Pra não dizer que não falei dos espinhos

Já que ninguém quer se reunir para conversar sobre o que pode, e o que de uma forma ou de outra vai acontecer nos próximos meses na política maranhense, só resta a mim que sou como diz minha querida mãe Teté, “impertinente”, tentar suscitar aqui mais uma vez essa conversa, assim, um tanto que na marra, como já o fiz antes e em pouco eco resultou.

Nunca antes na história desse grupo político, o futuro dependeu de tantos eventos intrincados, complicados e delicados. É bem verdade que uma grande quantidade de sorte, aliada a um imenso volume de poder, exercido por quadros competentes e motivados, fazia com que as situações difíceis fossem facilmente solucionadas ou pelo menos atenuadas.

Agora as coisas parecem estar um pouco diferente, e não era pra menos. O tempo passa, as estruturas se desgastam, o elã enfraquece, laços se afrouxam, pessoas naturalmente se distanciam… É assim na vida, de um modo geral, nas famílias, nos casamentos, porque seria diferente na política?

Pois bem, no que diz respeito à próxima eleição para governador, tudo leva a crer que o candidato do grupo Sarney seja mesmo o secretário de infraestrutura Luis Fernando Silva.

Estabelecido isso, resta saber se a governadora Roseana completará a chapa majoritária sendo candidata ao Senado. Tendo uma eleição garantida seria tolice não concorrer.

Em seu lugar deveria assumir o vice, mas tudo indica que ele deverá ser nomeado para o Tribunal de Contas do Estado em vaga que se abrirá no final desse ano.

O cargo de governador, interinamente, por 30 dias, passará então às mãos do presidente da Assembleia Legislativa. Nesse prazo o primeiro vice-presidente da ALM, tendo assumido a presidência, convoca eleição indireta para escolha daquele que for governar o nosso Estado até 31 de dezembro de 2014.

Lógico seria o ocupante interino do governo, o presidente da ALM, deputado Arnaldo Melo, ser eleito governador substituto.

Essa é uma coisa que ainda pode acontecer, porém o que deve ser observado é que o que está em jogo aqui é muito mais que nove meses de mandato de governador. O que está em jogo é a continuidade da hegemonia política desse imenso grupo, que de tão grande e diverso, muitas vezes parece ser vários e não um.

Esse gigantismo causa distorções curiosas, como, por exemplo, o fato de algumas diferenças internas serem bem maiores que as eventuais discordâncias com outros grupos políticos.

Mas voltemos ao que mais interessa!

Será que alguém pode fazer mais pela eleição de Luis Fernando que o próprio Luis Fernando? A resposta é fácil! Não. É lógico que não. Logo quem deve ser eleito para completar o mandato de governador quando da renúncia de Roseana é o próprio candidato, no caso, Luis Fernando.

Agora vem um pequeno problema para o qual pouca gente está atentando. Acontece que se isso ocorrer dentro dos prazos normais, Arnaldo Melo será extremamente prejudicado, pois será atingido pela lei eleitoral no que diz respeito ao prazo vedado de desincompatibilização para concorrer a cargo eletivo.

Quem estiver no exercício de Governo do Estado de 4 de abril de 2014 em diante, só poderá concorrer no pleito daquele ano aos cargos de governador ou de presidente da Republica.

Para alguns pode parecer uma situação insolúvel, mas há uma forma simples de resolver esse imbróglio. Basta que tudo isso, todos os atos citados acima, da renúncia da governadora, passando pela eleição do governador interino até a posse do governador substituto, aconteça antes de 4 de abril de 2014.

Visto assim parece estar tudo certo. Como diria Garrincha, só precisamos “combinar com os russos”.

Há, no entanto, um problema ainda maior e mais grave. O PT!!! A aliança do PMDB com o PT é primordial para nossa vitória eleitoral.

O PT fará eleições internas no final de 2013. Os vencedores dessa eleição decidem com quem o partido marchará em 2014.

Se o vice-governador Washington Oliveira aceitar o cargo no TCE, a derrota do grupo do qual faz parte será quase certa. Consequência direta disso é a dissolução de nossa aliança.

Há quem pense que sendo governador, substituindo Roseana, Washington se fortaleceria, venceria as eleições internas do PT e no caso de fazer uma boa administração, com apoio do governo federal, acabaria trazendo Lula e Dilma para o palanque de Luis Fernando. Seeráááá???!!!

No frigir dos ovos uma coisa deixa gente como eu extremamente incomodada. É que ninguém fala sobre esses assuntos. Não se conversa, não se discute, não se pensa… Na hora H muitas coisas saem erradas por falta dessa prática que há muito não se cultiva nesse grupo.

Existe gente com grande poder de decisão em nosso grupo que não sabe como funciona as intrincadas engrenagens desse sistema.

Que mal há em conversar, trocar ideias, discutir pontos de vista, se abrir para outros pensamentos, ouvir outras opiniões, arejar os cérebros…

Falar de flores é fácil. Quero é ver o bom para falar de espinhos. Ter coragem para pegá-los nas mãos mesmo correndo o risco de se ferir, ou melhor, mesmo sabendo que vai se ferir. Mas que seja! Para alguma coisa deve valer ser assim.

Como disse Vandré: “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.

PS: Lembrando que existem algumas coisas que não se deve e outras que não se pode dizer em um artigo de jornal.

Tempo de Debater!

Os tempos são outros!

Não estamos nos idos de 1985, quando da transição democrática liderada por Tancredo Neves e levada a cabo por José Sarney. Nem estamos em 1988 quando da promulgação da Constituição Cidadã de Ulisses Guimarães.

O Brasil de 2013 é outro. Mudou mais nos últimos vinte e cinco anos que nos cem antes destes.

As instituições se fortaleceram, a sociedade aprendeu a se mobilizar de forma mais eficaz. Derrubou um presidente que pouco tempo antes havia levado ao poder, carregando-o nos braços, tanto na ida quanto na volta.

O estado democrático de direito é pleno, tanto que o tal ex-presidente depois de cassado, tendo cumprido o prazo de inelegibilidade previsto na lei, voltou ao cenário político e hoje é senador por seu estado.

O Brasil pode hoje ser chamado de país democrático. O que não se pode dizer é que a nossa política de hoje é diferente daquela de vinte e cinco anos atrás, de cem anos atrás, de quinhentos anos atrás… A política é sempre igual, assim como a condição humana. A grande arte, a suprema sabedoria, aqui como em tudo, é saber fazer a diferença.

Mudam os tempos, as instituições se aperfeiçoam, a tecnologia progride, avança o desenvolvimento, o meio ambiente míngua… É assim desde que o homem pulou das árvores para as cavernas. É assim desde que o mundo é mundo.

