Meia noite em São Luís

Outro dia tive um sonho interessante: Estava eu em companhia de um grupo de amigos, deste e de outros tempos, apreciando o mural que retrata a fundação de São Luis, que se encontrava pendurado na parede do Salão de Atos do Palácio dos Leões.

Comigo estavam Japiaçu, principal chefe das aldeias de Upaon-Açu; Davi Migan, o língua, gaulês que foi trazido para os trópicos ainda menino e que aqui chegando, assimilou e foi assimilado pela cultura nativa, o que lhe propiciou a função de tradutor e diplomata dos tupinambás; Charles de Vaux e Jacques Riffau, misto de negociantes e corsários; os empreendedores Daniel de La Touche, senhor de La Ravardiere, François de Rasilly, senhor Almers e Nicolau de Herley, senhor de Sancy; os padres capuchinhos Claude d’Abbeville e Yves d’Évreux.

Estavam também Jerônimo de Albuquerque, Diogo de Campos Moreno, Alexandre de Moura e o engenheiro-mor Francisco de Frias, responsável pelo primeiro desenho urbanístico de nossa cidade.

Mais atrás vinham Simão Estácio da Silveira, fundador do Senado da Câmara de São Luís e o padre Antonio Vieira, que dispensa qualquer aposto. Vinham seguidos de um sizudo Manuel Bequimão, a quem todos devem conhecer.

Em meu sonho estava também o político, escritor e jornalista João Francisco Lisboa e dona Ana Jansen que vinham acompanhados pelo igualmente político, escritor e jornalista Erasmo Dias, o pintor Floriano Teixeira, autor do magnifico mural, o poeta Valdelino Ceccio, o fotografo Dreyffus Azoubel, os historiadores Mário Meireles e Carlos de Lima, o famoso maluco local “Bota Pra Moer”, que trazia atenciosamente pelas mãos minha espevitada filha Laila, de sainha plissada e maria chiquinhas, do tempo em que ela ainda era uma menininha perguntadeira. Hoje, mesmo que ainda perguntadeira, já é uma bela mulher.

Todos apreciavam o quadro de seu ponto de vista. O velho índio via sua gente parda, lindamente retratada pelo artista que ao fundo apreciava sua obra, e mais ainda, apreciava a apreciação e o deslumbramento dos demais.

Os franceses se acharam garbosos. Os portugueses não se viam registrados. Os padres se viam elegantemente retratados. Mas Vieira, como era de seu temperamento, já se preparava para dizer que ali começava a exploração dos silvícolas pelo branco.

O clima não era de disputa. Não havia tensão no ar. Havia comtemplação. A obra de Floriano, mesmo se não represente a verdade dos fatos acontecidos, retrata solidamente aquele tempo feito luz e cor.

Lembro da primeira vez que vi aquele quadro. Ainda menino, fui levado por meu pai ao Palácio, não me lembro bem por qual motivo. Ao passar por uma das salas vi aquela imensa pintura, a maior que veria por muitos anos e me apaixonei por ele, pela história que cada um daqueles personagens contava.

Mesmo que não tivesse movimento em si, os desenhos pareciam se mexer. Os personagens tinham vida, corriam, falavam, sorriam…

De repente o Salão de Atos do PL, locação inicial de meu sonho, transformou-se em uma espécie de corredor por onde passavam todos os personagens que participaram da história de São Luís nesses 400 anos.

No meio do sonho, lembrei que da primeira vez que fui ao Palácio vi um outro quadro que me comoveu bastante. Tratava-se de uma pintura que trazia um índio sobre uma prancha de madeira e nela, a seus pés, jazia morto um homem, que de imediato perguntei de quem se tratava e me foi respondido que aquele era o poeta Gonçalves Dias.

Em minha procura daquele quadro, no sonho, acabei por encontrar um outro, que até aquele instante me era desconhecido.

Tratava-se de uma obra moderna, iconográfica, cheia de informação, ícones culturais. Em estilo lembrava Andy Warhol. Havia no meio dessa tela, que trazia por trás de si uma luz que oscilava de um lado para outro, uma série de números: “…398, 399, 400, 401, 402…”.

Todos haviam ficado para trás. Em frente aquele quadro estavamos apenas eu, minha filhinha perguntadeira, o padre Vieira e “Bota Pra Moer”.

Laila perguntou o que significava aquele quadro. Eu calei. Vieira franziu a testa, suspirou e levou as mãos justapostas ao peito, como se rezasse. Só o maluco foi capaz de expressar claramente o que via. Segundo ele aquele quadro recomendava que tratássemos de comemorar os 400 anos de São Luís da melhor maneira possivel, mas que mais importante que isso, seria comemorarmos com igual entusiasmo e com cada vez maior empenho os aniversários vindouros, buscando preservar nossa cidade para as gerações futuras.

Acordei sobressaltado. Aquilo tudo pareceu tão real, tão verdadeiro. Fiquei triste por ter acordado e parado de sonhar.

Deitei novamente, fechei os olhos e busquei me concentar naquele sonho, tentando alcançar novamente aquelas imagens, aqueles sons, aquele filme que havia sido interrompido. Não consegui voltar ao sonho, mas acordado mesmo, passei a desenhá-lo em minha mente.

De tudo que pensei, o mais importante foi reflexo direto do que disse “Bota Pra Moer”: As comemorações dos 400 anos de São Luís são importantes, porém, mais que isso será no ano que vem comemorarmos os 401 anos de nossa cidade podendo oferecer a ela e a seus habitantes, nós, uma melhor qualidade de vida, uma cidade mais bem tratada, mais preservada, mais amada, mais respeitada.

Esse será sempre o melhor presente que poderemos dar à nossa terra mãe.

 

Para meu amigo Bob

Já havia escrito uns quatro parágrafos sobre um outro assunto ao qual voltarei num domingo adiante, quando me ligaram dizendo que meu amigo Roberto Duailibe Cassas Gomes havia falecido.

A partir dali a minha crônica para hoje iria mudar de direção. Passaria a ser, pelo tom triste e saudoso do adeus, um réquiem, mas seria principalmente um instrumento de catarse, de enfrentamento de alguns de meus maiores defeitos, de algumas de minhas maiores fraquezas.

Como diz o título, vou falar-lhe um pouco sobre meu amigo Bob.

Nasci 53 dias antes dele. Eu em dezembro de 1959 e ele em fevereiro de 1960.

