Em uma verdadeira democracia, as leis são respeitadas, o poder é responsabilizado e os poderosos prestam contas

Há uma confusão recorrente e bastante conveniente, que estabelece que em países onde a democracia é mais formal do que substantiva, a ideia de que a responsabilização de governantes, altos funcionários ou mesmo juízes seria sinal de instabilidade. Não é. Em democracias maduras, a responsabilização de cada indivíduo é justamente a prova cabal de que as instituições funcionam plenamente.

Nesses países, o poder não é um privilégio pessoal nem um salvo-conduto. Ele é uma delegação provisória, sustentada por confiança pública e limitada pela lei. Quando essa confiança se rompe, não apenas governos caem, assim como ministros são afastados, altos servidores são demitidos e juízes são punidos. Tudo sem ruptura institucional, sem discursos redentores, sem excepcionalismos.

Foi assim nos Estados Unidos, no caso Watergate. Richard Nixon renunciou antes de ser formalmente destituído, mas não foi o único a cair. Altos funcionários do governo foram processados, condenados e presos. E, anos depois, juízes federais também seriam afastados por corrupção ou abuso de poder, por meio de impeachment conduzido pelo próprio Congresso. Nas verdadeiras democracias, nem a toga serve de escudo a corrupção e o abuso de poder.

Na Itália da Operação Mãos Limpas, não foram apenas políticos que caíram. Empresários poderosos foram presos, altos burocratas afastados e magistrados investigados e punidos quando ultrapassaram os limites da lei. O sistema mostrou algo essencial: o combate à corrupção não escolhe lado nem corporação.

Na Islândia, após os Panama Papers, o primeiro-ministro renunciou em poucos dias. Mas o processo não parou aí. Autoridades financeiras e reguladores foram investigados, e reformas institucionais profundas foram feitas. O problema não foi tratado como “crise política”, mas como falha institucional a ser corrigida.

Na Coreia do Sul, a presidente foi destituída e presa, mas também juízes, promotores e altos executivos foram responsabilizados. Em casos posteriores, magistrados da mais alta corte foram afastados e condenados por corrupção. A mensagem foi clara: ninguém está acima da lei, nem mesmo quem a interpreta.

Na Alemanha, o padrão é ainda mais severo. Ministros deixaram seus cargos por plágio acadêmico. Juízes foram afastados por conflitos de interesse, favorecimento indevido ou quebra de decoro. Muitas vezes, nem se espera o desfecho penal. A responsabilidade ética antecede a criminal.

Esses exemplos revelam algo fundamental: em democracias funcionais, o sistema reage em cadeia. O erro não é isolado, não é protegido por hierarquia, não é relativizado pelo cargo. Quando o poder falha, ele é responsabilizado, seja no Executivo, na burocracia de Estado, no legislativo ou em qualquer nível do Judiciário.

Por isso, quando escândalos de corrupção bilionários não afastam ministros, não derrubam altos dirigentes e não alcançam magistrados, o problema não está na gravidade do caso, mas na fragilidade das instituições. Está na confusão deliberada entre governar e sobreviver, entre julgar e proteger-se.

A verdadeira instabilidade não é a queda de governos, nem o afastamento de juízes ou servidores poderosos. A verdadeira instabilidade é a normalização da impunidade. Democracias não se enfraquecem quando responsabilizam seus agentes; enfraquecem quando a sociedade aprende a conviver com o abuso como método.

Onde as instituições funcionam, o poder é responsabilizado. Os poderosos prestam contas. Onde isso não acontece, é porque algo muito mais grave já aconteceu, é porque ali não existe verdadeiramente um Estado democrático.

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Perfil

“Poeta, contista e cronista, que, quando sobra tempo, também é deputado”. Era essa a maneira como Joaquim Elias Nagib Pinto Haickel aparecia no expediente da revista cultural Guarnicê, da qual foi o principal artífice. Mais de três décadas depois disso, o não mais, porem eterno parlamentar, ainda sem as sobras do tempo, permanece cronista, contista e poeta, além de cineasta.

Advogado, Joaquim Haickel foi eleito para o parlamento estadual pela primeira vez de 1982, quando foi o mais jovem parlamentar do Brasil. Em seguida, foi eleito deputado federal constituinte e depois voltou a ser deputado estadual até 2011. Entre 2011 e 2014 exerceu o cargo de secretario de esportes do Estado do Maranhão.

Cinema, esportes, culinária, literatura e artes de um modo geral estão entre as predileções de Joaquim Haickel, quando não está na arena política, de onde não se afasta, mesmo que tenha optado por não mais disputar mandato eletivo.

Cinéfilo inveterado, é autor do filme “Pelo Ouvido”, grande sucesso de 2008. Sua paixão pelo cinema fez com desenvolvesse juntamente com um grupo de colaboradores um projeto que visa resgatar e preservar a memória maranhense através do audiovisual.

Enquanto produz e dirigi filmes, Joaquim continua a escrever um livro sobre cinema e psicanálise, que, segundo ele, “se conseguir concluí-lo”, será sua obra definitiva.

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