O paspalho

Desde ontem estou tentando apaziguar minha mente para poder escrever um texto sobre Donald Trump sem incorrer em erro grave, nem como escritor, nem como observador da cena política mundial, nem como mero tripulante deste imenso veículo chamado Terra.

Mas querem saber de uma coisa? Não vou ligar para nada disso. Não vou me preocupar em ser elegante, nem em ser ponderado, porque há momentos em que a tentativa de parecer equilibrado tira o foco daquilo que é essencial. E o essencial aqui é simples, estamos diante de um homem que brinca com o destino de milhões como se estivesse operando um negócio qualquer, alguém que trata o poder como extensão do próprio ego, não como algo que exija responsabilidade.

Não se trata apenas de estilo, de grosseria ou de retórica inflamada. Trata-se de incapacidade, ou pior, de indiferença. Um bilionário sem pedigree, que parece não compreender, ou o que é pior, compreende perfeitamente e ainda assim ignora, o impacto real de suas decisões sobre economias, alianças, guerras e vidas humanas.

E isso é o que mais assusta.

Até senti pena dele quando sofreu um atentado. Até cheguei a nutrir alguma esperança de que sua vitória pudesse evitar algo ainda pior, representado por uma alternativa igualmente frágil, hipócrita e despreparada. Mas o que se seguiu não foi um governo imperfeito, foi uma sucessão de atos que revelam não apenas erro, mas completo despreparo para o exercício racional e sadio do poder.

Desculpem, mas estou transtornado, não por antipatia pessoal, mas porque o que está em jogo não é a figura de um homem, é o equilíbrio do mundo.

Essa criatura me enoja, não apenas pelo que diz, mas pelo que faz, e principalmente pelo que parece não ser capaz de compreender.

E há algo ainda mais inquietante.

Por um instante, ocorreu-me que tudo isso pode não ser apenas desordem ou incompetência. Pode haver método no caos. Pode ser que, ao enfraquecer estruturas, tensionar alianças e desorganizar o que sustenta o Ocidente, ele esteja, consciente ou inconscientemente, contribuindo para reduzir o valor daquilo que deveria proteger, quem sabe para comprá-lo na bacia das almas.

E, se isso for verdade, o problema deixa de ser apenas um líder inadequado.

Passa a ser algo muito mais grave.

Porque então não estaremos diante apenas de um paspalho.

Estaremos diante de alguém que, por ignorância ou cálculo, pode estar ajudando a desmontar aquilo que levou séculos para ser construído.

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Perfil

“Poeta, contista e cronista, que, quando sobra tempo, também é deputado”. Era essa a maneira como Joaquim Elias Nagib Pinto Haickel aparecia no expediente da revista cultural Guarnicê, da qual foi o principal artífice. Mais de três décadas depois disso, o não mais, porem eterno parlamentar, ainda sem as sobras do tempo, permanece cronista, contista e poeta, além de cineasta.

Advogado, Joaquim Haickel foi eleito para o parlamento estadual pela primeira vez de 1982, quando foi o mais jovem parlamentar do Brasil. Em seguida, foi eleito deputado federal constituinte e depois voltou a ser deputado estadual até 2011. Entre 2011 e 2014 exerceu o cargo de secretario de esportes do Estado do Maranhão.

Cinema, esportes, culinária, literatura e artes de um modo geral estão entre as predileções de Joaquim Haickel, quando não está na arena política, de onde não se afasta, mesmo que tenha optado por não mais disputar mandato eletivo.

Cinéfilo inveterado, é autor do filme “Pelo Ouvido”, grande sucesso de 2008. Sua paixão pelo cinema fez com desenvolvesse juntamente com um grupo de colaboradores um projeto que visa resgatar e preservar a memória maranhense através do audiovisual.

Enquanto produz e dirigi filmes, Joaquim continua a escrever um livro sobre cinema e psicanálise, que, segundo ele, “se conseguir concluí-lo”, será sua obra definitiva.

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