Madiba

Tem causado bastante interesse como eu faço para escolher os temas das crônicas que publico aos domingos no JEM e em meu blog. Muitas pessoas me perguntam sobre como escolho os temas de meus textos, sobre os motivos que me levam a escrever sobre isso ou sobre aquilo.

Confesso que nunca havia parado para pensar mais profundamente nesse assunto. Escrevo sobre o que está acontecendo, seja na cidade, no país ou no mundo, e com bastante frequência abordo fatos que estão acontecendo em torno de mim ou com as pessoas com quem convivo.

Acredito que optar por um assunto, resolver falar daquilo que transcorre em meu círculo de relacionamento, me coloca bem próximo dos leitores, pois com quase todas as pessoas acontecem coisas bem semelhantes, e a quem, um determinado fato não seja familiar, em última análise ele suscitará interesse pelo fato de poder um dia vir a sê-lo.

Um grande amigo meu perguntou por que resolvi de repente filosofar em meus textos! Não é que eu filosofe. Quem sou eu para isso. Essa impressão fica pelo fato de enfocar com alguma riqueza de detalhes aspectos de nossa condição humana.

Isso se deve às nossas buscas e às opções que temos de fazer no trilhar de nossos caminhos, na constatação dos fatos idiossincráticos de algumas personalidades que atravessam nossa jornada, aos aspectos banais vistos e analisados de maneira curiosa ou inusitada, fazendo com que o óbvio se torne relevante.

O certo é que tenho recebido uma grande e boa resposta das pessoas, que do meu ponto de vista, conversam comigo sempre que lêem o que escrevo. Sim, porque pelo simples fato de lerem o que escrevo, essas pessoas dialogam comigo, mesmo eu não tendo a possibilidade de responder a elas sobre suas indagações, mesmo eu sendo incapaz de dirimir seus questionamentos ou simplesmente ouvir suas ponderações. O diálogo entre o escritor e o leitor se faz pelo simples fato de haver leitura e desta levar o paciente a pensar sobre o que leu. É o diálogo do que eu escrevi, com o pedaço do eu coletivo que há em cada um de nós.

Agora mesmo que aquele meu amigo vai dizer que mudei, ou estou tentando mudar de um reles escritor para um filósofo de fim de semana. “Deixa que digam, que pensem, que falem…” afinal é por isso que todos os escritores escrevem, para que pensem, para que falem.

Tem gente que não gosta do que eu escrevo. Paciência! Tem gente que não concorda e repudia o que escrevo. Mais paciência ainda para com estes! Tem gente que gosta e admira o que escrevo e como o faço. Agradeço! Mas sabe de uma coisa? Fico satisfeito de saber daqueles que gostam do que escrevo, mas fico muito mais curioso e interessado naqueles que não concordam ou até mesmo que se incomodam com meus textos. Não que eu seja sádico, goste de ver as pessoas sofrendo, isso nunca, mas porque sabendo sobre os pontos divergentes fica mais fácil descobrir como transformá-los em convergências, ou pelo fato de me fazer pensar se eles não estariam certos e eu errados.

Quem escreve o tipo de texto que eu escrevo não deve ficar preocupado com a verdade ou com o certo. Quem escreve as coisas que eu escrevo deve se preocupar em estar comunicando a sua verdade, o seu ponto de vista, como vê as coisas, como as sente, de forma clara e honesta. Essa é a beleza desse tipo de literatura. A beleza e o prazer de escrever compromissado com o sentimento que transmite, com o enfoque do assunto, com sua abordagem.

Em minha opinião o assunto de uma crônica de jornal pode ser qualquer coisa. A única exigência é que ela crie entre o escritor e o leitor esse diálogo tácito. Que o escritor mudo possa responder a tudo ou a quase tudo que o leitor ensurdecido precisa saber, ou pelo menos levá-lo a pensar sobre o assunto.

No dia de hoje, por exemplo, tive vontade de ao invés de escrever um texto de 4.500 toques, fazer publicar uma única palavra: Mandela!

Tenho certeza que meus leitores, ao decodificarem o que a reunião dessas letras significa, lembrarão daquele que em minha opinião foi uma das personalidades mais importantes do século XX. Mais do que isso, ligarão seu nome a sentimentos que ele simbolizou, simboliza e tenho certeza simbolizará para sempre, toda vez que se disser o seu nome ou que se pensar em coragem, esperança, sabedoria, honra, compreensão, perdão, simpatia…

Queria ter escrito antes, mais e melhor sobre Madiba, porém eu seria apenas mais um fã a falar de seu ídolo. Falo então de mim, da necessidade que tenho de fazer brotar em mim, não aqueles mesmos sentimentos nem aquelas mesmas ações, isso seria impossível, mas algo que me possa fazer sentir merecedor de ter vivido em um mundo que produziu este homem extraordinário, que deve ter tido muitos defeitos, mas que na contabilidade final superou todas as expectativas.

Parece filosofia? Mas não é. É simplesmente o que eu queria conversar com você, hoje, aqui, nesse cantinho de página.

Mandela! Esse nome deveria passar a ser usado como uma espécie de saudação, assim como os judeus dizem Shalom e os mulçumanos Salam.

Mandela!

Isso é tudo por hoje. E saiba… É muito.

Mandela!

 

A Importância da Entourage

Comecemos pelo significado da palavra entourage. Ela é de origem francesa e significa grupo social, conjunto de indivíduos com quem convivemos habitualmente. Pessoas que vivem em volta de uma espécie de líder, de senhor, de governante.

Para efeito desse texto vou abrasileirar a expressão francesa. Usarei em seu lugar a palavra anturragem.

Os poderosos, de todos os tamanhos, de todas as procedências e em todos os tempos sempre cultivaram em torno de si um grupo de pessoas que algumas vezes se assemelham a uma flora, outras vezes a uma fauna, dependendo do tipo de poder que detenham ou da propensão de cada um para exercitar seu poder.

Todo poderoso deve antes de qualquer coisa ter consciência de que não pode viver sem pessoas em seu entorno e por isso mesmo deve se cercar dos melhores espécimes ao seu dispor. Aqui não me refiro apenas à competência laboral, falo de caráter, da formação cultural, moral e ética.

Um Barão medieval ou mesmo um príncipe da renascença tinham muitas pessoas a seus serviços. Tinham gente das mais diversas procedências e ocupações, até mesmo assassinos, mas estes, com raríssimas exceções, não faziam parte do séquito de seu senhor. Ficavam restritos aos seus covis. 

Se observarmos melhor, todos nós temos uma anturragem, pois todos nós, uns mais outros menos, detemos alguma espécie de poder, o que cria em torno de nós um círculo de relações nas quais desenvolvemos nossas vidas.

Detalhados registros históricos nos dão conta que muitas vezes o senhor, o governante, passa facilmente do papel de manipulador de sua anturragem ao de manipulado por ela, por um grupo dentro dela ou por alguém dentre seus convivas.

Reis poderosos como Henrique VIII cometeram atrocidades motivadas por aqueles que o cercavam mais de perto. Henrique desterrou companheiros, mandou matar o seu melhor amigo e conselheiro, e inclusive, incensado por figuras de seu staff, mandou decapitar duas de suas mulheres.

