
Estive pensando sobre mim, sobre quem sou enquanto escritor e cineasta, e resolvi listar algumas coisas que acredito me definirem, para que, ao final, eu possa saber se realmente sei quem sou.
Minha relação com a ética, o poder, a justiça, as aparências e a verdade é platônica, no sentido idealista mais rigoroso, não ornamental. Penso, digo e escrevo aquilo em que acredito, porque imagino já ter deixado para trás a crítica à moral rasa, à hipocrisia social e à mediocridade confortável.
Tenho grande interesse pelas coisas absurdas, pela dignidade simples do cotidiano e pelo sentido que nasce apesar do mundo. Uso, sempre que posso, um tanto de ironia ética e lanço meu olhar crítico sobre o poder pequeno e o autoengano humano. Isso está no meu DNA intelectual.
Valorizo a metafísica da linguagem, da memória e da travessia moral, embora não o faça tanto quanto gostaria. Valorizo a grandeza silenciosa do homem comum enfrentando o tempo, seus limites e seu destino. Valorizo o insólito, o inesperado.
Às vezes, tento dialogar criticamente com a psicanálise, pois preciso conhecer, por dentro, as reações e as sensações humanas. Minha ideia de dignidade, resistência e sentido não é abstrata, é existencial, histórica e humana. Essas ideias regem minhas ações mais básicas.
Minha atenção às casas, às ruas, às praças, às ruínas e à memória dos lugares está presente em mim de forma definitiva. Meu imenso apego aos objetos, não por seu preço, muitas vezes nem mesmo por seu valor, mas pela energia que deles emana, também faz parte de mim.
Minha relação com o cinema não é de consumo, mas de dependência do pensamento narrativo, moral e simbólico da linguagem. Tenho minha noção de virtude como prática cotidiana, não como discurso, e sei o quanto isso é difícil de manter. Minha dislexia me define e me protege.
Cultivo um olhar crítico sobre o poder, a responsabilidade e a banalidade do mal que dele pode decorrer. Para mim, o poder não é uma abstração: é algo prático, concreto, cotidiano e silencioso, que altera e define todas as relações que toca. Acredito na honradez e na nobreza e até no heroísmo, mas jamais no herói.
Sinto uma imensa solidão moral diante do mundo. Recuso-me, sempre que posso, a participar do teatro social, pois minha lucidez me impede. Tenho verdadeira obsessão por memória, tempo e detalhes vividos, e isso me faz perguntar se sou um memorialista ou apenas um nostálgico.
Tenho profunda consciência das minhas responsabilidades e penso que a liberdade pode vir a ser um fardo. Acredito na educação como base de todo poder, uma das poucas coisas capazes de destruir a hipocrisia e até mesmo a violência.
O fato de enumerar essas coisas que penso e sinto, minhas ações e atitudes, não é um exercício de autoelogio, é a exposição nua e crua daquilo que busco enquanto escritor e cineasta, alguém que pretende usar esses instrumentos para se comunicar com as pessoas e com o mundo. Se consigo, é outra coisa.