundo árabe é uma aberração. Enquanto as potências ocidentais de hoje chafurdavam nas trevas da Idade Média, povos árabes representavam a vanguarda do conhecimento e da riqueza. Voltemos mais alguns milênios no tempo e veremos os judeus como escravos do faraó egípcio. Em algum momento esse pêndulo há de fazer o movimento inverso; se a vida dos israelenses depende apenas da supremacia tecnológica, o fim desta trará a extinção daquela.

Os outros dois caminhos envolvem um acordo de paz sendo imposto pela comunidade internacional. Minha única dúvida é se essa imposição virá dos amigos de Israel ou de seus inimigos. Se vier dos inimigos significará que o país foi subjugado pela pressão/boicote internacional. Para chegar a esse ponto, significará que Israel perdeu todo seu apoio internacional. O conflito interno será tremendo, e os termos de um acordo com os palestinos e demais países árabes serão francamente desfavoráveis aos israelenses, talvez exigindo reparações financeiras exorbitantes, perda de território, incorporação de refugiados. Talvez nesse cenário o país sobreviva, mas duvido que como uma democracia plena, com pujança econômica.

O terceiro cenário é aquele em que um acordo de paz é estimulado pelos amigos de Israel, notadamente os Estados Unidos e a comunidade judaica internacional. Esse seria um acordo em uma posição de força, que permitiria um entendimento justo e o fim das hostilidades, e liberaria Israel para continuar seu caminho de desenvolvimento econômico e social. Entendo que muitos judeus e sionistas não-judeus acham que o melhor que podem fazer por Israel é dar apoio incondicional a qualquer ação de qualquer governo. Respeito essa opinião, apesar de saber que aqueles que a professam provavelmente não respeitam a minha. Mas gostaria de, respeitosamente, discordar. Pessoas tomam péssimas decisões sobre suas vidas, e países, mesmo democráticos, também escolhem líderes errados e políticas ineptas. Algumas pessoas acham que os verdadeiros amigos apoiam qualquer sandice e são só elogios. Já eu acredito que os verdadeiros amigos são aqueles que criticam quando acreditam que a crítica é necessária, que falam as verdades duras. Hoje eu acredito que aqueles que apoiam uma política cujo resultado é a inércia diplomática e o crescimento exponencial de cadáveres de inocentes são os que, inadvertidamente, enterram a paz e levam Israel e os palestinos a um beco sem saída.

Para terminar, preciso confessar que não tenho certezas. Talvez já tenhamos atravessado o Rubicão. Talvez os ódios já sejam insuperáveis. O que significa dizer que talvez, mesmo depois de concluído um acordo de paz justo, os foguetes continuem a cair em Israel. Talvez esse conflito seja sobre mais do que terra, como quer a direita israelense. Pode ser. Mas prefiro tentar o caminho do entendimento e da justiça, que tem alguma chance de fracasso, do que persistir no caminho atual, cuja chance de sucesso é zero. E prefiro que os foguetes venham agora, quando Israel e o povo judeu têm uma capacidade de reação que nunca tiveram em toda a sua milenar história, do que em um momento em que já não nos restará mais nenhum cartucho, nem nenhum aliado.

 

Alguns dogmas universais da política

Depois de ter sido eleito o mais jovem deputado estadual do Brasil em 1982 e de sido deputado federal na Assembleia Nacional Constituinte na legislatura seguinte, resolvi colocar no papel alguns princípios que deveriam balizar a minha jornada como político. Lendo-os recentemente vi que precisava atualizá-los, mas garanto que não os modifiquei em sua essência. Publico-os hoje no intuito de que sirvam de alguma coisa para alguém.

1 – Política se faz é com políticos. Sem eles o que se faz é coisa diversa. É como futebol profissional e de várzea. As regras até são, ou deveriam ser, as mesmas. Os jogadores chutam uma bola com os mesmos fundamentos e com o mesmo intuito, mas as duas práticas são coisas bem diferentes. Na várzea às vezes não há impedimento, mas mão na bola sempre haverá. O profissionalismo e a expertise fazem com que um e outro sejam coisas bem distintas.

2 – Só terá verdadeiramente sucesso em política quem tiver um grande e forte grupo, espalhado por todas as regiões eleitorais de seu território. Esse ensinamento vem sendo propagado de geração em geração desde que o mundo é mundo. Sem soldado não há exército, sem exército não há batalha. Sem batalha não há vitória. Ninguém entrega o poder de mão beijada. Se o indivíduo especializado em política é indispensável, um grupo deles compondo um exército será vitorioso à medida que seus comandantes lhes derem as armas necessárias e as ordens certas.

3 – É impossível fazer tudo o que as pessoas desejam que façamos, mas é indispensável que se faça tudo aquilo com que nos comprometamos. Ninguém é obrigado a prometer nada, mas tendo prometido é obrigado a cumprir, pois é com atitudes como essa que se forjam os grandes líderes. Não tema dizer não quando precisar, mas sempre que puder, diga sim. Isso fará com que sua palavra seja reconhecidamente honrada. Isso lhe dará não só respeito, mas admiração e o que é principal, sua fama de correto voará pelos quatro cantos e todos irão querer honrá-lo com suas lealdades, para em troca receberem, no mínimo, a mesma coisa.

4 – O apoio da máquina governamental facilita muito no trato da política, pois é o governo, em seus três níveis, o maior transformador da sociedade. Mas é muito importante que quem opere essa máquina o saiba fazer, sob pena de atropelar sua própria gente com ela. Caso a operação da máquina governamental não seja o forte de um líder, ele deve ter alguém de sua total confiança que o faça, com correção e dentro da legalidade.

5 – Não se deve jamais subir uma montanha carregando mais peso que o minimamente indispensável. O ar rarefeito das grandes altitudes castiga o físico. Da mesma maneira, enfrentar uma batalha política e eleitoral preocupado em ganhar o principal, mas tentar emplacar pequenas vitórias localizadas é um risco inconcebível e quase sempre desastroso. Jogue fora o peso morto e dê forças a quem verdadeiramente pode lhe ajudar a subir a montanha.