A tecnologia diminuiu distâncias. Em alguns casos aumentou o tempo, em outros o encurtou. Transformou jovens desconhecidos em milionários influentes da noite para o dia. Pequenas empresas se transformaram em mega corporações e o dinheiro continua seguindo a sua lógica. Onde tem dinheiro, mais dinheiro se junta a ele.

No Brasil há uma sensação de que as diferenças diminuíram. Em alguns aspectos diminuíram mesmo.

A miséria e a fome não diminuíram. Aumentaram na proporção do crescimento. Com a corrupção a mecânica é igual. A mecânica é igual em quase todos os eventos.

Mecânica é mecânica. Física é física. As leis fundamentais não mudam. As mudanças acontecem na margem, na especificidade. Os átomos ainda são constituídos por elétrons e prótons, mas estes têm partes ainda menores, e estas partes outras menores ainda.

PSDB e PT fazem a mesma coisa. FHC e Lula, cada um ao seu modo, com o seu estilo, fizeram a mesma coisa. Políticos de esquerda, de direita, mais a esquerda ou mais a direita, são regulados pelas circunstâncias do poder.

A diferença de Zé Dirceu para Sergio Mota é que o primeiro foi pego e o segundo morreu antes.

O “esquema” do PSDB iniciou a arrumação econômica de nosso país e o “esquema” do PT finalizou. Ambos usaram as mesmas armas, as mesmas estratégias, a mesma lógica.

Faço todo esse preâmbulo para falar sobre as duas Propostas de Emendas Constitucionais que tramitam no Congresso Nacional. A PEC 33 de autoria do deputado Nazareno Fontelles do PT do Piauí que tenta impor “limite” ao poder do Supremo Tribunal Federal de legislar.

Já a PEC 37, de autoria do deputado Lourival Mendes do PT do B do Maranhão pretende que a Constituição Federal desautorize procuradores e promotores de justiça se investir da condição de polícia judiciária, salvo em situações excepcionais.

A primeira coisa que deve ser dita é que não serei eu, muito menos em uma crônica de jornal, que vai ter a melhor ou a última palavra sobre o assunto, vou apenas expor alguns fatos que nem sequer culminam em uma opinião consolidada.

A segunda coisa que deve ser dita é que as duas PECs são legítimas, regimentais e constitucionais, propostas da forma correta, por parlamentares que conhecem o assunto e estão sendo analisadas e votadas pelos organismos legislativos competentes para tal. Se elas devem ser aprovadas, isso são outros quinhentos. Na verdade pouco importa se essas PECs serão aprovadas, mas que se discutam profundamente os assuntos que elas abordam.

A PEC 33 trata da ação legislativa praticada pelo Supremo Tribunal Federal, que, graças à inapetência e a incompetência do Congresso Nacional, acaba legislando mais que o poder constituído para tanto.

O legislativo vem se enfraquecendo. Os partidos escolhem mal seus candidatos, os eleitores elegem mal seus representantes e estes cumprem mal o seu papel enquanto parlamentares. A fraqueza do legislativo é a principal causa da distorção de termos um judiciário extremamente legislante.

Espero que a PEC 33 não tenha sido proposta como retaliação ao STF, mas sim em respeito à medida constitucional que prevê que os poderes têm funções específicas e que são independentes e harmônicos.

O STF pode e deve continuar processando, cassando e mandando prender políticos corruptos, mas deve diminuir sua prerrogativa legislativa.

A PEC 37 é tão polêmica quanto a 33, pois neste caso também se trata de fazer com que uma categoria, o Ministério Público, não exerça a função de polícia.

Sinceramente não sei o que é pior! Deixar a polícia como única dona da investigação ou permitir que o ministério público também aja nessa função. A primeira que historicamente tem alguns agentes seduzidos pela propina e o segundo que tem em suas fileiras membros que se notabilizam pela “politização” de suas ações.

Acredito que essas PECs não serão aprovadas, mas acho importante que se levante o debate em torno delas, na tentativa de mostrar os prós e os contras de cada uma.  

Gostaria que muitas pessoas, pensadores importantes, juristas, filósofos, a sociedade de um modo geral se pusessem a debater amplamente cada um desses aspectos, em que eles influenciam em nossas vidas, como por exemplo, a vitaliciedade e a inamovibilidade dos cargos do ministério público, fatos que podem vir, em alguns casos, a transformar procuradores e promotores em senhores da lei e não em servos dela.

Sou um otimista. Acredito que nosso país esteja proporcionalmente melhor, mas ainda há muito a se melhorar e uma das melhores maneiras de se fazer isso é através do debate. Momentos como estes são delicados, mas são únicos no sentido de nos fazer evoluir.

 

Três palavras para toda uma vida

Já era tarde. Estava exausto. Havia passado o dia inteiro andando, visitando vários estúdios de cinema em Hollywood. A noite estava sendo uma daquelas em que o sono teima em não vir. Foi então que aproveitei para colocar em dia minhas reflexões filosóficas, há muito tempo esquecidas, impondo a mim mesmo a tarefa de escolher três palavras que resumissem e simbolizassem o ideal de realização profissional de uma pessoa.

Deveriam ser três substantivos que consequentemente definissem os adjetivos de seu sujeito.

Durante algum tempo percorri as ruelas de meus conhecimentos e as alamedas de minha memória em busca das tais palavras. Munido de uma lanterna, como um Diógenes moderno, buscava não a verdade ou um homem honesto, mas, sim, coisas indispensáveis para que alguém pudesse ser tido como uma pessoa realizada, de sucesso.

Não demorei a chegar às palavras que para mim representam esse ideal. O complicado é que as tais vieram até mim acompanhadas de outras três, que se não são sinônimos destas, são complementos indispensáveis.

As palavras que para mim melhor simbolizam o sucesso e a realização profissional são capacidade, oportunidade e trabalho.

Para que uma pessoa tenha sucesso na vida, ela precisa ser capaz, tem que desenvolver sua incumbência efetivamente, com eficiência e eficácia. Essa pessoa deve ter a oportunidade de demonstrar sua capacidade, no lugar certo, no momento certo, para as pessoas certas. E por fim, que isso seja um trabalho, que ela o encare como fruto de seu esforço e pelo qual ela tenha devoção e consequente recompensa por realizá-lo.

Em seguida me vieram quase que como por sugestão mediúnica as outras três palavras, complementos de que falei anteriormente: talento, sorte e dedicação.

Não consegui dissociar capacidade de talento. São palavras siamesas. Estão irremediavelmente ligadas por uma conexão lógica e sintomática. Quem é capaz tem talento. Faz acontecer.

Da mesma forma ocorre com oportunidade e sorte. Quem tem oportunidade é porque teve a sorte de tê-la. Tem sorte aquele a quem não faltam oportunidades. Enquanto outros, muitas vezes até bem capazes e talentosos, não possuem a sorte de uma única oportunidade.