Talvez tenhamos vindo ao mundo pelas mãos de médicos diferentes, em hospitais diferentes. Mas logo iríamos nos encontrar, pois nossos pais se conheciam. Quase todos se conheciam em São Luis durante os anos 60 e 70.

Não me lembro ao certo como e onde nos conhecemos. Acho que foi em um aniversário na casa de Daniel Aragão, amigo e sócio de meu pai. Tio Daniel morava no Apeadouro. Tia Oneide, sua viúva, ainda mora lá.

Uma tia de Roberto morava em frente e as famílias se frequentavam. Deve ter sido assim. A primeira coisa que soube sobre ele é que era neto do dono da Cola Jesus. Isso era o máximo.

O certo é que crescemos juntos. Convivíamos nas aulas de judô, nas mesas de ping-pong, nas escolinhas de basquete, nas peladas de futebol, nos jogos de vôlei, nas quadras de tênis, tanto no Lítero como no Jaguarema.

Lembro de uma época em que meu pai era um grande distribuidor de bebidas, em especial da Cola Jesus. Algumas vezes me levava com ele até a fábrica que ficava ali no Filipinho, perto de nossa casa, no Outeiro da Cruz. Muitas dessas vezes encontrei com Roberto por lá. Uma de nossas maiores diversões era tirarmos as garrafas de refrigerante das esteiras de transporte, quando elas saiam da máquina, antes de serem tampadas.

Escalávamos os engradados, brincávamos de esconde-esconde e de “mãos ao alto”. A vida parecia que não nos traria até aqui.

Roberto sempre foi uma dessas pessoas que você conhece e automaticamente gosta.

O tempo foi passando e nossas vidas foram naturalmente seguindo seus cursos. Nos últimos anos não nos víamos mais com tanta assiduidade.

A cidade, graças a Deus, cresceu. Nós, infelizmente crescemos. Mas Roberto foi um daqueles que conseguiu preservar em algum lugar dentro de si o garoto alegre e feliz que ele sempre foi. Esse trabalho de preservação é que faz com que pessoas como ele se destaquem por onde quer que passem.

Encontrei-o certa vez no saguão de aeroporto. Conversamos, matamos a saudade, colocamos os assuntos em dia. Passávamos tempos sem nos ver, mas sempre que nos encontrávamos era como se tivéssemos nos visto ontem. Era como se ele soubesse que eu havia me separado e casara novamente, que minha filha acabara de chegar de um ano de estudos em Londres. Era como se eu soubesse a quantas ia a sua vida. Éramos verdadeiramente amigos.

Soube algum tempo atrás que Bob estava doente. Torci para que o caso fosse fácil de resolver. Quis me convencer que seria.

É aqui que começa o meu drama. Devo reconhecer que sou um grande covarde, desses que não consegue presenciar a dor de quem ama. Desse defeito me penitencio diariamente. A dor proveniente disso é resultado da vergonha que sinto, de minha impotência, de minha incapacidade de conviver com o sofrimento de alguém com quem partilhei momentos tão alegres e tão felizes.

O egoísmo que transparece nessa covardia eu assumo. Mesmo que não admita para mim outro tipo de egoísmo ou outra forma de covardia. Não fujo da luta. Fujo do luto. Não abandono os amigos, da mesma forma que não ambiciono para mim coisas dos outros ou me apego demasiadamente a bens materiais.

Quando soube que Roberto estava muito mal, meu coração ficou pequeno. Mesmo diminuído, bloqueou minha garganta. Minhas mãos gelaram.

Por um momento me lembrei de seu sorriso juvenil e ele, em minha mente foi tomando o aspecto da doença. Fechei os olhos para não ver meu pensamento. Sacudi a cabeça na tentativa de fazer passar a imagem que teimava em ser projetada em minha cabeça. Preferi outras: Ora era ele de kimono, ora jogando basquete com suas pernas arqueadas, ora com a raquete de tênis na mão, ora simplesmente brincando. Sempre sorrindo.

Quanto a mim, que vivo também sempre risonho, não consegui escapar do choro enquanto aqui catava milho e desenhava essas palavras.

Não tive coragem de ir ver Roberto doente. Perdoe-me tia Zezé, tio Eli, Sham, Roberta… Nisso sou um fraco. Apesar de tê-lo visto morto, quero preservar a antiga lembrança de meu amigo Bob, de nossa infância e de nossa adolescência.

Gosto de pensar que esse fraco aqui se torna forte por preservar impressa, de forma definitiva no jornal de minha existência, as crônicas de meu tempo que contam as histórias de pessoas como Roberto.

Se existir um céu, deve algo ser parecido com um imenso ginásio de esportes e tenho certeza que esse garoto, uma hora dessas, está lá numa das primeiras filas, torcendo para que quando chegue a minha hora de comprar o meu ingresso para o grande evento, consiga um lugar no mesmo setor que ele, que certamente é um dos melhores.

 

O Gabinete Maranhense de Leitura

No início deste ano, estava eu aguardando na ante-sala da governadora, quando de lá saiu um grupo de empresários, dirigentes da Algar Agro, empresa mineira que no Maranhão estabeleceu-se no município de Porto Franco, onde se dedica à industrialização de derivados de soja, plantada em grande parte no sul de nosso estado.

Fui apresentado a eles pelo secretario de Indústria e Comércio, Mauricio Macedo, que ao fazê-lo comentou que eu poderia dar alguma ideia sobre um dos assuntos que a governadora tratara com eles.

A princípio, fiquei sem saber do que se tratava, até que me foi dito que a governadora havia sugerido que a Algar comprasse um prédio no centro histórico de São Luis e ali implantasse a sede de sua empresa ou então, em parceria com uma instituição local, como por exemplo, a Academia Maranhense de Letras, o Instituto Histórico e Geográfico, o IPHAN, a UFMA, a UEMA, o IFMA ou com qualquer outra instituição respeitável, desenvolvesse um projeto onde se pudesse preservar não apenas as nossas tradições artísticas e culturais, mas principalmente o nosso patrimônio arquitetônico.

Vibrei com a genial ideia da governadora. Fazendo isso ela mostra a essas empresas, que normalmente investem imensas quantias na construção de escritórios suntuosos, em bairros cujo metro quadrado supera em centenas de vezes os preços do centro histórico, que eles podem fazer algo muito mais barato e ainda por cima com uma função social importantíssima para nossa terra.

