Um amor maior.

16comentários

Já falei pra vocês de meu tio Samuel. Contei-lhes sua história, do tempo em que foi prisioneiro de guerra em Darchau. Ele, vez por outra, contava a mesma história duas vezes no mesmo dia, mas com essa história foi diferente, esta ele só me contou uma única vez, pouco antes de ficar doente e morrer, e pela forma como me contou, deduzi que ele nunca a havia contado pra ninguém.

Darchau foi um dos primeiros campos de concentração implantados após a ascensão de Hitler. Localizado nos arredores de Munique, antes da guerra, em 1933, servia para “excluir” os inimigos do novo regime, comunistas e monarquistas entre eles. Quando tio Samuel chegou por lá, havia um grupo de ricos judeus bávaros que eram uma espécie de clã do campo. Permaneceu assim até a “solução final”, operação nazista para exterminar definitivamente todos os judeus da Alemanha e da Europa.

Samuca me contou que conheceu muito de perto três judeus daquele clã. Dois homens, Daniel e Willy e uma mulher, Lena. Os dois eram irmãos e ricos industriais em Munique que tiveram seus negócios destruídos pela nova realidade política do país. Lena era violoncelista da Filarmônica da capital da Baviera e filha de um conceituado casal de músicos da antiga Orquestra Kaim. Conheceram-se quando eram crianças, cresceram juntos, compartilhando os mesmos sonhos e os mesmos gostos pela arte e pela vida.

Daniel, mais sensível que Willy, combinava mais com o espírito sonhador de Lena. E como não poderia deixar de acontecer, os dois tiveram um tórrido romance na juventude, coisa que não foi adiante, por causa do “espírito indomado” dele. Segundo Samuca, Daniel era um dínamo, de uma energia invejável. Mesmo passando as privações do campo, ainda mantinha a vitalidade através do seu privilegiado intelecto. Willihellm era diferente. Mais frio e calculista, mantinha-se bem à base do bom relacionamento com o mercado negro do campo.

O romance de Daniel e Lena ia e voltava como uma valsa de Strauss, mas era intenso como a Grande Fuga de Beethoven.

Lena era um espírito livre, uma daquelas mulheres à frente de seu tempo. Queria o que queria e pronto. Ela era apaixonada por Daniel e sabedora do amor dele, que achava ser um amor temeroso, mas ela queria era um amor temerário. Ela então resolve deixá-lo e vai embora para Berlin. Anos mais tarde, ao voltar para Munique, encontra-se com Willy em uma festa. Eles dançam e bebem, bebem e dançam. Cedem aos impulsos mais primordiais e vão passar a noite juntos, em uma cabana de caça da família dele, num lugar próximo onde mais tarde eles ficariam presos. Darchau. Ao chegarem à cabana, notaram que alguém havia estado ali, havia vestígios de fogo, utensílios de caça recentemente usados. Não se preocuparam. Passaram uma noite maravilhosa de amor, só interrompida pela chegada, já de manhãzinha, de três caçadores, entre eles Daniel. Ao ver os dois juntos, o irmão mais velho, ficou com o coração partido, mas não acusou o golpe. Fez como se nada tivesse acontecido e nunca tocou no assunto com nenhum dos seus dois maiores amores. Seu irmão Willy e Lena, a mulher a quem amava.

Semanas depois, Willy cansará de Lena, ela não era mesmo o seu tipo, e começou a ignorá-la. Foi aí que ela entendeu tudo. “Pode-se fugir de um amor, mas não se pode forçar alguém a nos amar. Por isso dever-se-ia valorizar o que se tem, mais do que aquilo que simplesmente queremos ter”.

Em Darchau aconteceram coisas terríveis. Talvez não tão terríveis quanto em Auschwitz, mas, em compensação, em Darchau aconteceu uma coisa maravilhosa também.

Numa manhã de outono os guardas separavam pessoas para mandar para campos de extermínio e entraram no alojamento onde estavam Daniel, Willy e Lena. Um soldado escolhia quem ficava e quem embarcaria no trem. Passou por um grupo e escolheu os mais fracos e ao aproximar-se dos três, separou Lena. Foi quando Daniel segurou no braço do soldado, olhou nos seus olhos e como se o hipnotizasse, deu um passo à frente e foi no lugar dela. Ao ver aquilo Willy se desesperou. Desde que se entendia por gente vivera ao lado do irmão, ele era tudo que lhe restava. Então, correu até o sargento com quem negociava no mercado negro tentando comprar a vida do irmão e como não conseguirá, trocou a sua própria pela de outra pessoa. Um jovem e raquítico grego chamado Samuel que passava nessa hora na fila, à sua frente.

Poucas semanas depois Darchau foi libertada e tanto Samuel Gobel quanto Lena Bercovitch, foram salvos pelos aliados.

Daniel e Willihellm foram levados para a Tchecoslováquia e nunca mais se soube deles.

Naquele dia fiquei sabendo que achar Daniel e Willihellm Lowestein, foi um dos motivos que levou tio Samuel a trabalhar para Simon Wiesenthal no tráfico de pessoas, da Cortina de Ferro para o Ocidente.

16 comentários para "Um amor maior."


