DISCURSO DE JOSÉ LOUZEIRO (LIDO POR SEBASTIÃO MOREIRA DUARTE) EM RECEPÇÃO A JOAQUIM HAICKEL

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EM 02.10.2009
 
 
Senhoras, Senhores,
Caros amigos, ilustres confrades desta nossa tão querida Academia Maranhense de Letras, sabiamente conduzida por Lino Moreira, sucessor dos valorosos intelectuais Joaquim Itapary e Jomar Moraes, que tantos e importantes trabalhos já desenvolveram em benefício desta Casa:

Este dia 2 de outubro de 2009 passa a ser, para mim, um dia de extrema importância, pois aqui estou para recepcionar o querido amigo e agora confrade Joaquim Elias Nagib Pinto Haickel, a quem conheço desde os tempos da revista Guarnicê, aventura bem sucedida de criar em nossa terra, no começo dos anos 80, uma revista que falava de arte, literatura, cinema e cultura, de modo geral.

Mas, antes disso, gostaria de poder dizer-lhes das recordações que tenho deste lugar.  Neste mesmo prédio centenário funcionou a Biblioteca Pública do Estado, e era para cá que eu vinha, aluno do Colégio São Luís, do professor Luiz Rego, fazer minhas pesquisas e exercícios de Geografia, que a professora Maria Freitas passava e a que exigia aplicação.  Aqui chegando, neste casarão cheio de livros, passei a contar com a ajuda de um funcionário da Casa, que era o poeta Corrêa da Silva, membro desta Academia, e com quem muito aprendi.  Ele era filho de dona Seluta, pessoa admirável, que vivia seus dias a lavar e engomar, mas tirava um deles por semana para fazer as entregas nas casas da sua clientela.  Meu pai lavava suas camisas de punhos duplos com ela.  Era parte de sua indumentária de diácono da Igreja Presbiteriana, ali na Praça da Alegria, cujo pastor titular era Benedito Aguiar.

Ao voltar a esta Academia, senhor presidente, meus ilustres confrades, minhas senhoras e meus senhores, sinto-me tomado pela emoção.  É como se estivesse retornando à minha própria casa, que ficava na Camboa do Mato, onde havia uma fábrica de fiação e tecelagem, que empregava quase todas as pessoas da região, principalmente as mulheres.

Mas hoje minha função não é falar de mim, nem do passado desta cidade que tanto amo, e, sim, receber para nosso convívio um jovem admirável por seu talento, por seu caráter, por seu temperamento franco e alegre.  Por sua literatura leve, coloquial e cinematográfica.  Homem conhecido por não fugir das polêmicas, por defender suas idéias com unhas e dentes, e por sempre colocar a arte e a cultura de nossa terra em primeiro lugar.  Falo de Joaquim Elias Nagib Pinto Haickel.

Quero primeiramente agradecer ao Joaquim por ele ter me distinguido dentre tantos confrades para saudá-lo neste dia tão importante.  Penso que ele fez isso não apenas por sermos bons amigos, mas também como gesto simbólico, para distinguir especificamente o segmento artístico e literário a que tanto ele quanto eu estamos mais ligados: a literatura voltada para o audiovisual, para a televisão, para o cinema documental e ficcional.
Joaquim Haickel deve ser exaltado por seu talento literário multifacetado, ora como contista, ora como poeta, ora como articulista, e agora, mais recentemente, também como cineasta premiado dentro e fora de nosso país.

 Joaquim se destaca em um cenário no qual figuram personagens marcantes de nossas letras e de nossa cultura.  Nomes como os de bons cronistas, renomados poetas e pesquisadores obstinados, como é o caso de companheiro Ubiratan Teixeira que, sozinho, fez um dicionário de teatro e de suas personalidades, coisa essa que no Rio seria obra de uma numerosa equipe.  E o que é melhor: a edição é primorosa, do Instituto GEIA que tem publicado obras da maior relevância e alta qualidade gráfica, e conta com a supervisão do nosso também confrade Sebastião Moreira Duarte.

Entre os poetas, que por aqui desenvolvem seus trabalhos, eu ouso mencionar alguns que são de altíssima relevância, como Laura Amélia Damos e Arlete Nogueira da Cruz, Ceres Fernandes, Alex Brasil e mestre Nauro Machado.  Há o fertilíssimo Luís Augusto Cassas, Salgado Maranhão, o saudoso Bandeira Tribuzi e o clássico José Chagas, sem nos esquecermos de Roberto Kenard e Celso Borges, parceiros de Joaquim na revista Guarnicê.