Na hora pensei só comigo: são ações como essa que diferenciam um simples governante de um estadista. Se por um lado fiquei orgulhoso da atitude da governadora, por outro fiquei satisfeito, por estar ali, sozinho na pequena área, de frente pro gol, com a bola no pé e o goleiro amarrado na trave do lado oposto. Tinha que fazer aquele gol!

Falei com secretario Mauricio Macedo para que ele servisse de ponte e ajudasse a sacramentar o que aparentemente ficou ali acertado: A Algar iria adquirir um prédio indicado pela Academia Maranhense de Letras, o doaria para a instituição que por sua vez providenciaria, respaldada nas leis de incentivo, tanto do governo federal quanto do governo estadual, os recursos para a reforma do imóvel e para a implantação nele, do projeto que se chamaria Gabinete Maranhense de Leitura.

Passado algum tempo, a ideia foi discutida e aprimorada, tendo sido apresentada em uma reunião da Academia Maranhense de Letras, onde comuniquei que dois de nossos maiores colecionadores de livros, raros e importantes, se comprometeram em doar seus preciosos acervos para a Casa, se o projeto do Gabinete Maranhense de Leitura sair do âmbito dos planos e passar ao da realidade.

Os acadêmicos Jomar Moraes e Sebastião Moreira Duarte serão os primeiros a terem suas bibliotecas incorporadas a esse projeto.

Deixe-me passar então aos detalhes, assim você poderá entender melhor como funcionará na prática tal idéia.

Uma empresa que pode ser a Algar, a Suzano, a Alumar, a Vale, a Raízen, a Petrobras, a Ambev, a Cemar, a EBX, a Votorantim, dentre tantas outras, adquire um prédio; sacramenta-se a doação para a AML; a instituição manda elaborar um projeto para pleitear os benéficos das leis de incentivo, incluindo nele o projeto de reforma do imóvel; aprovam-se os projetos; conseguem-se os patrocinadores, que poderão ser os mesmos já citados ou ainda os governos federal, estadual e municipal, através diretamente de seus orçamentos, de emendas parlamentares ou de recursos especiais; feito isso, reforma-se e adequa-se o prédio para o fim que se destina, reservando os salões onde serão colocadas as bibliotecas daqueles que doarem seus livros para esse fim.

Estaremos assim garantindo e preservando dois patrimônios de valores incalculáveis, um prédio histórico e livros preciosos. Preservaremos o trabalho de uma vida inteira de homens como Jomar e Sebastião, que se dedicaram em buscar e proteger esses livros para si e que agora os oferecem a todos nós.

É importante que se ressalte que o Gabinete Maranhense de Leitura da AML estará aberto a receber o acervo não só de seus membros, mas de toda aquela pessoa que desejar doar seus livros, filmes, quadros, obras de arte em geral para esse projeto, que terá visitação aberta e gratuita a todo público e será administrado de forma moderna e competente. Para isso faremos parcerias com as universidades aqui instaladas, que queiram desse projeto participar.

A iniciativa da governadora em convocar as empresas que no nosso estado trabalhem e desejam engrandecê-lo ajudando a proteger nosso patrimônio cultural e arquitetônico, a disposição da AML em ser parceira nesse projeto, o despojamento de figuras como Jomar Moraes e Sebastião Duarte em doarem seus acervos, a imprescindível parceria de nossas instituições universitárias, tudo isso nos faz crer que este será um projeto de grande sucesso, a exemplo do Museu da Língua Portuguesa, em nossa cidade patrocinado pela Vale.

Eleição para Vereadores de São Luís (2012) – Estudo I

Muitas pessoas tem me perguntado sobre as possibilidades de vitória de seu candidato a vereador na próxima eleição em São Luís. Eu que até agora resistia em fazer o estudo que faço antes de cada eleição proporcional, já faz alguns anos, resolvi ceder e me debruçar sobre as listas de coligações e partidos para realizar um trabalho que alguns acham ser mera advinhação, outros puro palpite, porém nada mais é que uma simples análise política e eleitoral, baseada em informações confiáveis e dados estatísticos, como quantidade de eleitores, abstenção, votos brancos e nulos…

Abaixo, você verá o primeiro desses estudos, pois com o decorrer da campanha e com o aprofundamento da análise e o acesso a mais e melhores informações outros serão publicados, na tentativa de mostrar as possibilidades de cada coligação ou partido eleger um determinado número de vereadores.

Não é e nunca foi minha intenção, com esses estudos que faço, prever quem vai ganhar a eleição. Os nomes aqui relacionados estão citados de forma aleatória, de memória, ou por informações dos partidos, sem obedecer nenhuma ordem de precedência.

São 16 coligações ou partidos em disputa. Estes devem eleger de forma direta 26 dos 31 vereadores, ficando 5 vagas para serem preenchidas pelos cálculos das sobras. 2 dos 16 grupos na disputa não deverão atingir a quantidade de votos suficientes para eleger um vereador. Os 14 grupos restantes elegerão pelo menos um vereador e disputarão as 5 sobras, segundo o critério proporcional. A cor verde na coluna total indica maior probabilidade de sucesso na obtenção das sobras, seguida da cor amarela e posteriormente da cor vermelha.

A previsão de renovação dos membros da Câmara de Vereadores de São Luís é de algo em torno de 50%.

Pra não dizer que não falei de eleição

Há muito não comento sobre política. É que o fato de ter resolvido não mais me candidatar a deputado, função que exerci recorrentemente entre 1983 e 2011, me distanciou automaticamente da maioria das ações políticas que antes eram tão comuns em minha vida.

Espanto-me cada vez que enumero para alguém os motivos que me fizeram não disputar a reeleição em 2010. Sempre que faço isso aparecem mais um ou dois motivos novos, sinal de que havia mais deles que aqueles que relacionei inicialmente para me convencer que a atitude que tomava era a mais acertada.

Mas conversemos um pouco sobre o momento político. Agora não há nada mais importante que as eleições municipais.

Prefeitos e vereadores serão escolhidos para exercer os poderes Executivos e Legislativos na célula mater do estado. Gostaria de lembrar que o cidadão não vive no estado e muito menos no país, ele vive é no município e é lá onde ele em primeiro lugar deve exercer seus deveres e usufruir de seus direitos, portanto, essa deveria ser a eleição mais importante para o eleitor. Mas não é.

