O testamento de Judas

Como hoje é Sábado de Aleluia, em homenagem àqueles cidadãos de bem de minha terra que cultivam o hábito de promover a saudável brincadeira de Malhação de Judas, redigi um testamento que pode ser usado por qualquer um dos dezenas de judas que serão malhados ainda hoje pelas ruas dos bairros mais tradicionais de São Luís.

“Eu, Judas Iscariotes, já bastante conhecido por minhas más escolhas e por algumas más companhias, estando em pleno gozo de minhas más intenções, resolvo deixar em testamento os poucos bens materiais e os muitos defeitos morais que acumulei ao longo dos séculos.

Ao povo brasileiro, deixo minha vergonha por serem obrigados a ter governantes tão desqualificados nos três poderes de sua republiqueta de bananas.

Ao Luiz Inácio Lula da Silva, deixo minha impressionante capacidade de sair de cena e voltar sempre como protagonista, e sempre prometendo fazer as mesmas coisas, impossíveis de serem realizadas. Além disso, deixo-lhe minha velha bolsa de moedas, não pelo valor que ela tem, mas pelo valor que representa, para que nunca se esqueça de quanto custa uma traição bem feita.

Ao Lulinha, deixo uma mesada melhor que a do Careca do INSS.

Ao Jair Bolsonaro, deixo minha habilidade de falar muita bobagem, explicar pouco e ainda assim mobilizar multidões, mesmo que elas não saibam exatamente por quê.

Ao Flávio Bolsonaro, deixo meus livros de contabilidade confusa, daqueles que ninguém entende direito, mas todo mundo comenta.

Ao Alexandre de Moraes, deixo meu gosto por decisões rápidas e firmes, daquelas que não pedem licença nem explicação, e processos rápidos como os das chamadas Fake News.

Ao Dias Toffoli e ao Gilmar Mendes, deixo minha longa experiência em transitar entre mundos diferentes sem nunca parecer perdido.

Ao Flávio Dino, deixo minha convicção inabalável, aquela certeza absoluta de que estou sempre certo, mesmo quando o mundo inteiro desconfia.

Ao Daniel Vorcaro, deixo o silêncio conveniente, aquele que fala mais do que muitas palavras.

Ao Carlos Brandão, deixo minha paciência, pois governar cercado de pressões exige mais resistência do que virtude.

Ao Eduardo Braide, deixo minha desconfiança, não como fraqueza, mas como estratégia, para seguir firme mesmo quando estiver sozinho.

Aos políticos em geral, deixo minha maior herança: a capacidade de prometer mais do que se pode cumprir e de explicar menos do que se deveria.

Aos eleitores brasileiros, deixo minha dúvida eterna, para que nunca parem de perguntar se escolheram certo, especialmente quando tudo indica que não escolheram.

E, por fim, deixo ao Brasil minha principal lição: não é a traição que destrói, é o costume de aceitá-la como se fosse inevitável.

Nada mais tendo a declarar, despeço-me como sempre vivi: entre versões, interesses e conveniências. E, como diria um velho conhecido, quem viver verá.”

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Perfil

“Poeta, contista e cronista, que, quando sobra tempo, também é deputado”. Era essa a maneira como Joaquim Elias Nagib Pinto Haickel aparecia no expediente da revista cultural Guarnicê, da qual foi o principal artífice. Mais de três décadas depois disso, o não mais, porem eterno parlamentar, ainda sem as sobras do tempo, permanece cronista, contista e poeta, além de cineasta.

Advogado, Joaquim Haickel foi eleito para o parlamento estadual pela primeira vez de 1982, quando foi o mais jovem parlamentar do Brasil. Em seguida, foi eleito deputado federal constituinte e depois voltou a ser deputado estadual até 2011. Entre 2011 e 2014 exerceu o cargo de secretario de esportes do Estado do Maranhão.

Cinema, esportes, culinária, literatura e artes de um modo geral estão entre as predileções de Joaquim Haickel, quando não está na arena política, de onde não se afasta, mesmo que tenha optado por não mais disputar mandato eletivo.

Cinéfilo inveterado, é autor do filme “Pelo Ouvido”, grande sucesso de 2008. Sua paixão pelo cinema fez com desenvolvesse juntamente com um grupo de colaboradores um projeto que visa resgatar e preservar a memória maranhense através do audiovisual.

Enquanto produz e dirigi filmes, Joaquim continua a escrever um livro sobre cinema e psicanálise, que, segundo ele, “se conseguir concluí-lo”, será sua obra definitiva.

Busca

E-mail

No Twitter

Posts recentes

Comentários

Arquivos

Arquivos

Categorias

Mais Blogs

Rolar para cima