Entre os ficcionistas de primeira linha estão José Sarney, com sua obra-prima, Saraminda, Ivan Sarney, com o inesquecível Chapéu de couro e palha, e o jovem José Ewerton Neto, conquistador de prêmios.  Entre os pesquisadores temos que lembrar Jomar Moraes e Lino Raposo Moreira, responsáveis pela bem cuidada 3ª edição do Dicionário histórico-geográfico da Província do Maranhão, de César Augusto Marques.  Jomar elaborou o trabalho crítico, numa belíssima edição, Lino incumbiu-se do índice remissivo da importante obra.

Outros renomados estudiosos da nossa História são Carlos Gaspar, Mílson Coutinho e o admirável historiador que é Carlos de Lima.
Se os nossos escritores são ignorados pelos críticos do Sul do País, azar deles, dos críticos, pois isso significa, além de preconceito, limitação cultural e, por que não dizer, mental.

Esta nossa cidade continua a ser um celeiro de pensadores e grandes mestres da arte de escrever.

E entre os expoentes da nova geração de intelectuais, é para mim prazeroso aqui estar para falar de um dos mais expressivos deles: Joaquim Haickel, agora membro desta Academia.

Conheci Joaquim Haickel na lide das letras e da cultura, na época do Guarnicê, mas foi Ivan Sarney quem nos aproximou ainda mais, através de nossa paixão comum, o cinema.  Queríamos implantar em São Luís um pólo de cinema, e reunidos, numa dessas noites agradáveis, na casa de um amigo, lançamos a idéia, que não vingou.  

Mas, sendo Joaquim Haickel um transformador de sonhos em realidade, jamais tirou de mira a intenção de criar um pólo de cinema nesta nossa querida cidade.

Eu vinha de maravilhosas experiências no cinema. Havia feito os roteiros cinematográficos de Lúcio Flávio, o passageiro da agonia e Infância dos mortos, que resultou no filme Pixote, ambos baseados em romances de minha autoria e dirigidos no cinema pelo argentino Hector Babenco.

Ivan já havia feito repetidas experiências com o saudoso Super-8 e Haickel era apenas um cinéfilo de primeira linha.  Já vira quase todos os filmes exibidos no País.

Nosso novo confrade é o primeiro filho de Clarice e Nagib Haickel e nasceu no dia 13 de dezembro de 1959.  Sonhador, romântico, aventureiro, apaixonado, corajoso, honrado.  Devotado a dois verbos essenciais: pensar e fazer. 

Joaquim nasceu em uma época de muita efervescência.  Uma época que deu seus frutos no que viria a se constituir na maravilhosa geração dos anos 60 e 70, com sua rebeldia, seu culto à juventude, a opção pela imagem. Foi quando a televisão, recém-chegada nesta capital, tomou de assalto os lares e as noites dos ludovicenses.  Joaquim é, em sentido próprio, o primeiro daquela geração a renovar as forças criativas desta instituição.

O novo acadêmico estudou nos colégios Pituchinha, Batista e Dom Bosco.  Formou-se em Direito pela Universidade Federal do Maranhão.

Seu primeiro livro, escrito entre 1975 e 76, só foi lançado em 1980. Intitula-se Confissões de uma caneta, contos premiados no Concurso Cidade de São Luís.

Em 1981, lançou O quinto cavaleiro, poemas.  Em 1982, premiado no Concurso Secma/Sioge/Civilização Brasileira, lançou o livro de contos Garrafa de ilusões. Também em 82, Joaquim Haickel e Celso Borges, côadjuvados por Roberto Kenard, Ivan Sarney, Ronaldo Braga e pelo irmão caçula de Joaquim, Nagibinho, produziram e apresentaram o programa Em tempo de Guarnicê, levado ao ar todas as terças-feiras pela então jovem Mirante FM. Foi um programa pioneiro e de sucesso que falava de literatura, arte, cultura e tocava a música feita, com muita competência, no Maranhão. Esse programa de rádio foi o embrião do que viria ser, logo em seguida, a mais importante revista cultural Maranhense daquele tempo.

Manuscritos, seu segundo livro de poemas, quarto até então, foi lançado em 1983, quando também ele começou a editar a revista Guarnicê, que foi publicada até 1986.

Gostaria de ler para vocês quatro dos poemas feitos por Joaquim nessa época, textos que, para alguns, são na verdade mini contos, e que acredito estarem entre os melhores, não só entre os de sua lavra, mas de seu tempo:
 
CARRARA
 
Quando se tira
mais do que se põe
o poema vira escultura;  
 
 
SER MENINO
 
Arriar o calção
e mijar o mundo.
 