Por fim, a palavra trabalho, que de pouco vale se não estiver associada a uma outra: dedicação. Palavra que complementa o esforço do trabalho, que dá a ele o espírito e a nobreza que ele precisa para figurar entre as boas coisas da vida. Trabalho sem dedicação é algo mecânico, coisa de autômatos, não de humanos.

Imediatamente busquei exemplos no dia a dia.

Como já disse havia percorrido naquele dia vários estúdios e pude ver pessoas capazes e talentosas que não tiveram a sorte de ter uma oportunidade. Vi outros trabalhadores incansáveis, que ou não tinham a verdadeira dedicação ou faltava-lhes capacidade ou talento, ou tendo essas qualidades, faltava-lhes a sorte de uma oportunidade.

Conheci muita gente do cinema naquele dia. Mais que conhecer os estúdios, os cenários, as produções, conheci pessoas, gente que trabalha na arte que eu mais admiro.

Procurei ver neles pedaços de seus ofícios. Busquei reconhecer a luz no iluminador, as expressões no make-up, o produto no produtor…

Comprovei que nos bastidores as coisas são realmente mais cinzas. A cor está na luz de quem a vê.

Dias depois, estávamos passando pela calçada da fama quando vimos na porta do Teatro Chinês a movimentação da avant premier de “Gangster Squade”, com Sean Penn, Nick Nolte, Josh Brolin, Ryan Gosling, e Emma Stone. O glamour daquilo tudo fez até eu, que não sou de tietagem, parar para ver.

Naquela outra noite pude continuar meu exercício filosófico sobre a realização profissional.

Quando voltávamos de Los Angeles, embarcou em nosso avião o ator Rodrigo Santoro. Voltei a pensar naquelas palavras. Esse rapaz tem grande talento e capacidade, teve a sorte de ter tido a oportunidade de demonstrá-la para as pessoas certas, no lugar certo e trabalha com dedicação para merecer seu sucesso.

Bem, já que nem todos nós somos talentosos e capazes, que tenhamos pelo menos a sorte da oportunidade de tentar. Caso contrário, só nos restará o trabalho, que normalmente sendo assim, mecânico, não virá acompanhado da devida dedicação.

Essa é a vida!

 

Acalanto para uma outra São Luís

Enganar-se-á redondamente quem imaginar que o título acima se refere a um tema político. Estará equivocado aquele que pensar que eu desejo hoje abordar algum aspecto de nossa cidade usando a vertente partidária ou ideológica. Cairá em erro quem supor que eu vá hoje vociferar contra o abandono do centro histórico, contra a inação dos governos em suas três esferas de descaso para com o nosso patrimônio cultural, histórico e arquitetônico.

A outra São Luís de que falo nos chegará hoje pelo foco da sensível e competente lente de um de nossos maiores cineastas.

A São Luís dele é a cidade das calmas ruas do centro. Nela se materializam os personagens do belíssimo drama concebido na genial cabeça de Mia Couto, maior escritor cabo-verdiano. Uma outra São Luís, um doce cenário que se adequa perfeitamente a quase todas as histórias que já tenham sido escritas ou que ainda venham a ser, tendo o ser humano, suas circunstâncias e suas conseqüências como pano de fundo.

Falo da São Luís de Arturo Saboia, cineasta que compõe a elite do cinema maranhense. Nesse ofício ele encontra-se ao lado de Frederico Machado, Francisco Colombo, Beto Matuck, Breno Ferreira, João Paulo Furtado, Zé Maria Eça de Queiroz, Junior Balbi, Ione Coelho, Denis Carlos, entre outros, sempre inspirados no trabalho de pioneiros como Murilo Santos, Euclides Moreira Neto, Ivan Sarney, João Ubaldo de Moraes… Tenho certeza que você leitor amigo pouco conhece sobre o cinema e os cineastas maranhenses. A culpa não é sua. Espero que muito em breve essa realidade mude. Tenho fé de que logo isso vai acontecer.

Recentemente Arturo chamou a mim e a Jacira à sua casa para assistirmos ao seu novo filme, “Acalanto”. Uma verdadeira obra-prima.

Arturo que estreou com o também excelente “Borralho”, baseado em um conto do mesmo Mia Couto, é um cineasta cuja maior qualidade, longe de ser a única, é a forma delicada e sensível com que aborda os temas aos quais se debruça. Ele faz isso mais uma vez com maestria em seu novo filme.

Roteirista minucioso, desenha as palavras de seu guião de tal forma, que de posse dele, qualquer um possa realizar um belo filme.

Tive o prazer e a honra de trabalhar com Arturo na confecção dos roteiros de alguns de meus filmes e posso garantir-lhe que ele é sensível, culto, aplicado, humilde e generoso, qualidades que fazem com que ele seja um grande artista.

Quanto ao filme, sem correr o risco de desmanchar o prazer de quem vier a vê-lo, posso dizer que é a declaração de amor fraterno mais doce que vi ultimamente no cinema. Digno de produções grandiosas. Devo dizer que este curta-metragem bem que poderia fazer parte de um longa que retratasse essa temática, que desfolhasse a flor do amor simples e singelo que a maioria das pessoas nem percebem que existe, bem ao nosso lado.

Arturo com o seu “Acalanto” dá um salto qualitativo e quantitativo imenso em relação ao seu primeiro filme, “Borralho”. Este que já era bom, agora passará a ser uma referência filmográfica importante, pois o segundo é muito melhor.

Dizer isso mais que um mero elogio é um desafio ao autor, para que ele se supere também no próximo, coisa que tenho certeza, ele o fará.

Quanto ao desempenho dos dois atores em cena, ele é irretocável. Luiz Carlos Vasconcelos e Léa Garcia estão perfeitos em seus papeis. Tempos atrás eu havia sugerido a Arturo que chamasse Laura Cardozo para viver Dona Luzia. Não foi possível e acabou por ser melhor. Léa Garcia está soberba. Para mim e para quem viu o filme ela arrebatará muitos dos prêmios que disputar.

O mesmo deve ocorrer com “Acalanto”, que tendo um tempo de duração elevado para um curta-metragem – eles devem ter até quinze minutos, o filme de Arturo tem vinte e três – mesmo assim, ele deve ser o filme curto maranhense mais premiado do ano.

“Acalanto” é um filme do qual gostaria de ter participado em qualquer função, mesmo que trabalhasse como operador de Travelling ou como um simples continuísta. Por isso a Fundação Nagib Haickel e a Guarnicê Produções se responsabilizarão pelo custeio do envio dessa obra para alguns dos mais importantes festivais de cinema do Brasil e do Mundo.

Fico orgulhoso de, em nossa terra, termos pessoas como Arturo Saboia, capazes de realizar uma obra tão importante. Sinto-me privilegiado e orgulhoso de fazer parte desse grupo, de ser amigo desses meninos que tanto honram a nossa tradição cultural.