Tenho visto campanhas eleitorais em alguns municípios e constato mais uma vez que fiz a coisa certa em não mais disputar eleição. Que coisa mais chata é uma campanha eleitoral! Essa é a pior parte da política. É nela que pode vir a acontecer toda sorte de irregularidades. Ainda mais sob a ótica da lei eleitoral em vigor, que se por um lado é muito ruim, por outro seria muito pior sem ela.

Num domingo desses passei mais de vinte minutos em um dos retornos de nossa capital, esperando que passasse a carreata de certo candidato a vereador. Todos os carros que participavam estavam “envelopados”, termo usado para designar os imensos adesivos que envolvem as latarias dos automóveis. De tantos em tantos veículos apareciam os carros de som, cujo volume era enlouquecedor. Todos traziam bandeiras de tecido com nome e número do candidato.

Fico imaginando! Como é que se presta conta de um evento daqueles? Se colocar na prestação de contas todos os valores realizados para que acontecessem eventos como aquele, o candidato não teria como justificar tamanho investimento. Na mesma situação se encontrarão todos ou pelo menos aqueles que agirem de igual modo.

Deixando o lado mais prático, vejamos o lado mais filosófico.

Em São Luís, o PSTU apresenta mais uma vez o mesmo candidato que vem sendo apresentado em todas as eleições de prefeito e governador. Será que nesse partido não existe outro candidato, outro nome que possa igualmente representar a sigla, defender as ideias da agremiação? Depois eles reclamam de perpetuação no poder, de oligarquia. E o que é isso se não uma outra oligarquia, poder de poucos, dos pouquíssimos desse partido?

Por outro lado, mas nem por isso menos curioso, o PRTB apresenta um candidato que só soube estar na disputa ao ouvi-lo numa rádio local. Tanto o partido quanto o candidato são corajosos, pois dificilmente descolarão percentualmente da primeira unidade numérica. Mas você pode esperar, caro leitor eleitor, esse candidato voltará daqui a dois anos concorrendo a deputado.

Da mesma maneira muitos dos atuais candidatos, tanto a prefeito quanto a vereador, estão apenas mostrando a cara, esquentando os motores para as eleições de daqui a dois anos ou se candidatando a um cargo na futura administração municipal de quem sonham ser próximos.

Outro dia ouvi alguém dizer que a eleição em São Luís seria decidida no primeiro turno. Não creio nessa hipótese. São muitos candidatos com percentuais que indicam uma disputa acirrada pelo privilégio de enfrentar o prefeito João Castelo num eventual segundo turno.

Tadeu Palácio e Edivaldo Júnior lutam abertamente pelo segundo lugar, enquanto meu amigo Washington Luís espera o início da campanha no rádio e na TV para deslanchar. Acredito que os demais candidatos estão apenas cumprindo tabela.

No entanto, uma boa crônica política pede pelo menos uma pequena polêmica e aqui vai a dessa: se contra Castelo, no segundo turno, for Tadeu! Com quem irá Edivaldo Júnior, ou melhor, Flávio Dino? Se depender dos correligionários do candidato, eles devem ir com Castelo. Dino fará o mesmo?

E se acontecer de para o segundo turno contra Castelo ir Edivaldo, com quem irá Tadeu, Washington e principalmente o grupo ligado ao governo do estado?

Para o governo, estou certo, o melhor é fazer seu candidato passar para a próxima fase da disputa, senão a solução será sempre um remendo.

Caso seja Washington a disputar o segundo turno, Tadeu poderá acompanhá-lo, mas e Edivaldo? E Flávio? Farão isso?

Para mim o que fica claro é que ainda hoje se faz eleição, e aqui falo de todos os grupos, sem comando, apelando-se para a improvisação, aquela coisa antiga do “na hora se vê o que se faz”.

Talvez dessa vez isso acabe por nos apresentar uma realidade insólita, fazendo com que no segundo turno, adversários azedos tenham que mostrar ao eleitor e ao povo em geral que entre uns e outros há realmente muito pouca diferença.

Que vençam aqueles que melhor forem tratar a minha terra e a minha gente.

Três assuntos

O primeiro, rápido, a respeito do lançamento de meu livro “Contos, Crônicas, Poemas e Outras Palavras”, na última quinta-feira, dia 9, na Academia Maranhense de Letras, cuja solenidade foi bastante prestigiada por amigos de todas as áreas: Devo além de agradecer a presença, dizer que, não pela grande quantidade de exemplares autografados, 157, mas pela satisfação dos presentes, aquela noite foi um sucesso. Espero que todos tenham gostado tanto quanto eu.

O segundo, mais demorado, sobre literatura e outras artes: acredito que o frescor do trabalho de um escritor se deve ao fato dele saber manter, mesmo depois de muitos anos nessa lida, a capacidade de praticá-la com o mesmo prazer juvenil, com os mesmos ares do início, juntando a estes a maturidade do tempo, espelhando-se o mais possível no menino eterno que havia em Machado de Assis.

Para mim está claro, já faz algum tempo, que em termos de literatura, sou melhor contista do que cronista e melhor cronista do que poeta. Devo ressaltar que de tudo, o que mais gosto de fazer é cinema, pois nele junto em um único meio de expressão todas as artes que eu tanto aprecio, e onde posso exercitar mais livremente toda essa minha alma inquieta e multifacetada.

Se por um lado acredito que há uma porção considerável de autobiografia em quase tudo que produz um artista, principalmente um escritor, no que diz respeito a mim, esse fato também é marcado pela ocorrência de histórias curtas que, muitas vezes desenrolam-se na inquietante fronteira entre a crônica e o conto, frutos da simples observação dos acontecimentos, dos quais, mesmo que distante, sou personagem. Para mim e acredito que seria o mesmo para qualquer escritor, escrever desta maneira dá muita satisfação, o texto apropria-se de uma narrativa cinematográfica, tem um ritmo visual, híbrido de “causo” e reportagem.

Pensando bem, talvez eu me identifique realmente muito mais com o que há na fronteira entre a crônica e o conto. Lugar onde a crônica passa a ser uma história contada de forma resumida e o conto torne-se uma simples linha de tempo. A fusão da crônica e do conto é talvez o marco da minha literatura. A forma com que escrevo reduz o tamanho das histórias. Consigo concatenar uma ideia, uma narração de forma precisa. Se por um lado isso é bom, por outro nem tanto, pois tendo boas ideias para histórias, bons argumentos que poderiam virar novelas ou até mesmo romances, acabo transformo-os em simples contos.

