A primeira crítica sobre 2 Graus ao Sul do Equador

Vejam a mensagem que recebi ontem:

Sobre “2 Graus a Sul do Equador”

Por José Eduardo Eufrázio do Nascimento

Eu me chamo José Eduardo Eufrázio do Nascimento, tenho 19 anos e sou apaixonado por cinema.  Sou estudante do curso Técnico Integrado em Informática do IFPE, e estou quebrando barreiras geográficas e sociais, entre pernambucano e o mundo, através da sétima arte, pois fui credenciado para cobrir o Festival de Cannes, um dos eventos mais prestigiados do cinema mundial.

Bolsista do projeto de extensão Cine IF, frequento as cabines de imprensa de gigantes como Universal, Warner e Sony. Minhas críticas, publicadas em portais como O Cinema É e Peliplat, garantiram-me o acesso antecipado a grandes lançamentos mundiais.

No último dia 13 de maio, assisti no espaço Marché du Film ao longa-metragem “2 Graus a Sul do Equador”, roteirizado e produzido por Joaquim Haickel e dirigido por ele e seu parceiro de aventuras cinematográficas, Coi Belluzzo.

A obra conta a história de Eulália, uma jovem que, após perder sua mãe, parte para o Maranhão em busca de seu verdadeiro pai. Nessa jornada, Eulália será seduzida pela vibrante cultura de São Luís: o Tambor de Crioula, o Bumba Meu Boi, o Reggae, o casario colonial da Cidade dos Azulejos e os deslumbrantes Lençóis Maranhenses. Com isso, Eulália mergulha em um caminho de pertencimento e identidade.

Devo dizer que esse filme me surpreendeu pela audácia de, a seu modo, com pouquíssimos recursos financeiros e fora do eixo das grandes produções cinematográficas brasileiras, tentar realizar uma obra que remete a filmes que usam a cidade, o lugar onde são realizados, como personagens ativos da história — como “Manhattan”, “Vicky Cristina Barcelona” e “Meia-Noite em Paris”.

A curiosidade do título se justifica exatamente porque a cidade de São Luís se encontra a aproximadamente 2 graus ao sul da linha do Equador, o que prova que o intuito aqui é mostrar São Luís para o resto do mundo: sua cultura pulsa a todo momento na tela.

É interessante como o roteiro e a direção deste filme trazem São Luís para o centro da trama, fazendo aquilo que recorrentemente Kleber Mendonça Filho faz em seus filmes com sua amada cidade do Recife. A diferença é que o filme de Haickel e Belluzzo nada tem de político no sentido ideológico, filosófico e partidário. O político em “2 Graus” é totalmente aristotélico — remete à pólis, ao lugar onde vivem as pessoas, onde elas vivenciam suas experiências.

Confesso que experimentei uma espécie de catarse ao assistir a esse filme, algo que me fazia sentir dentro daquela história, acompanhando aqueles personagens, principalmente pela forma como o roteiro os apresenta.

Não satisfeitos em beberem da fonte de Woody Allen, os idealizadores de “2 Graus a Sul do Equador” resolveram que deveriam se refrescar também na fonte de um dos pais da Nouvelle Vague, François Truffaut, pois apresentam seu filme em narrativa de metalinguagem, na qual a história de Eulália é contada durante a realização de um filme que pretende resgatar uma diretora e sua parceira produtora de uma crise criativa — um bloqueio produtivo, coisa muito comum no setor.

Quando digo que essa produção se refresca em correntes de sucesso do cinema mundial, não o faço para diminuir a obra, pois a intenção dos realizadores me parece clara e explícita. Tanto que, em determinado momento, o roteirista coloca na boca de um personagem uma alusão direta a Truffaut — que imagino se refira ao maravilhoso “A Noite Americana” —, fato que me deu a certeza de que eles sabiam claramente o que desejavam.

A metalinguagem aqui se desvincula do clichê ao filmar um filme dentro de outro filme, onde podemos ver pontos de vista distintos em seus respectivos personagens, trazendo histórias reais — como a citação a um poeta famoso na cidade — e debates como o da maternidade na adolescência, entre muitos outros.

O elenco é um show à parte. Todos os atores e atrizes são maranhenses. A performance de Tamie Panet é o coração da obra: singela e sutil, ela (assim como outros) vive dois personagens distintos e nos faz viajar junto com cada um deles quando assume suas personalidades. Zanto Holanda, Daniel Haidar, Claudiana Cotrim e Tassia Duh completam o elenco principal, e contam ainda com o apoio de mais de duas dezenas de atores e atrizes da melhor qualidade.

Por fim, penso que “2 Graus a Sul do Equador” também se destaca por seu roteiro, que parece ter sido pensado milimetricamente, por sua direção, que soube dar asas libertadoras ao elenco, e pela forma como a montagem conta a história.

Depois de assistir ao filme, tive a oportunidade de conversar com Joaquim Haickel, idealizador da obra, roteirista, produtor e diretor de cinema que desde 1984 produz filmes no Maranhão, a maioria documentários voltados à preservação da memória de sua terra e de seu povo. Conversar com Joaquim me fez ter certeza sobre a verdade contida em uma frase que tenho como mantra: “um filme nunca é só um filme, é uma janela para o mundo”.

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Perfil

“Poeta, contista e cronista, que, quando sobra tempo, também é deputado”. Era essa a maneira como Joaquim Elias Nagib Pinto Haickel aparecia no expediente da revista cultural Guarnicê, da qual foi o principal artífice. Mais de três décadas depois disso, o não mais, porem eterno parlamentar, ainda sem as sobras do tempo, permanece cronista, contista e poeta, além de cineasta.

Advogado, Joaquim Haickel foi eleito para o parlamento estadual pela primeira vez de 1982, quando foi o mais jovem parlamentar do Brasil. Em seguida, foi eleito deputado federal constituinte e depois voltou a ser deputado estadual até 2011. Entre 2011 e 2014 exerceu o cargo de secretario de esportes do Estado do Maranhão.

Cinema, esportes, culinária, literatura e artes de um modo geral estão entre as predileções de Joaquim Haickel, quando não está na arena política, de onde não se afasta, mesmo que tenha optado por não mais disputar mandato eletivo.

Cinéfilo inveterado, é autor do filme “Pelo Ouvido”, grande sucesso de 2008. Sua paixão pelo cinema fez com desenvolvesse juntamente com um grupo de colaboradores um projeto que visa resgatar e preservar a memória maranhense através do audiovisual.

Enquanto produz e dirigi filmes, Joaquim continua a escrever um livro sobre cinema e psicanálise, que, segundo ele, “se conseguir concluí-lo”, será sua obra definitiva.

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