Vai demorar algum tempo até que eu perdoe Arturo por não ter me chamado para que, mesmo de longe, eu pudesse presenciar a realização dessa bela obra. Vai demorar muito tempo para que eu perdoe a mim mesmo, por não ter à minha disposição o tempo necessário para fazer essas coisas que tanto me aprazem.

Muitas perguntas, poucas respostas e várias dúvidas.

Imagino que tudo que será dito a seguir já seja farta e vastamente sabido por todos aqueles que entendem ou pensam que entendem pelo menos um pouquinho sobre a política do Maranhão.

Acredito que suscitar esse assunto possa fazer surgir por entre as neblinas da dúvida, uma visão de norte nessa bússola que aponta nosso caminho na travessia que se aproxima.

Um único movimento, de uma única peça no conturbado tabuleiro de xadrez da atual política maranhense deverá decidir o destino da próxima eleição para o governo de nosso Estado.

O simples fato da governadora Roseana Sarney permanecer ou não em seu cargo, até o último dia de mandato, poderá selar o resultado do próximo pleito.

Essa foi a primeira pergunta que me fizeram alguns deputados de oposição quando estive na Assembleia Legislativa poucos dias atrás.

O fato é que, caso a governadora opte em se candidatar à única vaga em disputa para o Senado em 2014, a vitória de seu candidato ao governo passará a depender diretamente de quem for ocupar o cargo de governador do Estado em seu lugar.

A saída da governadora para disputar e certamente ganhar o pleito ao Senado, abre muitas indagações. Algumas fáceis de responder, outras difíceis, outras ainda praticamente impossíveis de obtermos resposta.

(?) Quem assumirá o governo? O vice, Washington Luiz Oliveira? Ou será que este aceitará a vaga no Tribunal de Contas do Estado, possibilitando que a Assembleia Legislativa decida quem será o governador tampão? Caso o vice não aceite ir para o TCE, ainda assim a governadora se desincompatibilizaria para concorrer ao Senado? Entregaria ao PT a incumbência de ajudar a eleger o candidato da coligação apoiada pela presidente Dilma?

(?) Caso o vice-governador aceite o cargo de conselheiro do TCE, o presidente da Assembleia Legislativa, Arnaldo Melo, assumindo o governo interinamente por 30 dias, como manda a Constituição, irá permanecer no cargo até o final do mandato? Penso que este questionamento é fácil de responder. É muito provável que sim, pois assumindo o governo no período vedado pela lei eleitoral, ele torna-se automaticamente inelegível para qualquer outro cargo que não seja o de governador.

(?) Assim sendo, ele sentado na cadeira de governador, será candidato ao governo para um mandato subsequente? Acredito que esta é outra pergunta que pode ser respondida com alguma segurança. Não. Não acredito que ele tentaria uma candidatura, pois tem compromisso com aquele que deverá ser o candidato a governador apoiado por todos os partidos que formam a base de seu grupo. Candidato este que deverá ser o ministro Edison Lobão ou o secretário Luís Fernando Silva.

Há outro fato importante que desejo comentar hoje. É que nessa eleição não poderemos carregar certos fardos, peso morto com os quais só conseguimos formar uma densa massa de manobra que só tem servido para dificultar nossa caminhada.

Devemos apoiar preferencialmente quem tenha capacidade e possa agregar suas forças às nossas, nas duras batalhas que certamente serão travadas nessa campanha. Esses companheiros devem possuir adjetivos capazes de se consubstanciarem em predicados necessários para nos fazer vencedores no próximo pleito.

Já foi o tempo de se eleger deputado quem não consegue ser um parlamentar ou escolher-se para suplente de senador alguém a quem não depositemos a confiança necessária para que, num caso de problema grave de saúde, o senador prefira não se licenciar.

Alguém poderia questionar: quem é este sujeito para abordar esse assunto. Restaria dizer que mesmo sem desejar exercer mandato eleitoral, não consigo me distanciar da política. Que a prática de anos não se esquece ou se abandona de uma hora para outra.

Gosto mesmo é da parte da política que liga à filosofia, à sociologia, à psicologia e à antropologia. Da parte que trata da razão de ser e de não dever ser das coisas no âmbito dessa prática, que em minha opinião se aproxima muito de uma forma de arte.

Um dia desses, quando levava minha enteada para escola, pela manhã, bem cedinho, fiquei imaginando tudo isso e acabei por descobrir que o que no fundo, o que distingue os homens, na vida como na política, é o espaço que há entre o que eles precisam, o que eles querem e aquilo que eles acabam por fazer.

 

Nazaré

Tenho comentado aqui, sempre que falece alguém ligado a minha família. Desta vez infelizmente falarei sobre Dona Nazaré Martins do Vale, amada esposa do velho Zé do Vale, ex-caseiro do sítio de meu pai e amantíssima mãe de nove filhos. Todos criados nos arredores do nosso sítio do Angelim, onde hoje se encontra o Residencial Pinheiro e que se estendia, de um lado, até a Avenida Jerônimo de Albuquerque e do outro, até quase chegar aos fundos da Cohama.

Não tenho memória de quem meu pai comprara aquele sítio, mas sei que foi no início dos anos 60. Lembro que vizinho dele havia uma fábrica de papel reciclado pertencente ao “tio” William Nagem, grande amigo de papai.

Quando eu era criança, minha família saía de nossa casa no Outeiro da Cruz toda sexta-feira à tarde, depois que chegávamos do Colégio Batista e se dirigia para o sítio, de onde só voltávamos depois que o último raio de sol do domingo se despedisse da gente. A viagem era maravilhosa. Um dia eu conto.

No sítio, moravam primeiramente seu Sergio e Dona Maria, herança do antigo proprietário daquelas terras. Seu Sergio era um velho alto e magro, falante e exímio contador de causos. Dona Maria era uma velhinha baixinha. Mesmo que não fosse gorda tinha uma cara redonda e estava sempre com cara de poucos amigos.

Comentavam que eles morriam de ciúmes um do outro. Em minha cabeça de criança não entendia como aquele velho homem podia sentir ciúmes daquela velhinha ranzinza.

Baseado na relação dos dois, meu pai criou a lenda do caju do amor. Este era o fruto proveniente de um imenso cajueiro que havia do lado da casa de seu Sergio e dona Maria, onde hoje se encontra uma igreja. Era um daqueles cajueiros que tinha seu imenso caule, todo contorcido e em alguns casos corria em paralelo ao chão. Anos mais tarde, quando fui a Natal, no Rio Grande do Norte, conheci o bisavô do cajueiro do amor. O fato é que todos os cajus daquela árvore eram doces. Meu pai dizia que o mel deles era resultado do amor de seu Sergio e dona Maria.