PADRE-NOSSO
 
No lugar onde nasci, o padre, três horinhas,
Saía pela sacristia e cruzava a Praça Cursino
Rabelo – nome do avô do ex-prefeito.
Toalha branca no pescoço, saboneteira na mão,
quixotesco, ia banhar-se na casa da viúva Sibá
– dona da padaria.
Seis horas, já banhado e paramentado, rezava a Missa: Em nome do pai, do filho e do espírito santo…
“amante”.
 
AMBULANTE
 
Maria Rita armava barraca na mureta da
Praça Benedito Leite e vendia: Dois-tão de
pernas grossas; duas coxas macias, ancas
graciosas e luzidias como as da égua Esmeralda, caso de amor de “seu” Dico.
Cintura de umbigo tufado – culpa da parteira “Dona” Maria José do Bom Parto.
Peitos ainda durinhos, mas já querendo
murchar de tanto freguês apalpar.
Pescoço de bailarina, cabelos de espanhola, olhos de moça-virgem e andar de brincar
ganzola.
Maria Rita armava barraca e vendia…
 
Em 1984, Joaquim e seus comparsas lançaram a Antologia poética Guarnicê. Em 1985, a Antologia erótica Guarnicê. Em 86, o livro de contos Clara cor de rosa. Depois de uma pausa editorial, em 89, ele reúne poemas em Saltério de três cordas, juntamente com Rossine Correa e Pedro Braga.

Mas foi só em 1990, segundo o próprio Haickel, que amadureceu o seu primeiro livro (“os outros haviam sido apenas ensaios do que viria”): coletânea de contos lançada pela Editora Global, A ponte foi bem recebida por Artur da Távola e Nelson Werneck Sodré, a quem presenteei um exemplar do livro de Joaquim.  Nelson reconheceu nele o talento inato dos bons contadores de história, como disse em carta endereçada a Joaquim.  A Artur, que seria colega de Joaquim na Assembléia Nacional Constituinte, em 1987, coube prefaciar A ponte.  Lá ele diz: “Joaquim Haickel é um facundo. Na vida como na literatura. Raros escritores são, na arte, o que na vida são.  E sua facúndia existencial estica-se para a literatura.  É um célere, um devorador…  A mistura de velho árabe sábio com garoto levado, que lhe marca a tipologia e o temperamento, aparece nos contos…  Sua literatura imita-lhe a vida.  E sua vida (ah! que alívio) é venturosa.  Sim, enfim, senhores, eis que surgiu alguém naturalmente feliz e que do fundo da alegria de viver é capaz de encontrar a tragicidade, o espanto, a parada sensível.  E assim como se atira a viver, sem tréguas, lamúrias ou timidez, vai criando e devorando vivências e personagens com apetite invejável.” 

No pósfacio de A ponte, Rossine Correa mostra mais uma vez o Joaquim inventor de realidades tão verossímeis, que são capazes de enganar até os mais argutos: “Quanto a mim – diz Rossine – viciado em leitura a ponto de já haver sofrido a acusação de gostar mais dos livros do que dos homens, nem sempre descobri o caminho da fonte, quiçá por amor a muitos deles, chegando a ser logrado pelo autor de A ponte. Acontece que lera um conto sobre a Coluna Prestes, narrado por um certo Tério Tino, testemunha ocular daquela aventura.  Encontrando o escritor em uma manhã de sol tropical, entre ladeiras e sobrados, lhe perguntei como e onde poderia entrevistar o tal personagem, que ele, em uma nota de pé de página, dissera estar vivo, com 70 anos, num asilo de mendicidade em São Luís.  Como eu poderia perder a oportunidade de conhecer um herói popular, vivo e mendigo, relacionado à Coluna Prestes?

“Percebendo que eu, um historiador, confundira totalmente as fronteiras da verdade e da fantasia, Joaquim Haickel explodiu em uma gargalhada…”

 Passando ao campo da cinematografia, Joaquim produziu o filme “The Best Friend”, o Amigão, que conquistou os prêmios de melhor filme do Júri Popular, e melhor filme de cineasta maranhense do Júri Oficial, no Festival Guarnicê de Cinema e Vídeo, realizado pela Universidade Federal do Maranhão em 1984.  Naquele mesmo ano, participou de um concurso de roteiros para cinema, promovido pelo Departamento de Assuntos Culturais da UFMA, no qual mereceu menção honrosa.  Mas, para ele, o mais importante daquele evento foi o comentário de um dos jurados, José Chagas, hoje seu confrade, que confessava não estar preparado para ler um roteiro apresentado da forma técnica como aquele fora apresentado.  Chagas disse mais: tinha certeza que ali havia uma história com potencial incrível para ser contada em forma de filme.  É que Joaquim havia comprado um livro de Doc Comparato sobre como fazer roteiro para cinema e televisão, e preparou a adaptação de um conto seu, com roteiro técnico, marcação de câmera, iluminação e sequência, não se atendo apenas ao argumento literário e à sinopse cinematográfica.  Tratava-se de A Vingança, que está em seu livro Garrafa das ilusões.  Joaquim tentou realizar o respectivo filme, mas não o conseguiu, por dificuldades técnicas e porque, naquela época, não havia no Maranhão uma atriz com desprendimento e desnudamento bastantes para desempenhar determinado papel desprovida de qualquer pano.
Mas Joaquim é incansável: descansa carregando piano.  Dorme com um olho aberto, para não perder o momento que passa.

