Para meu amigo Bob

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Já havia escrito uns quatro parágrafos sobre um outro assunto ao qual voltarei num domingo adiante, quando me ligaram dizendo que meu amigo Roberto Duailibe Cassas Gomes havia falecido.

A partir dali a minha crônica para hoje iria mudar de direção. Passaria a ser, pelo tom triste e saudoso do adeus, um réquiem, mas seria principalmente um instrumento de catarse, de enfrentamento de alguns de meus maiores defeitos, de algumas de minhas maiores fraquezas.

Como diz o título, vou falar-lhe um pouco sobre meu amigo Bob.

Nasci 53 dias antes dele. Eu em dezembro de 1959 e ele em fevereiro de 1960.

Talvez tenhamos vindo ao mundo pelas mãos de médicos diferentes, em hospitais diferentes. Mas logo iríamos nos encontrar, pois nossos pais se conheciam. Quase todos se conheciam em São Luis durante os anos 60 e 70.

Não me lembro ao certo como e onde nos conhecemos. Acho que foi em um aniversário na casa de Daniel Aragão, amigo e sócio de meu pai. Tio Daniel morava no Apeadouro. Tia Oneide, sua viúva, ainda mora lá.

Uma tia de Roberto morava em frente e as famílias se frequentavam. Deve ter sido assim. A primeira coisa que soube sobre ele é que era neto do dono da Cola Jesus. Isso era o máximo.

O certo é que crescemos juntos. Convivíamos nas aulas de judô, nas mesas de ping-pong, nas escolinhas de basquete, nas peladas de futebol, nos jogos de vôlei, nas quadras de tênis, tanto no Lítero como no Jaguarema.

Lembro de uma época em que meu pai era um grande distribuidor de bebidas, em especial da Cola Jesus. Algumas vezes me levava com ele até a fábrica que ficava ali no Filipinho, perto de nossa casa, no Outeiro da Cruz. Muitas dessas vezes encontrei com Roberto por lá. Uma de nossas maiores diversões era tirarmos as garrafas de refrigerante das esteiras de transporte, quando elas saiam da máquina, antes de serem tampadas.

Escalávamos os engradados, brincávamos de esconde-esconde e de “mãos ao alto”. A vida parecia que não nos traria até aqui.

Roberto sempre foi uma dessas pessoas que você conhece e automaticamente gosta.

O tempo foi passando e nossas vidas foram naturalmente seguindo seus cursos. Nos últimos anos não nos víamos mais com tanta assiduidade.

A cidade, graças a Deus, cresceu. Nós, infelizmente crescemos. Mas Roberto foi um daqueles que conseguiu preservar em algum lugar dentro de si o garoto alegre e feliz que ele sempre foi. Esse trabalho de preservação é que faz com que pessoas como ele se destaquem por onde quer que passem.

Encontrei-o certa vez no saguão de aeroporto. Conversamos, matamos a saudade, colocamos os assuntos em dia. Passávamos tempos sem nos ver, mas sempre que nos encontrávamos era como se tivéssemos nos visto ontem. Era como se ele soubesse que eu havia me separado e casara novamente, que minha filha acabara de chegar de um ano de estudos em Londres. Era como se eu soubesse a quantas ia a sua vida. Éramos verdadeiramente amigos.

Soube algum tempo atrás que Bob estava doente. Torci para que o caso fosse fácil de resolver. Quis me convencer que seria.

É aqui que começa o meu drama. Devo reconhecer que sou um grande covarde, desses que não consegue presenciar a dor de quem ama. Desse defeito me penitencio diariamente. A dor proveniente disso é resultado da vergonha que sinto, de minha impotência, de minha incapacidade de conviver com o sofrimento de alguém com quem partilhei momentos tão alegres e tão felizes.

O egoísmo que transparece nessa covardia eu assumo. Mesmo que não admita para mim outro tipo de egoísmo ou outra forma de covardia. Não fujo da luta. Fujo do luto. Não abandono os amigos, da mesma forma que não ambiciono para mim coisas dos outros ou me apego demasiadamente a bens materiais.

Quando soube que Roberto estava muito mal, meu coração ficou pequeno. Mesmo diminuído, bloqueou minha garganta. Minhas mãos gelaram.

Por um momento me lembrei de seu sorriso juvenil e ele, em minha mente foi tomando o aspecto da doença. Fechei os olhos para não ver meu pensamento. Sacudi a cabeça na tentativa de fazer passar a imagem que teimava em ser projetada em minha cabeça. Preferi outras: Ora era ele de kimono, ora jogando basquete com suas pernas arqueadas, ora com a raquete de tênis na mão, ora simplesmente brincando. Sempre sorrindo.

Quanto a mim, que vivo também sempre risonho, não consegui escapar do choro enquanto aqui catava milho e desenhava essas palavras.

Não tive coragem de ir ver Roberto doente. Perdoe-me tia Zezé, tio Eli, Sham, Roberta… Nisso sou um fraco. Apesar de tê-lo visto morto, quero preservar a antiga lembrança de meu amigo Bob, de nossa infância e de nossa adolescência.

Gosto de pensar que esse fraco aqui se torna forte por preservar impressa, de forma definitiva no jornal de minha existência, as crônicas de meu tempo que contam as histórias de pessoas como Roberto.

Se existir um céu, deve algo ser parecido com um imenso ginásio de esportes e tenho certeza que esse garoto, uma hora dessas, está lá numa das primeiras filas, torcendo para que quando chegue a minha hora de comprar o meu ingresso para o grande evento, consiga um lugar no mesmo setor que ele, que certamente é um dos melhores.

 

5 comentários para "Para meu amigo Bob"


  1. Marcia Chaves

    Que texto lindo! Comovente.
    Obrigada.

  2. Rodrigo Reis

    Tive o enorme prazer de conviver com o Roberto quando trabalhávamos na Escola Marista e sempre recordo-me do seu jeito competente, alegre e amigo de ser. Em outra dimensão, com certeza o céu é o melhor lugar para vc continuar com esse seu jeitão. Um forte abraço.

  3. PAULO DE TARSO SOUSA FONSÊCA

    AMIGO JOAQUIM VC FOI MUITO FELIZ NA HOMENAGEM A NOSSO AMIGO ROBERTO, EU O CONHECIA MUITO, FOI MEU JOGADOR DE BASQUETE NO COLEGIO DOM BOSCO, ERA UM CARA ESPETACULAR, RADIAVA ALEGRIA E SIMPATIA.
    SEUS PAIS DUAS PESSOAS FORMIDÁVEIS, SEU ELIR E DONA ZÉZÉ.
    VC DISSE COISAS BONITAS A RESPEITO DE ROBERTO E POR ISSO PARABENIZO VC PELAS BELAS PALAVRAS DE CARINHO E AMIZADE COM VC TINHA COM NOSSO AMIGO.

    UM GRANDE ABRAÇO.

    PAULO DE TARSO SOUSA FONSÊCA

  4. Monica Gobel

    Que lindo Joaquim!!vc como sempre emocionando seus leitores com suas palavras!!Tive prazer de conviver com Roberto ultimamente em reunioes de condominios. Um grande amigo.

  5. Carlos Silva

    Tive o prazer e orgulho de trabalhar com Roberto e sua esposa,Fernanda, em Cururupu, no BB. Era muito competente e brincalhão. Que Deus o tenha na Eternidade.

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