6 – Não é mais possível se fazer uma campanha, seja ela qual for, sem os instrumentos básicos para essa jornada. Entre eles estão a pesquisa e o marketing. O avanço tecnológico e o desenvolvimento da sociedade obrigam a invasão competente e o domínio correto da informação, através dos meios tradicionais como os jornais, da mídia eletrônica como emissoras de rádio, TV, e da internet pelos blogs e pelas diversas redes sociais como Facebook, Instagram, WhatsApp, Twitter… Antes que esqueça: carisma é algo fundamental, mas hoje, somente ele serve de pouco ou de nada, principalmente se você não souber usar a mídia.

7 – A opinião sobre o pior defeito que um político pode ter varia de pesquisa para pesquisa, de um público consultado para outro, no entanto existem alguns defeitos que estão sempre presentes entre os mais citados: arrogância, hipocrisia, corrupção, incompetência, deslealdade e covardia. Olhando rapidamente parece que não só os políticos, mas todas as pessoas são bem propensas a esses defeitos. Nos políticos a comprovação de um desses defeitos pode ser fatal.

8 – Um bom líder político tem que ser uma pessoa aplicada, dedicada e disponível, ele deve se envolver com as coisas, deve conhecê-las. Acessível e estudioso, deve saber tudo o que puder sobre a história, sobre seus eventos, sobre como as pessoas se comportaram através do tempo. Não é obrigado a ser cultíssimo ou inteligentíssimo, mas precisa se cercar de quem tenha essas qualidades e deve saber fazer com que estes trabalhem no sentido de suprir-lhe as deficiências. Dizer que o político tem que ser bem intencionado poderia dar margem àquele comentário de que o inferno está cheio destes, mas a verdadeira boa intenção é captada e reconhecida imediatamente pelo homem comum, que pode não saber o que é commodities, mas sabe que o preço do tomate está pela hora da morte.

9 – O isolamento é um veneno. Estar próximo das pessoas de seu círculo mais fechado é indispensável, mas sempre que possível o bom líder político deve conviver mais de perto com as pessoas comuns, de grupos diversos. Deve estar sempre aberto a ouvir e só depois disso tirar suas conclusões e tomar suas decisões, que não devem ser imutáveis por serem suas, mas mutáveis se as circunstancias assim exigir. A imagem do grande líder insone, que vai na madrugada à cozinha para comer alguma coisa e lá encontra o servente e com ele divide suas dúvidas, mesmo que metaforicamente, é o clichê da humildade e da solução simples dos problemas. Isso dá realmente certo.

10 – Na política, como na vida, o seu maior adversário é sempre você mesmo. Só você é capaz de estabelecer o seu limite. Seu limite não pode ser superado por outros, seu limite é seu. Os outros terão de superar os deles. Se você não for competitivo, se não tiver aptidão para sê-lo, se seus limites não o credenciarem a uma disputa, desista. Você tem que ter um senso crítico extremamente apurado e um senso auto-crítico extremamente honesto. Quando o filósofo disse “conheça-te a ti mesmo” ele estava falando sério. Sem isso ninguém vai a lugar algum. Somente sabendo de nossos limites é que podemos superá-los. Se nos acostumarmos a diariamente superar nossos limites, se estivermos abertos para o mundo, para nos renovarmos diariamente, jamais pararemos de superar nossos limites e será muito difícil que outros nos superem.

Existem mais dogmas na política, mas acredito que por hoje esses 10 já bastam.

 

 

 

O documentário “A Pedra e a Palavra”, de Joaquim Haickel, ganha dois prêmios

Encerrado o XVIII Festival Internacional de Cinema de Avanca.

 

O documentário “A Pedra e a Palavra”, de Joaquim Haickel, ganha dois prêmios.

 18º FESTIVAL DE CINEMA AVANÇA 2014

 

 

 

 

 

 

http://antestreia.blogspot.pt/2014/07/premios-de-avanca-2014.html

 

Veja abaixo a reprodução da matéria.

 

Prémios de Avanca 2014

Terminaram os “Encontros Internacionais de Cinema, Televisão, Vídeo e Multimédia – AVANCA 2014”, encerrando 10 dias de festival e 5 dias de competições, conferências e workshops internacionais. Comemorando a décima oitava edição, o AVANCA 2014 contou com mais participantes e atribuiu prémios a filmes e autores de 17 países.

“O Último Inverno” do realizador iraniano Salem Salavati arrebatou o Prémio Cinema para a Melhor Longa-metragem, tendo ainda recebido o Prémio Melhor Atriz que distinguiu AsiyehMoradizar. Foram ainda distinguidas com Menções Especiais as longas–metragens “Não-conformidade” de Igor Parfenov (Ucrânia) e “A Busca” de Luciano Moura (Brasil). Este último filme foi também distinguido com o Prémio Melhor Ator, atribuído a Wagner Moura.

A curta-metragem “O imortalizador”, de MariosPiperides (Chipre), ganhou o Prémio Curta-Metragem e Prémio Estreia Mundial. O Prémio Animação distinguiu o filme russo “Tons de Cinzento” de Alexandra Averyanova. O Prémio Vídeo distinguiu o filme mexicano “Ar” de RominaQuiroz. O Prémio da Melhor Fotografia distinguiu Amir Alivaisi do filme iraquiano “Preto & Branco” de JalalSaepanah.

O Júri, presidido pelo investigador e escritor António Abreu Freire, foi constituído pelos cineastas YevgeniPashkevich (Letónia), Tommaso Valente (Itália), Margarita Hernandez (Cuba / Brasil), o investigador Jason Dee (Reino Unido) e LyudmilaBila (Ucrânia).

Entre as categorias mais esperadas deste ano, esteve a “Competição Avanca”. Reunindo uma selecção de obras produzidas na região, foram distinguidas a longa-metragem “Pecado Fatal” de Luís Diogo, a curta-metragem “Balança” de Rui Falcão, o documentário “A Pedra e a Palavra” de Joaquim Haickele a animação “Foi o fio” de Patrício Figueiredo.

O Júri deste prémio foi presidido pelo produtor Paulo Trancoso e constituído pelo cineasta Bernardo Cabral e pelos programadoras Ayoub El Anjari El Baghdadi (Marrocos), GamzeKonca (Turquia), Rosângela Rocha dos Santos (Brasil) e Flávia Vargas (França / Brasil). Este júri atribuiu ainda uma menção especial a “Mamãs de papelão” de Nuno Cristino Ribeiro.