Em 2003, na comemoração dos vinte anos da revista Guarnicê, a Clara Editora e as Edições Guarnicê publicaram o Almanaque Guarnicê, espécie de ensaio-entrevista-reportagem, a cargo de Félix Alberto Lima, na qual vem narrada a trajetória do semanário e de seus idealizadores.  Também em parceria com a Clara Editora, Joaquim lançou naquela ocasião uma coletânea de seus melhores artigos publicados no site Clara on-line.

E como já está demonstrado que a sua invenção através da imagem cinematográfica está associada às artes de sua criação literária, façamos a passagem de um terreno para outro, com o que lançaremos mais luzes sobre o perfil multifário de Joaquim Haickel.
A modo de aperitivo, assinalemos que o inquieto e indisciplinado Joaquim valeu-se da ajuda de diversos amigos para fazer em Paço do Lumiar, em 2008, o curta-metragem Padre Nosso, de 58 segundos, baseado em um poema de sua autoria.

Curiosa tranquinagem, porém, foi a do primogênito de Nagib Haickel, a qual culminou com a realização, também em 2008, de um antigo sonho seu: roteirizar, produzir e dirigir um filme, baseado no conto Pelo Ouvido, por ele escrito nos anos 80 e publicado em seu livro A ponte.  Esse conto foi dado a público pela primeira vez de modo insólito e singular, como não raro ocorre com fatos e façanhas da história pessoal desse habilidoso carcamano Haickel.
 
Contemos o fato pela palavra de Félix Alberto Lima: “O escritor gaúcho Caio Fernando Abreu veio a São Luís ministrar uma oficina de conto para jovens poetas, escritores, jornalistas e universitários maranhenses.  Organizado por Teresa Nascimento e Telma Rego, o evento contou com a participação de Antônio Carlos Alvim, Raimundo Garrone, Wilson Marques, Paulo Melo Sousa, Luís Inácio, Moisés Matias e Marilda Mascarenhas, entre outros.

“Uma semana de exercícios literários e leitura de textos de Machado de Assis, Lígia Fagundes Telles, Clarice Lispector, Dalton Trevisan etc.  Cada dia um conto indicado por alguém da oficina, com uma posterior rodada de comentários.

“No penúltimo dia do curso, Joaquim Haickel sugeriu a leitura em grupo do conto Pelo Ouvido, de David Linch, o diretor e roteirista norte-americano. Lido o conto na oficina, a maioria do grupo – inclusive o próprio Caio Fernando Abreu – reconheceu, escancaradamente, traços cinematográficos que ligavam o texto a experiências anteriores do soturno diretor de Veludo azul, Coração selvagem e Twin Peaks. O conto, ambientado em Georgetown, bairro de Washington, tem como personagens Churck e Kate.

“No dia seguinte, o constrangimento foi geral.  Soube-se que o conto Pelo Ouvido era de Joaquim Haickel, e não de David Linch.”

Transmudado para o código da imagem em movimento, Pelo Ouvido foi selecionado para mais de 120 festivais de cinema, no Brasil e no exterior.  Mencionemos alguns: o 12º Los Angeles Latino International Film Festival, o 34º Festival de Cine Iberoamericano de Huelva, o Festival des Films du Monde, do Canadá, o Festival International du Film d’Amour da Bélgica, o European Independent Film Festival 2009, o Festival Internacional de Filme Independente de Hamburgo, o 30º Festival Internacional del Nuevo Cine Latinoamericano de Cuba, o 3º New Beijing International Movie Week.
Quanto a prêmios, em específico, Pelo Ouvido ganhou nada menos que doze até agora, entre eles o de Melhor Filme, no 17º Concurso Iberoamericano de Cortometrajes de Cartagena, na Colômbia; o de Melhor Diretor, no Boston International Film Festival, nos Estados Unidos; o Prêmio Especial do Júri, na Mostra de Cinema Latinoamericà de Catalunya, na Espanha.