Há um, porém! O poderoso ou o governante é no final das contas o único responsável por tudo aquilo que sua anturragem faz. Ele é o responsável direto pelas ações de quem o cerca, por todos os conselhos que ouve, principalmente pelos maus que aceita e até pelos bons que rejeita.

Vejamos o caso de Luís XVI e Maria Antonieta! A anturragem criou em volta deles um mundo restrito, embaçando sua visão de mundo. Não os deixavam ver além de seus umbrais. Minto. Na verdade eram o rei e a rainha da França que não queriam ver o que acontecia fora de seus portões. Por esse motivo acabaram sendo apartados de suas cabeças.

A anturragem diz muito sobre um líder. Uma análise das pessoas que gravitam em torno de alguém pode nos desenhar clara e facilmente um fiel retrato de seu vértice.

Quando era criança minha mãe sempre dizia: “Diz-me com quem andas que te direi quem és”. Ao que meu tio Stenio retrucava: “Toda regra tem exceção”.

Não serei aqui hipócrita ao ponto de desconhecer que precisamos ter em nossa anturragem algumas figuras das quais não temos lá muita satisfação em tê-los em nosso círculo de convivência. Não falo dos cães assassinos de César Bórgia, falo de uma cambada de bajuladores e capachos, falo da escória que todo líder parece precisar ter para que se sintam “amados”. Falo dos lacaios, alguns até de nível cultural elevado, às vezes bem mais elevado que do tal líder, mas que se diminuem por ter que lamber as botas de seu príncipe.

Não guardo maior rancor do rato que faz isso, fico mais indignado com o dono desses roedores. Poderia ter em torno de si animais menos pútridos.

Não há nenhuma espécie de poder, de qualquer tipo ou qualidade, que não atraia uma anturragem. Logo uma coisa que me parece fundamental, escolher cuidadosamente as pessoas que nos cercam.

Como já disse, todos nós precisamos de gente em nossa volta. Os mais poderosos, os líderes, precisam muito mais. Precisam de pessoas que exerçam as mais distintas funções. Qual governante vive sem um motorista, um secretário, um servente ou um garçom?

O que essa pessoa, detentora de uma relevância tem que saber é que não pode se deixar manipular por sua anturragem. O líder deve saber que os que estão bem próximos, à sua volta, desfrutam, pelo simples fato de estarem ali posicionados, de um poder incrível. A qualquer instante, através de um comentário “inocente”, um simples garçom pode passar uma informação inverídica ou propositalmente facciosa e transformar os aurículos do chefe em úteros envenenados. As consequência disso podem ser catastróficas.

Muita coisa errada nesse mundão de meu Deus já foi e continua sendo perpetrada dessa forma infame!

Exercícios de Respiração

Nas últimas semanas engoli vários sapos em nome da urbanidade, da civilidade e em alguns casos, em nome da preservação de queridas e indispensáveis amizades.

Tive que em diversas ocasiões recorrer aos tais exercícios respiratórios que aprendi na única aula de ioga que tive e acho que o fiz com sucesso.

Não vou aqui relatar com riqueza de detalhes as questões do âmbito fraternal, pois são problemas bobos que causam desconforto e dor, como aquela com um amigo que nos deixa em situação constrangedora por furar prazos de entrega de um serviço, ou uma na qual outro amigo, por um equivocado posicionamento pseudo-político, comete uma desconsideração quando confunde gratidão com submissão.

O que vou passar a comentar aqui acontece com muito mais frequência. Algumas pessoas chegam para mim e dizem que preciso fazer uma coisa importante para elas. Que como sou político, ocupante de um cargo no governo, só não faço se não quiser.

O mais comum nesses casos é pedirem um emprego. Só muda o destinatário do emprego. Para a própria pessoa, para um filho ou filha, para um parente ou para um amigo. Já me apareceu um sujeito que precisava se livrar da ex-mulher e me pediu que arrumasse um emprego para ela, e o pior, uma colocação onde ela ganhasse algo em torno de três mil reais.

Isso acontece diariamente. Falam como se fosse a coisa mais fácil e simples do mundo, “que eu só não faço se não quiser”. Mais delicado é quando abordam a minha mãe, para que ela interceda junto a mim.

Existem também aqueles que pedem para que eu interceda junto a alguma instituição, para que um candidato a concurso seja chamado ou aprovado em uma seleção ou prova. Um verdadeiro absurdo!

Pedido de ajuda financeira para tratamento de saúde, para comprar remédios, óculos, até para viagens. Para pagar contas de luz, água ou gás.

Já aconteceu, e não foi uma vez só, de um pai ou uma mãe chegar até mim para pedir que interceda junto a uma autoridade policial ou jurisdicional para soltar um filho que se envolveu em alguma briga ou em algum delito.

O último pedido absurdo que recebi foi de um torcedor do Moto Clube, que ao invés de pedir ajuda para seu time, que está precisado, gostaria que a Sedel ou seu gestor, eu, contribuísse para uma feijoada e uma roda de samba que faria em um desses finais de semana. Seria pouca coisa… Só uns mil reais. Ele ainda se sentiu no direito de ser grosseiro porque neguei a tal “ajuda”.

Outro dia fui convidado para exibir meu filme, “Pelo Ouvido” e participar de um debate sobre o atual momento do cinema no Maranhão. Aceitei e fui, crente que falaríamos de cinema, que o papo seria sensacional, que todos estavam preparados para uma boa conversa. Isso foi quase totalmente verdade, com exceção de um sujeito obtuso que resolveu direcionar a conversa sobre cinema para o lado político, cometendo a grosseria e a tolice de me usar como símbolo do que ele acredita ser a falta de apoio do Estado à cultura, às artes e ao cinema de modo específico. O imbecil simplesmente esqueceu ou não quis se lembrar que as leis de incentivo à cultura e ao esporte, colocadas democraticamente a serviço desses setores pela atual administração são de minha autoria, quando ainda era deputado estadual.

A vontade que tive foi de ter sido violentamente verborrágico. Meu lado animal chegou bem perto de, como um lobisomem, pular na jugular do ogro que nada tinha de Shrek e trucidá-lo. Foi ai que comecei a me sentir orgulhoso de mim mesmo. Respirei fundo, exercitei a respiração e sorri um sorriso irônico, beirando o deboche. Olhei-o nos olhos até que ele abaixasse a cabeça e quando fui perguntado se eu gostaria de me manifestar, sacudi a cabeça negando e sorrindo discretamente. Não iria revidar dizendo que só os como ele, os preguiçosos, os incompetentes e os incapazes de produzir bons projetos estão fora do mercado desde que essas leis de incentivo passaram a funcionar.

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Escrevi este texto primeiramente para mim, mas espero que ele sirva, de algum modo, para você também, querido leitor. Que ele possa nos ajudar a aprender a perdoar os amigos queridos, a reconhecer como devemos tratar e a compreender as pessoas…

 

PS:

Por amor um homem é capaz de fazer quase qualquer coisa.

Só por amor um homem é capaz de abrir mão de coisas que lhe são realmente importantes, inclusive eliminar um pedaço de um texto seu que foi gestado e fundido na fornalha mais profunda de seu ser.

