Um Pedaço de Ponte – Parte XIII

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O visitante

João, brasileiro, 34 anos, garçom, casado, residente de pouco na Rua da Consolação, 12 D. Muitos projetos e pouquíssimos escrúpulos. Não que roube nas contas dos fregueses da boate ou enxerte seus camparis nelas. Apenas sujeito comerciável

Maria, brasileira, 25 anos, dona-de-casa, casada, nova inquilino do nº 12 D da Consolação. Conheceu João quando era amasiado com sua prima Elsa. Mulher bonita e sensual, porém honesta. Mulher, e mulher em descoberta. Só tinha um defeito para o marido: era inteligente e imprevisível

Conheceram-se e, por iniciativa de Maria, casaram-se.

Ela, então, uma recatada, simples e até ingênua moça, sentiu um estranho prazer por ter tomado o amante da prima, uma mulher mais velha e experiente. Ele, um malandro bem camuflado debaixo da pela de um atencioso garçom, trocou a velha Elsa, que conheceu nas quebradas, por sua prima, pacata professora normalista. Era do que precisava. Estabilidade. Uma virilha, quente e só dele, para confortá-lo na volta do trabalho diário, ou melhor, noturno.

Maria não sabia do espírito eminentemente mercantilista de João e ele não era conhecedor dos meandros da personalidade e do comportamento dela.

Bateram à porta de sua casa. João, ainda deitado, já que, como de costume, chegara tarde, hora de sempre, do trabalho. Um homem moreno cor de café-com-leite, menos para leite, ar meio enigmático, foi entrando, procurando por João, que, cochilado, ouviu-o e mandou-o ir ao quarto (Maria ainda não sabia dos seus vícios).

Despreocupadamente Maria foi cuidar dos seus afazeres – arrumar a casa, providenciar para que viesse o resto da mudança da casa do irmão, e mandar alguém na casa da prima Elsa buscar o resto das roupas do marido. Por um instante só, lembrou-se da figura que batera à porta momentos antes, achou-o simpático e atraente. Quem será?

Enquanto isso, os dois, João e o visitante, conversavam: – E o som conseguiu?

– Consegui, mas tu sabe como é, né, João? Com esse negócio de congelamento de preços… A coisa vai ficar preta. Só aqueles cruzadinhos não vão pagar a minha “força de trabalho” Vou querer mais uns trocados.

– Ta ficando louco? Eu te encomendei um som para minha casa nova, te paguei adiantado, tu passas três semanas sem conseguir nada e ainda quer mais grana?

Ficaram comerciando por mais algum tempo, João tentou dar-lhe, por conta, o rádio AM-FM de Maria. Não quis.

– Quem é essa morena toda certinha que abriu a porta? Ela dá uns traços da Beth Faria.

Realmente Maria tinha algo de Beth Faria: cabelo e andar. Não o temperamento das personagens que a atriz geralmente representa. Maria era calma, pacata, não era mulher escrachada.

– Essa é minha esposa.

– Esposa? E a velha Elsa?

– É carta fora do baralho.

– Caminho livre então para Elsa? Maravilha!

– Nada disso…

– Qual é, João? Lembra quando tu tava doidão por aquele relógio que eu peguei “emprestado” dos gringos, numa incursão pela noite? Nós fizemos negócio. Tu ficaste com o relógio, e eu com a Elsa por uma noite.

– É, mas agora ela não é mais minha amante clandestina, passou a ser oficial, casei-me, e ela foi promovida.

– Tenho então uma proposta. Te dou o som e mais o meu carro. Sei que tu negocias tudo, topas?

– Topo.

-Acontece que eu não quero a Elsa, quero é tua mulher. – Ta louco?! Nem vem que não tem.

O visitante ponderou, conversou, e João continuava irredutível Ofereceu-lhe mais uma televisão a cores. João ficou tentado. Uma geladeira nova.

– Tudo bem, mas quero mais alguns cruzados. E tem mais, tem que parecer que tu pegou ela à força. E ela não pode saber de nada, ok?

Tudo acertado, João saiu para o trabalho.

Por volta das nove e meia da noite, Maria atende a porta.

Era o mesmo homem que viera pela manhã.

– João não está.

Silêncio na voz, palavras nos olhos, o indivíduo entra, Maria sem sentir, permite.

– Eu sei, por isso é que eu vim. Disse o homem, tirando do bolso um canivete, daqueles suíços.

Maria imóvel, só fazia movimentos fisiológicos. O homem aproximou-se dela com o canivete. Cortou-lhe as alças da camisola que caiu suavemente, roçando o corpo pardo de sol e branco das marcas do biquíni.

Imóvel, ela mantinha o olhar nos olhos do homem que, pela manhã, achara atraente. Está ainda mais, agora. Nem ela mesma estava se entendendo. Pois prestes a ser violentada e encontrava-se cada vez mais fascinada pelo seu carrasco.

De canivete sempre à mão, o homem a acariciava. No princípio, ainda imóvel, ela fechava, apertando os olhos. O fogo corria por suas veias. Ele lhe passava o canivete, aço frio, pelo corpo, em contraste com a sua mão, carne quente. Canivete no seio esquerdo, mão no direito.

Maria, só de calcinha, quase na porta da casa, e ele ajoelhado no seu ventre, tirou-lhe a rendada com os dentes, enfiou o canivete no assoalho sobre a sunga, rasgando-a.