É que, ao ser transposto para o cinema, o relato de Pelo Ouvido ganhou vida e se transformou numa peça de rara profundidade psicológica, sem falar nas qualidades técnicas que o trabalho, em imagens e sons, alcançou.

Se Joaquim quisesse fazer um longa-metragem, era só estender um pouco a magnífica atuação do talentoso casal de atores Eucir Souza e Amanda Acosta.  Bastaria aliviar a mão pesada e crítica de contista-roteirista e deixar no corpo do filme o que acabou por figurar apenas no making-off constante do respectivo DVD.

Nesse trabalho de Haickel, o que surpreende é a sutileza com que ele trabalha a relação da jovem executiva de vendas, saudável e bonita, com o marido escultor e poeta, surdo e cego, que lhe tem amor intenso e é correspondido.  Mas, para que a relação seja perfeita, ela tem que escutar as cantadas que outro obstinado admirador lhe passa, de que ela gosta e a que dá corda, sem jamais se encontrar com ele.  Em certo momento, estando na cama, esculpida pelas mãos suaves e sequiosas do marido, ela telefona para o admirador e se relaciona com o seu parceiro real, ouvindo as palavras do amante virtual como se fossem as do amado presente.  O momento é tocante, a invenção extraordinária: numa história de amor em que nada parecia haver de inovador, Joaquim Haickel consegue dar a volta por cima, descobrindo um caminho novo, admiravelmente inusitado.  A fala do amante invisível orienta a mulher para melhor relacionar-se com o marido, em sua sepultura viva de eterno silêncio.
É simplesmente genial.  Posso dizer que Joaquim Haickel é artista dotado de grande capacidade de avaliação dos sentimentos humanos, e eu aqui estou para recebê-lo também como ficcionista, como um senhor inventor de histórias, de estilo enxuto, de linguagem cuidadosa e esmerada.

Mas não para nisso a ansiedade inventiva do guerrilheiro palestino que a partir de agora arma sua partida no oásis de nosso convívio.  Joaquim tem projetos literários engatilhados: lançará até o final de novembro deste ano o livro Dito & feito, seleção das crônicas que tem publicado aos domingos no jornal O Estado do Maranhão, nos últimos quinze anos.
Para 2010, quando completará trinta anos do lançamento do seu primeiro livro, Joaquim pretende nos presentear com uma obra incomum. Chamar-se-á Múltiplo de quatro e reunirá o melhor de sua produção.  Serão contos, poemas, crônicas, roteiros de cinema, discursos proferidos na Assembléia Legislativa do Maranhão, entrevistas, fotografias.

Em 2011, preparemo-nos para a leitura de alguns de seus discursos políticos em A palavra quando acesa (o título é uma homenagem ao poeta José Chagas, de quem o tomou emprestado). Para 2012, antes de o mundo acabar, teremos o que, segundo o próprio autor, será sua obra definitiva, e na qual Joaquim Haickel falará de sua maior paixão, o cinema.  Refiro-me a 365 filmes para não precisar de psicanálise, que Joaquim começou a escrever a mais de dez anos, reunindo comentários de películas a que assistiu.  Não será simplesmente uma lista dos melhores filmes, segundo a opinião do autor, mas sua apreciação quanto a filmes que o ajudaram a formar seu cabedal de instrução e cultura, e ainda serviram para que ele consolidasse seu código moral e, sobretudo, para que ele não precisasse recorrer a qualquer dos seguidores de Freud, Jung ou Lacan.

Joaquim costuma dizer que se sente uma espécie de filho de Alexandre Dumas, pois se identifica profundamente com as personagens, as histórias e os sentimentos de honra e lealdade emanados do universo literário do grande folhetinista francês.

Perguntado certa vez qual o seu livro de cabeceira, Joaquim respondeu que eram dois livros que falavam de príncipes.  Pela ascendência árabe do entrevistado, o entrevistador imaginou que um desses livros deveria ser As mil e uma noites, mas Joaquim respondeu-lhe que os dois títulos eram O príncipe e O pequeno príncipe, “principalmente” – ele completou – “por causa do capítulo XVII do livro de Nicolau, que discute o que seria melhor que fossemos, amados ou temidos, e por aquela conhecida frase do livro de Antoine que nos faz lembrar para sempre que somos eternamente responsáveis por quem cativamos”. 

Cabe ainda registrar aqui que o novo confrade da Cadeira nº 37 é desportista e grande incentivador dos esportes como forma de inserção social.  Ele foi vice-presidente da Confederação Brasileira de Tênis e da Associação Desportiva Mirante, além de ter conquistado, pessoalmente, diversos títulos em modalidades como tênis, vôlei e basquete.