Uma visão sobre a verdade na política

O primeiro título que me veio à mente para esse texto era muito mais pretensioso e arrogante que o que consta acima. Pensei em chamá-lo de “A verdade sobre a política”. Imediatamente ao ouvir o som de tamanha pretensão escrita por mim mesmo procurei tirar dele qualquer característica perniciosa ao bom debate democrático, coisas que possam descaracterizar a boa e saudável discussão a qual eu me proponho sempre que tento abordar esse tema, que como todos sabem, é de meu extremo interesse.

A política, ao contrário do que muita gente acredita, não é algo mau e a sua boa prática é indispensável para a vida da sociedade. O que é nocivo é o uso inadequado dela. É bem verdade que há muito maior incidência de seu uso inadequado e nocivo que do sadio, mas isso se deve aos agentes da política e não a ela em si.

Paremos um pouco para analisar os motivos pelos quais estamos em meio a essa imensa crise de credibilidade e de confiança em nossos representantes, sejam eles do Legislativo, do Executivo ou mesmo do Judiciário! Executivo permissivo, Legislativo conivente e Judiciário prepotente.

Caso queiramos fazer um exercício de análise, simples e prática, iremos descobrir que isso se deve ao fato de que, em que pese hoje as nossas instituições estarem mais sólidas e democráticas, seus agentes ainda são frágeis e carecem de melhor formação. Até alguns que não são tão frágeis se contaminam com o convívio dos outros, se diluem, nivelam-se aos demais, pois estes existem em maior número.

Há quem, sendo simplista, diga que o excesso de liberdade, sem uma contrapartida de limites claros e rígidos causa distorção no comportamento das pessoas.

Há quem diga que em coisas mínimas, como por exemplo, termos que por determinação legal, chamar a mulher que ocupa a presidência da república de Presidenta, quando um simples “A” (artigo indefinido feminino…) antes do nome Presidente resolveria esse problema, causam essa insegurança. E cá pra nós isso realmente é um absurdo!

Há quem diga que pagar-se um salário, uma pensão, para a família de um latrocida enquanto a família de sua vítima fica desamparada é outro imenso absurdo. E é mesmo!

Falando assim até parece pouca coisa, mas não é. Às vezes nos fixamos em coisas pequenas e acabamos por nos esquecer ou por não dar a devida atenção às coisas realmente significativas. Exemplo disso é alguém querer fazer uma reforma política através de um plebiscito. Um verdadeiro absurdo que não poderia ter sido nem imaginado, cogitado e muito menos sugerido por alguém que nos lidera e tem obrigação de saber qual o melhor caminho pelo qual deve nos conduzir.

Veja bem! Isso não é uma mera questão de opinião, isso é elementar. Imagine se passa na cabeça de alguém que se possa fazer uma reforma tão importante como a reforma política e eleitoral de forma populista e irresponsável, deixando que a massa, incauta e inculta que já não tem condição de indicar seus bastantes procuradores, os parlamentares, possa plebiscitariamente decidir coisas as quais não conhece nem entende.

Pior é o Congresso poder fazer mudanças importantes e acabar fazendo uma minirreforma que na prática muda pouquíssimas coisas.

Quando falo de verdade sobre a política não falo de verdade ideológica, falo de verdade pragmática, de colher aquilo que as ideologias têm em comum, de fazer uma continha simples de somar, escolhendo as melhores propostas de rumo para dentro da legalidade e do possível, realizar o anseio primordial das pessoas: A felicidade.

Imaginemos que tudo fosse perfeito. Que o trânsito não fosse caótico e infernal, que não faltasse saneamento básico, que não houvesse violência, que quando se ficasse doente fôssemos atendidos em hospitais que nos dessem conforto e possibilidade de cura, que quando parássemos de trabalhar tivéssemos uma boa aposentadoria, que não houvesse preconceito de qualquer natureza, que não houvesse corrupção, que a justiça fosse operada com agilidade e correção… Se tudo isso fosse verdade, a disputa política seria meramente ideológica. Uma questão dogmática, de opinião, de preferir o azul ao invés do amarelo. Ela não é assim e não será jamais, porque o ingrediente humano, pessoal, faz com que ela se torne uma questão de vaidade, de ego, de disputa de poder. Uma coisa muito mais antropológica que sociológica. A necessidade de predomínio de um grupo em detrimento de outros. A única coisa que podemos fazer quanto a isso é amenizar seus efeitos colaterais, procurando entender os mecanismos e descobrir como usá-los de forma sadia.

Em minha modesta opinião deveria haver uma prescrição na lei que obrigasse a alternância do poder entre os grupos minimamente respaldados pela população, pois da mesma forma que é difícil para quem está no controle do poder resolver as questões que se apresentam, para quem está fora dele, sem o poder, a solução desses mesmos problemas não seria de forma alguma mais fácil. Pensar diferente seria subestimar seu oponente, ou ser extremamente arrogante e prepotente, sentimentos que expulsei desde o título deste texto.

Comecei a escrever e fui fazendo isso, sem sentir, desobedecendo meu método laboral e criativo. Despejei de uma vez só o que estava sentindo intuitivamente, sem rever o que escrevia. Descarreguei no papel um monte de sentimentos entalados em minha garganta… Se isso vai servir de alguma coisa para você que me lê agora, não sei, mas para mim serviu para desabafar, para expulsar de mim, talvez de forma desordenada um sentimento de impotência e de insegurança em relação a algo que me é muito caro e que tem sido negligenciado e não levado a serio: A boa prática da política, como caminho para a boa convivência social e a busca da felicidade.

 

PS: Ao finalizar esse texto, senti como se alguém falasse ao meu ouvido: “Sabes o porquê da mentira ser tão comum na política? Porque os políticos querem agradar o povo e este não quer necessariamente a verdade. O povo simplesmente quer o que quer, quer aquilo que precisa e normalmente através da verdade é bem mais difícil que os políticos possam dar ao povo o que ele deseja, por isso os políticos mentem para o povo”.

 

Cidade linda, comida ruim, papo bom.

Estávamos eu e Jacira em uma taverna, em Siena, no coração da Toscana, fazendo uma das coisas que mais gostamos de fazer quando estamos viajando.

Observamos os ambientes e as pessoas à nossa volta. Demos conta de que se tratava de um prédio realmente muito antigo, talvez tivesse uns 600 anos. Localizava-se em uma das ruelas próximas ao Doumo da cidade, numa ladeira íngreme.

O atendimento variava de sofrível a péssimo. O pão italiano característico tinha menos sal que de costume, fomos salvos pelo bom azeite toscano, sal e pimenta. Fizemos escolhas erradas no cardápio, mas às 16 horas quase todos os lugares já estavam fechados para o almoço.

Aquele foi o pior almoço de toda a viagem. Culpa nossa. É praticamente impossível comer mal na Toscana.

Como compensação à má comida e ao rude atendimento pudemos desfrutar de um debate acalorado travado pelos ocupantes de uma mesa que estava ao nosso lado.

Quando chegamos observamos que alguns casais discutiam de forma italianesca. Bem poderia ser “a La” napolitana, milanesa, calabresa ou siciliana. O assunto versava sobre arte. Eles comentavam a importância da arte, alguns pareciam bastante cultos e faziam colocações que renderiam horas de debate.