Correu-lhe em beijos e carinhos. Maria já não se controlava. Correspondeu. No chão, na cama, no banheiro, na cama de novo. Das nove e meia até a uma da madrugada, os dois se comeram sem palavras. Quando ele ia saindo, ela acompanhou-o, puxou-o pelo braço. A quinta foi em pé, de roupa.

Enquanto isso, João estava na boate, a noite toda, preocupado com o que aconteceria quando chegasse. Será que ela irá me contar o que aconteceu? E se disser que foi o mesmo homem que esteve lá em casa de manhã? Estou frito. Não posso entregá-lo à polícia, nem posso tomar uma atitude de homem.

Ela, em casa, pensava no que dizer ao marido. – Não vou contar nada. Mas e as marcas em meu corpo? Posso jogar fora a camisola que ele me deu. E se ele quiser que eu a vista com a calcinha rendada preta de que ele mais gosta? Não posso dizer que foi o mesmo homem que esteve aqui de manhã.

Ao chegarem casa, João encontrou a mulher apavorada, mais porque não sabia o que dizer e menos pela noite anterior.

– O que houve, Maria?

– Nada!

– Ele, louco para que ela lhe contasse tudo, pois, apesar de cúmplice, não queria que a mulher o traísse. Ela, querendo contar tudo ao marido, sem que ele desconfiasse que houvesse gostado do que se passou.

Contou-lhe que entrou um homem com um facão na mão e abusou dela. Obrigou-a a fazer coisas horríveis. O marido tresloucado quis espancá-la, mas não achou justo, pois sabia ser ele o culpado por tudo aquilo.

– Como era o filha da puta? Você nunca o viu antes? Perguntou e rezou para que ela não soubesse responder. Ela, apavorada, começou a chorar. Por estar nervosa, dizia não ter reparado muito bem no homem, mas que era mulato e tinha olhos avermelhados. Mulato, o homem era mesmo: um mulato, não muito claro, olhos esverdeados, boa pinta e tinha uma falha no dente bem na frente.

– Você não viu nada de especial nele? Essa pergunta, Maria poderia responder, porque ela o achara especial na cama, no banheiro, no chão.

– Não, só os olhos que eram avermelhados.

João estava aliviado. Foi à polícia dar parte. Deu, é claro, a descrição que a mulher lhe havia passado. Um tanto falsa.

Maria achou a atitude do marido exemplar. Estava orgulhosa dele. João, por sua vez, estava orgulhoso da mulher. Uma mulher séria, honesta. Não mentiu para ele.

Mudança toda feita, som, televisão, geladeira, carro, João e Maria vivem felizes até hoje. O tal homem ‘ vez por outra, faz negócios com João (que não envolvem Maria). Porém são negócios tão bons que dá até para pensar que ele continua visitando Maria quando o marido sai para trabalhar…

4 comentários para "Um Pedaço de Ponte – Parte XIII"


  1. mario

    gostei muito cara do conto muito bom genial . nagib 2010

  2. Tâmara

    Achei muito bacana qdo tu escreveste indignado sobre uma vaia dada à seleção nos jogos. Ainda que não tenha nada a ver, como tu pensas a respeito do ocorrido no Haiti?
    Pareceu dolorasemente surreal (meio lost) como se fosse um mundo paralelo, um pesadelo, que , impotentes, iríamos despertar, mas, não é não, foi real e mexe com tantas convicções, não só religiosas e existenciais, Tu não sentistes vontade de escrever a respeito no blog?

    Resposta: Que bom você tocou nesse assunto. Eu não queria tocar nele, assim… Senti muita vontade de chorar vendo o sofrimento daquela gente, já tão sofrido e tão miserável e agora vitima de uma catástrofe natural… Depois senti vontade de ir para lá ajudar, mas acho que iria mais atrapalhar que ajudar. Depois fiquei indignado com as coberturas jornalísticas de todos os veículos jornalísticos, uma coisa nojenta… Pura exploração do sofrimento alheio… Não tenho ainda condições de escrever sobre esse asunto mas espero que logo o faça.

  3. Tâmara

    Identifico-me muito com o que escreves, se puderes, pode enviar o que escreveres sobre o assunto para esse e-mail é meu. Senti o mesmo, qto as reportagens tbm. Espero que escrevas aqui tbm. Não consigo comer ou beber agua sem lembrar toda hora…
    Tudo fica irrelevante perto daquelas imagens, insignificante tudo…

  4. Betina

    Sem catástrofes naturais, milhares de brasileiros morrem todos os dias vítimas da corrupção, desvio de dinheiro público, improbidade administrativa. Tens muitos a quem ajudar aqui no teu Estado, não precisas viajar. Vai para junto do povo, sem avião ou carro fechado no fumê e garanto que viverás experiências que te levarão ao choro fácil.

    Resposta: Pode crer!!! Tem muita gente sofrida por aqui e graças a Deus a esses sofrimentos não somam-se as catastrofes naturais que acontecem em outros lugares.
    Quanto a eu ir para junto do meu povo, pode deixar, eu sei onde meu povo está e garanto-lhe que tenho feito tudo que posso para bem representá-lo.
    Só para o seu conhecimento, o meu povo, os meus amigos e eleitores sabem o numero do meu telefone celular e me ligam quando desejam.

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