Projetos de responsabilidade social a encargo de Joaquim têm sido desenvolvidos pelo Instituto de Cidadania Empresarial do Maranhão – ICE, de que é membro-fundador.  Mas seu empreendimento mais obstinado consiste em consolidar a Fundação Nagib Haickel, entidade sem fins lucrativos, que pretende acionar uma rede de televisão educativa via satélite voltada para o ensino formal e para a difusão cultural, a qual contará com duas geradoras de TV, uma em São Luís e outra em Imperatriz.  A mesma Fundação também implantará, em breve, o Museu da Memória Audiovisual do Maranhão, MAVAM, incumbido de preservar a memória de nossa gente e de nossa terra por meios audiovisuais.  Para tanto, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional já está restaurando, com recursos da União, conseguidos pelo deputado Joaquim Nagib Haickel junto à bancada federal maranhense, um prédio, doado por ele, onde funcionava uma das empresas de seu pai e onde funcionará o Museu.

Observem bem como se movimenta este dínamo-gente que leva o nome de Joaquim Haickel.  Trabalhando com as mãos e com o espírito, imbuído da paciência dos beduínos na aridez do deserto, ele lutou, sofreu, resistiu, até chegar à implantação do magnífico projeto que vai acabar realizando o nosso velho sonho do polo de cinema de São Luís, desenvolvendo-o em torno do Museu.

Falei há pouco que Joaquim Haickel representa bem a geração da imagem viva, que, em nosso meio, se difundiu a contar da segunda metade dos anos 60.  Outros fatores, no entanto, explicam-lhe a preferência pelo movimento, alimentada pelo caleidoscópio de talentos que é a sua personalidade em ação.

Joaquim diz que, disléxico, foi salvo por sua professora particular, Terezinha, escolhida cuidadosamente por Dona Clarice. Era uma jovem dedicada e delicada, talvez fosse capaz de lidar com o temperamento elétrico do filho de Nagibão, tido por todos como desassossegado por demais.  A mestra notara que seu aluno obtinha melhor aproveitamento nos estudos quando ela se punha ao seu lado em condições de igualdade nas tarefas escolares, fazendo-o superar as dificuldades de leitura e o déficit de atenção, lendo para ele e com ele os livros ilustrados da biblioteca doméstica, despertando-lhe, por essa maneira, a curiosidade e a aventura do saber.

A esse primeiro influxo educativo, some-se o exemplo de seu tio postiço, Stênio, irmão de mãe Tetê e mãe Loló, um incomparável pedagogo que, invariavelmente, todos os sábados e domingos, levava o futuro cineasta e seu irmão ao cinema. Pode-se dizer que o que mais aprendeu Joaquim foi de tanto ouvir e tanto ver.

Fiz antes, também, rápida menção ao deputado Joaquim Haickel.  Foi outra aprendizagem, por osmose ou simbiose.  O acadêmico de hoje relembra que, menino, adorava ficar ouvindo as conversas dos mais velhos.  Participava, assim, desde pequeno, da vida política e empresarial de seu pai, em meio a políticos do interior do Estado e a empresários da Capital. Vez por outra, o velho Nagib tinha que arregalar os olhos na direção do filho, código cujo significado era “te sossega, rapaz!”  Muitas vezes o gesto não adiantava de nada e o pai tinha que recorrer a Dona Clarice: “- Mãe, chama Joaquim, que ele já está aqui ouvindo conversa de gente grande.”

Dividido entre os estudos e a diversão, aquele rapaz só veio a trabalhar em 1978, quando passou a assessor na Assembléia Legislativa, onde seu pai era deputado estadual.  Naquele ano participou decisivamente da campanha eleitoral.  No ano seguinte iria morar em Brasília, já seduzido pelo Parlamento, ao qual servia seu pai, então deputado federal.  De volta a São Luís, passou a ser oficial de gabinete do então governador João Castelo.  Recebia os políticos com atenção e cortesia, tratava a todos com simpatia e deferência.  Mas, certo dia, cansado de apenas abrir portas, pediu para trabalhar com o Chefe da Casa Civil, José Burnet, político experiente de quem se tornou aprendiz.