Talvez minha paixão pelas histórias curtas e pelo cinema seja consequência de minha dislexia, dificuldade de leitura e aprendizado da qual sou vítima e que uso de forma a aprimorar minha maneira de escrever e produzir filmes. Convivo com esta característica peculiar há algum tempo, o que não me impediu de produzir minhas obras literárias e cinematográficas, graças à forma com que transformo a deficiência dessa disfunção em arma contra seus efeitos.

É que para escrever mais e melhor, desenvolvi uma “literatura auditiva” que vai além das palavras escritas. Para que consiga o resultado esperado, uso minha mulher como voz, como eco do que escrevo.

Tenho extrema dificuldade de leitura, o que com o tempo foi acarretando muitos aborrecimentos e preguiça. Então desenvolvi um método que me ajuda bastante. Sempre escrevia e lia em voz alta. O som do que escuto é que estabelece o conteúdo do que venho a escrever. Tenho feito isso desde sempre, mas de uns quatro anos para cá, escrevo e peço para Jacira ler pra mim. É a leitura dela que faz com que eu mude preposições, artigos, vírgulas, ou mesmo expressões inteiras. A minha literatura é muito audível, afinal o mundo nos vem em primeiro lugar pelo ouvido.

Recentemente tornei-me um usuário compulsivo de um tipo diferente de literatura, a auditiva: ouvir em áudio livros obras como “O Príncipe” de Maquiavel, “Utopia” de Thomas More, “Dom Casmurro” de Machado de Assis, “Contos Escolhidos” de Artur Azevedo, e “A Vida Como Ela É” de Nelson Rodrigues, entre outros, me traz uma dimensão que não consigo alcançar quando simplesmente leio esses mesmos livros.

O terceiro, curto, mas tão ou mais relevante: Apesar de hoje ser Dia dos Pais tenho que falar de um assunto delicado. Estive presente em algumas das partidas finais dos Jogos Escolares Maranhenses, categoria infantil, e pude, para minha tristeza, observar que alguns pais não estão preparados ou para serem pais ou pelo menos para torcerem por seus filhos.

Em mais de uma oportunidade vi homens e até mesmo mulheres perdendo a compostura e insultando os atletas e as equipes adversárias de seus rebentos, todos imensos, apesar da ainda pouca idade.

Na hora fiquei horrorizado, mas dei um desconto, pelo fato de estarem no calor da disputa. Depois, pensando melhor, cheguei à conclusão de que é exatamente por causa desse calor, que o exemplo que os pais devem dar aos filhos tem muito mais importância. Deveriam se comportar de maneira completamente diversa daquela. Mostrarem o “fair play” necessário para todo atleta e para todo ser humano, pressuposto básico para se encarar tanto o jogo quanto a vida.

O esporte deve, antes de qualquer coisa, ensinar os jovens que a competição traz em si, antes e de forma mais importante, o espírito nobre, a elegância e a honra. Depois é que vêm as qualidades atléticas, técnicas e táticas inerentes a cada modalidade.

 

Contos, Crônicas, Poemas & Outras Palavras

Na próxima quinta-feira, dia 9 de agosto, às 19 horas, na sede da Academia Maranhense de Letras, localizada à Rua da Paz, 84, lançarei o livro intitulado “Contos, Crônicas, Poemas & Outras Palavras”, evento para o qual você que me lê agora está desde já convidado.

Trata-se de uma obra que deveria ter sido lançada em 2010, quando comemoraria 30 anos do lançamento de meu primeiro livro. Naquela ocasião não comemorei com um lançamento de livro, preferi comemorar a data aprovando na Assembléia Legislativa, em meus últimos meses como deputado estadual, as leis de incentivo à cultura e ao esporte, encerrando assim minha carreira política eleitoral. Fiz isso como preconizava meu pai que se mirava em Pelé, que segundo ele soube a hora de parar de jogar futebol. Parou no apogeu, quando ainda fazia uns golzinhos. Eu acredito que fui mais além. Parei quando fiz o único gol de placa em toda minha carreira política, que não foi curta, começou em 1983 e acabou em 2011.

Pensei que pararia definitivamente com a política e me dedicaria apenas a minha família, aos negócios, à literatura, ao cinema, às viagens. Pensei que poderia então me dedicar a finalmente dirigir a Fundação Nagib Haickel, entidade que idealizei em meados dos anos 90 e a qual jamais pude dar a devida atenção. Não consegui. Tentei ficar totalmente fora da política, mas não resisti às pressões e acabei aceitando o cargo de secretário de Esporte e Lazer do estado.

Como em tudo que faço, faço de forma total e completa, os projetos que tinha para essa fase de minha vida foram adiados temporariamente. Alguns, inadiáveis, vêm sendo desenvolvidos de forma mais lenta. Mas o lançamento de meu livro não. Só faltava achar uma boa oportunidade para fazê-lo. Essa ocasião é agora.

Trabalhei recolhendo alguns de meus textos inéditos, contos e poemas, pois as crônicas que constam desse livro já foram publicadas no jornal O Estado do Maranhão.

O restante do título do livro, “& Outras Palavras”, bem que poderia ser o título todo, mas poderia parecer para alguns que plagiasse Caetano… Preferi dar precedência, hierarquia, no que acredito ser a sequência decrescente de minha competência literária.

Acredito ser melhor contista que cronista, e melhor cronista que poeta, então coloquei essa ordem no frontispício do livro.

O “&” (e comercial) representa e significa a importância que dou aos coadjuvantes, personagens sem os quais, não podem existir, em toda a sua plenitude e grandeza, os atores principais.

Vejo-me muitas vezes como coadjuvante, mesmo quando desempenho o papel principal. Esse exercício me coloca em uma situação bem mais confortável e privilegiada para analisar tudo que ocorre na cena, como está disposto o cenário, como os personagens se apresentam.

No capítulo “Outras Palavras” reúno tudo o que não sejam contos, crônicas ou poemas. Lá estão alguns discursos políticos além de meus discursos de posse na AIL, na AML e no IHGM. Estão algumas frases, que ultimamente perdi a vergonha de colocar no papel. Elas foram a minha primeira forma de manifestação literária. Ainda garoto tinha cadernos cheios delas. Graças a Deus estas não são aquelas.

