
Quem me conhece sabe o quanto eu gosto de assistir a filmes, e as pessoas mais íntimas sabem que não há um dia em minha vida que eu não assista pelo menos um.
Minha esposa, Jacira, é também apaixonada por filmes, mas normalmente os títulos escolhidos por ela acabam não sendo dos melhores, com algumas exceções, entre elas uma que superou totalmente as minhas expectativas.
Costumo dizer a ela que pelo título, o gênero, a nacionalidade, o diretor e o elenco, é possível saber se um filme é bom, regular ou ruim, e a prática de 60 anos de dedicação e paixão ao cinema me garantem um nível de acerto bem elevado.
Mas Jacira, que gosta de filmes de suspense, eu menos, de filmes muito densos e profundos, eu que sou claustrofóbico, fez uma escolha curiosa, que acabou por me surpreender.
“Meu Nome é Agneta” é uma produção sueca, dirigida por uma mulher, Johanna Runevad, que é curiosamente 14 dias mais nova que minha filha Laila.
Comecei a assistir ao filme, mesmo desconfiando da escolha de Jacira, mas algumas coisas me chamaram a atenção, como a abordagem inicial, o fato do letreiro só aparecer depois da introdução da história, o fato de ser sueco, adaptado de um livro de sucesso, roteirizado e dirigido por uma mulher jovem e com experiência anterior em séries para televisão. Aquilo tudo me deixou curioso.
O livro de Emma Hamberg, publicado em 2021, cujo título original é “Jag heter Agneta”, é a fonte onde Johanna Runevad foi beber e se refrescar, criando uma obra que, se dependesse de mim, estaria no mínimo indicada a prêmios nos mais importantes festivais de cinema do mundo.
“Meu Nome é Agneta” acompanha a personagem título, uma mulher de 49 anos que, após perder o emprego e se sentir invisível dentro do próprio casamento e da própria vida, decide aceitar uma vaga de au pair numa cidadezinha no sul da França. Lá ela descobre que a pessoa de quem deve cuidar não é o menino sueco que esperava, mas Einar, um senhor idoso, excêntrico e resistente, interpretado por Claes Månsson. A relação improvável entre os dois, construída em atritos, humor e pequenos gestos cotidianos, transforma ambos de formas que nenhum dos dois previa.
O filme é protagonizado por Eva Melander, atriz premiada pelo filme Border, e tem como cenário central a paisagem luminosa e sensorial da Provença, usada como contraponto à frieza emocional e climática da vida sueca de Agneta. É uma comédia dramática sobre invisibilidade, identidade, recomeço e a coragem de existir para si mesma numa fase da vida que o mundo costuma ignorar.
No meio do filme me lembrei de outro que assisti nos anos 90, “A Excêntrica Família de Antônia”, da diretora holandesa Marleen Gorris. Os dois filmes têm em comum o fato de serem europeus, dirigidos por mulheres, centrados em personagens femininas que recusam a invisibilidade que o mundo lhes impõe. Nos dois há personagens excêntricos que desafiam a ordem estabelecida e provocam transformações nos que estão ao redor. O fio invisível que conecta os dois é o mesmo: a recusa em desaparecer.
Esse filme me fez observar algumas coisas: Jacira nem sempre escolhe filmes que não me agradam; países incomuns produzem filmes improváveis e causam em mim reações inesperadas; e acreditar que o cinema tem um caráter sempre ideológico, do ponto de vista político, está limitando demais o cinema brasileiro, impedindo que existam em nosso país produções como essa, capazes de sensibilizar universalmente todos que as assistirem, que não estejam acima de tudo querendo autoritariamente doutrinar o espectador, mas que abram os seus olhos e possibilitem que ele veja, com graça, alegria e inteligência, opiniões, ideias e mundos diferentes.