Em certo momento eles se embrenharam em uma polêmica sobre a fotografia. Uns argumentavam que fotografia não poderia ser considerada arte e outros tratavam de defender a ideia de que ela era sim uma das artes modernas.

Jacira identificou entre os personagens daquela discussão uma moça que parecia ser fotografa, pois trazia para si o foco do debate. Não chegamos a uma conclusão definitiva se ela era realmente fotógrafa ou apenas uma apreciadora dessa atividade, mas isso pouco importa.

Já estávamos sendo mal servidos, famintos, cansados e passamos a conversar a respeito do mesmo assunto, e quando podíamos observávamos o que diziam os patrícios de Paolo Rossi.

Fotografia é ou não é arte? Existem argumentos de sobra para provar que sim, fotografia é arte, mas para bons argumentadores sempre há espaço para transformar um assunto, aparentemente tão simples e bem resolvido, em uma polêmica acalorada que na pior das hipóteses nos faz pensar e quanto a mim e a minha mulher, naquela tarde nos distraiu, fazendo com que o serviço ruim e a má comida não maculassem uma viagem tão maravilhosa.

Os macarronistas que defendiam a tese que fotografia não é arte eram mais incisivos e duros, como compete a todos aqueles que desejam demolir uma tese que parece ser aceita como verdadeira pela maioria das pessoas.

Para eles arte era música, dança teatro, literatura. Compraram e vendiam a tese de que arte era tudo aquilo que os gregos estabeleceram como sendo arte. Argumento insuficiente e frágil, tendo em vista que o estabelecimento dessa lista de artes se deu há 3.000 anos e no mundo de hoje outros fazeres humanos podem e devem ser considerados arte.

Alguém contra-argumentou que se assim fosse o cinema não poderia ser considerado arte, pois não há cinema sem fotografia. Fez-se silêncio e em seguida um exaltado polemista diz que a fotografia é apenas uma engrenagem da intrincada máquina da arte cinematográfica.

Nessa hora quis intervir, mas o olhar de Jacira me desautorizou. Ainda bem que o que eu ia dizer foi dito por outro participante daquela mesa: A literatura, através do roteiro, e o teatro, através da encenação dramatúrgica, são engrenagens da intrincada máquina da arte cinematográfica e individualmente também são artes, logo a fotografia pode também ser considerada arte.

Nessa hora saltou o exaltado e disse que arte é tudo o que a inventividade humana cria, não apenas o que ela opera ou administra. Que para ser considerada artística a atividade humana tinha que ser transformadora e criadora. Que o artista deveria ser uma espécie de Deus criador, que colocasse palavras onde não as tinha que esculpisse e pintasse que coreografasse movimentos e que criasse sons.

Fez-se novamente silêncio só interrompido quando aquela moça que pensamos ser fotógrafa perguntou ao seu oponente se ele acredita que pelo fato de um fotógrafo captar o instante de uma paisagem, de uma pessoa, de objetos, se nisso por si só já não havia na fotografia o poder criador dos deuses? Indagou se ele já havia pensado que se pra nada servisse a fotografia ela não deveria ser considerada arte pelo simples fato de esculpir o tempo, desenhar sentimentos, poetizar imagens, dramatizar cenas.

Por fim eles já estavam discutindo a qualificação e a valoração da arte e da fotografia, tema delicado e perigoso que não fiquei para ouvir, pois a conta chegará e nós tínhamos uma cidade belíssima para conhecer.

Não sei se foi o político Joaquim Haickel, se foi o artista, escritor e cineasta, quem mais gostou daquele debate. O político gostou da polêmica, das teses e das antíteses. O artista gostou do tema. O gourmet glutão gostou pelo fato de ter tirado minha atenção da comida não recomendável.

Continuamos a nossa viagem conhecendo algumas das pequenas cidades da Toscana. Em nenhum outro lugar comemos tão mal, mas travamos conhecimento com muitas outras pessoas interessantes.

Para mim fotografia é arte e fotógrafo é artista. Quem bem exerce essa atividade é mestre de uma das mais complexas formas de expressão criadora do homem.

Para provar definitivamente que fotografia é arte, basta compará-la às artes tradicionais. Ela tem as mesmas funções das demais e como as demais engrandece o ser humano.

Para mim, um apaixonado por memória, por lembranças, a fotografia perpetua o tempo nos permitindo voltar nele. Isso é coisa de artista, de um deus criador.

Novela da Vida Real

Faz muito tempo que tenho vontade de escrever sobre as novelas produzidas pelas Redes de Televisão brasileiras, e essa oportunidade parece-me perfeita para falarmos do produto artístico que identifica bem essa poderosa indústria que em nosso país é vista pela grande maioria da população como simples produtora de entretenimento e por alguns estudiosos da sociologia e da antropologia como meros produtores de alienação da massa inculta e incauta.

Em todo o mundo as empresas desse setor se transformaram em poderosas corporações porque dominaram a informação jornalística, na maioria dos casos por serem orientadoras e opinativas, acabam por criar uma “consciência social” ou ao defenderem posições ideológicas, políticas, econômicas, religiosas e sociais, funcionam como uma espécie de maestro da grande orquestra humana no raio do alcance de sua audiência.

O que vemos hoje em nosso país, como ocorre já faz algum tempo, é o grande predomínio de uma empresa sobre as demais, tanto no setor jornalístico quanto no ramo do entretenimento.

Mas chega de entretantos e vamos logo aos finalmentes. O assunto específico sobre o qual quero tratar hoje é o dos personagens de novelas, figuras que extraídas da vida real se transformam em ícones de nossa raça, espelhos nos quais vemos a nós e aqueles que convivem conosco, ou mesmo que não fazendo parte de nosso mundo, somos capazes de descobrir e identificar neles um trejeito familiar, uma característica peculiar a alguém.

Os personagens do bem, as boas moças e os bons rapazes representados normalmente por espécimes humanos quase perfeitos, são fáceis de serem identificados e agradarem a todos. Difícil é transformar a sempre boazinha da Lilia Cabral numa mulher rude, que para sustentar a família é obrigada a encarnar uma “faz tudo”, “o Pereirão”, uma operária que conserta pias, troca lâmpadas e fiação elétrica, resolve problemas em sistemas de refrigeração e permanece boa e doce, chegando a se tornar elegante e sofisticada. O inverso é o que acontece com personagens como o da belíssima e estonteante Cristiane Torloni que deu vida a Teresa Cristina, uma ricaça de dinheiro, mas paupérrima de princípios.

Nos primórdios das telenovelas os vilões não causavam tanto fascínio nos expectadores, mas com o passar do tempo, autores e diretores foram humanizando esses personagens ao ponto de os transformarem nos pontos altos de seus folhetins.

Perguntei a alguns amigos meus, escritores e roteiristas, entre eles José Louzeiro, Mario Prata e Di Moretti, qual o segredo de um bom roteiro para uma novela do horário nobre e eles foram unânimes em dizer que a única coisa que o autor tem a obrigação de ter em mente quando escreve um argumento e depois um roteiro é escolher bem o ponto da tensão, o caso em torno do qual os personagens devem desenvolver as suas trajetórias.