Coloquei neste livro alguns de meus roteiros cinematográficos e também estão nele alguns de meus contos antigos transformados em histórias em quadrinhos, verdadeiros storyboards para futuros filmes. As HQs foram desenhadas por Beto Nicácio e Iramir Araújo, companheiros da Dupla Criação. Senti-me o próprio Stan Lee.

A capa nasceu de uma ideia minha e foi realizada por Edgar Rocha e Nazareno Almeida. São fotografias de três janelas e uma porta de casarões antigos. Uma alegoria que acredito ser perfeita para o título: os contos, as crônicas e os poemas estão debruçados nas janelas, à mostra, acessíveis, enquanto para alcançar as outras palavras o leitor deve ir porta adentro.

A seleção do material publicado, o editor responsável pelo livro, é meu amigo e mestre Sebastião Moreira Duarte, que apresenta a obra e dirá algumas poucas palavras antes do lançamento. Também avalizam a publicação os escritores Jomar Moraes e Américo Azevedo Neto.

A revisão ficou ao cargo de Reydner de Carvalho, o projeto gráfico é do velho parceiro Paulinho Coelho e a impressão foi feita na Gráfica Minerva de meu amigo e irmão de alma Antonio Carlos Barbosa.

Dito isso, só espero que depois de 32 anos tentando ser um escritor razoável, os meus críticos mais cruéis concordem que pelo menos estou no caminho.

Petromax

Dentre todas as histórias bíblicas, as que eu mais gostava de ouvir, daquelas contadas por minha avó Maria Haickel, que em português era quase analfabeta, eram as que retratavam o rei Salomão.

Ela me punha sentado ao seu lado e lia a bíblia soletrando. Nos intervalos comentava algumas passagens. Quando ela me contou a história do filho cortado ao meio, resolvi que seria aquele o poder que eu queria para brincar. O super homem, meu super-herói favorito, havia sido definitivamente superado.

Deus teria perguntado a Salomão, o que ele preferia, riquezas infindáveis ou sabedoria. Ele então preferiu a segunda, pois com sabedoria conseguiria não só grande quantidade de riqueza, mas também todas as outras coisas que a riqueza seria incapaz de comprar. Só soube bem mais tarde, que Salomão teve seiscentas esposas e oitocentas concubinas. Era também um homem muito corajoso!

Quem me conhece sabe de minha fome de saber, de minha vontade por conhecer. Aliada a isso tenho uma incondicional admiração por figuras históricas. Esses fatos acabaram por levar minha busca pela sabedoria através do conhecimento da história dessas pessoas, fato que contribuiu muito para a minha formação, em todas as áreas da vida.

Os ídolos formadores de meu caráter vão de pessoas bem próximas, como minha mãe e meu pai até aquele herói quase anônimo que sacrificou sua vida para salvar um garoto que caiu no fosso das ariranhas no zoológico de Brasília. Seu nome: Sílvio Delmar Hollenbach.

Vai desde Buda, passando por Confúcio, Jesus, Maomé, até chegar à Madre Teresa de Calcutá. Admiro T. E. Lawrence, Gandhi e Mandela. Sun Tzu, Sócrates, Platão, Aristóteles, Hipácia de Alexandria, Maquiavel e Thomas More. Elisabeth I, Churchill, Da Vinci, Shakespeare, Cervantes, Vieira, Moliere, D. W. Griffith, Darwin, Einstein, Freud, Machado, Nelson Rodrigues e Stanley Kubrick dentre muitos outros.

Conhecendo a vida e a obra dessas pessoas, aprendi coisas que parecem ser pouco importante se analisadas separadamente, mas quando reunidas, a serviço de uma vivência, o que parece pouco se avoluma e consubstancia.

Algumas coisas parecem irrelevantes. Veja por exemplo o que diz Maquiavel quando qualifica as três espécies de inteligências que os príncipes possuem. Diz ele que há uma, excelente, que entende as coisas por si. A inteligência nata, pessoal, orgânica; outra, muito boa, que discerne as coisas através do que os outros entendem. Através de seus próximos, seus ministros. Adquirida pelo do aprendizado, a cultural ou social; e uma terceira, inútil, que não entende nem por si nem por intermédio dos outros. Uma inteligência arrogante, que pensa que tudo sabe ou aquela que é simplesmente incapaz de compreender as coisas mais simples.

Exclua o príncipe a quem Nicolau se refere e coloque em seu lugar uma pessoa qualquer, um de nós. Alguém que seja príncipe apenas de sua própria vida e comprovaremos que precisamos muito saber desse ensinamento, aparentemente tolo, mas indispensável para que tenhamos consciência de como podemos ser inteligentes ou não sê-lo. Ensinamento que se complementa ao que pregava um outro gênio, Sócrates, que dizia que devemos antes de tudo conhecer a nós mesmos.

Tenho um grande e bom amigo, ex-padre e professor de filosofia, que nas horas vagas, coisa que ele pouco tem, é também teólogo e cientista político amador. Certa vez ele me disse uma frase que jamais esqueci: “Existem algumas batalhas “religiosas”, que se as ganharmos, na melhor das hipóteses, ganhamos apenas o dízimo. Se as perdermos, é possível que se perca o próprio Deus”. 

A propósito de lutas, de pelejas, sempre me lembro do que disse meu pai uma vez quando conversávamos sobre a semelhança que há entre a política e a guerra. Ele me fez entender que o bom general escolhe as batalhas que deve lutar, o campo onde dispor suas tropas, a ocasião em que atacar ou defender, quando deve avançar ou recuar. O bom general sabe quando deve ser duro e quando deve ser suave.

A esse ensinamento incorporei uma observação minha: o manejo da espada, arte que Salomão pouco dominava, pode ser comparado ao exercício da vida ou mesmo da convivência com uma mulher, áreas em que o sábio rei se sobressaía. Com ambas precisamos ser fortes, mas também suaves, pois desse equilíbrio resulta o sucesso da luta com uma e a felicidade com a outra.

Para consubstanciar efetivamente a sabedoria que ganho conhecendo a vida daqueles que uso como régua e compasso, recorro sempre a um artifício importante, pergunto: O que faria fulano nessa situação? O que cicrano faria se isso acontecesse com ele? Como resolveria Beltrano esse dilema?

Acredito que a simples conjectura dessas questões nos levará certamente a encontrarmos as respostas para as perguntas que nelas residem, pontos de luz em nossa jornada.