Um outro júri constituído pelos professores Leonel Rosa e Manuel Freire, pelo poeta António Souto, pelo pintor Acácio Rodrigues, pela investigadora Ana Cristina Pereira e pelos cineastas Henrique Vaz Duarte, Manuel Matos Barbosa, Manuel Paula Dias e Rui Nunes, atribuiu os prémios televisão.

O documentário “Shado’man” do holandês Boris Gerrets recebeu o Prémio Televisão. O Júri atribui ainda Menções especiais aos filmes “Sangre de Dragón” de Nacho Luna (Espanha) e “Trazosenlacumbre” de Carlos Molina (Venezuela).

 

O Prémio Estreia Mundial foi atribuído à curta-metragem “O imortalizador” de MariosPiperides (Chipre)”, e aos documentários “The VaticanandtheThird Reich” de Rufo Pajares (Espanha) e “A Pedra e a Palavra” de Joaquim Haickel (Brasil / Portugal).

A competição “Trailer in Motion” distinguiu o trailer “Der Kreis” de Stefan Haupt (Suíça) e o videoclipe “Le peuple de l’Herbe – parlerle fracas” de Wasaru (França). Também o videoclipNapoleon” de Marco Miranda (Portugal) recebeu uma Menção Especial. O júri foi constituído pelo crítico Nuno Reis e pelo músico Sérgio Ferreira.

Entretanto, na “AVANCA|CINEMA, Conferência Internacional Cinema – Arte, Tecnologia, Comunicação”, o Prémio Eng. Fernando Gonçalves Lavrador, em homenagem póstuma a um dos mais relevantes investigadores portugueses na área da semiótica, estética e teoria do cinema, distinguiu ax-aequo o investigador finlandês JoukoAaltonen da AaltoUniversity e Carlos Júnior Rosa da Universidade de São Paulo, Brasil. Também os investigadores Luís Leite e Marcelo Lafontana da Universidade do Porto e Michael Morgan da EuropeanFilmCollege (Dinamarca), receberam Menções Especiais.

O júri deste prémio foi constituído pelos académicos Francisco Garcia (Espanha), WaiLukLo (Hong Kong), Yen-Jung Chang (Taiwan) e os portugueses Anabela Oliveira, José Ribeiro, Rosa Oliveira, Pedro Bessa e José Marta.

A organização científica internacional “IAMS – InternationalAssociation for Media in Science” atribuiu ainda umas menção especial à comunicação dos investigadores portugueses Alexandra Abreu Lima e Jorge Ramalho, numa declaração apresentada pelo professor e físico nuclear Alessandro Griffini (Itália).

No total, seis júris constituídos por 34 individualidades de 14 países atribuíram 19 prémios e 9 menções especiais.

O AVANCA acontece todos os anos em Avanca no Distrito de Aveiro e é uma organização do Cine-Clube de Avanca e Câmara Municipal de Estarreja com o apoio do ICA/Secretaria de Estado da Cultura, Instituto Português do Desporto e da Juventude, FCT, IAMS, Academia Portuguesa de Cinema, Universidades de Aveiro e Coimbra, ESAP, ESAD, Teatro Aveirense, Junta de Freguesia, Paróquia e Escola Egas Moniz de Avanca, para além de várias entidades locais.

A Democracia do Almoço de Domingo

Chova ou faça sol, todo domingo, estando em São Luís, almoço na casa de minha mãe. Eu, meus irmãos Nagib, Lúcia e Jorge juntamente com nossas famílias, mulheres, marido, filhos, noras, genros, amigos e agregados. Alguns domingos somos umas trinta pessoas.

Nossa família é como toda família. Somos unidos mesmo tendo nossas diferenças. Torcemos por times diferentes, mas sempre juntos pela Seleção Brasileira… Se bem que um membro importante do nosso clã, um “maluco” que pouco ou nada entende de futebol e de política, achou que se a Seleção Canarinho fosse mal na Copa do Mundo o país iria melhorar… Tolo, não sabe que as coisas não acontecem assim, caso contrário seria muito fácil resolver certos problemas!

Um desses domingos, depois do almoço durante a sobremesa, surgiu o assunto da eleição. O tema foi pegando fogo e de repente resolveu-se fazer uma simulação de eleição com os presentes.

Fizemos várias rodadas de consultas. Começamos pelo cargo de presidente da República. Ao final da conferência chegou-se ao resultado de AN9, DR 8, EC1 e 3 disseram ainda não ter resolvido em quem votar.

A segunda rodada de votação foi para senador. 15 disseram que votariam em GV, 3 em RR e 3 disseram ainda não ter resolvido em quem votar.

Seguimos então na apuração dos votos da nossa Távola Retangular dominical. Para deputado federal a disputa seria mais acirrada, pois meu cunhado resolveu fazer boca de urna para seu candidato. Se eu não o amasse tanto, por ele ter a santa paciência de viver com minha irmã em paz e harmonia pelos últimos 40 anos, eu iria dar-lhe voz de prisão e proibí-lo de tomar o cafezinho da sogra. Ao final tivemos LM com 9 votos, PN com 6 (nessa época ele ainda era candidato), CT com 4 e os 2 outros votos foram dados a candidatos contrários ao meu grupo político e devo aqui justificá-los.

Não declinarei o nome dos eleitores, mas citarei seus candidatos e o motivo de seus sufrágios. Um dos eleitores disse que votava em JC por ser seu amigo e dever-lhe atenção e carinho. O outro eleitor divergente disse que votaria em JRT, pois há muitos anos este lhe deu um emprego. Fiquei com vontade de dizer-lhe que quem deu o emprego foi o prestigio que JS emprestou para o tal candidato. Calei.

O clima estava acalorado, a temperatura tinha aumentado e os ânimos estavam exaltados. Minha mãe ria!… Ela adora ter a família em torno dela. Meses antes ela havia pedido para ir ao TRE para se recadastrar, pois queria votar. Minha mãe de criação, Mãe Teté, resolveu não fazer o mesmo: “Não dou mais pra isso…”

A votação continuou. Era a hora de escolhermos nosso deputado estadual. Aqui aconteceu uma coincidência, pois dois dos candidatos votados tinham as mesmas iniciais. RC1 teve 12 votos e RC2 ficou com os outros 9, isso depois de minha cunhada e um amigo da família fazerem campanha para seus respectivos candidatos.

Quando chegou a hora de votar para o cargo de governador o que se viu foi um massacre. ELF 21 e FD zero.