O tempo passou, seu Sergio adoeceu e veio a falecer. Dona Maria ficou inconsolável e quis ir morar com parentes no interior do Ceará. Meu pai mandou levá-la de carro até lá e nunca mais soubemos notícia dela.

Zé do Vale que fora contratado por seu Sergio para tomar conta das vaquinhas, carneiros, cabritos, porquinhos e das muitas galinhas que tinham por lá, passou assim a ser o responsável pelo nosso sítio.

Um dia meu pai perguntou a seu Zé o que fazia a mulher dele. Ele respondeu que lavava roupa. Meu pai perguntou então se ela não gostaria de trabalhar para ele lavando uma sacaria. Foi assim que, lavando sacos de açúcar, dona Nazaré ajudou a pagar a casa que iriam comprar. Pouco depois toda família veio morar em nosso sítio.

Nelsi, Gilvan, Ivan, Gilmar, Miriam, Regina, Mirani, e as gêmeas Lucinha e Verinha, passaram a ser tão donos daquele mundo quanto eu, Nagib, Jorge ou Celso, pois como não pudéssemos dispor de nada dali financeiramente, como o usávamos de igual modo e na mesma medida, éramos todos donos. Fomos todos criados como iguais. Quase como irmãos.

Zé do Vale sempre foi caladão. Nem sei como é a maneira politicamente correta de falar isso, mas ele era um negro imenso e forte. Suas feições não eram grosseiras. Ainda hoje ele demonstra ter sido um sujeito bem apessoado, mas era imenso para nós que não passávamos de pirralhos de pouco mais de metro de altura.

No sítio nossa vida era só alegria. Lá não havia tristeza. Acordávamos e já pulávamos na piscina que meu pai construíra represando um riacho que cortava a propriedade. Hoje, fazer aquilo seria crime ambiental, mesmo tendo ele previsto que não devesse interromper o curso d’água, e deixado um sorvedouro que perenizava o córrego.

Mas voltemos à dona Nazaré. Ela era uma cabocla de olhos apertados, um tanto asiáticos. Era falante e alegre, sempre pronta para uma brincadeira, mesmo que não gostasse muito das safadezas de meu irmão Nagib, que sempre contava piadas fortes e cheias de duplos sentidos.

Dona Naza fazia um feijão branco com toicinho que, comido só com arroz ou mesmo com farinha d’água, era uma comida digna dos Deuses.

Era de seu cardápio também dois tipos de farofa sem igual: de ovo com tomates e cebolas, e de carne seca.

Quando não tinha os ingredientes à mão mandávamos comprar latas de sardinha e ela cortava tomates, pepinos, cebolas e decorava com alfaces e nos fazia sentir pequenos reis.

O tempo foi passando, nós fomos crescendo. O sítio que antes era muito longe, era agora quase dentro da cidade.

Em 1978 papai vendeu o sítio para pagar as contas de sua primeira eleição de deputado federal. Quem o comprou foram seus amigos proprietários do moinho de trigo. Zé do Vale, Nazaré e seus filhos ficariam por lá até que os novos donos vendessem o sítio.

Meu pai então comprou um terreno próximo e construiu nele cinco casas para Zé do Vale e Nazaré, Ivan, Gilmar, Miriam e Regina, todos que haviam trabalhado com ele.

Esse ano fará 20 anos que meu pai morreu e comprovo que suas amizades são indestrutíveis, principalmente aquelas construídas com gente humilde como os Martins do Vale.

Miriam e Regina, filhas de Nazaré e seu Zé, continuam trabalhando conosco. Continuamos como uma família, só que agora um pouco mais órfãos.

Lembro com saudade que mesmo depois de muito tempo, de vez em quando, eu e meu irmão Nagib, íamos à casa de Nazaré só pra comer de seu feijão.

O tempo passa… Meu mundo está ficando menor… Mas eu venho ficando mais rico… De memórias e de saudade.

 

Oscar 2013

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood anunciará hoje, 24 de janeiro de 2013, os melhores do cinema no ano de 2012.

É bom ressaltar que essa escolha, como muitas outras, é feita através de eleição, com campanhas publicitárias e artifícios midiáticos para conquistar os votos dos eleitores que, neste caso, são os associados da Academia.

Como faço sempre que posso, analisarei as indicações, comentarei sobre os possíveis ganhadores e direi quem são os meus preferidos em cada categoria.

Para melhor filme temos este ano nove indicados. Cinco deles, em minha modesta opinião tem pouca chance de ganhar o tão cobiçado prêmio. Terão que se conformar em ostentar em seus cartazes e em suas chamadas, apenas a distinção de “Indicados ao Oscar de melhor filme”.

São eles: Amor, já premiado em vários festivais, é um belo e tocante filme, mas não tem força para enfrentar seus concorrentes ao Oscar; Indomável Sonhadora que mostra um lado pouco divulgado da América e como tal deve permanecer; O Lado Bom da Vida, um bom filme, mas só está na lista pelo bom desempenho de seu elenco; As Aventuras de Pi, um magnífico filme, uma belíssima fábula moderna, mas os membros da Academia não terão com ele lá muito boa vontade; e Django Livre, um genuíno Tarantino. Esta frase equivale ao mesmo que dizer que um quadro é um genuíno Picasso ou um genuíno Monet. Um ótimo entretenimento.

Por fim os quatro concorrentes que realmente estão disputando o Oscar de melhor filme do ano: A Hora mais Escura, filme já bastante premiado que conta de forma contundente a caçada e a eliminação de Osama Bin Laden; Argo, conta uma história real e surpreendente, já ganhou vários prêmios, é bem cotado, mas em minha opinião não merece ganhar; Lincoln que é tão bom que nos deixa sem saber se é cinema ou se entramos em uma máquina do tempo. Faz com que percamos a sensação de tempo e espaço e nos transporta para 1865 logo que entramos na sala escura. Show de roteiro, direção e interpretação; e Os Miseráveis, uma obra fantástica. Um musical que agrada até mesmo quem não gosta do gênero. Em minha opinião este filme é mais cinema que seu concorrente direto. Nele se vê mais a estrutura cinematográfica, as linguagens estabelecidas há muito tempo como sendo as sólidas bases da sétima e mais completa das artes. Se eu votasse, meu voto seria para ele, mesmo reconhecendo a qualidade e o poder de seus concorrentes.  

Depois do melhor filme todos querem saber qual será o melhor diretor. Aqui há três grandes ausências. Não indicaram os diretores de Os Miseráveis, Tom Hooper, de A Hora mais Escura, Kathryn Bigelow e de Argo, Ben Affleck, responsáveis diretos pelo sucesso de seus filmes. Coisas da poderosa indústria do Cinema.