Assim foi e foi.  Joaquim procurou aprender com os melhores: primeiro que todos, seu pai, que não conseguiu transferir-lhe o jeito “caboclo” de ser, mas que, pelo contágio e pelo exemplo, lhe entregou algumas das principais ferramentas da vida – lealdade, honradez, coerência, simplicidade – e alguns de seus maiores defeitos – ansiedade e desassossego; com seu tio Zé Antônio, exemplo do que um prefeito deveria fazer e de como um deputado jamais poderia agir; com Clodomir Milet, um lorde, discreto, culto; com José Burnet, quase cego dos olhos, mas com privilegiadíssima visão política; com Ivar Saldanha, um pragmático convicto; com Pedro Neiva de Santana e Haroldo Tavares, tio e pai de sua namorada de então: o primeiro, senhor de uma elegância e de uma ironia tão bem engomada quanto seus ternos de linho tropical; o outro, um gênio planejador, magnífico sonhador; com Nunes Freire, a rudeza doce e honesta; com Castelo, presença e energia; com Alexandre Costa, leal tenacidade; com Lobão, conciliador, diplomático; e, fora de série, com José Sarney, a quem sempre cuidou de observar e analisar milimetricamente, na tentativa de aprender com ele tudo o que fosse política ou com política se relacionasse, tudo o que nela se deveria fazer e principalmente deixar de fazer.

Apoiado na popularidade que o pai deputado esbanjava por todo o Maranhão, Joaquim Haickel elegeu-se para a Assembléia Legislativa estadual em 1982, o mais jovem em todo Brasil naquela legislatura.  Eleito em seguida Deputado Federal Constituinte em 1986, foi relator da Comissão de Direitos e Garantias Individuais, responsável, entre outros encargos, pela apreciação do projeto que visava instituir a pena de morte no Brasil.  Seu parecer, vencedor, posicionava-se contrário ao projeto do notório deputado Amaral Neto.  Foi em uma audiência pública naquela comissão que nos reencontramos.  Joaquim que tinha apenas 27 anos, e já convivia com Ulisses Guimarães, Afonso Arinos, Roberto Campos, Florestan Fernandes, Nelson Jobim, José Serra, Delfim Netto, Artur da Távola, Fernando Henrique Cardoso e Luís Inácio Lula da Silva, para citar alguns nomes.

Acrescentemos, como detalhe, o instrumento inovador de que Joaquim lançou mão, para convencer os seus pares quanto à inconveniência da pena de morte na legislação brasileira.  Consciente de viver em tempos nos quais uma imagem vale por mil palavras, ele fez uma edição resumida do filme O caso dos irmãos Naves, famoso erro judicial de Minas Gerais, apresentou-o à Comissão que votaria o tal indesejado projeto, e esperou o resultado.  Sua tese prevaleceu sem maiores percalços.

Proveniente de emenda aglutinadora do relator da comissão de sistematização, pois vários constituintes apresentaram projeto semelhante, é também da autoria de Joaquim, a frase que abre diariamente os trabalhos nas duas casas do Congresso Nacional: “Sob a proteção de Deus e em nome do povo brasileiro, declaro aberta essa sessão”.

Por indicação de Ulisses Guimarães, o Congressista maranhense representou a Câmara dos Deputados no Congresso Americano de Jovens Líderes Mundiais, de 1987, juntamente com Aécio Neves, Henrique Eduardo Alves e Cesar Cals Neto, e em viagem diplomática à China, em 1988.  Ao fim desse mandato, não se candidatou a nenhum cargo eletivo, mas foi convidado pelo então governador Edison Lobão para secretariá-lo na pasta de Assuntos Políticos, a mesma em que, mais de uma década antes, fora aprendiz de Burnet.  Depois, foi para Secretaria de Educação.  Afastou-se dos cargos públicos de 94 até 98 para dedicar-se às suas empresas de radiodifusão: FM e TV Maranhão Central, espalhadas por mais de 50 cidades do Estado.  Naquela época plantou a semente do que viria a ser a Fundação Nagib Haickel.

Em 1998, candidatou-se e elegeu-se o deputado estadual mais votado do seu partido, mas, daquela vez não pôde contar com a preciosa ajuda de seu pai, que falecera no dia 7 de setembro de 1993, como presidente da Assembléia Legislativa do Maranhão.
Joaquim é detentor da Medalha Manuel Bequimão da Assembléia Legislativa do Maranhão, da Medalha do Mérito Timbira do Governo do Maranhão, e da Medalha Barão de Mauá, do Ministério dos Transportes.  Cidadão honorário dos municípios de Pindaré-Mirim, Santa Inês, Itapecuru-Mirim, São Domingos do Maranhão, São Benedito do Rio Preto, Vitorino Freire, seu currículo se enriquece também com a Cadeira nº 9 da Academia Imperatrizense de Letras, para a qual foi eleito em 2006, tendo como patrono o eminente Thucydides Barbosa e fundador e único ocupante, até então, o professor, escritor e humanista Vito Milesi.

O Poder Legislativo do Maranhão continua a contar com Joaquim Nagib Haickel como representante de sua gente.  Lá ele tem exercido cargos dos mais importantes, como o de Primeiro-Secretário da Casa e membro efetivo da Comissão de Constituição, Justiça e Redação Final.