Quis saber os motivos do voto de cada uma daquelas pessoas. Escolheram este candidato porque acreditam que ele realmente fará um bom governo? Alguns disseram que votam nele por não concordarem com os posicionamentos dos outros candidatos. Minha mulher vota nele por ele ser empreendedor. Minha segunda filha vota nele por crer que ele irá transformar o nosso estado sem usar armas como a hipocrisia. Alguém comentou que vota nele porque o ouviu discursando e se empolgou com sua fala. Minha tia solteirona disse que ele é um “gato”. Um sobrinho disse que ele passa confiança.

Ao final todos nós comemoramos a maravilhosa família que temos e a deliciosa democracia que desfrutamos. Uma democracia baseada no respeito e no amor.

Ao me despedir de minha mãe ela me puxou para o lado e me disse ao ouvido que ela acreditava que meu amigo iria ganhar a eleição. Disse que não será uma eleição fácil, mas que acredita que ele realmente possa fazer mais pelo Maranhão e sua gente, disse que eu posso contar com o trabalho dela e de suas amigas e amigos em mais essa campanha.

Saí da casa de minha mãe naquele domingo como saio sempre, feliz! Mas naquele dia a felicidade tinha um outro sabor. Não era do maravilhoso cuxá com peixe frito e torta de camarão. Não era o sabor do dulcíssimo abacaxi de Turiaçu nem do Romeu e Julieta, nem do cafezinho de nossa velha. O sabor que ficou em nossa boca era o sabor da alegria por termos uma família grande, que convive em harmonia.

Ao chegar a minha casa senti algo um tanto estranho. Era como se meu pai me falasse ao ouvido: “Fico feliz ao ver que tua mãe ocupou com perfeição o meu lugar à mesa…”

Em algumas ocasiões sinto falta de meu pai. Numa campanha política poucos eram tão bons quanto ele. Mas foi no convívio diário, nos almoços de domingo que minha mãe nos ensinou o valor da família e meu pai, a importância do debate e da democracia.

 

 

 

Pra cumprir tabela.

Nos últimos 60 dias todo mundo falou sobre a Copa do Mundo da FIFA. Eu também falei, mesmo que apenas de passagem. Agora, transcorrido o tempo regulamentar, acabada a prorrogação e cobrados os pênaltis, entregue a taça para quem realmente tinha direito a ela, vou comentar sobre esse evento que é o maior do mundo, depois dos Jogos Olímpicos, é claro.

A Fifa é a dona do futebol mundial. É ela quem estabelece as regras e os parâmetros do esporte e de suas competições. É ela quem diz o que pode e o que não pode se fazer. Seus dirigentes são talvez os mais autoritários dirigentes de instituições do mundo. Até ai tudo bem, pois aceita seu autoritarismo quem deseja participar do mundo do futebol. Quem desejar ficar de fora não será atingido por ele, não sofrerá suas consequências, sejam elas positivas ou negativas.

O volume financeiro envolvido nessa competição é astronômico e no frigir dos ovos, é este o verdadeiro motivo por trás de tudo. Tudo aqui é tudo mesmo. Coisas como a escolha de onde será disputada a próxima Copa, como os critérios de escolha de patrocinadores e fornecedores do evento, até a escolha dos selecionados nacionais pelos técnicos, que são influenciados e influenciam o mercado de preço dos jogadores envolvidos. Engana-se quem quer, mas é assim que é.

Aquela frase de Shakespeare cabe perfeitamente neste caso: “Há mais coisa entre o céu e a terra do que pode imaginar a nossa vã filosofia”. Você e eu não somos capazes de imaginar o mundo infinito de coisas que existem e a infinidade ainda por ser inventada no mundo do futebol, tudo tendo como base o dinheiro que a paixão humana pode movimentar.

Tendo comentado superficialmente sobre a dona da bola, vejamos as coisas concernentes à participação do governo brasileiro nesse evento.

Partindo-se da concepção de que tudo que o governo diz deve ser visto com desconfiança, a Copa do Mundo do Brasil de 2014 foi um grande sucesso.

Explico: Não só este governo, mas todo governo, seja ele federal, estadual ou municipal. Seja ele um governo de qualquer uma das três Américas, um governo europeu, asiático ou africano, ele não irá realizar exatamente o que se comprometer. O nível de excelência de um governo é decorrência direta do déficit de efetividade da realização do prometido. Sendo assim, a Copa foi um sucesso, pois o governo brasileiro deve ter entregado uns 50% daquilo com que se comprometeu. O resto do sucesso desse evento correria mesmo por conta da simpatia de nossa gente, da maravilhosa hospitalidade da população brasileira, do seu jeito único de receber as pessoas em sua casa.

As obras de reforma e construção dos estádios da copa, dos aeroportos, de mobilidade urbana, de segurança, de conforto turístico, bem ou mal foram suficientes para suportar as demandas de todos, brasileiros e estrangeiros que para cá vieram.

Fui a dois jogos da Copa, um no Maracanã e outro no Castelão, em Fortaleza. Fiquei impressionado. Não houve o caos aéreo que todos propagavam, não houve o caos no trânsito automobilístico que todos disseram que haveria, não houve a insegurança generalizada que todos propagaram, não aconteceu a vergonha que todos disseram que iríamos passar, pelo menos não fora das quatro linhas…

Com a Seleção Canarinho infelizmente a história foi outra. Nosso time sofreu em todos os jogos que disputou. Sofreu ganhando e padeceu perdendo. O time não foi a sombra do que poderia ter sido. Taticamente era dependente do genial Neymar, sem ele o time simplesmente não existiu. Nem com ele seria possível superar forças como Holanda, Argentina e Alemanha. Termos ganhado de México, Chile e Colômbia foi o máximo que poderíamos fazer nessa competição, e olhe lá!

No esporte a justiça não é o ingrediente principal. Muitas vezes vence aquele que não é o melhor, como aconteceu em 1950, 1978, 1982 e 1986, quando o Brasil tinha o melhor time do mundo e não venceu a Copa. Este ano a melhor equipe venceu. Os melhores, sem sombra de dúvidas, foram os alemães, que jogaram um futebol bonito de se ver, de toque de bola, de paciência, sem erros. Uma verdadeira pintura.

A regra da competição tirou a segunda colocação de quem a merecia, a Holanda, que também apresentou um belíssimo futebol, em alguns aspectos mais bonito até que o alemão, mas menos eficiente.