O professor, um argumento

Resolvi publicar aqui o rascunho inicial do roteiro original de um longa-metragem que pretendo realizar nos próximos anos.

Faço isso para praticar um pouco de ficção, para deixar um pouco de lado a crônica, a conversa filosófica, política, cultural e temporal, além de estabelecer publicamente a autoria da ideia e a propriedade da obra, já que ainda está tramitando seu registro da Biblioteca Nacional, o que ira resguardar meus direitos autorais.

“O professor” – em momento algum seu nome é citado – é um homem maduro, por volta dos 50 anos, bem apessoado e simpático. (Alexandre Borges)

Elegante e educado. Veste-se bem e porta-se de maneira correta. Sua situação econômica e financeira é tranqüila e estável. É separado e pai de uma filha. Mantém um relacionamento cordial com a ex-mulher. Filha e mãe não aparecem em cena, apenas ao telefone. (Luiza e Julia Lemmertz)

Ele não tem mais pai e sua mãe mora em um apartamento próximo ao dele. Ele a visita diariamente. Conversam sobre vários assuntos, de futebol a política, de sexo a religião. Há uma certa tensão entre eles. No decorrer do filme sua mãe irá morrer devido a problemas cardíacos, oportunidade para tratar a questão da morte. (Fernanda Montenegro)

Ele tem uma empregada que o acompanha há muitos anos. Ela também cuida do apartamento de sua mãe. Trabalhava anteriormente com sua ex-mulher e quando da separação, ela optou por acompanhá-lo. Serve de contraponto. Pouco fala, mas tudo vê, e o que ela vê o espectador percebe. (Zezé Mota)

A cidade onde ele mora não aparece. Pode ser em qualquer lugar, de médio pra grande. Só há cenas internas.

Ele vive em um apartamento espaçoso, com uma sala ampla, uma boa cozinha e um escritório-biblioteca.

Suas ocupações são na área de humanidades. É filósofo, professor, escritor e jornalista. Toca um instrumento musical e adora cinema. Tem algo de freudiano, um que nietzschiano… Meio filosófico, meio cru; Meio poético, meio tarado; Meio alegre, meio suicida…

Não consegue desacreditar de Deus, mas luta para conseguir. Abomina as religiões.

Politicamente moderado, é tolerante e diplomático. É contra qualquer forma de autoritarismo, mas defende a autoridade legítima.

A forma de narração do nosso filme é semelhante a de Tropa de Elite 2, alternando um off muito presente com diálogos indispensáveis e pontuais.

“O professor” escreveu alguns livros e obteve com eles prestígio e sucesso de crítica, além de algum dinheiro. Escreve para um importante jornal onde aborda temas culturais, filosóficos, sociológicos, econômicos e políticos. Uma de suas maiores fontes de renda são as palestras que dá sobre os temas que domina. É professor de filosofia e história da arte em uma universidade importante. Adora dar aulas para jovens, mas tem turmas de mestrado e doutorado.

Envolve-se com três mulheres. Uma bem jovem que conheceu na saída de um cinema. Ela tem idade pra ser sua filha. Com ela tem apenas um relacionamento platônico (Cléo Pires); A segunda, não tão jovem… Uma dessas garotas de programa de luxo. Ele a conheceu em um bar. Formada em pedagogia, é inteligente e sagaz. Entre os dois há uma forte atração carnal (Camila Pitanga); A terceira é um pouco mais velha. Aluna de doutoramento com quem mantém um romance sexo-filo-psico-cultural maduro (Maria Fernanda Cândido).

Nosso homem tem uma vontade antiga: escrever um livro onde ensine um jovem o que e como fazer para se tornar um homem quase perfeito, no que concerne ao trato com as mulheres. Mas tem medo do que possam pensar as pessoas, de como possa ele ser visto pela crítica. “Logo ele que sempre foi um homem equilibrado, moderado, politicamente correto, escrevendo um livro como esse!”

Ele quer escrever um verdadeiro código de postura, um tratado de como ser uma pessoa, um homem e um macho. Orientações sobre o que deve e o que não deve fazer aquele que deseja dominar a arte de agradar as mulheres nas diversas formas e nas várias situações que se apresentem, ou pelo menos em algumas delas.

Ele frequenta bares, restaurantes, boates, cenários onde observa os personagens que compõem seu livro.

No entanto nosso filme se passa efetivamente em duas locações. No escritório-biblioteca do “professor” onde ele devaneia escrevendo seu livro e em um quarto imaginário em sua mente onde as narrativas de como proceder sexualmente com uma mulher se consubstanciam. Tais narrações serão encenadas por um casal de atores (??).

As cenas de sexos devem ser realistas, mas não pornográficas. Os personagens estão envolvidos sentimental e amorosamente, mas o sexo domina a cena. A iluminação deve ser onírica, acompanhando o clima da narração.

O desfecho é poético, inconcluso, em aberto: pode ser que “O professor” acorde de madrugada para escrever. Escreva por algum tempo, mas de repente empaque e fique imóvel, pensativo, fitando a tela do computador onde o cursor pisca em uma frase inconclusa. Ele se levanta, vai à cozinha, toma água, e volta para o quarto. Ele vê o sol raiando pela fresta da cortina. Fecha a cortina, se deita, começa a pensar na história e adormece. Os créditos finais sobem.

O filme deverá ter 90 minutos de duração total e não terá nenhuma marca que o vincule a um tempo ou a um espaço.

O formato poderia ser também o de uma minissérie em 13 capítulos onde poderiam ser aprofundadas um pouco mais algumas características e os dilemas dos personagens.

 

P.S. Sugestões e comentários a respeito desse texto devem ser enviados para o e-mail: [email protected]

Candeeiro

Há muito tempo coloquei em cima da mesa de meu escritório, em minha casa, três livros que pensava, e ainda penso, me serviriam de apoio em tudo o que eu fosse fazer na vida.

O primeiro deles foi A Bíblia Sagrada. O segundo, O Príncipe de Maquiavel, sendo o terceiro A Arte da Guerra, de Sun Tzu. Por fim, coloquei junto com estes um livro que ganhei de um amigo. Trata-se do Alcorão, livro que Deus teria ditado ao profeta Maomé, texto sagrado para os islamitas. Poderia ainda ter sobre minha mesa um exemplar do Torá, o livro santo dos judeus, mas ele de certa forma já está lá, inserido na Bíblia. É o que chamamos de Velho Testamento.