Em 2008, apresentou e fez aprovar, na Assembléia Legislativa, um projeto de resolução que institui no Maranhão, a exemplo do que há em outros Estados, um prêmio de incentivo ao cinema maranhense.
 Declaradamente apaixonado por sua bela Jacira, o que não esconde de ninguém, ele não para, e continua fazendo planos para amanhã, sem deixar de realizar hoje aqueles que foram projetados ontem. 

Quando lhe perguntei sobre qual seria sua obra mais importante e em qual das vertentes de sua vida mais se sentia realizado, ele me respondeu: “Minha melhor e mais bela obra é minha filha Laila. O melhor Joaquim Haickel é a pessoa, o amigo: é aí onde eu mais me realizo, é daí que provem tudo que sou e que faço”.

Na última vez em que estivemos juntos no Rio de Janeiro, onde Joaquim foi apresentar o seu filme Pelo Ouvido em um importante festival de cinema, ele estava com as mãos sobre a mesa, e Selton, filho do Serginho – que hoje é as minhas pernas – lhe perguntou o que significavam aquela tatuagem em seu antebraço esquerdo.  Joaquim sorriu e disse para o menino que, como ele é extremamente hiperativo, que era um poema. Selton arregalou os olhos: – “Como assim!? Aí só tem sinais!” Pois bem, depois que ele traduziu para mim e para o Selton aquele intrincado código contendo 22 símbolos gráficos – tendo que esmiuçá-lo para mim, pois pouco ou nada eu pude ver em seu braço, já que estou ruim das vistas – depois que ele explicou o que estava escrito ali, nessa hora eu soube como melhor definir Joaquim Haickel, e tenho certeza que vocês concordarão comigo, depois que ouvirem o que está tatuado em seu braço, e que passo a ler agora:

Chame atenção. Faça uma pausa. A entonação demonstra sua intenção, seu pensamento, seu sentimento. Depois, uma pausa maior, que puxe outra idéia ou relacione duas.  Agora uma pausa ainda maior.  Uma parada. Cite, exemplifique. Faça suspense, insinue…  Surpreenda.  Pergunte. Depois, mude de assunto – isso sempre funciona. Valorize os coadjuvantes: eles são mais importantes & necessários do que parecem.  Comunique-se. Não se esqueça dos números: eles são indispensáveis. Nem das equações: nada funciona sem elas.  Maior?  É sempre igual a valor!  O contrário nem sempre é verdadeiro.  Não se esqueça. Todo inteiro é feito de partes. Adicione!  Multiplique! Fazer a diferença é mais ou menos feito… O Infinito.

Esse é verdadeiramente o Joaquim Haickel a quem hoje recebemos como membro desta Casa – e a quem, para tomar posse do que lhe pertence por todos os méritos, aplicamos o maior castigo: “nunca antes nem depois neste país”, nós o vimos, ou veremos calado e quieto por tanto tempo… E sem o celular ao ouvido. 

E eu que, por falar muito, sou o causador disso, proclamo-o, depois de tudo, o mais novo herói de nossa comunidade…

2 comentários para "DISCURSO DE JOSÉ LOUZEIRO (LIDO POR SEBASTIÃO MOREIRA DUARTE) EM RECEPÇÃO A JOAQUIM HAICKEL"


  1. soares

    Joaquim, se eu que sou seu amigo, seu eleitor e também seu fã não sabia de muitas dessas coisas a seu respeito, imagino o que dirá, se ler esse discurso, alguém que só lhe conhece superficialmente, de ouvir falar, de comentários, das páginas dos jornais, sejam as de notícias ou as que trazem as suas crônicas, das entrevistas das rádios ou das televisões!
    Você é uma importante referência em nosso Estado, um parâmetro que baliza por cima não só as letras de nossa terra mas principalmente o nosso parlamento.
    Sinto orgulhoso de ser seu amigo e de tê-lo como meu deputado!

  2. Almira

    Joaquim,
    Que emoção ler este discurso… Infelizmente não pude ir à sua posse e lamento muito não ter presenciado, exatamente por saber que foram momentos carregados de emoção. Sem contar este momento único de vê-lo sentado e sem OS celulares (rsrsrsrs).
    Parabéns por mais essa conquista. Como você bem diz: “Todo inteiro é feito de partes. Adicione! Multiplique! Fazer a diferença é mais ou menos feito… O Infinito.”
    E que multiplas facetas tem o Joaquim Elias Nagib Pinto Haickel… Parabéns meu amigo e que Deus o acompanhe em mais uma caminhada e que o abençoe, SEMPRE!!!

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