O terceiro lugar deveria caber mesmo aos nossos mal educados vizinhos argentinos, que tem um futebol inversamente proporcional à empáfia e a arrogância de seus torcedores.

O quarto lugar ao nosso time deve ser visto como consequência das regras de emparceiramento da competição, pois outras seleções demonstraram ser bem melhor que a nossa, mas como já disse o esporte não é terreno onde campeia a justiça, esporte é outra coisa e como tal deve ser encarado.

Fora do campo de jogo tudo foi um sucesso, dentro, pra nós, foi um desastre. Menos mal, isso pode ser resolvido mais facilmente que os outros problemas que temos que enfrentar no dia a dia. Bola pra frente!

 

PS: Morreu na noite da sexta-feira, 18, um grande amigo de minha família. “Seu” Zé do Vale foi o caseiro do nosso sítio durante anos, no tempo em que o Angelim ainda era muito distante. Seus filhos foram criados junto conosco.

Naquela mesma noite morreu também o ex-jogador de futebol Roberto Oliveira, pai de meu bom amigo, deputado Roberto Costa. Estas são ocasiões sempre difíceis.

 

A arte de conhecer pessoas

Uma das coisas que eu mais gosto é observar as pessoas, suas ações e reações, e sempre que posso, gosto também de conversar com elas, interagir.

Tenho feito isso desde que me lembro. No início fazia por curiosidade, depois vi que fazendo isso escondia um pouco a minha timidez, mais tarde descobri que fazer isso alargava meus horizontes, me dava um conhecimento não só sobre aquelas pessoas, mas sobre todas e principalmente sobre mim. Nelas eu me via, me espelhava, com isso poderia controlar-me de forma mais isenta e satisfatória nos cenários da vida.

Recentemente pude conhecer algumas pessoas fascinantes. Conhecê-las me deixou emocionado.

Fui assistir ao jogo Brasil e Colômbia pelas oitavas de final da Copa do Mundo, em Fortaleza. No avião, um dos melhores lugares para se conhecer pessoas – na Inglaterra vitoriana era nos trens – conheci a pequenina Maria Luiza, de cinco anos. Um azougue. A linda criança não parava um só segundo. Longe de me incomodar eu me vi nela, como eu era quando criança. Vi minha filha Laila a quem às vezes procurava em seu corpinho um interruptor para desligá-la por alguns minutos. Vi meu sobrinho Nagib Neto e tantas outras pessoas com a mesma característica.

Puxei papo com Malu e lembrei que esse seria o nome que Nilminha queria colocar em sua primeira filha. Perguntei quantos anos tinha, onde ela estudava e ao lado de sua mãe ela era totalmente desembaraçada. Só demonstrou sua idade quando ensaiou um choro por querer ir sentar-se junto de sua avó que estava algumas cadeiras à frente.

Na saída da aeronave passamos não só pela avó de Malu, mas também por sua bisavó, dona Teresa, que me cumprimentou e disse que seu falecido marido havia trabalhado com meu pai na Assembleia Legislativa.

Da mesma forma que Malu, dona Teresa, mesmo aos 83 anos demonstrou uma energia invejável. Comentou sobre os meus artigos, disse que os lê todo domingo, que gosta muito da forma coloquial e simples com que abordo os temas, que os lendo ela se sente como se estivesse batendo um papo comigo.

Nossa conversa congestionou a saída da aeronave. Ela me abraçou e se foi com sua família.

Vi-me refletido naquelas duas pessoas. Um projetinho energético de mulher e uma mulher-árvore, que já deu frutos e sombra, mas que mantém sua energia intacta.

Já em Fortaleza conheci um garçom chamado Maciel. Nada de muito especial havia nele, mas uma coisa me chamou a atenção. Ele parecia ter uma devoção verdadeira pelo seu ofício. Com certeza ele não estava ali só pelo salário e pelas gorjetas. Ele parecia gostar do que estava fazendo. Vi-me nele também, pois um de meus lemas é “fazer o que se gosta e gostar do que se faz”.

No voo de volta sentei-me ao lado de um jovem cearense que carregava um enorme livro onde estava escrito em letras garrafais a palavra concurso.

Não demorou para que o metido aqui perguntasse o nome dele, onde ele iria fazer o concurso e para que era.

Euclides era seu nome e ele estava indo para Belém prestar concurso para juiz. Imediatamente perguntei que idade ele tinha, ao que respondeu-me 25.

Tal qual Zeca Diabo, contei até 10 antes de expor a ele minha opinião sobre tal absurdo. Um jovem advogado, com pelo menos três anos de registro na OAB e de prática efetiva da advocacia poder ser juiz de direito em qualquer comarca deste país. Não falei nada pra ele, não queria tirar dele a concentração e o foco dos estudos finais das provas que seriam no dia seguinte.

Mas com você eu posso comentar. Por que motivo a lei obriga um candidato a senador ou a governador ter no mínimo 35 anos e permite que um juiz, que vai decidir o destino jurídico dos cidadãos possa ter menos que isso?

Mas este é um tema bastante polêmico, tratemos dele em outra oportunidade.

Ao voltar pra casa peguei um táxi no aeroporto. Automaticamente comecei a conversar com o motorista, uma das duas categorias que em minha opinião são os melhores termômetros da nossa sociedade – a outra é a dos garçons.

Não vou declinar o nome verdadeiro do jovem motorista, pois o assunto é de foro íntimo e ele não me autorizou a comentar nossa conversa. Vou chamá-lo de Maike.

Primeiro busquei saber se ele me conhecia. Fiz isso para que a consulta que iria lhe fazer fosse totalmente isenta.

Com apenas 23 anos Maike não sabia quem eu era, nunca havia me visto mais magro. Podia crivar-lhe de questionamentos.

Depois do preâmbulo de praxe, perguntei em quem ele havia votado para presidente. Dilma. Vai repetir o voto? Não. Vai votar em quem? Vou justificar minha ausência ou votar em branco. Por quê? São todos iguais!

Desconversei um pouco, falei de outras coisas, e voltei à pesquisa.

Quem são os candidatos a governador? Silêncio. Quem você acha que vai ganhar? Não sei, não! Vai votar em quem? Flávio Dino. Quatro anos atrás você votou em quem pra deputado? Nem lembro… E pra governador? Flávio Dino. E pra prefeito, votou em quem? Edivaldo. Você está satisfeito com ele? Nunca!… Sua administração é um desastre! Votaria nele novamente? Jamais!

