
Quando pensei em escrever sobre o dilema que consiste em escolher entre a esperança de que as coisas possam melhorar e a certeza de que, tal como estão, jamais irão melhorar, hesitei. Não pela dificuldade do tema, mas pela inadequação do meio. Reduzir essa questão a uma postagem breve em redes sociais seria empobrecê-la, submetê-la à lógica da pressa e da superficialidade, quando, na verdade, ela exige pausa, reflexão e alguma disposição para o incômodo.
Se fosse para me submeter à linguagem das redes, bastaria dizer: “A certeza e a dúvida: Lula ou qualquer outro. A certeza da continuidade do desastre ou a remota possibilidade de redução dos danos”. A frase, em si, já contém o núcleo do problema. Mas aquilo que é suficiente para provocar reação raramente é suficiente para produzir compreensão.
Reconheço em mim uma tendência à simplificação, uma inclinação quase instintiva a reduzir questões complexas a fórmulas diretas e conclusivas. Talvez seja traço de ansiedade, talvez seja apenas o desejo de ser compreendido sem esforço excessivo por quem lê. Ainda assim, por consciência dessa limitação, tento resistir a ela e avançar um pouco além do imediato, sobretudo quando me dirijo não apenas aos que concordam comigo, mas, principalmente, aos que possam discordar.
Peço então que se faça um exercício simples. Imagine-se vivendo em uma realidade na qual os impostos são elevados e desproporcionais, e além disso não se traduzem em serviços públicos minimamente satisfatórios. Segurança precária, infraestrutura deficiente, saneamento incompleto, acesso limitado à saúde e à educação. Some-se a isso a presença constante da corrupção, não como exceção, mas como prática reiterada, e a sensação difusa, porém persistente, de injustiça.
Mais grave ainda: imagine que as instituições que deveriam garantir estabilidade, previsibilidade e proteção jurídica passem a operar de maneira inversa, gerando insegurança, arbitrariedade e descrédito. Nesse ambiente, a normalidade deixa de ser um estado e passa a ser uma aspiração.
Diante desse quadro, o indivíduo se vê confrontado com uma escolha que não é apenas política, mas existencial. De um lado, a permanência naquilo que já se conhece, ainda que se trate de um cenário claramente deteriorado. De outro, a possibilidade de mudança, acompanhada do temor de que nada, de fato, se altere, ou, pior, de que tudo se agrave.
É aqui que se estabelece o verdadeiro dilema: a segurança daquilo que se sabe ruim contra a incerteza daquilo que pode vir a ser menos pior. Permanecer na certeza do desastre oferece uma espécie de conforto perverso, pois elimina o risco, ainda que à custa da esperança de dias melhores. Arriscar a mudança, por sua vez, exige aceitar a dúvida como condição, e não como falha.
Talvez a questão central não seja escolher entre certeza e dúvida, mas compreender que, em determinados momentos históricos, a dúvida não é fraqueza, mas a única forma possível de lucidez. Porque, entre a certeza da ruína e a incerteza da possibilidade, é precisamente na dúvida que ainda reside a chance de não aceitar o pior como destino.
Vivemos em um tempo em que temos que escolher entre a certeza do que é ruim e a dúvida de um futuro que pode ser melhor… ou pior.