Visões de um mesmo fato

Na última sexta-feira, em um jantar na casa de um casal de amigos, como é inevitável, surgiu o assunto cinema. Todos queriam saber o que eu acreditava que poderia acontecer em relação à premiação do Oscar deste ano. Ocorre que só mencionei aqui esse tema para não parecer antipático, pois o que realmente me interessava naquela noite era outro assunto que havia surgido.

Uma das pessoas presentes começou a discorrer sobre a atitude do ministro Flávio Dino em relação aos famosos “penduricalhos remuneratórios”, que transformam os vencimentos de altos funcionários públicos, dos três Poderes da República, em supersalários.

A pessoa que puxou o assunto, uma advogada de destaque em nossa sociedade, comentava que aquela era uma atitude extraordinária, própria de um ministro diferente daqueles que envergonham o nosso Judiciário. Um ministro que, diferentemente de Mendes, Toffoli e Moraes, reacenderia a esperança de que a Suprema Corte pudesse voltar a ser moralizada e respeitada, não apenas pelos operadores do direito, mas também pela população do país.

Depois disso, um ex-parlamentar, conhecido por seu espírito sagaz e bem-humorado, interveio: “Doutora, não se esqueça de que a pessoa a quem a senhora se refere é a mesma que deu sumiço às imagens das centenas de câmeras de segurança da Praça dos Três Poderes e dos prédios ali localizados, no fatídico dia 8 de janeiro de 2023…”

Todos então se voltaram para mim, querendo saber o que eu pensava sobre aquela situação.

Respondi o que sempre digo a respeito do ministro Flávio Dino: que, em minha opinião, ele é o mais competente e o mais bem preparado ministro da Suprema Corte. Que peca, no entanto, ao se posicionar politicamente enquanto magistrado. Que, entre seus defeitos, não está a venalidade financeira, mas pesa contra ele o fato de agir politicamente em um ambiente onde a política é inaceitável. Ressaltei, contudo, que, tanto nesse caso quanto no das emendas parlamentares, ele se posicionou em total conformidade com a correção, a lei e a justiça.

Após isso, um senhor que conheci naquela noite, apresentou uma leitura um pouco diferente. Segundo ele, os fatos teriam ocorrido de forma mais complexa do que aparentavam. Disse que, depois de o Congresso Nacional aprovar, em tempo recorde e de maneira inesperada, um aumento vertiginoso nos salários de seus funcionários, o presidente da República ficou em uma situação extremamente desconfortável.

Se vetasse a medida, ficaria mal com o Poder Legislativo, de quem depende politicamente; se não vetasse, ficaria mal com a opinião pública, de quem depende eleitoralmente, ainda mais em um ano de eleições.

Segundo esse senhor, o presidente teria chamado o ministro Dino e pedido sua ajuda para livrá-lo daquela delicada situação. Dino, como fiel correligionário, teria se prontificado a fazer o que fosse necessário para tirar aquele “pepino” das mãos do presidente. E foi o que fez.

Parei por um instante e refleti que tudo o que havia sido dito ali, abstraindo-se o percentual inevitável de opinião pessoal presente nas falas, era extremamente plausível e que, mesmo não sendo um retrato fiel da realidade, dificilmente estaria muito distante da verdade.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Perfil

“Poeta, contista e cronista, que, quando sobra tempo, também é deputado”. Era essa a maneira como Joaquim Elias Nagib Pinto Haickel aparecia no expediente da revista cultural Guarnicê, da qual foi o principal artífice. Mais de três décadas depois disso, o não mais, porem eterno parlamentar, ainda sem as sobras do tempo, permanece cronista, contista e poeta, além de cineasta.

Advogado, Joaquim Haickel foi eleito para o parlamento estadual pela primeira vez de 1982, quando foi o mais jovem parlamentar do Brasil. Em seguida, foi eleito deputado federal constituinte e depois voltou a ser deputado estadual até 2011. Entre 2011 e 2014 exerceu o cargo de secretario de esportes do Estado do Maranhão.

Cinema, esportes, culinária, literatura e artes de um modo geral estão entre as predileções de Joaquim Haickel, quando não está na arena política, de onde não se afasta, mesmo que tenha optado por não mais disputar mandato eletivo.

Cinéfilo inveterado, é autor do filme “Pelo Ouvido”, grande sucesso de 2008. Sua paixão pelo cinema fez com desenvolvesse juntamente com um grupo de colaboradores um projeto que visa resgatar e preservar a memória maranhense através do audiovisual.

Enquanto produz e dirigi filmes, Joaquim continua a escrever um livro sobre cinema e psicanálise, que, segundo ele, “se conseguir concluí-lo”, será sua obra definitiva.

Busca

E-mail

No Twitter

Posts recentes

Comentários

Arquivos

Arquivos

Categorias

Mais Blogs

Rolar para cima