Pelo retrovisor vi a expressão de espanto no rosto do motorista. Expressão resultante de sua própria afirmação. Calei em respeito ao pensamento que visivelmente ele elaborava em sua cabeça.

Depois de alguns instantes, Maike, em um tom quase cerimonioso disse: “Eu votei antes no Flávio Dino e disse que votarei nele agora novamente, mais por revolta que por convicção. Pensando melhor, já que os que se dizem representar a mudança não mudaram nada na prefeitura de São Luís, não sei mais em quem votar… Tinha esperança que votando neles as coisas poderiam melhorar, mas fez foi piorar doutor!…”

Desci em casa, paguei a corrida e Maike se foi. Não sei ao certo em quem ele vai votar, mas sei que ele sabe pensar. Faça ele o que fizer, o fará com consciência.

 

PS: Esse texto foi escrito antes da decisão do terceiro lugar da Copa contra a Holanda. Espero que a Seleção Brasileira tenha se reabilitado.

Fiquei mais decepcionado do que triste com nossa derrota para a Alemanha. A forma como o time jogou reflete o vexatório placar. Mas futebol é apenas um esporte e como tal deve ser encarado. A vida é mais, é maior e continua depois dos jogos. Bola pra frente!

O Esporte e a Política

Aprecio a política por suas nuances antropológicas, sociológicas, psicológicas e culturais. Pela possibilidade do controle de circunstâncias e a condução de consequências. Pela busca da eficiência, da efetividade e da eficácia, de forma conjunta e simultânea nas nossas ações.

Gosto muito dos esportes, principalmente por eles serem magníficos substitutos da ânsia do homem pela guerra.

Da mesma maneira que em outras atividades humanas o esporte, e nesse caso especifico, o futebol tem os ingredientes políticos importantíssimos. Vejamos: Em ambos existem regras que devem ser cumpridas; há um sistema judiciário que bem ou mal controla e fiscaliza ambas as atividades; há desvio de condutas nos dois casos; existem craques e pernas de pau, tanto nos gramados quanto nos palácios e nos parlamentos; o resultado do placar nem sempre reflete o desempenho em campo… E por aí vai!

Essa Copa do Mundo foi cercada por uma grande onda midiática negativa, mais por incompetência do governo e má fé de alguns setores da política, da mídia e da sociedade, do que por qualquer outro motivo.

Se perguntarem para qualquer cidadão de bom senso se ele prefere que os recursos investidos na Copa do Mundo fossem destinados para a saúde e educação, não haveria resposta divergente. Ocorre que se fosse outro o governo que não o do PT, o posicionamento em relação à Copa teria sido o mesmo. Se fosse o PT que estivesse na oposição, os protestos contra a Copa seriam bem piores do que os que aconteceram e os que ainda acontecem. Isso é política em sua forma menos vistosa. É ai que o ingrediente político se apresenta de forma nociva, pois se a tese é minha eu a defendo e pronto, se ela é de um adversário eu a ataco e exploda-se.

Do ponto de vista do governo, esse ou outro qualquer, nós precisávamos reformar e modernizar nossos aeroportos, nossos sistemas de mobilidade urbana, nossos sistemas de segurança e até mesmo nossos estádios. Logo, com a Copa faríamos isso e ainda teríamos realizado aqui um campeonato mundial de nosso esporte mais amado.

Alguém que me lê agora pode pensar que eu não tenho problemas de consciência quanto ao fato de ser secretario de Esportes do estado? Quanto ao fato de não poder fazer mais do que se faz. Tenho e muito.

No que diz respeito a nossa administração à frente do setor esportivo estatal, acredito que exista uma coisa de ruim que pode ser dita. Ainda não resolvemos o problema das piscinas do Complexo Esportivo do Outeiro da Cruz. Esse é o único item que me incomoda e muito no que diz respeito ao tempo em que eu e a minha equipe tem dirigido a Sedel. Os outros que possam ser apontados são questões menores ou de opinião. E não me venham falar do Costa Rodrigues, pois ele está sendo resolvido. Acontece que nesse caso existem muitos problemas burocráticos e judiciários de solução demorada.

Mas voltemos às piscinas do CEOC. Elas foram abandonadas faz 10 anos, por um ex-governador que hoje fala em mudança, da mesma maneira que o Castelão e todas as demais praças esportivas públicas pertencentes ao Estado.

No caso do Castelão, em muito boa hora a governadora Roseana resolveu o problema, levando a cabo sua reforma e modernização, não no padrão FIFA, mas num padrão condizente com a nossa realidade.

No caso das piscinas, o que ocorre é que para reformá-las precisaríamos de um investimento em torno de R$ 4 milhões. Reformadas elas gerariam uma despesa com manutenção que hoje não pode ser arcada pela Sedel, tendo em vista que nosso orçamento é muito pequeno. É aí que vem a grande dúvida do gestor público preocupado e responsável: qual o verdadeiro custo/benefício de se realizar uma obra dessas? Fazendo isso haverá retorno. É claro que sim, mas muita gente vai malhar, dizendo que dessas piscinas não saíram nenhum grande campeão e esse dinheiro poderia ser usado para consertar os presídios do Estado.

No caso do Castelão, a reforma foi muitíssimo importante. Nosso Estádio é o principal motivo do soerguimento de nosso futebol. Com ele foi possível se materializar a magnífica trajetória de meu Sampaio nos últimos dois anos, será possível que o Moto de meu saudoso pai volte a ser o Papão do Norte!

Mas e as piscinas do CEOC? Será que devemos vender a casa de veraneio do Calhau para reformá-las, ou devemos usar esse dinheiro para construirmos algumas praças esportivas pelo interior do Maranhão, fazendo com que o esporte possa ser realmente uma ferramenta de integração social, de educação, de segurança, de apoio a saúde? Como não há recurso orçamentário para esse fim, esperamos que alguma empresa venha patrocinar a Federação Maranhense de Esportes Aquáticos e levar em frente um projeto da lei de incentivo ao esporte que prevê a reforma das piscinas e a manutenção delas, sob o controle da federação.

Digo sempre que dinheiro não falta aos governos, principalmente nos níveis federal e estadual. O que falta é boa visão para os governantes e postura decente àqueles que lhes fazem oposição.