Dos cinco concorrentes, todos merecedores, se sobressaem Ang Lee, Michael Haneke e Steven Spielberg, que deve levar mais uma estatueta.

O prêmio de melhor ator, que todos comentam será de Daniel Day-Lewis, certamente em grande performance, em minha opinião deveria ir para o Wolverine, Hugh Jackman, que dá um surpreendente show de atuação, mostrando um talento até então escondido por detrás de seus trabalhos braçais. Há ainda a possibilidade de os membros da Academia premiar o desempenho de Joaquin Phoenix por seu ótimo trabalho no difícil e controverso O Mestre.

No quesito atrizes, acho que as indicadas deste ano estão longe de ombrear-se com os atores, exceção feita a Emmanuelle Riva em Amor e Jennifer Lawrence em O Lado Bom da Vida, que disputarão o prêmio.

Qualquer um dos atores coadjuvantes que levarem para casa a estatueta, terá se feito justiça. São todos soberbos. Aqui há, no entanto, uma ausência, a de Samuel L. Jackson, impecável na pele de um negro racista em Django. Mesmo assim acredito que os favoritos sejam Cristoph Waltz e Tommy Lee Jones, sendo que o segundo leva vantagem sobre o primeiro. Ainda há o sempre ótimo Philip Seymour Hoffman, em O Mestre.

Entre as atrizes de suporte o mesmo equilíbrio se verifica, sendo que aqui a disputa será entre três grandes atrizes, Sally Field, Amy Adams e Anne Hathaway. Meu voto é para esta última que esta simplesmente perfeita como Fantine.

O equilíbrio continua entre os concorrentes à melhor roteiro original. Acredito que o vencedor será Tarantino.

Já para melhor roteiro adaptado não há nenhum equilíbrio. Não poderá haver nenhum outro vencedor que não seja Tony Kushner, por Lincoln.

No que diz respeito à melhor canção, duas se sobressaem sobre as outras: Skyfall, de 007 ou Suddenly, de Os Miseráveis. Qualquer uma que levar o prêmio estará de bom tamanho, mas eu votaria na primeira.

Melhor filme estrangeiro: há aqui uma imensa injustiça. A ausência daquele que foi em minha opinião o melhor filme não americano do ano: Intocáveis. Já que ele não está na lista, o vencedor certamente será Amor que também concorre como melhor filme.

Se uma palavra pudesse ser usada para resumir a escolha dos concorrentes e dos premiados deste ano, ela seria certamente equilíbrio.

Por falta de espaço, não falarei sobre os concorrentes aos prêmios técnicos, também muito equilibrados. Quanto às animações, os documentários e os curtas, não as comentarei, pois não vi todos os concorrentes.

Espero que com esse texto eu tenha conseguido motivá-lo a ir ao cinema, a comentar sobre essa incrível arte de criar vida e a assistir a solenidade de premiação do Oscar 2013.

Lincoln, o filme

Vou comentar hoje sobre dois dos assuntos de que mais gosto e que acredito sejam aqueles que mais domino. O bom neste caso é que falarei dos dois de forma conjunta e simultânea. Trata-se de política e cinema e vou fazer isso levado pelas mãos do grande cineasta Steven Spielberg, mestre em abordar temas políticos de maneira magistral.

Adentro ao cenário que mostra o que aconteceu entre o final de 1864 e o começo de 1865, durante a guerra civil americana. O diretor, como sempre faz, conta sua história com riqueza de detalhes e de um ponto de observação jamais usado antes.

Spielberg, sem que a grande maioria do público perceba, aborda em suas obras, temas eminentemente políticos. Ele sempre os apresenta com grande carga emocional e sutil senso de humor, às vezes encobrindo do público médio a visão do ponto que deseja realmente atingir.

Nem sempre seus temas são políticos, como nos casos de Tubarão, Indiana Jones e Jurassic Park. Já nos casos de A lista de Schindler, Amistad, O resgate do soldado Ryan, O Terminal e Munique, apenas para citar alguns, nestes, é exatamente de política que ele trata.

Com os primeiros ele ganha o dinheiro necessário para que possa ficar tranquilo e realizar os segundos, sem medo de que estes não façam o sucesso comercial esperado, coisa que jamais aconteceu.

Dito isso sobre SS pretendo não mais falar diretamente dele hoje, mas falarei o tempo todo a respeito dele, comentando sobre essa sua última criação.

No início do filme se vê fotografias históricas e legendas que nos dão a dimensão do fato, do tempo e do espaço. Fatos e fotos que são necessários para nos posicionarmos sobre os acontecimentos e para que os autores, diretor e roteirista, comecem a nos contar a sua visão da história.

É importante que seja dito que todo este filme é inteiramente construído sobre o sólido roteiro de Tony Kushner, que, por sua vez, se baseia no livro de Doris Kearns Goodwin. A maior qualidade do diretor neste caso é não desfigurar a história, maravilhosamente bem contada.

Este não é simplesmente um filme histórico ou sobre a história, antes de tudo é uma autópsia dos fatos que são mostrados de maneira tão surpreendente que até se perde a dimensão cinematográfica da obra. Em muitos momentos não parece que estamos assistindo a um filme. Fica a nítida impressão que estamos presenciando os fatos como eles aconteceram, que estamos dentro da história, participando dela como espectadores privilegiados.

A escolha do elenco é responsável por boa parte do sucesso da encenação. Não que sejam apenas bons atores. Não! Isso seria dizer pouco. Daniel Day-Lewis, Sally Field, Tommy Lee Jones, David Stratairn e James Spader, apenas para falar dos mais importantes atores em cena, são verdadeiramente aquelas figuras históricas, entram na pele de seus personagens que a partir de agora ficarão marcados em nossa memória para sempre, graças à magia do cinema.

Durante mais de duas horas e meia, tempo de duração da película, fiquei me perguntando qual seria realmente o assunto central daquela obra, sobre o que Spielberg estava falando primordialmente. Saí da sala de exibição ainda me perguntando e volta e meia, ainda agora mesmo, volto a me questionar sobre isso.

São muitas as linhas de análise e de consequente entendimento que se pode auferir, mas em minha opinião a mais forte de todas é a que nos fala da dimensão humana dos heróis e da nossa miserável condição de seres humanos. É bem verdade que alguns de nós somos mais humanos que outros. Uns são mais humanos pelo lado positivo de ser, outros pelo que há de podre em nosso gênero.

No filme vemos aquele que provavelmente é o maior símbolo de correção e retidão de caráter para o povo que compõe a maior nação da terra, em sua ordinária condição humana. É bem verdade que o vemos sofrer e se dilacerar. Deve ter sido assim mesmo que aconteceu, pois este quase santo homem, em nome de um bem maior e mais permanente para seu povo, seu país e para a humanidade, prorroga por alguns meses uma das mais cruéis e sanguinárias guerras que a humanidade já perpetrou, deixando com isso que morressem milhares de soldados de ambos os lados do conflito.

