Alexandre, Graciliano, Sebastião e Eu.

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Se meu pai ficou conhecido por ter sido um sujeito alegre, que aonde chegava distribuía bombons e guloseimas, agitando os ambientes, contagiando as pessoas com sua energia e vibração, minha mãe é reconhecida por uma frase e uma atitude que costuma dizer e demonstrar a todos que tem o privilégio de conhecê-la um pouco melhor: “Nasci pra ser feliz”.

Eu sou isso. Filho da alegria avassaladora de meu pai e da predestinação à felicidade de minha mãe.

Falo isso como intróito para nossa prosa de hoje. Para poder dizer a você que reserva seu precioso tempo, capital inicial do investimento maior de sua vida, em ler o que esse humilde escriturário transporta para o papel. Para dizer que a busca da felicidade e o cultivo da alegria, em si só, já é a consumação de ambas.

Pois bem. Já comentei em outra oportunidade que tenho praticado leitura sem o uso da visão. Para realizar esse prazer tenho usado a audição. Explico. Comprei mais de cinquenta títulos de obras literárias importantes, não em papel, mas em meio digital, CDs gravados no formato MP3, onde grandes leitores, narradores exímios, atores de imenso gabarito lêem e interpretam o que os grandes gênios da literatura brasileira e mundial produziram.

São textos de escritores clássicos que vão dos mais antigos como Sócrates, Platão e Aristóteles, passando por alguns menos antigos como Sun Tzu, Maquiavel e Thomas More, indo a não tão antigos como Machado de Assis, Graciliano Ramos e Nelson Rodrigues até chegarmos aos atuais como Laurentino Gomes, Elizabeth Gilbert e Sara Gruen.

Agora mesmo estou ouvindo em meu carro o CD que contém o Livro “Histórias de Alexandre”, personagem em quem o genial Chico Anísio se inspirou para criar o seu Pantaleão, mentiroso contumaz que tinha em sua mulher Terta, a cúmplice e avalista de seus despautérios.

Meu atual motorista, Marcelo, que é irmão daquele outro motorista de quem já escrevi sobre ele, Moraes Neto, meu braço direito, meu Sancho Pansa, que faleceu e quebrou minhas pernas… Esse dito Marcelo, “se ri sozinho” ouvindo os causos de Alexandre.

Graciliano usa nessas histórias de toda a autoridade para desenhar um sertão que ele conhece como poucos. Aqueles que conhecem o sertão melhor que ele, não conhecem a arte de narrar e descrever tamanhas belezas e tamanhos horrores.

Em meio a tudo isso, cometi um ato de suprema sabedoria ao ligar para o meu mestre Sebastião Moreira Duarte para que ele me tirasse uma dúvida. O que seria o substantivo “copiar” a que tanto o velho Alexandre se refere em suas prosas com sua mulher Cesária, sua afilhada, a benzedeira Das Dores, seu Libório cantador de emboladas, Gaudêncio, o curandeiro, e o cego Preto Firmino.

Pelo contexto das histórias eu imaginava o que deveria ser o tal copiar, um determinado espaço da casa. Mas qual exatamente? Mestre Sebastião tirou a dúvida. Copiar é uma espécie de latada, uma varanda na frente da casa.

Ao escutar Alexandre pelas palavras que Graciliano colocou em sua boca, depois de ouvir as anedotas do dia a dia do sertanejo nordestino, chego a perceber lá no fundo, um sopro de Machado de Assis. Sebastião me disse que nele também existe muito de Eça de Queiroz.

Eu seria incapaz de reproduzir aqui, pra você, a aula que ganhei sobre a vida no sertão e sobre a literatura de Graciliano e de outros tão grandes quanto ele, em apenas quinze minutos de conversa telefônica com aquele que é, na opinião de muita gente importante e conhecedora, Jomar Moraes entre eles, a pessoa mais culta do Maranhão na atualidade: Sebastião Moreira Duarte.

Sebastião foi meu professor de filosofia no início de meu curso de direito na UFMA. Depois continuamos amigos e ele continuou me ensinando pela vida afora. Hoje, quem poderia imaginar, que eu, filho de um homem descaradamente alegre e de uma mulher predestinada a ser feliz, seria confrade na AML deste “despotismo” de cultura.

Não se assuste. Não estou insultando o mestre filósofo. A palavra “despotismo”, também muito usada por Graciliano em boca do major Alexandre, significa simplesmente exagero.

Em “Histórias de Alexandre” o autor de “Caetés, São Bernardo, Vidas Secas e Memórias do Cárcere” demonstra de forma definitiva a sua competência em contar histórias e seu humanismo.

Por causa da audição deste livro pude mais uma vez comprovar não só o valor da literatura e da cultura que ela transporta e distribui, mas principalmente que Sebastião Moreira Duarte é o homem mais culto do Maranhão.

Por tudo isso, voltando ao primeiro parágrafo desse texto, comprovo que a alegria que meu pai me deixou de herança e a perseverada felicidade que minha mãe em vida me legou, juntamente com os amigos que tenho, são meus bens maiores.

 

3 comentários para "Alexandre, Graciliano, Sebastião e Eu."


  1. Marcio Costa

    Gostaria que tivessemos mais escritores como você.
    Muito bom esse texto, nos faz viajar. Obrigado!

  2. Jairo Palhano

    Excelente texto, parabéns! Só uma dúvida, onde compraste as obras em CD? Quero muito adquiri-las.
    Até mais!

    • Joaquim Haickel

      Pela Internet! Universidade Falada… Coloca no Google audiobook que vai aparecer um montão…

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