 

PS: Dezoito partidos fizeram uma magnífica festa no Centro de Convenções da Universidade Federal do Maranhão, no último dia 27, onde aclamaram Edison Lobão Filho candidato a governador do Maranhão.

Muita gente achou que o lugar escolhido era ruim e inapropriado. Disseram que o lugar era imenso, cabia cinco mil pessoas sentadas e 10 mil em pé, que era fora de mão, sujeito a problemas com grupos de estudantes ligados aos nossos adversários… Mas Edinho foi firme e não se deixou intimidar. Disse que o local da convenção seria aquele mesmo e que ele seria o símbolo de seu compromisso com a educação, com a juventude, com o trabalho e com o compromisso de transformar o Maranhão.

Essa atitude inaugura, de forma simbólica, a abertura de nosso grupo a um maior dialogo com a sociedade e preconiza a renovação pela qual o Maranhão irá passar.

 

Sarney vale mais sem mandato que muita gente com.

Nos últimos dias tenho lido notas e matérias provenientes de diversas consciências e produzidas por várias canetas, sobre o fato de o ex-presidente José Sarney ter resolvido não mais colocar o seu nome à disposição do estado do Amapá para representá-lo no Senado Federal.

Para quem não sabe o Senado, órgão que Sarney já presidiu em quatro oportunidades, é a casa legislativa que segundo a constituição federal representa a federação brasileira, os Estados e o Distrito Federal, enquanto a Câmara dos Deputados representa do nosso povo.

Essa gente maledicente insiste em desqualificar José Sarney. Desqualificam o homem, o escritor e o político, quando o que deveriam fazer era enfrentá-lo em cada uma dessas frentes,de maneira honrada, franca, republicana e democrática.

Insultam e difamam um homem que em sua primeira eleição ficou na primeira suplência, igual a tantos outros; difamam alguém que se elegeudeputado federal e sobressaiu-se entre seus pares, formando uma forte liderança numa época em que o nosso estado ainda vivia defasado em um século; governou o Maranhão e realizou obras de tamanha importância que ainda hoje passados quase cinquenta anos, uma delas ainda não foi superada e acredito que tão cedo será – o Porto do Itaqui.

Hábil, bem relacionado, inteligente, culto e sobre tudo sortudo, passou a ser figura de importante relevo a nível nacional; presidente de partidos importantes, desenvolveu uma capacidade diplomática invejável que o fez estar no cerne de todas as questões nacionais, que possibilitou ser guinado à presidência da república em substituição a Tancredo Neves que faleceu antes de assumir o cargo. Essa capacidade diplomática consistia mais em ouvir do que em falar, mais em esperar que os outros se posicionassem do que em se posicionar antes dos outros. Essa forma de agir somada a sua imensa sorte, deu bastante certo por muito tempo.

A mitologia em torno desse Ribamar é tamanha que atribuem a ele a morte de Tancredo. Sarney teria usado macumbeiros maranhenses para fazer com que sapos cururus repuxassem as entranhas do velho mineiro, matando-o. E o que é pior, tem gente idiota que acredita nisso. Nas duas coisas. Que Sarney mandou fazer o serviço e que fizeram.

Como presidente, Sarney tinha, segundo a constituição vigente, um mandato de seis anos. Ele o viu diminuído em um ano, mas pareceu que lutou para aumentá-lo. Alguns não sabem e outros preferem esquecer o quanto Fernando Henrique Cardoso teve que fazer para aprovar uma emenda à constituição, que ele mesmo havia ajudado a redigir, no sentido de permitir-lhe ter mais quatro anos de mandato presidencial. E falam do Sarney!

José governou o Brasil num tempo em que enfrentávamos dois grandes adversários, o monstro da inflação e o perigo da instabilidade democrática.

Mais competente como político que como gestor financeiro, ele fez executar quatro planos econômicos, um deles de grande eficácia, mesmo que temporária, fato que garantiu certa estabilidade financeira ao país por tempo suficiente para que o PMDB, nas mãos de Ulisses Guimarães, elegesse 27 governadores de Estado.

Decretou a moratória de nossa dívida, fato que conteve em parte a debandada de capital, e com essa e outras medidasantipáticas garantiu a estabilidade democrática capaz de em seguida, tendo mantido estável o regime democrático em seu período mais delicado, eleger de forma direta nosso primeiro presidente em muitos anos. A mesma estabilidade que foi responsável por destituir esse mesmo presidente do cargo sem que nada acontecesse ao regime democrático e a forma de governo republicana.

Mas deixemos tudo isso para lá e nos concentremos no fato de Sarney não mais concorrer a um mandato eletivo.

Todos já sabiam que Sarney não mais seria candidato a nenhum cargo eletivo. Até eu mesmo que sou o mais tolo entre os articulistas deste assunto já havia comentado sobre isso, disse para alguns amigos que Sarney iria fazer tal qual o padre Vieira, que com avançada idade dedicou-se integralmente a literatura e as suas memórias. Sarney iria agregar à essas dedicaçõesa sua família, sua mulher, seus netos e bisnetos.

O que a mídia nacional, a grande, a média, a pequena e a mínima, tenta fazer é imputar a um homem de 85 anos, que dedicou 60 deles a trabalhar pelo Maranhão, pelo Amapá e pelo Brasil, uma derrota pelo fato de ter resolvido não mais se candidatar. Querem fazer crer que Sarney tinha obrigação de, mesmo indo contra a sua natureza física,se apresentar na linha de frente da batalha política e se candidatar a mais um mandato de senador. Ora me comprem um bode! Eu iria ficar muito insatisfeito se ele resolvesse que iria se candidatar, pois nós, maranhenses, amapaenses e brasileiros de todas as naturalidades precisamos dele e de homens como ele acima da política, sem mandato eletivo, mas com o mandato proveniente do respeito que pessoas como ele devem ter de nossa gente.

São personalidades como José Sarney que dão a dimensão de valor que deve ter uma nação e seu povo.

Pode quem quiser discordar dele e até não gostar dele, isso faz parte da vida, mas ninguém pode desconhecer o grande valor que ele teve, tem e terá em nossa história.

Notícia X Versão

Dia desses conversei demoradamente com um jornalista, meu particular amigo e muito ligado à oposição. Nós falamos sobre um assunto que para ele tem importância vital e que em minha opinião deve ser observado com bastante cuidado, mas de forma totalmente imparcial.