O ciúme, a inveja, o rancor, a vingança, o medo, tudo isso de um lado, e o desprendimento, a generosidade, a fraternidade, o perdão e a coragem do outro, sentimentos antagônicos que pautam as vidas, normalmente de pessoas próximas, irmãos, amigos, estão em qualquer folhetim televisivo que se preze, assim como no nosso dia a dia.

Odete Roitman é muito provavelmente o maior símbolo de vilania da Televisão brasileira. Do lado dos personagens do bem aparece a emblemática Maria da Graça.

Falemos dos vilões.

Na vida real existem muitos desses personagens de novela. Gente que pensa que é normal, que não consegue enxergar que não tendo “salgado a santa ceia” salgou a sua própria vida ao não olhar as coisas pelo melhor lado, com os melhores olhos.

Alguém que prefere esconder suas deficiências e os erros consequentes delas, imputando a outros os seus pecados, cujos maiores deles nem são mortais. São simplesmente a burrice e a falta de capacidade de bem se relacionar com as pessoas!

Existe um teste para que você possa descobrir se você daria um bom personagem maligno de novela. Basta que verifique se você sente a amargura do ciúme em sua garganta, se já sinta o calor da inveja em seus braços, se é comum sentir o calafrio do medo do abandono e do desprezo em sua espinha. Isso por si só não fará de você um importante vilão ou vilã de novela da Globo, mas deveria chamar sua atenção, pois esses são claros sintomas de que algo muito sério e difícil está acontecendo com você.

Se tudo isso vier agregado ao cultivo de relações problemáticas com seu parceiro, esposo ou esposa; se você cultivar uma inveja indisfarçável por um parente próximo ou por um amigo antigo; se você insistir em implicar com sua nora ou genro, tentando transformar a vida dela ou dele em um inferno sem pensar no mal que pode fazer para seus filhos e netos; se o apego por alguém transformar você em um trapo dependente da atenção, do amor e do carinho dessa pessoa; se você for uma pessoa amarga, mesquinha, intriguenta, desagregadora e ainda por cima incapaz de reconhecer que precisa de ajuda médica, ai sim!…Você estará bem perto de se transformar em matéria-prima para a próxima novela do horário nobre da Rede Globo, isso se você for uma pessoa citável, pois se for uma pessoa sem nenhum charme, talvez seu personagem só seja digno de uma rede de televisão bem menos importante.

Se você que me lê agora pensa que personagens como os descritos acima são difíceis de encontrar, entre em contato comigo que passarei a você uma lista imensa…

 

Padre Nosso pra Vigário

Aproxima-se o prazo limite para a filiação partidária daqueles que desejarem ser candidatos a um cargo eletivo no pleito de 2014. A data é 5 de outubro, um ano antes da eleição.

Os cidadãos brasileiros elegerão ano que vem seus representantes à Presidência de República e aos governos de estados e distrito federal, além de deputados estaduais, federais e um senador em cada unidade da federação.

Uma grande rearrumação vem acontecendo nos bastidores partidários já faz algum tempo, fato que configura o primeiro passo para quem deseja se eleger, ou para quem pelo menos deseja competir tendo alguma chance de sucesso.

A lógica partidária para uma eleição majoritária é diferente daquela que deve seguir quem almeja um posto proporcional. Explico: quem quiser ser candidato a presidente, governador ou senador, deve buscar um partido grande, forte, bem estruturado, com diretórios no maior número possível de municípios, com bastante tempo de propaganda no rádio e na televisão, com uma boa cota do fundo partidário, fatores que ajudam na eleição.

Já quem concorre a um cargo proporcional, ou seja, para deputado federal ou estadual, deve procurar um partido que o acolha e lhe proporcione a possibilidade de concorrer com uma mínima chance de se eleger. Quem tiver a garantia de uma votação expressiva deve escolher as legendas mais fortes, pois em qualquer hipótese sua eleição é mais viável. Quem tiver uma razoável musculatura eleitoral pode optar também por entrar nos grandes partidos que ainda assim terá boas chances de se eleger ou ficar em uma suplência que possibilite sua ascensão. Os candidatos de pouco coturno eleitoral devem se agrupar nos pequenos partidos para que juntos possam fazer o maior número de legendas, o que possibilitará eleger os mais votados de suas agremiações ou das possíveis coligações que esses partidos possam vir a fazer. Candidatos de grande poder eleitoral buscam pequenos partidos no intuito de vencer fazendo menos força. Os pequenos são pequenos, mas não são burros. No máximo um ou dois fortes candidatos são aceitáveis nos pequenos partidos para que estes tenham o sucesso que pretendem.

Dizer tudo isso é chover no molhado para quem é do ramo, mas o digo hoje para algumas pessoas que onde me encontram pedem que eu explique como funciona uma eleição, principalmente a proporcional que ainda causa muitas dúvidas não só nos eleitores, mas também em candidatos de pouca experiência.

No caso do Maranhão as candidaturas majoritárias postas são as de Luis Fernando e Flavio Dino, havendo a possibilidade de um terceiro nome concorrer ao governo do estado: Eliziane Gama.

Aqui aparece a primeira grande questão do pleito do ano que vem: quem será mais beneficiado com uma terceira candidatura ao governo do estado? Acredito que será a própria Eliziane, que certamente se fará mais conhecida e estará se credenciando para concorrer à prefeitura da capital, a uma vaga de senadora ou mesmo ao governo nas eleições subsequentes para estes cargos. Além dela quem mais se beneficiaria? O governo ou a oposição?

A existência de três candidatos efetivos ao governo certamente empurrará a eleição para o segundo turno. Quem se beneficiaria com isso? Responda quem souber ou quem puder. Confesso que não sei a resposta para essa questão.

Quanto ao Senado, se a governadora Roseana for candidata, não haverá concorrência relevante. Se ela não for, a disputa entre o candidato da oposição, Roberto Rocha, e o do governo, Gastão Vieira, será equilibrada, sem previsão de vencedor.

Há aqui outra questão que deve ser analisada com muito cuidado. Roseana ajuda mais seu candidato ao governo disputando o Senado ao seu lado, correndo o estado pedindo votos ou no controle da administração até o último dia de seu mandato? Eis aqui outra questão que não sei responder. Diga quem souber!

Inclusive, há nesse caso desdobramentos perigosos. Em caso de Roseana ser candidata ao governo quem deve sucedê-la? O vice-governador ou um governador eleito indiretamente na Assembleia? Em sendo a segunda opção, quem seria o escolhido? O próprio presidente do Poder Legislativo ou outra pessoa?

São muitas perguntas difíceis a serem respondidas, por isso me obrigo a ficar comentando sobre a disputa eleitoral no que diz respeito às coligações proporcionais, onde me sinto mais confortável para opinar.

Ressalto que mesmo fazendo meros prognósticos, um ano antes do pleito, tenho muito mais segurança no resultado deles que na conjectura do que pode acontecer no pleito majoritário.