  1. Anônimo

    “Pode-se fugir de um amor, mas não se pode forçar alguém a nos amar. Por isso dever-se-ia valorizar o que se tem, mais do que aquilo que simplesmente queremos ter”.
    Lógico,sensato e difícil.

  2. Anônimo

    Ah não!!!!!! Tio Samuca de novo ????????? merecemos novidades. Dessa forma os mortos não descansam em paz.

    Resposta: Tem novidade sim. Aprenda a ler que você vai adorar!

  3. Anônimo

    Bonito texto…sensível e com um toque de sabedoria.Não me sento muito a vontade pra comentar pq parece ser um recado pra mim…
    “Pode-se fugir de um amor, mas não se pode forçar alguém a nos amar. Por isso dever-se-ia valorizar o que se tem, mais do que aquilo que simplesmente queremos ter”.
    Amor temeroso, temerário…qualquer um vale, contanto q seja verdadeiro e q traga paz, segurança e bem estar pro ser amado e pra quem tem o dom de amar…
    O meu amor foi temerário, o seu(se é q se pode dizer q ele existiu) foi temeroso…grande desencontro de almas….

  4. Mário Jorge

    Linda história. Às vezes vemos coisas no cinema que pensamos estarem tão distante de nós, quando na verdade algumas delas estão bem pertinho.

  5. Douglas Ferreira Menezes

    Gosto muito das coisas que o senhor escreve. São sempre historias cheias de emoção e sentimento, me parecem coisas sinceras e verdadeiras, de onde podemos sempre tirar um ensinamento. O pastor de nossa igreja uma vez leu uma crônica sua em um retiro que fizemos, muito bonita, falava de o amor de pai. Parabéns.

  6. karla Maragreth pereira

    uma linda e admiravel história, q sirva de lição para muitos.Recordar uma história como essa é mais do quer viver é ensinar a viver.

  7. Anônimo

    “Pode-se fugir de um amor, mas não se pode forçar alguém a nos amar. Por isso dever-se-ia valorizar o que se tem, mais do que aquilo que simplesmente queremos ter”.
    Isso foi uma indireta bastante direta para mim. Muito difícil de aceitar e conviver com essa dor no meu peito.

  8. Tatá

    Quem é essa moça que foi abandonada por te????? coitada como ela ainda está chorosa.

  9. Pr. da Universal

    Essa foi a primeira vez que li algo bom, seu! (?)
    Td blz, e o Azenha vc nao vai mais falar nada dele?

  10. Anônimo

    Essa história deveria fazer parte de um acervo, visto que é uma das mais tragicas passagem da história da humanidade. A Segunda Guerra foi cruel, pois morreram muitos inocentes.

    Prof. Caio

  11. Carlos santos

    eAcho que a tatá nao entendeu o texto…ficla claro pra nós leitores q o autor é o personagem que ama.O texto é feito pra expressar o seu amor pela mulher.Em nenhuma parte ele fala q a abandonou, pelo contrário…
    Seu amor é temeroso e incompreendido por ela que queria algo mais forte.
    estou certo deputado?

    Tudo que o senhor escreve é de muito bom gosto.
    Parabéns pro senhor e pra mulher amada.

    Resposta: As vezes histórias antigas servem para esclarecer histórias atuais.

  12. Luis Augusto

    Deputado Joaquim, acabei de ler o blog do Luiz Carlos Azenha e vi a matéria onde ele apresenta uma entrevista feita com o senhor e mesmo ficando claro pra mim que o jornalista foi bastante tendencioso e tenha tentado lhe deixar mal, o senhor deu um show de coerência, coisa que é sua marca registrada. Fiquei orgulhoso de ter o senhor como meu representante.

  13. Amaury Provelatto

    Lendo o site do Azenha, achei o link para o seu blog. Fiquei muito surpreso ao descobrir que no Maranhão há um deputado que aparentemente é um sujeito preparado e competente. Digo isto pela entrevista concedida ao repórter, e pela qualidade dos seus textos aqui publicados. Parabéns.
    Amaury Provelatto(SP)

  14. Anônimo

    Joaquim,
    Você escreve muito bem, e em algumas crônicas vc se supera. Lê-se várias vezes pelo tanto de belas mensagens intrínsecas. Essa história é muito linda e muito bem contada por vc.
    E trazendo para o nosso mundo, “em minha opinião” (rsrsrs) sobre o assunto, acredito que o amor é algo que não se conquista com nada que pensamos: beleza, bondade, dinheiro etc… Ele simplesmente acontece, e o é, se tiver que ser.
    Grande parte das “complicações” do mundo moderno vem da vaidade pessoal das pessoas, seja na política, no mundo científico e no amor… Devemos nos despir disso e aceitar a perda, a partida, a queda. Amor é algo que incondicionalmente deve partir do princípio de quere-se ver feliz a quem se ama. Não necessariamente um ao lado do outro. Não existe amor unilateral. Existe vaidade pessoal ferida, que fica impedindo a compreensão de que o amor é assim: sem fórmula, sem explicação.

  15. Anônimo

    “Seu Nagib” aí vai o bjo que o sr. apagou da moça morena
    oxe 🙂 aff

    brincadeira pra alegrar sua tarde

  16. Anônimo

    Joaquim, parabéns pelo texto. Muito bonito, continue escrevendo mais e mais…

deixe seu comentário