Fenix

A árvore da minha família vem se desfolhando desde 1954, quando meu avô Elias se foi, sem que pudéssemos, nós seus netos, conhece-lo. Vovó Maria nos deixou em 1969 e àquela altura eu me achava o seu neto predileto.
As folhas da árvore da nossa família continuaram a cair: tia Lizete, que não cheguei a conhecer; tio João, o mais jovem dentre os primos de meu pai; tio “Sinhô” do qual só me lembro de sua enorme pança; tia Alzira, nossa tia-avó, santa criatura; tia Josefina, guerrilheira incubada, culta, espírito livre, poema em forma de mulher libanesa; tio Milhem, único nascido no Líbano. Meu pai, Nagib, em 93, desfolhou-se; tio Aziz, o magnífico. Se esse homem tivesse tido mais estudo seria o nosso Rockfeller; tia Norma, a Ava Gardner Haickel, artista e bela; Tia Celeste deixou-nos sem sua visão critica; tio Miguel, o único fisicamente parecido com meu pai; tia Rosinha, que sempre morou conosco e morreu solteira; tia Antoninha, uma batalhadora.
Agora, sexta-feira, dia 12, o mais elétrico e enérgico dos meus tios, foi ter com seus irmãos e primos. Agora foi a vez de “Zantão”, José Antonio Haickel, ex-prefeito de Pindaré-Mirim por duas vezes, somando-se dez anos à frente daquele município. Um dos primeiros políticos do interior do Maranhão a defender a mudança de estilo e forma de se fazer política em nosso estado e defensor de primeira hora da candidatura de José Sarney para o governo em 65.
As diferenças entre meu pai e tio Zé Antonio eram marcantes: Zantão tomava uma cervejinha de vez em quando e fumava duas carteiras de cigarro por dia. Meu pai nunca bebia ou fumava. Meu pai era gordo glutão enquanto tio Zé Antonio era um glutão magérrimo. Meu pai era Moto, Zantão era maqueano doente. Meu pai era moderado em comparação a tio Zé Antonio.
Além de meu tio, Zantão me batizou e dizem que quem põe a mão põe as virtudes, e uma das suas maiores virtudes era a lealdade.
Sagitariano de cinco de dezembro (junto com Lobão e Pipoca), tio Zé Antonio era um sonhador, um aventureiro de capa-e-espada. Leitor voraz, lia dos gibis que adorava a enciclopédias. No começo dos anos 80 fez vestibular para história e passou. Cursou três meses e largou, “já sei o bastante para aprender muito mais aqui, na prática, fazendo a história”, disse-me na época.
A morte é um fato a mais em nossas vidas, um dia todos teremos uma. O que mais me preocupa agora é que a minha família, de certa forma está morrendo, acabando. A minha e quase todas as antigas famílias que eu conheço. Os mais velhos vão morrendo e os mais novos não convivem entre si, vão se distanciando. Os tempos são outros e os compromissos diferentes nos separam. O mundo contemporâneo exige o seu preço e muitas das vezes é família num sentido maior (irmãos, primos, tios e sobrinhos) que se afastam, vivem na mesma cidade mais em mundos diferentes.
No sábado passado fui, eu, meu irmão Nagib, meus primos Eduardo e Socorro, visitar “Zantão” em sua casa. Conversamos sobre a guerra e sobre política, comemos quibes e esfirras, brincamos e contamos piadas e quando saímos, tivemos um pensamento comum, quando aquele nosso tio se fosse, nossa família estaria mais fraca, mais distante.
O único ascendente homem que nos resta é tio “Zuca” e é hora de dedicarmos a ele toda nossa atenção antes que a família acabe. É hora de todos, não só os Haickel, pensarmos nisso, é hora de reforçarmos o espírito familiar, o convívio de irmãos e primos, pois é na família que buscaremos e é nela que deveremos encontrar as principais forças para superarmos qualquer dificuldade.
Os nossos ascendentes que sobraram, estão todos com mais de 70 anos, e dentre eles, tia “Lôry”, a fada madrinha de meu pai, tem lutado bravamente por sua vida já há algum tempo, depois dela só restarão minhas tias Mirtes, Violeta e Muriel e aí os primeiros Haickel terão acabado. A responsabilidade de não deixar nossa família morrer agora é toda nossa, da 2ª e da 3ª geração de Haickel do Brasil. Que a morte de “Zantão” sirva para fortalecer e fazer reviver a nossa família.

1 comentário em “Fenix”

  1. Meu pai que sempre foi politicamente contra teu pai e teu tio, sempre reconheceu o grande valor tanto de Nagibão quanto de Zé Antonio. Ele dizia que Pindaré era um município pobre Mas que em todo povoado por menor que fosse tinha estrada, água, luz e escolas e que os chefes políticos de Pindaré, tanto de um lado quanto de outro, procuravam fazer as coisas da maneira mais correta e acertada, e ele dava o exemplo de Zé Antonio, que foi três vezes prefeito e saiu pobre da prefeitura, não roubou nada, e que se teu pai, o Nagib, era rico porque ele era um sujeito virador, um trabalhador incansável.
    Hoje eu moro em São Luis e vejo que tu és, um dos melhores deputados do nosso estado, em muitos aspectos, muito melhor que teu pai. Mas eu não consigo entender! porque tu não trabalhas no Pindaré, nossa região precisa de bons políticos como tu e não os que tem por lá.

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Perfil

“Poeta, contista e cronista, que, quando sobra tempo, também é deputado”. Era essa a maneira como Joaquim Elias Nagib Pinto Haickel aparecia no expediente da revista cultural Guarnicê, da qual foi o principal artífice. Mais de três décadas depois disso, o não mais, porem eterno parlamentar, ainda sem as sobras do tempo, permanece cronista, contista e poeta, além de cineasta.

Advogado, Joaquim Haickel foi eleito para o parlamento estadual pela primeira vez de 1982, quando foi o mais jovem parlamentar do Brasil. Em seguida, foi eleito deputado federal constituinte e depois voltou a ser deputado estadual até 2011. Entre 2011 e 2014 exerceu o cargo de secretario de esportes do Estado do Maranhão.

Cinema, esportes, culinária, literatura e artes de um modo geral estão entre as predileções de Joaquim Haickel, quando não está na arena política, de onde não se afasta, mesmo que tenha optado por não mais disputar mandato eletivo.

Cinéfilo inveterado, é autor do filme “Pelo Ouvido”, grande sucesso de 2008. Sua paixão pelo cinema fez com desenvolvesse juntamente com um grupo de colaboradores um projeto que visa resgatar e preservar a memória maranhense através do audiovisual.

Enquanto produz e dirigi filmes, Joaquim continua a escrever um livro sobre cinema e psicanálise, que, segundo ele, “se conseguir concluí-lo”, será sua obra definitiva.

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