Acredito que a futura composição da Assembleia Legislativa contará com 11 deputados eleitos pelos partidos do grupo conhecido como Chapão e outros 15 deputados eleitos pelos pequenos partidos ligados ao governo, acomodados em varias coligações ou em voos solos. As outras 16 vagas deverão ser preenchidas por deputados de partidos de oposição agrupados em duas ou três coligações. O resultado seria 26 x 16.

No caso da Câmara Federal o desenho será parecido com o do último pleito, sendo que a oposição deverá fazer um deputado a mais desta vez, ficando o placar em 11 x 7.

Antecipar os acontecimentos pode não ajudar muito, mas enquanto se pratica esse passatempo somos obrigados a analisar com mais cuidado o que acontece hoje, o que nos faz entender as circunstancias e consequências dos fatos e algumas vezes nos permite corrigir rumos e repensar formas de atingirmos os nossos objetivos.

 

PS: O texto acima não visa ensinar ninguém o seu ofício, visa apenas registrar um ano antes do fato acontecer, uma previsão bastante plausível sobre seus resultados, além de também registrar as dúvidas que nos perseguem e que caso não sejam dirimidas a contento podem acabar por nos prejudicar eleitoralmente.

 

 

A intrincada arte da política.

Herdamos a noção original de arte da cultura grega que nos foi transmitida graças à colonização romana que aconteceu nos primeiros quinhentos anos da era cristã e se alastrou por quase todo o mundo.

Diz a tradição que eram seis as artes no tempo de Sócrates, Platão e Aristóteles: arquitetura, escultura, pintura, música, dança, e teatro, que era visto também como literatura, já que o hábito da leitura não era muito difundido e o conhecimento da escrita era bastante restrito. No final do século XIX, com a invenção das máquinas de fazer imagens em movimento surgiu o cinema, tido como a sétima arte, espécie de síntese apoteótica das seis artes primordiais.

No início da civilização humana havia uma grande aplicabilidade das artes no âmbito doméstico. A pintura de vasos, de estátuas, a construção de painéis e assoalhos de mosaico, todas essas coisas eram também consideradas arte, como realmente o são.

Em meio às artes decorativas helênicas existem duas que gostaria de usar como metáfora em minha abordagem de hoje: A arte da joalheria e a arte da tapeçaria.

Comparar metaforicamente a política com essas duas ocupações artísticas me dá oportunidade de voltar a dois dos assuntos que mais prezo: cultura e política.

Para mim o bom político pode ser comparado a um joalheiro ou a um tapeceiro, um artesão na melhor concepção da palavra, aquele que realiza o seu trabalho com conhecimento e arte.

O joalheiro assim como o político é um fundidor que domina o fogo e a forja onde derrete as substâncias com as quais trabalhará. Metais preciosos como ouro e prata. Ele escolhe e lapida as melhores e mais preciosas pedras coloridas. Ele planeja o que fará com antecedência e com cuidado. A improvisação nessa arte é um risco inconcebível. Enquanto você não domina a arte da joalheria, a improvisação é até aceitável, você está treinando, aprendendo, mas quando você coloca a sua oficina e começa o seu trabalho profissional, nada que não seja objetivo e prático é aceitável.

Assim é também em relação à arte da tapeçaria. Os melhores artistas dessa arte eram disputados pelos mais ricos e poderosos a elevado custo. Usando fios de lã, algodão ou outro tipo qualquer de fibra, tecidas em tramas perfeitas, manipulando agulhas, pinças e teares, os tapeceiros colocavam sua arte nos pisos e nas paredes de Atenas e Esparta sem se preocuparem com as divergências que reinavam entre eles.

Um bom tapeceiro poderia criar belas cenas de batalhas, iguais as que encontramos hoje nos museus decorando finos vasos de cerâmica, mostrando deuses, semideuses, heróis e personagens épicos que marcaram a história do povo que nos legou a filosofia, a antropologia, a sociologia e a política, isso sem falarmos da forma republicana de governo e do regime democrático, onde os cidadãos “iguais” e “livres” já decidiam os destinos de suas cidades-estados e de seus pares e escravos através do voto. Ainda hoje é mais ou menos assim.

A análise da história nos traz dificuldades incríveis. Talvez a maior delas seja a compreensão temporal dos fatos. Muita coisa que era comum, banal, simples, há 2.500 anos hoje é inconcebível. Coisas que eram práticas comuns 200 anos atrás não fazem o menor sentido nos dias de hoje. Ações que aconteciam normalmente há 50 anos, hoje caracterizam crimes inafiançáveis.

Em compensação, existem regras básicas que são imutáveis e olhe, não estou falando das leis da física, ciência na qual matemáticos e filósofos egípcios e gregos foram os precursores. Arte do conhecimento na qual romanos e árabes continuaram evoluindo, que ingleses e alemães aprimoraram e que hoje toda a humanidade pode desenvolver e desfrutar delas. Falo das leis básicas da antropologia, misturadas com as da sociologia, combinadas com as da psicologia, que acabam por resultar nas formas com que se apresenta a política, essa joalharia, essa tapeçaria, essa arte de construir “ambientes” onde as pessoas vivem e convivem.

Não falo aqui da política eleitoral e partidária, departamento menor dessa organização intrincada. Falo da política em lato sensu, a arte de conviver em sociedade, em grupo. Arte fundada na capacidade humana de compreensão e aceitação de suas causas, circunstâncias e limitações.

Um joalheiro ou um tapeceiro, assim como um político, quando bons em suas artes, são capazes de executar grandes obras.

O político, para se igualar ao artista, deve, antes de tudo, possuir e saber manejar os instrumentos de sua arte, tais como o raciocínio lógico, a coerência, a sensatez, a coragem, a honradez, a humildade e a sabedoria. Cada uma dessas coisas deve ser usada no momento certo e da forma exata, para que surtam o efeito desejado.

E qual deve ser o efeito desejado como resultado da arte da política?

Em minha opinião, o artista da política, incapaz de fundir joias ou tecer tapetes, incompetente para arquitetar prédios, pintar quadros, esculpir estátuas, compor músicas e cantar canções, coreografar danças ou escrever poemas e peças teatrais, tem como obrigação de artista desenvolver o ambiente onde as pessoas, beneficiárias dessas artes, possam viver em paz e harmonia, com dignidade e respeito.

Escrevendo esse texto eu tento desesperadamente convencer a mim e a você que me lê agora que aquilo que eu busco fazer com afinco e dedicação pode ser incluída na lista das artes humanas. Que a política pode realmente ser vista como a arte de harmonizar a vida das pessoas, fazendo com que elas, as pessoas, possam ter a real oportunidade de buscar e conseguir a tão almejada felicidade.

Posso, com esse texto, parecer ingênuo, mas prefiro ser assim que me juntar aos hipócritas ou aos cínicos.

Que aqueles que detêm, bem como aqueles que buscam o poder saibam que existem pessoas que “pensam”, e que elas estarão sempre preparadas para enfrentá-los… Empunhando as suas artes.

 

A vaidade de não ser

Hoje, depois de 35 anos trabalhando em política – comecei assessorando meu pai na Assembleia Legislativa, no final do governo Nunes Freire – vejo que por um lado, muita coisa mudou, mas constato que muita coisa ainda continua como dantes no Quartel de Abrantes.