Tudo que aquela figura gigantesca em estatura física e moral fez e levou outros a fazer na intenção de aprovar a Décima Terceira Emenda à Constituição americana, instrumento que acabava com a escravidão, mesmo algumas dessas coisas sendo atos de infame corrupção, tudo aquilo, foi muito bem feito e necessário para que ele atingisse seu objetivo, que era nobre e justo.

No meio da sessão percebi, sentado em um canto escuro de minha mente, assistindo junto comigo ao filme de Spielberg, o grande Nicolau Maquiavel que sorria discretamente, maravilhado com o que era capaz o homem de fazer quando tem um bom motivo para fazê-lo.

Para encerrar a nossa sessão de hoje, fica aqui uma constatação cínica, a de que o que falta para alguns políticos que fazem coisas das quais se envergonham é o bom motivo que teve Abraham Lincoln para cometer as irregularidades que teve que cometer para libertar os escravos em seu país.

Se você ainda não assistiu a esse filme, aproveite que hoje é domingo de carnaval e vá assisti-lo, quem sabe nós nos encontramos por lá, pois preciso vê-lo novamente, talvez descubra algum detalhe que possa ter me escapado.

Os pais são bons mestres.

Quem me conhece sabe que eu sou um sujeito muito organizado. Faço agenda e a programo de acordo com o trajeto que tenho que realizar. Quando vou viajar arrumo a mala com dias de antecedência, não sem antes listar os itens que deverei levar e os locais aonde irei.

Não chego a ser um daqueles chatos metódicos quanto a isso, e de vez em quando quebro minhas próprias regras e resolvo sair “sem lenço e sem documento, nada no bolso ou nas mãos”, para ver o que o dia me reserva.

Quase sempre é um desastre. Esqueço os compromissos, perco ou troco os horários e acabo voltando ao método tradicional: planejar e listar tudo que tenho a fazer. Imaginar cada detalhe do que precisa ser feito, quando, onde, com quem, e principalmente os porquês.

Quero deixar claro que algumas pessoas podem pensar que alguém como eu, que se acha organizado, não o é. Ocorre que organização é uma coisa muito pessoal. Às vezes um quarto, um escritório ou uma mesa de trabalho que parece uma zorra para um é uma perfeição para outro.

Algumas vezes não me contenho em apenas planejar. Chego a ensaiar o que preciso fazer, o que pode ser dito e o que não deve ser comentado. Preparo inclusive argumentos e contra-argumentos. Ainda assim algumas vezes as coisas acabam acontecendo de forma bem diferente da desejada.

Tem sido assim desde que me entendo por gente.

Muito do que sei aprendi com meu pai, que entre as diversas coisas fantásticas que realizou na vida, uma, foi ter sido o precursor do Excel, programa de planilhas, baseado em linhas e colunas, desenvolvido, patenteado e comercializado com imenso sucesso pela Microsoft.

Meu pai fazia seu Excel à mão, sem computador. Acredito que ele tenha feito isso pela primeira vez antes que eu e o próprio Bill Gates tivéssemos nascido. Quem o conheceu pode confirmar. Não é invenção minha.

Pode alguém pensar que como filho devotado a memória do pai eu quisesse dar-lhe o crédito por essa façanha, mas não é esse o caso.

Ele andava para cima e para baixo com sua planilha no bolso. Onde quer que chegasse, tendo um telefone ao seu alcance, ligava para seu armazém e falava com uma de suas secretárias, fosse ela Elizabeth, Augusta ou Sebastiana. Atualizava sua planilha, orientava compras e vendas, controlava saldos e estoque e geria os destinos de seus negócios, baseado exclusivamente no seu conhecimento do mercado, nos dados que possuía e na confiança que depositava em seus colaboradores e parceiros.

Aprendi a fazer essas planilhas com meu pai, com quem aprendi muitas outras coisas. Poucas no que diz respeito diretamente às minhas atividades artísticas e culturais, mas indiretamente o que aprendi com ele se tornou indispensável para bem desenvolvê-las.

Por exemplo, aprendi muito a respeito de gente. Sobre o ser humano, suas características, suas necessidades, seus anseios e as formas e artifícios que eles usam para alcançá-los. Meu pai era formado em antropologia e em sociologia sem jamais ter cursado uma universidade. Ele dizia brincando ser formado pela universidade da vida.

Com meu pai aprendi também como falar em público. Ele ensaiava os discursos que faria na Assembleia Legislativa dentro do carro, enquanto levava a mim e a meu irmão para o colégio. Imaginava até os apartes que seus colegas poderiam fazer. Os mais chegados, que compartilhavam com ele as mesmas posições e opiniões se portariam de modo favorável, já os que se opunham às suas ideias e colocações iriam admoestá-lo e ele deveria estar preparado para a réplica e às vezes para a tréplica.

Passei anos vendo isso e o aprendizado foi automático. Agreguei a esse ensinamento apenas um pouco de cultura e alguma erudição. Acredito que este é o mesmo tipo de aprendizado que ocorre com o filho do açougueiro, com o filho do mecânico ou com o filho do padre… Ops!!! Padre não tem filho…

Pois bem, ao chegar a este ponto de nossa conversa, fico sem saber como os filhos de hoje em dia fazem para aprender algo diretamente com seus pais, já que a convivência entre eles está cada vez mais escassa, pois as crianças de hoje em dia passam a maior parte do tempo com seus joguinhos eletrônicos e com os itudos da vida.

Olho pra trás e tenho certeza de que, tudo que fiz quando criança serviu extraordinariamente na edificação da pessoa que sou. Essa é uma verdade humana, geral e eterna.

Quanto ao saldo, me parece positivo, mas vejo que de meu mesmo só há essa vontade avassaladora de aprender.

O que constato é que tenho um jeito próprio de usar a gustação, o olfato, o tato e principalmente a visão e a audição como instrumentos de descoberta e captura do mundo, lançando mão da indispensável memória, muitas vezes involuntariamente seletiva, que privilegia as boas coisas em detrimento das más.

PS: Muitos amigos têm reclamado de minha ausência desta página. Fico lisonjeado, mas devo esclarecer que a grande quantidade de afazeres com os quais me comprometi me deixa com pouco tempo para me dedicar à crônica, que por mais que pareça uma tarefa fácil, toma-me bastante tempo. De qualquer modo estarei por aqui uma ou duas vezes por mês para conversar com você o botarmos os assuntos em dia.

Ah, sim! Ia me esquecendo! Que o enunciado deste texto sirva de alerta para todos nós.