Trata-se na verdade de um desdobramento da grande judicialização das campanhas eleitorais. Neste caso específico, precipitado por uma vigorosa ação midiática, ancorada em matérias jornalísticas através de meios impressos, programação televisiva e radiofônica, postagens em blogs e nas redes sociais, no sentido de atingir a imagem de um determinado candidato, e que como consequência disso desencadeou uma ação de igual força e direção contrária por parte dos adversários.

Acredito que já foi verdadeiro aquele velho discurso que pregava que, os meios de comunicação, concentrados nas mãos de um dos grupos contendores em uma campanha eleitoral, fazia com que a eleição ficasse desequilibrada. Essa realidade é bem diferente hoje. Em primeiro lugar, porque a concentração dos meios midiáticos em um dos lados já não é tão significativa. Em segundo lugar pela incompetência desses antigos grupos midiáticos em fazer valer o poderio que detinham. Em terceiro lugar, pelo imenso e avassalador poder da informação instantânea e independente da internet e das redes sociais, que horizontalizaram o acesso à informação.

Mas voltemos a minha conversa com aquele meu amigo jornalista. Nela ele me dizia de sua preocupação com uma ação movida por um candidato contra um grupo de jornalistas e radialistas, através de seus blogs e seus programas de rádio, no sentido de fazer com que estes não dessem publicidade ou comentassem a respeito de uma determinada matéria.

De um lado, os advogados do candidato acreditam que essa ação jurídica resguarda um direito que está sendo prejudicado, por outro, o jornalista acha que essa ação é um grave atentado contra a liberdade de imprensa.

Os advogados que defendem o candidato argumentam que em uma campanha eleitoral, cuja duração não chega a 90 dias, a apuração da verdade, em casos de injúria, calúnia e difamação é praticamente impossível de ser concluída, uma vez que causas dessa natureza costumam se alongar e esses processos se arrastam por meses.

Ora, se existe uma campanha midiática sistemática que visa fragilizar e enfraquecer a imagem de um determinado candidato, algo deve ser feito no sentido de impedir tal ação, com isso preservando o direito do cidadão, sempre respaldado nos preceitos constitucionais fundamentais.

Do ponto de vista daquele que se sente prejudicado pelo noticiário, que alega ser faccioso, o direito à informação está sendo superlativamente privilegiado em força e importância, em relação ao direito à justa defesa, uma vez que a boataria, as notícias falsas, as colocações dúbias e as interpretações facciosas venham comprometer a sua imagem, não lhe dando tempo nem condições, de no meio de uma campanha eleitoral, elucidar essa onda de notícias inverídicas.

Do momento em que se publica uma matéria jornalística até o momento em que a justiça tenta impedir que o uso inadequado desta traga prejuízo a alguém, há uma espaço de tempo no qual o direito do ofendido está sendo definitivamente prejudicado. É nesse sentido que é usada a Ação de Obrigação de Fazer.

No caso de notícias verdadeiras, bem embasadas, respaldadas por provas consistentes, nesses casos não vejo como conter-se o direito constitucional à informação.

Imagine se um grupo de jornalistas, todos eles muito competentes, resolvesse agir, através de notícias aparentemente genuínas, comprometendo a imagem de um determinado candidato. Isso se consubstanciaria em um golpe baixo respaldado na legítima liberdade de imprensa. Em minha opinião a notícia não pode ser colocada a serviço da versão sabidamente facciosa e quem quer que aja assim deve ser impedido de fazê-lo também por força de lei e por ordem da justiça.

Alguns dos jornalistas listados nessa ação são bons e velhos amigos meus e os respeito como profissionais de seu ofício, mas o que está acontecendo aqui é uma guerra eleitoral e duas das batalhas mais importantes desse conflito serão travadas nos campos do Judiciário e do jornalismo. No caso em tela, os dois se misturam e se confundem.

O uso da justiça em qualquer setor, a qualquer nível, não pode, de modo algum, ser confundido com quebra de respeito para com a democracia e o estado democrático de direito. Recorrer-se à justiça para tentar impedir que um direito líquido e certo seja prejudicado é totalmente legítimo, mesmo que essa ação pareça ferir um outro direito, que de modo algum pode se sobrepor a este.

O juiz eleitoral responsável pela análise de um dos casos citados acima, negou o recurso do candidato, não levando em consideração o mérito da causa. Esse fato por si só prova que buscar a justiça não ameaça a consumação dela.

Fato relevante: outro candidato já deu entrada em mais de 20 ações no sentido de impedir que outros jornalistas publiquem matérias que segundo ele e seus advogados, usam do mesmo expediente, provando assim que a propaganda jornalística e a judicialização da campanha eleitoral são dois dos mais importantes ingredientes desse e dos próximos pleitos eleitorais. Pior para os eleitores.

No frigir dos ovos fica aquela minha velha sensação sobre a política: com algumas poucas diferenças cosméticas, são todos iguais.

 

Perfil

“Poeta, contista e cronista, que, quando sobra tempo, também é deputado”. Era essa a maneira como Joaquim Elias Nagib Pinto Haickel aparecia no expediente da revista cultural Guarnicê, da qual foi o principal artífice. Mais de três décadas depois disso, o não mais, porem eterno parlamentar, ainda sem as sobras do tempo, permanece cronista, contista e poeta, além de cineasta.

Advogado, Joaquim Haickel foi eleito para o parlamento estadual pela primeira vez de 1982, quando foi o mais jovem parlamentar do Brasil. Em seguida, foi eleito deputado federal constituinte e depois voltou a ser deputado estadual até 2011. Entre 2011 e 2014 exerceu o cargo de secretario de esportes do Estado do Maranhão.

Cinema, esportes, culinária, literatura e artes de um modo geral estão entre as predileções de Joaquim Haickel, quando não está na arena política, de onde não se afasta, mesmo que tenha optado por não mais disputar mandato eletivo.

Cinéfilo inveterado, é autor do filme “Pelo Ouvido”, grande sucesso de 2008. Sua paixão pelo cinema fez com desenvolvesse juntamente com um grupo de colaboradores um projeto que visa resgatar e preservar a memória maranhense através do audiovisual.

Enquanto produz e dirigi filmes, Joaquim continua a escrever um livro sobre cinema e psicanálise, que, segundo ele, “se conseguir concluí-lo”, será sua obra definitiva.

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