Imagino que em cima de minha mesa tenha conhecimento, sabedoria e história suficiente para dirimir qualquer dúvida que se me apresente. Acredito que precisamos ter todas essas coisas o mais próximo de nós que for possível.

Outro dia comentei com um amigo que usava os livros sagrados das três grandes religiões como oráculo, abrindo-os aleatoriamente e buscando neles respostas ou caminhos. Disse a ele que fazia isso também com as obras de Maquiavel e de Sun Tzu.

Esse amigo riu e desdenhou de mim dizendo que em nada aqueles livros combinavam ou tinham em comum e eu fiquei de provar-lhe que tem. Comprometi-me em escrever um texto onde provasse que há alguma relação, mesmo tênue, entre os dois livros, segundo ele profanos, que falam de poder, corrupção, usurpação e guerra, com os livros sagrados, que falam de fé e de Deus.

Meu amigo foi mais além, deu um tema para que eu tentasse alinhavar passagens semelhantes entre as obras, mesmo que distantes. Pediu-me para falar sobre os discípulos, os seguidores, os ajudantes, aqueles que servem como representantes.

Fui pesquisar e organizei o texto que se segue. Espero ter conseguido provar alguma semelhança entre esses livros, entre suas histórias.

1) Sun Tzu diz: “Lembre-se dos nomes de todos os oficiais e subalternos. Inscreva-os num catálogo, anotando-lhes o talento e suas capacidades individuais, a fim de aproveitar o potencial de cada um. Quando surgir oportunidade aja de tal forma que todos os que deves comandar estejam persuadidos que seu principal cuidado é preservá-los de toda desgraça”.

2) No capitulo XXII de O Príncipe, Maquiavel fala da importância da escolha dos ministros de um mandatário e responsabiliza diretamente a este pelo sucesso dessa escolha. Ele diz que é usando de sabedoria e prudência que o príncipe deve escolher aqueles que o ajudam na administração dos negócios de seu ducado e será principalmente pela boa ou pela má fama de seus ministros e conselheiros que o duque será conhecido. Caso escolha bons ministros e conselheiros tidos em alta conta, este será lembrado como grande, se aqueles que o cercam e ajudam tem má fama, são cruéis e corruptos, o duque assim parecerá a todos. “… A primeira conjectura que se faz da inteligência de um senhor, resulta da observação dos homens que o cercam”, diz ele literalmente.

3) Tenho conhecimento de alguns poucos seguidores graduados de Moisés. Sei de seu irmão Aarão e seu general Josué. Aarão era uma espécie de sacerdote e foi um dos de pouca fé que construíram um bezerro de ouro para idolatria, pecado grave. Josué foi a espada de Deus na terra. Depois da morte de Moisés tornou-se líder de seu povo e destruiu quase todos os seus inimigos. Deve ter aprendido muito do que sabia com seu príncipe.

4) Conhecemos 12 dos ministros de Jesus. Nós os chamamos de discípulos. Destes Pedro se sobressaía. Apesar de ter negado seu mestre três vezes, tornou-se o primeiro chefe da nova igreja.

Já Judas é vítima de cruel preconceito. Tinha ele importantes ligações políticas, pois era do partido dos Zelotes, fervorosos e zelosos defensores da fé e dos costumes judaicos. Ele foi orientado pelo próprio Jesus para fazer o que precisava ser feito… Bem mandado, o ministro fez o que seu mestre mandou e aconteceu o que todos nós sabemos, ou melhor, o que nos foi contado e que muitos de nós acreditamos realmente aconteceu.

O maior de todos os ministros de Jesus, no entanto, nunca esteve pessoalmente com ele. Saulo ouviu apenas o que seria a sua voz, no caminho para Damasco. Mesmo tendo perseguido e matado muitos seguidores do Cristo, aquele que viria a se chamar Paulo, tornou-se a ferramenta, a cunha indispensável para colocar a pedra angular da nova religião no seu devido lugar.

5) De Maomé conheço pouco. Conhecemos pouquíssimo. E alguns de nós o vê de maneira preconceituosa e equivocada. O que dele sei é que é o profeta de uma religião que se baseia nas mesmas histórias e tradições comuns aos profetas do judaísmo e do cristianismo.

Não consigo identificar na história de Maomé a figura de algum tipo de ministro.

Sua morte acaba por criar o esfacelamento do islamismo nas facções que existem até hoje. A minoria xiita acreditava no direito de Ali Abu Talib a suceder o Profeta, por entenderem que ele teria sido publicamente nomeado por Maomé como seu sucessor, enquanto a maioria sunita da população preferiu escolher Abu Bakr como sucessor de Maómé.

Dito isso, acredito que tenha provado para aquele amigo, e a quem mais interessar possa, não só que os livros sagrados e suas histórias combinam inteiramente com os livros profanos que lhes fazem companhia sobre minha mesa, como as histórias que eles contam, guardam grande semelhança e profundo nexo.

Perfil

“Poeta, contista e cronista, que, quando sobra tempo, também é deputado”. Era essa a maneira como Joaquim Elias Nagib Pinto Haickel aparecia no expediente da revista cultural Guarnicê, da qual foi o principal artífice. Mais de três décadas depois disso, o não mais, porem eterno parlamentar, ainda sem as sobras do tempo, permanece cronista, contista e poeta, além de cineasta.

Advogado, Joaquim Haickel foi eleito para o parlamento estadual pela primeira vez de 1982, quando foi o mais jovem parlamentar do Brasil. Em seguida, foi eleito deputado federal constituinte e depois voltou a ser deputado estadual até 2011. Entre 2011 e 2014 exerceu o cargo de secretario de esportes do Estado do Maranhão.

Cinema, esportes, culinária, literatura e artes de um modo geral estão entre as predileções de Joaquim Haickel, quando não está na arena política, de onde não se afasta, mesmo que tenha optado por não mais disputar mandato eletivo.

Cinéfilo inveterado, é autor do filme “Pelo Ouvido”, grande sucesso de 2008. Sua paixão pelo cinema fez com desenvolvesse juntamente com um grupo de colaboradores um projeto que visa resgatar e preservar a memória maranhense através do audiovisual.

Enquanto produz e dirigi filmes, Joaquim continua a escrever um livro sobre cinema e psicanálise, que, segundo ele, “se conseguir concluí-lo”, será sua obra definitiva.

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