Uns poucos planos para 2013

Esse texto não terá prólogo. Ou melhor, seu prólogo será pequenino. Não darei muitas voltas, como sempre faço, antes de chegar ao assunto que quero. É que o assunto de hoje é bem simples. Todo ano, nessa ocasião, tomamos decisões, fazemos planos para colocarmos em prática no ano que se inicia. O texto de hoje é única e tão somente a respeito de uma agenda, uma lista, uma planilha de coisas que preciso fazer a partir de depois de amanhã, quando já será 2013.

Não farei uma lista em ordem cronológica ou de prioridades. Relacionarei os afazeres que preciso realizar de forma a agrupá-los por gênero das atividades as quais me dedico.

Dois de meus grandes amigos, o saudoso Artur da Távola e meu eterno professor, Sebastião Moreira Duarte, em prefácios que fizeram em dois de meus livros acusam-me de ser facundo e múltiplo. Abstraindo qualquer caráter qualitativamente positivo que possa haver nesses adjetivos a mim direcionados, confesso que realmente são muitas as facetas de minha existência. Tantas que às vezes penso que
não darei conta de conviver com todas.

Enquanto pessoa, ser humano, homem, espero poder em 2013 desfrutar mais da companhia das pessoas que amo e que a mim dedicam esse sentimento, sem o qual nada eu seria.

Como indivíduo, espero arrumar tempo para voltar a praticar tênis e basquete, no intuito de perder pelo menos parte dos quilos que ganhei mais recentemente e deles não consigo me livrar. Comer menos? Nem pensar!

No que diz respeito à minha função de secretário estadual de esporte, espero que o ano de 2013 seja administrativamente mais parecido com 2011 que com 2012.

Nesse setor, temos que dar ainda mais atenção aos JEM’s e à nossa participação nos JEB’s; devemos finalmente concluir a reconstrução do Costa Rodrigues; dedicarmo-nos mais ao futebol, pois esse será um ano muito profícuo; precisamos fazer o Viva Nota sair do papel e equilibrar a gestão do Castelão; devemos divulgar e difundir a Lei de Incentivo ao Esporte, que já é um grande sucesso.

Na política, minha determinação permanece a mesma. Amá-la incondicionalmente, mas com o mesmo distanciamento que deve ter um alcoólatra da primeira dose. Eu não seria completamente feliz sem a política, mas não pretendo participar de disputas eleitorais.

Quanto ao setor empresarial, não permitirei que nenhum negócio, por mais lucrativo que possa ser, venha a abalar alguma amizade, por menor que ela fosse, pois para mim a verdadeira fortuna de um homem, seu maior tesouro, não são joias, dinheiro, imóveis, mas sim as amizades que ele possui e sabe preservar.

Aprendi com meu pai, que era reconhecido por todos como um homem extremamente generoso, que nos negócios, assim como na política e na vida, é sempre melhor um mau acordo que uma boa briga.

No setor das artes: para 2013, no que se refere à literatura, não pretendo lançar nenhum livro e devo diminuir minha participação aqui nesse espaço, de quatro para duas vezes por mês.

Na Academia Maranhense de Letras, pretendemos implantar com ajuda da iniciativa privada e uma forcinha do secretário de indústria e comércio, Mauricio Macedo e da superintendente do IPHAN, Kátia Bogéa, uma nova biblioteca que deverá abrigar acervos doados por alguns de nossos mais importantes membros.

No cinema alguns projetos estarão sendo concluídos ainda no primeiro trimestre, como é o caso da série para televisão feita para a AML sobre seus fundadores e alguns outros imortais. Há também o longa-metragem sobre a vida e a obra do padre Antonio Vieira cujo titulo é “A Pedra e a Palavra”.

São muitos os projetos nessa área. Um filme sobre o compositor e cantor, mestre Antonio Vieira; outro baseado no livro de Eliezer Moreira, sobre o desconhecido, mas mesmo assim importante escultor maranhense, Celso Antonio; três desenhos animados: um em conjunto com Lenita Estrela de Sá, sobre futebol e outros dois históricos, um sobre Ana Jansen e outro sobre a Balaiada. Todos três em
parceria com a Dupla Criação.

Se conseguir um tempinho, pretendo iniciar uma série de documentários sobre alguns dos mais importantes personagens de nossa história, começando por dois ex-prefeitos, Sousândrade e Haroldo Tavares. Há também planos de realizarmos uma outra série sobre nossos artistas plásticos, isso sem interrompermos nosso trabalho no Museu da Memória Audiovisual, que tenta digitalizar os acervos que nos chegam às mãos.

Vamos também buscar apoio na lei de incentivo à cultura que em muito boa hora foi regulamentada pela secretária Olga Simão.

Em 2013 a Fundação Nagib Haickel implantará um canal de Televisão Educativa, a TV Guarnicê, Canal 15, que deverá contar com a parceria das Secretarias de Educação, Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, bem como com a participação de algumas universidades estatais e particulares, além de entidades como ICE, FIEMA, ACM, FAMEM, no sentido de oferecer ao Maranhão e ao Brasil uma escola 24 horas por dia, em sua grade de programação.

Parece muito para se realizar em apenas 365 dias, e o é, mas para realizar tudo isso conto com a colaboração de pessoas maravilhosas por onde quer que eu vá.

É especialmente para essa gente, que trabalha direta ou indiretamente comigo em todos esses projetos, que dirijo minhas últimas palavras de 2012… Muito Obrigado!… E as primeiras de 2013… Vamos fazer muito mais e melhor…

Feliz Ano Novo para todos!

Perfil

“Poeta, contista e cronista, que, quando sobra tempo, também é deputado”. Era essa a maneira como Joaquim Elias Nagib Pinto Haickel aparecia no expediente da revista cultural Guarnicê, da qual foi o principal artífice. Mais de três décadas depois disso, o não mais, porem eterno parlamentar, ainda sem as sobras do tempo, permanece cronista, contista e poeta, além de cineasta.

Advogado, Joaquim Haickel foi eleito para o parlamento estadual pela primeira vez de 1982, quando foi o mais jovem parlamentar do Brasil. Em seguida, foi eleito deputado federal constituinte e depois voltou a ser deputado estadual até 2011. Entre 2011 e 2014 exerceu o cargo de secretario de esportes do Estado do Maranhão.

Cinema, esportes, culinária, literatura e artes de um modo geral estão entre as predileções de Joaquim Haickel, quando não está na arena política, de onde não se afasta, mesmo que tenha optado por não mais disputar mandato eletivo.

Cinéfilo inveterado, é autor do filme “Pelo Ouvido”, grande sucesso de 2008. Sua paixão pelo cinema fez com desenvolvesse juntamente com um grupo de colaboradores um projeto que visa resgatar e preservar a memória maranhense através do audiovisual.

Enquanto produz e dirigi filmes, Joaquim continua a escrever um livro sobre cinema e psicanálise, que, segundo ele, “se conseguir concluí-lo”, será sua obra definitiva.

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