Se fosse começar hoje não poderia fazê-lo trabalhando com meu pai. Teria perdido essa oportunidade devido à lei do nepotismo. Hoje jamais “estudaria” numa escola cujos professores eram Sarney, Millet, Pedro Neiva de Santana, Zé Burnet, Alexandre Costa, Bayma Serra, Raimundo Leal, Zé Bento Neves, Gervásio Santos, entre tantos, quase todos mortos.

Os filhos sucederem os pais é coisa comum. Isso acontece faz milênios. Artesãos ensinavam seus filhos a sua arte; os filhos dos escribas aprendiam o oficio dos pais; saltimbancos faziam dos filhos seus sucessores em cantoria, dança, teatro e acrobacia. Antigamente dizia-se que aqueles que não saiam aos seus degeneravam.

Muitos filhos continuam sucedendo os pais nos mais diversos setores da vida. Filhos de médicos seguem a mesma carreira dos pais, filhos de empresários da construção civil constroem com seus genitores, donos de padaria colocam filhos com a mão na massa, comerciantes tem seus filhos lhe ajudando em seus negócios.

Na leva de políticos do final dos anos 70 começo dos 80, havia muitos filhos. Entre eles os filhos de Sarney, Alexandre Costa, Vieira da Silva, Pires Saboia, Artur Carvalho, Nagib Haickel, Albérico Ferreira…

Hoje os filhos são os de Sálvio Dino, Edivaldo Holanda e Lobão; filho de Zequinha e neto de Sarney; Filhos de Pedro Fernandes, Lourival Mendes, Carlos Braide, Fufuca e Rubem Pereira; filhos e neto de Luiz Rocha; Neto de Eugenio Barros, filho de Filuca, sobrinho de Cafeteira, além de uma infinidade de parentes em todos os graus de prefeitos e ex-prefeitos espalhados Maranhão afora.

Seguir os passos do pai não é reprovável em nenhuma cultura, nem em relação a qualquer profissão.

Tenho orgulho de ter começado pelas mãos de meu pai, de ter aprendido com ele as regras básicas de como me portar na vida e na política.

Em 1982, aos 22 anos, fui deputado estadual. Em seguida elegi-me deputado federal constituinte. Depois disso passei um tempo assessorando o então governador Lobão na Secretaria de Assuntos Políticos.

Bem aí, nesse momento, meu pai morreu e eu fiquei por conta própria. Tinha que cuidar de mim mesmo e o que é pior, tinha que cuidar de minha família e dos amigos que ele me legou.

Depois de arrumar a casa, voltei à Assembleia para mais alguns mandatos e então resolvi não mais me candidatar.

Estava desiludido com a política, porém aceitei, sob grande pressão de amigos e correligionários, o cargo de secretário de Esportes do estado.

No começo fiquei meio chateado porque acreditava que essa secretaria não era a que eu mereceria. Imaginava que por ser escritor e cineasta, por ter sido tantos anos deputado e ter excelente trânsito junto à classe política, por ter um projeto audacioso de educação a distância, eu poderia ser mais bem aproveitado na Secretaria de Cultura ou nos Assuntos Políticos ou ainda na Secretaria de Ciência e Tecnologia, quem sabe até na Educação.

Como fui tolo! Como a vaidade nos cega! Não sabia eu que com as dificuldades inerentes à administração pública, pouco ou nada poderia eu fazer naqueles cargos.

Em relação a essas outras secretarias, a pequenina Sedel é muito mais operacional, eficiente e eficaz. Nela as imensas dificuldades financeiras são muito menores que nas outras secretarias. Lá, mesmo com os poucos recursos e os muitos problemas é possível fazer alguma coisa, o que jamais seria possível fazer em outras áreas.

Não é fácil ser gestor público. Você se depara com situações inacreditáveis, coisas insólitas que você jamais pensou pudessem existir ou acontecer. Cito algumas: um determinado projeto de construção prevê uma viga num lugar que se construída impediria a passagem das pessoas, o que gera grande atraso; uma chuva derruba um muro e a licitação para reconstruí-lo demora quase o tempo de um parto; um cidadão urina na pia de um dos banheiros do estádio e o secretário é cobrado pela falta de educação do torcedor; pessoas de certa comunidade obstruem a saída da drenagem de uma praça esportiva fazendo com que a água emposse e cause grande prejuízo; vândalos quebram os banheiros de outra praça esportiva no dia de sua reinauguração; os dirigentes de certa federação e de importantes agremiações esportivas se desentendem, fato que prejudica o esporte maranhense que vem passando por uma boa fase.

Vez em quando fico esmorecido. Tenho vontade de largar tudo e tocar minha vidinha, mas teimoso, acabo continuando.

Na semana passada, almoçando com um querido amigo, ele na tentativa de me seduzir a voltar a disputar mandato eletivo, disse-me uma coisa que me deixou comovido. Disse que o bom em relação a minha pessoa é que onde quer que ele chegue e fale em mim, as pessoas dão crédito. Não querendo desmotivá-lo nem tão pouco ser deselegante, respondi-lhe dizendo que atualmente a minha maior vaidade é resistir aos insistentes convites de amigos e correligionários para que eu volte a ser candidato a deputado.

Na verdade, por enquanto ainda não apareceu e acho que não irá aparecer o motivo que me faria deixar o conforto de minha vida atual.

Além dos projetos de relativo sucesso frente à Sedel, há a paixão com que tenho me dedicado ao trabalho de descobrir, resgatar, catalogar e preservar fotografias e filmes antigos sobre nossa terra e sua gente, além do prazer que tem sido a possibilidade de realizar filmes sobre importantes personalidades maranhenses como Haroldo Tavares, Terezinha Rêgo, Eliezer Moreira, os membros da AML, os artistas plásticos do Maranhão, nossos radialistas, nossos fotógrafos…

Esses são tempos difíceis, mas extremamente felizes. Pra que mudar isso!?

 

Vinte anos sem Nagibão

Vinte anos atrás, no dia sete de setembro de 1993, morria na cidade de Coroatá, depois de participar das comemorações do dia da Independência do Brasil, o então presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Maranhão, deputado Nagib Haickel, meu pai.

Em meio à comoção em torno de seu falecimento, lembro que respondendo à pergunta de um repórter, disse que a sensação que tinha naqueles dias era a de que ele havia saído em uma grande viagem, pois sua presença era tão marcante que a morte parecia não apagar.

Hoje, passados vinte anos, essa sensação sobre a suposta viagem que ele estaria fazendo continua presente. Vez em quando sonho que ele telefonou, mandou telegrama, cartão postal ou escreveu uma carta, quase sempre falando sobre o assunto do momento pelo qual passamos. Outro dia sonhei que ele estava em Paris e mandou-me dois postais, um da Torre Eiffel onde dizia, “Só quem tem coragem de sonhar constrói torres…” e outro da Ponte Alexander III, onde terminava a frase: “… e pontes. Que nunca lhe falte coragem de sonhar, pois se seus sonhos forem justos e verdadeiros, eles se realizarão”.

As pessoas continuam falando sobre ele com a mesma desenvoltura, e olhe, não estou me referindo às pessoas da nossa família. Onde quer que eu chegue e alguém fale sobre ele é sempre num tempo verbal que não deixa lá muito claro que está falando de um personagem já falecido há vinte anos.

Os fatos em torno dele são tão curiosos e saborosos! Guardam o frescor das frutas que ele tanto apreciava e fazia questão de servir em seu gabinete na ALM, aquele mesmo gabinete que ele mandou retirar as portas, como já havia feito antes em sua loja a Meruoca, na intenção de dizer aos amigos, fregueses e usuários que ele estava sempre de portas abertas para receber a todos, sem distinção de sexo, raça, religião, classe social ou preferência política e ideológica.

Para quem não sabe, Nagib Haickel era filho de imigrantes libaneses e nasceu na cidade de Pindaré-Mirim em dezembro de 1933. Foi comerciante e político e em suas duas atividades sobressaiu-se por sua imensa criatividade e pela maneira sempre alegre e extrovertida de ser.

Costumava brincar dizendo que só cursara até o primeiro ano do curso médio de contabilidade, mas que se formara na universidade da vida, tendo estudado com alguns dos professores mais gabaritados de seu tempo.

Em sua escola de comércio teve como mestres Wadi, Eduardo e César Aboud. Além deles teve seus pais Elias e Maria, o primeiro, mestre na matéria correção e seriedade nos negócios e a segunda, catedrática na arte de conquistar o freguês e vender suas mercadorias. Na escola dos Aboud se vangloriava de seus colegas de turma, Alberto Aboud e William Nagem, enquanto na escola dos Haickel se mirava nas primas Loury e Celeste.

Na política, atividade posterior ao comércio, pela qual se apaixonou de igual modo e com a mesma intensidade, ele deve ter tido mais dificuldade de aprendizado, pois entrou nela por uma porta lateral, levado pelas mãos de seu irmão Zé Antonio, um ano mais velho que ele, que resolveu em 1965 se candidatar a prefeito de sua cidade, na tentativa de fazer chegar até lá o então Novo Maranhão que apregoava o deputado e candidato a governador, José Sarney. Pindaré passou a ser um dos melhores municípios da região.

Na política também aprendeu tudo pelo ensinamento prático. Teve poucos mestres entre os quais se destacam o próprio Sarney, Alexandre Costa e Clodomir Milet.

Ele foi contaminado pelos micróbios concernentes às atividades que desenvolveu de forma total e definitiva. Era e é impossível imitar ou até mesmo tentar acompanhar o ritmo do comerciante ou do político Nagib Haickel.  Eu que o diga, pois foi exigido de mim que eu tentasse igualá-lo, mas tenho certeza que ele, no fundo, sabia que eu não conseguiria. Acredito que ele tinha sensibilidade suficiente para saber que eu não deveria tentar imitá-lo ou mesmo acompanhá-lo. O que ele queria no fundo era dividir comigo um pouco de sua arte e de seu conhecimento, para que ao meu modo, do meu jeito pudesse utilizar seus ensinamentos, o que pode parecer pouco, mas não é.

Meu pai teve muitos apelidos. Em casa, pelo irmão e irmãs era chamado de “seu Ziba”; Na beira do rio Pindaré, pelos amigos, era conhecido por “Tijibú”, alusão a um touro bravo; Na Chames Aboud e na Fábrica Santa Isabel, pelo jeito irrequieto e brincalhão, “Nagib Doido”; Nas ruas alguns o chamavam de “Carcamano”, por sua ascendência libanesa; Na política, pelo fato de distribuir toneladas de bombons para as crianças, “Nagib Bom-Bom”; Depois de algum tempo, todos que o conheciam ou até quem nunca o tinha visto, o chamava simplesmente de “Nagibão”.

Aqui, nesse restrito espaço de jornal é impossível tentar desenvolver um texto que possa resumir a história de vida de uma pessoa, ainda mais sendo de uma tão controversa e polêmica quanto Nagib Haickel.

Só para você ter uma ideia, comecei a fazer um filme sobre ele, para apresentar agora. O filme que teria vinte e seis minutos passou para cinquenta e dois e agora eu e meus colaboradores chegamos à conclusão de que o filme não poderá ser realizado se não em quatro episódios de vinte e seis minutos, pois são tantos e tão bons depoimentos sobre os fatos de sua vida que não podemos deixar de mostrá-los.

Há uma coisa que já disse antes e que gostaria de repetir agora, pois acredito ser o fato mais importante da vida de meu pai.

Dentre tudo que ele legou a mim e a meu irmão, três são os patrimônios mais valiosos: a oportunidade de termos nascido em uma família amiga e carinhosa; A escolha de uma mulher maravilhosa para ser nossa mãe, bem maior que nós temos; e uma legião de amigos verdadeiros e sinceros, cultivados com lealdade e dedicação.

Meu pai tinha duas frases que usava como roteiro de sua vida. Uma simbolizava seu trabalho e sua dedicação: “O fácil já fizeram; o difícil se faz logo; o impossível demora um pouco mais”. A outra representava seu compromisso, sua coragem, sua honra e sua lealdade: “Dou um boi para não entrar numa briga, mas uma boiada para não sair dela”.

Reconhecido como um homem extremamente generoso, ele foi vitima do órgão que o representava mais fielmente, o coração. Seu coração metaforicamente grande cresceu fisicamente e tirou-lhe a vida três meses antes dele completar sessenta anos.

Se você me perguntasse agora quem foi meu pai, eu poderia responder-lhe simplesmente como ele faria: “Caboclo do Vale do Pindaré, acostumado a comer Tapiáca e Mandubé”, mas ficaria faltando muito para desenhá-lo com mais precisão, então eu lhe digo, leia seu livro de cabeceira, “Como Influenciar as Pessoas e Fazer Amigos” de Dale Carnegie, quem sabe assim você possa descobrir quem foi Nagib Haickel. 

 

Perfil

“Poeta, contista e cronista, que, quando sobra tempo, também é deputado”. Era essa a maneira como Joaquim Elias Nagib Pinto Haickel aparecia no expediente da revista cultural Guarnicê, da qual foi o principal artífice. Mais de três décadas depois disso, o não mais, porem eterno parlamentar, ainda sem as sobras do tempo, permanece cronista, contista e poeta, além de cineasta.

Advogado, Joaquim Haickel foi eleito para o parlamento estadual pela primeira vez de 1982, quando foi o mais jovem parlamentar do Brasil. Em seguida, foi eleito deputado federal constituinte e depois voltou a ser deputado estadual até 2011. Entre 2011 e 2014 exerceu o cargo de secretario de esportes do Estado do Maranhão.

Cinema, esportes, culinária, literatura e artes de um modo geral estão entre as predileções de Joaquim Haickel, quando não está na arena política, de onde não se afasta, mesmo que tenha optado por não mais disputar mandato eletivo.

Cinéfilo inveterado, é autor do filme “Pelo Ouvido”, grande sucesso de 2008. Sua paixão pelo cinema fez com desenvolvesse juntamente com um grupo de colaboradores um projeto que visa resgatar e preservar a memória maranhense através do audiovisual.

Enquanto produz e dirigi filmes, Joaquim continua a escrever um livro sobre cinema e psicanálise, que, segundo ele, “se conseguir concluí-lo”, será sua obra definitiva.

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